A menina de Alnmouth - Onde O Mar Encontra A Magia
A menina de Alnmouth - Onde O Mar Encontra A Magia
Capítulo 14 min de leitura

Longe da rua dos alfeneiros

Cerca de 500kms ao norte da estação de King's Cross, em um pequeno vilarejo costeiro no condado de Northumberland, fica Alnmouth.

O ar da costa não é apenas frio; ele tem densidade, sal e história. Ali, onde o rio Aln se entrega calmamente ao Mar do Norte, a paisagem parece suspensa em um tempo próprio, muito distante do barulho do mundo.

Ao amanhecer, uma névoa espessa e prateada se espalha sobre o oceano e envolve as antigas casas de pedra cinzenta, escondendo os telhados de ardósia e cobrindo os campos ao redor. O silêncio é interrompido apenas pelo grasnar das gaivotas e pelo estalo ritmado das ondas contra as dunas.

Quando a maré baixa, a praia revela uma vasta extensão de areia clara, coberta por conchas partidas, algas escuras e pequenas poças que refletem o céu acinzentado como espelhos quebrados. Mais adiante, no pequeno ancoradouro, barcos de madeira balançam lentamente sobre a água escura enquanto redes secam ao vento e armadilhas de lagosta, cobertas de salitre, aguardam a próxima pescaria.

Ao fim da tarde, quando o sol finalmente rompe a névoa, sua luz não aquece como no sul da Inglaterra. Ela apenas colore o mar com tons profundos de verde e azul, enquanto a fumaça que sobe das chaminés se mistura ao vento carregado de maresia.

É um lugar incrivelmente belo, mas de uma beleza selvagem e solitária o refúgio perfeito para quem precisa desaparecer do mapa.


Na Alameda das Dunas, número doze, uma ruazinha tranquila próxima ao encontro do rio Aln com o mar, que mora a família Meadowes.


A casa era simples, mas sempre parecia aquecida, mesmo durante os invernos mais rigorosos. Quase todas as manhãs, as vezes antes mesmo de o restante da vila despertar, o cheiro de café fresco, ovos e bacon escapava pela cozinha e invadia os cômodos.


A Sra Meadowes era pequena e esguia, tinha os cabelos negros e encaracolados, um sorriso que parecia nunca desaparecer e olhos cor de mel que brilhavam mesmo nos dias mais nublados. Enquanto preparava o café da manhã, cantarolava baixinho alguma melodia qualquer, quebrando o silêncio da casa.

O Sr Meadowes, por outro lado, era bem mais reservado porém igualmente gentil. Alto, corpulento, de barba sempre impecavelmente aparada, costumava acordar apenas quando o aroma do café chegava ao quarto. Nunca reclamava. Na verdade, dizia que aquele cheiro era melhor do que qualquer despertador.


Como fazia todas as manhãs, aproximou-se da esposa e depositou um beijo delicado em sua bochecha.


- Bom dia, Catherine — murmurou, envolvendo sua cintura. — Dormiu bem?

Ela sorriu sem interromper o movimento da frigideira.

- Bom dia, Xavier. Dormi muito bem... e suponho que você também, considerando o horário em que resolveu acordar.

Ele fingiu indignação.

- Cath... hoje é domingo.

Ela riu.

- Está desculpado. Mas acho melhor ir acordar a Alice. Já são quase nove horas.

Xavier nem chegou a alcançar a escada.

Uma pequena figura de cabelos encaracolados surgiu correndo pelo corredor e praticamente se jogou em suas pernas.

- Bom dia, paizinho do meu coração! Bom dia, mamãezinha linda que vai fazer bolo com muito chocolate hoje!

Catherine ergueu uma sobrancelha, divertindo-se.

- Você contou para ela, Xavier?

- Eu? Não.

Mas, pela expressão dele, era evidente que estava intrigado.

Alice abriu um enorme sorriso.

- Eu sonhei.

A mãe soltou uma risada.

- Ah... então você está blefando.

A menina inclinou a cabeça.

- Mamãe... o que é blefar?

Xavier riu antes mesmo que Catherine pudesse responder.

Poucos minutos depois, os três já estavam sentados à mesa. Entre risadas, café quente e fatias de pão amanteigado, Alice descobria o significado da palavra "blefar", enquanto os pais trocavam olhares discretos e carinhosos, felizes por mais uma manhã comum.

E talvez fosse justamente isso que tornasse aquela casa tão especial.

Porque, às vezes, são as manhãs mais comuns que antecedem as maiores mudanças.