A Tempestade
A Tempestade
Capítulo 14 min de leitura

Capítulo 1

Era algo lindo de se ver. A tempestade lá fora. Os que precisaram sair naquele dia ou as pessoas que idolatravam o sol amaldiçoariam tais magnificas gotas de água. Eu? Permaneceria na cama, admirando, o tempo que minha melancolia perdurasse. Acordar com o som e o cheiro da chuva era algo inenarrável, ao meu ver.

As janelas do quarto estavam fechadas, impedindo a água de entrar e eu estava lá, olhando pela janela, a água abrindo caminho na grama do quintal. Ao tocar a janela, meus dedos estranharam a superficie fria, me causando um leve arrepio nos braços desnudos. Qualquer um que me visse naquele momento me acharia doida, ao mínimo boba, por está olhando o nada. Bem, nada é muito relativo, se encaixando naquela situação apenas para a pessoa alheia ao sentimento. Mas nada disso importava naquele momento, só o que importava eram os devaneios que eram banhados por aquelas particulas de água. Raios e relâmpagos iluminavam um pouco mais o céu da manhã, o que me fez imaginar como seria perfeito e intimidador se fosse a noite.

Tantas pessoas dizem adorar a chuva, mas poucas adoram a sensação da água trilhando um caminho sobre sua pele e devo admitir que sou um desses poucos seres. Apatheia* é o nome da minha relação com a chuva. É deveras inusitado o uso do grego clássico em qualquer coisa hoje em dia, todavia encontro nessa palavra tão antiga o significado mais puro para meu sentimento.

Parei para pensar quanto tempo duraria aquele espetáculo da natureza e meu pensamento foi levado, por um segundo, a minha tempestade interior que estava longe de terminar. Esse segundo mudou minha linha de pensamento. Em minha mente conturbada, me encontro em um barco a deriva que está prestes a afundar devido a violência da tempestade e se o mesmo não resistir, sei que serei esmagada ao poucos pela pressão da água. Sim, tanta água criou um mar — arrisco dizer um oceano — de pensamentos vãos, possibilidades que se tornaram impossiveis, sonhos e esperanças destrídos pelos raios emocionais e físicos. Ah, como anseio a tempestade que se fez vista e ouvida do lado de fora. Uma mera chuva constante e previsível que segue seu curso como a natureza ordena de forma esplendorosa. Tão simples e revigorante. Tão sincero. De fato essa é a palavra, sincero.

A tempestade do outro lado de minha janela diminuí significativamente e não contive o impeto de me levantar e abrir a outra janela do quarto. Goticulas que estavam destinadas a ir de encontro com o vidro da janela, agora acertavam meu rosto. A sinceridade do toque era uma dadiva. Ela não esperava nada de mim, ela não precisava de um motivo. Era o que era. Deus, eu poderia desejar que chovesse por éons, se não tivesse a conciência na nescessidade dos ciclos para que aquilo acontecesse. Ciclos. Estou farta deles me impedindo de prolongar uma sensação específica.

O que me faz tomar nota das sensações ruins. Apesar da tempestade ser magnífica, tende a ser maldosa e cruel, sendo quase sempre usada como conotação negativa. Em demasia é capaz de tirar vidas, seja a tempestade real ou a mental. Talvez eu seja uma pessoa ruim por ter conhecimento desse fato e gostar da tempestade mesmo assim. Me acostumei com um tipo muito específico de tempestade interior e agora almejo a exterior .quiçá seja a minha ignorância, me atormentando outra vez — poderia lotar uma folha de xingamentos a mesma.

Deve ser algo único conseguir ser alheia aos outros como a tempestade. A tempestade não passa desapercebida e tão pouco se importa ao que acontence as coisas em seu caminho. Ela se faz presente, as vezes deixa marcas mais que profundas, mas são esquecidas, em sua maioria, quando o sol aparece. O sol. Era algo estapafúrdio não gostar tanto dessa estrela em particular como gostava das outras. Esse, ao meu ver, era o único erro das tempestades noturnas: cobriam corpos celestes dignos de serem admirados e idolatrados.

O sol começava a parecer naquele momento, me irritando, pois o chuvisco não era mais o suficiente para mim. Suaves cores estavam no céu. Uma obra divina sem dúvida, mas era tudo o que eu não precisava: um lembrete do mundo lá fora. Enquanto a natureza se prepara para um novo ciclo e o mundo brilhava além de minha janela, eu permaneço aqui, esperando outra tempestade e desejando que algo de bom golpeie meu barco e me deixe com alegria plena.

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