
Muito antes que houvesse trilhas de pedra, castelos dourados, ou escolas nas copas das ĂĄrvores, havia apenas o SilĂȘncio Verde.
Uma vastidĂŁo viva e sem nome, onde o tempo rastejava lento sob folhas eternas, e o vento sussurrava em lĂnguas esquecidas.
Foi nesse silĂȘncio que Neredithia despertou.
NinguĂ©m sabe se nasceu de uma estrela caĂda ou de um tronco ancestral que pensou demais. Mas ali estava ela â
uma figura alta, envolta em véus de musgo, com olhos como poços de jade profundo e cabelos feitos de ramos e relva.
Ela nĂŁo era deusa, nem rainha. Era guardiĂŁ.
A primeira.
đż O Coração Verde do Mundo
Neredithia caminhava sozinha pelos Bosques Verdejantes, ainda sem nome. Por onde passava, brotavam flores de névoa,
ervas que cantavam e ĂĄrvores que abriam os olhos.
Ela nĂŁo falava, mas o mundo escutava.
Na escuridão das noites primeiras, enquanto o céu ainda aprendia a brilhar, ela começou a sonhar.
E foi nesses sonhos que viu a Semente.
Não era apenas uma planta. Era uma forma envolta em luz verde, pulsando como um coração.
Uma vida que viria dela â mas que nĂŁo lhe pertenceria.
đź Os Sinais
Logo os sinais começaram.
â Um unicĂłrnio prateado apareceu na beira do Vale, e diante dela, curvou-se.
â O Vento do Leste, sempre calado, passou a murmurar cançÔes em uma lĂngua que sĂł os entes entenderiam.
â Nos campos antigos, troncos partidos se refaziam por vontade prĂłpria.
â E no cĂ©u, durante uma noite sem luar, brilhou uma estrela verde.
Era o anĂșncio.
Ela viria.
A Princesa Verde.
Mas antes de nascer, sua presença reverberava como um eco adiantado, despertando outras forças.
Algumas curiosas.
Outras... inquietas.
đïž Sussurros nas RaĂzes
Neredithia começou a escutar sussurros nas raĂzes.
O mundo subterrĂąneo se agitava.
As antigas fadas, ocultas nas Terras Ancestrais, enviaram uma embaixadora coberta de lĂquen para visitĂĄ-la.
Os ogros esculpidos em pedra abriram os olhos no leste.
E os dragÔes das nuvens, dormindo hå eras nos ventos da Torre do Trovão, giraram nos céus como se tivessem sentido um cheiro antigo.
A Terra, antes equilibrada, começava a acordar.
E nĂŁo havia retorno.
đ§Ź O Juramento Silencioso
Sem dizer palavra, Neredithia desceu Ă Caverna Verde, um templo vivo encravado nas profundezas.
Ali, junto Ă raiz da Ărvore Primeira â que era mais velha que o mundo â ela plantou a semente.
Com seu prĂłprio sangue, regou o solo.
Com sua magia, moldou uma promessa.
âQue nasça livre.
Que floresça por vontade própria.
Que cresça sob o sol e a sombra.
E que nunca pertença a ninguĂ©m â nem mesmo a mim.â
EntĂŁo voltou Ă superfĂcie.
E esperou.
