02 Onde a Imaginação Ganha Vida
02 Onde a Imaginação Ganha Vida
Capítulo 117 min de leitura

O Peso de Uma Decisão Brilhantástica

Eu fugi.

Não há muito brilho nessa palavra, né? Fugi. Curta demais. Feia demais. Sem música. Sem cortina vermelha se abrindo, sem nota aguda no fim, sem estrela dourada despencando do teto no momento certo.

Só eu.

A Aria.

E Gallifrey-Σ ficando para trás como um palco que pegou fogo enquanto a plateia ainda aplaudia.

Fiquei parada no centro da sala principal, dedos apoiados no console de ouro rosé.

O cilindro central subia e descia, líquido luminoso respirando junto comigo.

Acima, o teto estrelado brilhava como uma promessa malformada.

As fitas cor de vinho balançavam sob luzes suaves. Os neons das paredes pulsavam em padrões geométricos, escolha da Aria depois da minha última reforma.

Uma tenda de circo.

Minha tenda.

Nosso lar.

Eu tinha mudado tudo. Os corredores, o console, as escadas de vidro que cantavam uma nota a cada degrau.

E mesmo assim, por alguns segundos longos demais, tudo ainda cheirava a Cidadela.

Pó antigo. Metal frio. Ordem.

Ajustei a cartola violeta, embora ela já estivesse no lugar. Gesto inútil. Eu faço muitos quando minha cabeça tenta não desabar por dentro.

— Foi a coisa certa — falei para a sala vazia.

A sala não respondeu.

Aria respondeu. Uma vibração baixa nas paredes, quase um abraço, com cheiro de creme de avelã.

Fechei os olhos.

Não adiantou.

Atrás das pálpebras vieram lâminas. Nunca a história inteira. A memória só me visita em pedaços, quando quer machucar.

Um corredor branco demais.

Uma porta que não devia existir.

Símbolos sobrepostos ao Tear Temporal.

A voz de Elvatrix, macia como seda esticada sobre vidro quebrado, dizendo "preservação" como quem saca uma faca.

E outra palavra, enterrada em arquivos que não deviam estar ali, entre relatórios falsos e assinaturas de gente que sorria em cerimônias públicas.

Domínio Temporal.

Cobre azul na língua. Medo tem esse gosto.

Eu não sabia tudo. Essa era a parte pior. Tinha visto o bastante para entender que não era paranoia, nem "a Echo dramática de novo", como diziam quando eu fazia perguntas demais, rápido demais, com brilho demais nos olhos e reverência de menos pelas paredes.

A Tecelã.

O nome ainda arranhava por dentro.

Elvatrix não era só Elvatrix. Era minha chefe, a mulher que corrigia minha postura, meus relatórios, meu tom, minha tendência "inconveniente" de achar que pessoas importavam mais que protocolos.

E era outra coisa também.

Ou sempre tinha sido.

Abri os olhos. O teto estrelado parecia mais perto, as estrelas inclinadas para me ouvir. Engraçado. Meu respeitável público lá de cima sempre teve mais paciência comigo do que Gallifrey.

— Eu não sou covarde.

Saiu pequeno. Sem confete.

Então veio a outra voz, a que eu detesto porque parece minha e não é.

Covarde.

Apertei o console.

Kaelion teria ficado em silêncio primeiro, aquele silêncio de cálculo e culpa. Depois me poria a mão no ombro, como se eu fosse tempestade e ele soubesse ancorar.

Trixie teria falado demais para esconder o medo. Uma piada horrível sobre arquivos secretos e chefes com nome de vilã de ópera. Eu teria rido, não porque era engraçado, mas porque ela precisava que alguém risse.

Eles ficaram.

Kaelion, Trixie e Vashar, cavando onde o chão já rachava.

Eu tinha dito que eles não podiam vir comigo.

Ou eles disseram primeiro. Não lembro direito.

Mentira. Lembro. Minha memória é uma constelação cruel, cada estrela no lugar certo.

Kaelion disse que alguém precisava ficar para seguir os rastros. Trixie disse que, se todo mundo corresse, ninguém ia saber quem puxava os fios. Depois, sem piada nenhuma, olhou para mim com aquela cara de agente que já enterrou mais segredos que amigos.

— Vai. Antes que lembrem que ainda podem te chamar de Echo.

Echo.

O nome caiu dentro de mim sem som.

A agente perfeita. A pesquisadora obediente, que observava, registrava e voltava à base com relatórios limpos, impecáveis, mortos. A menina brilhante que tentaram transformar em instrumento, com o Vórtex nos olhos e a ordem de olhar sem tocar.

Eu nunca quis só observar.

O universo grita o tempo todo. Em cores, em notas, em cheiros impossíveis. Esperança tem textura de fita de cetim sob os dedos. Uma linha temporal ferida soa como violino desafinado atrás de uma parede.

E eles queriam que eu anotasse.

Não interfira. Não se envolva. Não improvise.

Não cante.

Essa última ninguém dizia com todas as letras. Eu ouvia mesmo assim.

Respirei fundo. Um coração bateu antes do outro. Depois os dois se acertaram, meio contrariados.

— Eu não fugi porque tive medo — falei, encarando o console. — Quer dizer, tive. Muito. Um medo bem grande, enorme, espetaculoso de horrível. Mas não foi por isso.

Aria apitou, suave.

— Tá, talvez um pouquinho por isso.

Outro bipe. Mais seco.

— Não começa.

Passei a mão na borda do console. A superfície respondeu ao meu DNA com um brilho dourado, quase divertido. A Aria me observava sem olhos, me escutava sem ouvidos, me segurava sem mãos.

Minha primeira trupe era uma carreta itinerante mágica.

Talvez isso dissesse muito sobre mim.

— Eu fugi porque, se ficasse, iam me dobrar até eu caber. E eu não caibo. Nunca coube. Nem nos uniformes, nem nos corredores, nem nas salas de reunião com cadeiras simétricas e gente que fala como se emoção fosse falha de projeto.

O silêncio que veio depois era de bastidor. Aquele instante antes de a cortina abrir, em que dá para ouvir a própria respiração e pensar: agora não tem volta.

Ri, baixinho, sem alegria nenhuma.

— Parabéns, Doutora. Primeira grande decisão da vida nova: abandono de cargo, desvio de uma STARDIS registrada e colapso emocional moderado dentro de uma tenda circense dimensionalmente transcendental. Que estreia.

Doutora.

Eu ainda estava me acostumando. Não era título de Gallifrey, nem função da CIA, nem nome na Matrix com tinta solene e expectativa sufocante. Era escolha.

Eu era a Doutora porque queria ajudar. Não como agente, não como peça, não como Echo.

Como eu.

O Vórtex corria lá fora, invisível e infinito. Eu sentia o toque dele nas paredes da Aria. Lilás nas bordas da percepção. Som de coral distante. Cheiro de chuva num planeta que nunca conheci.

Comecei a cantarolar.

Nada grandioso. Uma melodia torta, meio minha, com um pedacinho do trenzinho do Casey Jr. escapando sem pedir licença. A Aria gostava. Eu também. Cantar não consertava nada, mas dava ritmo ao caos.

Cantei para não pensar em Elvatrix.

Cantei para não pensar nos olhos de Kaelion.

Cantei para não pensar em Trixie fingindo coragem.

Cantei porque, se parasse, ia ouvir *covarde* outra vez.

O Vórtex se aproximou como uma criatura antiga e curiosa. Roçou minha pele, não com corpo, mas do jeito que o tempo toca quem nasceu com a alma aberta demais. As possibilidades piscavam em manchas rápidas. Douradas. Cinzas. Vermelhas como alerta.

A melodia falhou na minha garganta.

Aria apitou. Curto. Agudo.

Levantei a cabeça.

— Aria?

Outro bipe, antes que eu terminasse de respirar. Depois outro. E outro.

As telas holográficas se abriram em volta do console. Mapas temporais explodiram em linhas douradas, vermelhas, violetas. O céu do teto escureceu por um segundo. As paredes foram de vermelho a dourado e de volta a vermelho.

— Ai minhas estrelas.

A Aria virou.

Não desviou, não corrigiu rota. Virou, e a sala inteira se inclinou como se alguém tivesse puxado o tapete do universo. Bati o quadril no console e agarrei uma borda luminosa antes que as botas saíssem do chão.

— Aria! O que você tá fazendo?

A resposta veio numa rajada de bipes que qualquer outra pessoa ouviria como pânico eletrônico. Eu ouvi frases. Emoção. Direção. Uma imagem inteira comprimida no som.

Perigo. Urgência. Chamada.

Não minha. Não dela.

De algum lugar. De algum quando.

— Não, não, não. Eu acabei de fugir, sabia? Fugir costuma incluir ir embora dos problemas, não fazer uma curva coreografada direto pro próximo!

Bipe indignado.

— Eu sei que fugir de problema não é meu estilo, mas tava tentando experimentar coisa nova!

Uma coordenada surgiu na tela e se desfez em faíscas antes que eu conseguisse ler. O Vórtex bateu na minha hipersensibilidade como um tambor.

E eu senti.

Um ponto no tempo-espaço latejava à frente, quente e instável. Não era catástrofe. Ainda não. Era uma corda prestes a arrebentar no meio do número principal. A plateia não tinha percebido. Os artistas, talvez, também não.

Mas a corda sabia.

E eu sabia.

Meu corpo reagiu antes da coragem. Os dois corações aceleraram em compassos diferentes. A culpa, que estava sentada no meu peito de botas pesadas, levantou a cabeça.

— Você detectou uma anomalia — murmurei.

Bipe.

— Não só isso. Um pedido.

Bipe-bipe.

— Uma janela frágil. Muita gente, muita esperança, muito futuro condensado num ponto só. Isso tem gosto de algodão-doce com eletricidade.

Pista, não resposta. Gosto de algodão-doce não provava nada. Provar era trabalho para depois.

Aria vibrou sob meus pés.

Soltei uma risada curta, incrédula. Alguém precisava de ajuda, e pela primeira vez na vida não havia uma voz atrás de mim mandando observar e registrar.

Não havia Elvatrix. Não havia Conselho. Não havia relatório.

Só eu, Aria e uma corda prestes a arrebentar.

Meu sorriso veio devagar, como amanhecer com medo de ser visto.

— Aria, você tá vendo isso? Eu posso ajudar. De verdade.

A frase me atravessou. Fiquei meio segundo com a mão suspensa no ar. Era encaixe. Uma peça que passou décadas no bolso errado e finalmente achou o lugar.

— Sem ninguém dizendo o que eu posso ou não fazer. Sem me conter. Sem transformar dor em nota de rodapé. Isso... era isso que eu sempre quis.

Um bipe animado, com estrelinhas saltando dele.

Levei a mão ao peito. Calor suave, dourado nas beiradas, lilás no centro.

— Então não é sobre fugir — falei, mais baixo, mais verdadeiro. — É sobre poder escolher ajudar.

A culpa continuava lá, claro. Culpa não some só porque a gente faz uma frase bonita. Mas ficou menor. Ou eu fiquei maior.

Ajeitei a cartola. Girei uma tela para o lado. Puxei duas alavancas que eram só projeções táteis com intenção dramática, porque eu merecia um pouco de drama funcional.

— Plano. Um: descobrir onde. Dois: descobrir quando. Três... — cantarolei metade de uma nota — três eu invento no caminho. Bora ver o que tá acontecendo!

Aria quase cantou. O som da materialização cresceu em volta de nós, harmônico e sibilante, com a camada musical que só ela tem. Normalmente era lindo, uma entrada digna de cortina, fumaça e aplauso cósmico.

Dessa vez soou como uma montanha-russa descarrilhando em câmera lenta.

— Ah. Isso não é bom.

As telas ficaram vermelhas de novo.

— Interferência? Temporal ou espacial?

Bipe-bipe.

— As duas. Claro. Começar simples seria falta de imaginação.

A carreta chacoalhou. O chão sumiu sob minhas botas e voltou um centímetro fora do lugar. Agarrei o console com as duas mãos. O sobretudo bateu nas pernas, a capa dupla voando atrás de mim como num número acrobático planejado por alguém sem seguro de vida.

— Estabilizador de feedback síncrono, vai, minha estrelinha, conversa comigo!

Aria empurrava contra alguma coisa invisível, eu sentia. Uma camada de ruído temporal grudada no destino como chiclete no sapato do universo. O som da materialização subiu. Subiu demais.

— Suprimir efeito sonoro externo!

Bipe constrangido.

— Como assim "não dá"? Discrição, Aria! A gente conversou sobre discrição!

Bipe.

— Conversamos sim! Eu reclamei do circuito camaleão e você fingiu que era problema filosófico!

Último solavanco. Tudo virou luz. Vermelho, dourado, lilás.

E depois, silêncio. Silêncio de chegada, em que o universo segura o fôlego esperando alguém tropeçar.

No caso, eu.

Endireitei o corpo devagar. A cartola tinha descido torta sobre um olho. Empurrei para cima com dignidade quase convincente.

— Todos os membros no lugar? — Olhei as mãos. — Duas mãos. Ótimo. Duas pernas. Excelente. Dois corações ofendidos, mas funcionais.

Aria apitou, pequeno.

— Você também tá linda. Um pouco dramática, mas linda.

O monitor em forma de estrela, perto do teto, tremeluziu cheio de interferência e se estabilizou.

Local: Terra.

— Terra?

Data: 17 de julho de 1955.

Meu sorriso começou antes de eu autorizar.

Anaheim, Califórnia.

O sorriso ficou perigoso.

Disneyland.

Congelei. Os pensamentos se atropelaram tão rápido que nenhum conseguiu terminar a frase.

Dezessete de julho de mil novecentos e cinquenta e cinco. Um dia antes de o parque abrir para o público. Dia dos convidados, da imprensa, do ensaio de caos, do sonho ainda com cheiro de tinta fresca.

E Walt Disney estava ali.

Walter. Elias. Disney.

Agarrei a borda do console.

— Não.

Bipe.

— Não faz essa carinha sonora comigo.

Outro bipe.

— Eu não tô surtando.

Bipe.

— Tá, eu tô cintilando de alegria em nível possivelmente perigoso. Leve excesso de cintilância. Controlável.

Aproximei o rosto do monitor, como se isso fosse me fazer enxergar através das paredes.

— Aria, você entende? É a Disneyland antes de virar Disneyland. Sonho em montagem. Futuro ainda de andaime. Um dos maiores espetáculos de imaginação aplicada da Terra, e o Walt pode estar ali fora, com aquele bigodinho e a cabeça cheia de impossíveis, e eu posso... eu posso...

Pare. Pare agora.

Endireitei as costas. Respirei. Um coração. Depois o outro.

— Eu não posso ter um ataque fangirl.

Bipe divertido.

— Não posso! Se eu encontrar o Walt e soltar "sabia que isso vai dar absurdamente certo? Parques, filmes, um império cultural, uma musiquinha sobre o mundo ser pequeno que vai grudar na cabeça do planeta inteiro, ah, essa parte não, esquece", eu derrubo uma linha temporal por excesso de entusiasmo. E seria um jeito muito constrangedor de começar a carreira.

O monitor piscou. Lá fora, formas borradas. Gente trabalhando, estruturas recém-pintadas, movimento apressado. Um calor amarelo vibrando no ar.

A anomalia continuava lá. Fraca, escondida sob o brilho do lugar.

Isso me ajudou a focar.

— Certo. Missão primeiro. Walt depois. Talvez Walt nunca. Talvez só uma olhadinha respeitosa, à distância, com autocontrole. Eu tenho autocontrole.

Aria soltou algo parecido com uma gargalhada digital.

— Zero espetáculo, Aria.

Peguei a varinha sônica, conferi os modos com o polegar e a enfiei no bolso interno do sobretudo. Pochete pastel? Não. Estreia pede bolsos dramáticos.

Faltava o cartão psíquico. Bati no bolso do colete. Nada. Bolso do sobretudo. Nada. Girei no lugar, apalpando tudo o que tinha forro.

— Sem cartão, sem credencial. Sem credencial, um canteiro de obras inteiro vai querer saber quem é a moça de cartola violeta. Então: um, achar o cartão. Dois... — Parei. — Ué. Onde eu deixei ele?

Aria bipou duas vezes, curtinho. E uma terceira, que veio em cima da minha cabeça.

Levei a mão à cartola.

Estava ali, enfiado entre duas fitas da faixa. Eu tinha passado a mão por aquele lugar umas cinco vezes desde a fuga. Gesto inútil, eu dizia.

— Ninguém comenta — avisei.

Bipe inocente.

Caminhei até a porta. Do lado de dentro, ela se abriu suave, e a escada de vidro colorido apareceu, cinco degraus suspensos, cada um esperando meu pé para dar a sua nota.

Pisei no primeiro.

Plim.

A nota ecoou na minha barriga.

Segundo.

Plam.

Terceiro.

Plim.

— Não é fuga — sussurrei.

Quarto.

— É escolha.

Quinto.

— É ajuda.

A porta externa deslizou.

E eu tropecei.

Não de um jeito elegante. Não de um jeito "artista circense em queda coreografada". Tropecei mesmo. A bota prendeu numa irregularidade do chão, o corpo foi para a frente, a cartola quase voou, e eu girei os braços como uma gaivota desesperada até recuperar o equilíbrio.

— Entrada triunfal adiada — resmunguei.

Ajeitei a cartola e olhei para trás.

A Aria estava camuflada.

Tecnicamente.

Piscar não ajudou.

Ela tinha assumido a aparência de um banheiro.

Um banheiro.

Não uma cabine charmosa de manutenção. Não uma bilheteria antiga. Não uma casinha de ferramentas. Um banheiro.

Meu rosto inteiro esquentou.

— ARIA!

Pela fresta da porta, a resposta veio em bipes satisfeitos.

— Não. Não, não, não. Você não fez isso.

Bipe.

— Funcional?

Bipe.

— Discreta?

Bipe.

— Apropriada ao contexto?

Apontei para a fachada improvisada, tentando guardar algum resto de autoridade.

— Você é uma STARDIS Tipo 97, crescida nas Catacumbas do Tempo, com núcleo dimensional transcendental, consciência sofisticada e uma sala do coração mais bonita que qualquer templo gallifreyano! Você não é um banheiro temático!

Bipe curto.

Cruzei os braços.

— É por causa da minha reclamação sobre o circuito camaleão?

Silêncio eletrônico.

— Sabia! Isso é vingança.

Bipe ofendido.

— Não me venha com "solução estratégica". Conheço esse tom. É o tom de "fiz de propósito e ficou hilário".

Um homem passou com uma tábua no ombro, sem olhar para mim. Dois operários atravessaram discutindo sobre tinta. Ninguém reparou na carreta que acabara de surgir com fumaça, barulho e a sutileza de uma fanfarra temporal.

Franzi a testa.

— Hm. Percepção seletiva local? Campo de desatenção residual? Ou gente de 1955 é só muito comprometida com prazo de inauguração?

Bipe.

— Não, você não ganhou essa discussão.

Cheguei perto da porta.

— Quando a gente voltar, vou recalibrar seu circuito camaleão com glitter.

Bipe alarmado.

— Glitter técnico.

Mais alarmado.

— Glitter técnico permanente.

Fechei a porta antes que ela pudesse reclamar.

Então me virei para o mundo.

O calor me abraçou na hora.

Não era o calor seco e controlado de Gallifrey, nem o ar antigo filtrado por sistemas que achavam que conforto era equação. Era calor terrestre. Década de cinquenta. Califórnia. Poeira, tinta fresca, madeira serrada, suor humano e alguma coisa doce vindo de longe.

Talvez pipoca. Talvez promessa.

O sol estava alto e atrevido, dourando tudo com força demais. Meu corpo se ajustou quase de imediato: células reorganizando tolerância, pele aceitando estação e latitude com a competência brilhante que meus professores fingiam não admirar.

Dei um passo. O pé afundou.

Olhei para baixo.

O asfalto estava mole.

— Ah, espetacular. Vim salvar a Disneyland e o chão tá tentando virar pudim.

Puxei a bota com um som nada digno.

— Primeiro número da Doutora em cartaz: impedir um desastre temporal, evitar spoiler histórico para Walt Disney e sobreviver ao asfalto derretido. Quem foi que aprovou esse roteiro?

Sorri antes de conseguir evitar.

Porque, apesar de tudo, tinha vida ali. Muita.

Gente corria com ferramentas, pranchetas, fios, latas de tinta. Roupas impecáveis demais para a poeira, roupas que já tinham desistido da dignidade. Marteladas. Rodas rangendo. Instruções gritadas. Passos apressados.

O parque ainda não parecia pronto. Parecia uma respiração antes de virar canção.

E era lindo. Não como paisagem perfeita. Como ensaio geral cheio de falhas, alguém construindo alegria com prazo curto, orçamento apertado e fé suficiente para parecer maluquice.

Main Street U.S.A. aparecia mais à frente, ainda sendo ajeitada, memória inventada de uma cidade que talvez nunca tivesse existido exatamente assim. Fachadas novas brilhavam. Janelas reluziam. Bandeirolas tremiam no ar quente.

Caminhei desviando das partes mais moles do chão. O sobretudo era quente demais para Anaheim em julho, mas eu me recusava a sacrificar estética no primeiro episódio da minha vida.

— Terra — murmurei.

A palavra tinha gosto de limonada e poeira.

Levantei o rosto. Céu azul, simples, aberto, tão diferente das cúpulas de Gallifrey, onde o céu sempre parecia vigiar. Aqui, parecia convidar.

Meu peito apertou.

Não de culpa dessa vez. De possibilidade.

— Eu acho... — comecei.

Aria atrás de mim, disfarçada de banheiro rancoroso. Gallifrey longe. Kaelion e Trixie longe. Elvatrix, a Tecelã, o Domínio Temporal, todos aqueles fios escuros ainda lá, puxando alguma coisa nas sombras.

Mas eu também existia.

Inteira demais. Barulhenta demais. Colorida demais. Viva demais.

Dei mais um passo. O asfalto reclamou sob a bota.

Ri.

— Eu acho que agora eu posso ser feliz.

Não foi uma conclusão grandiosa. Sem música subindo, sem estrela caindo do teto, sem aplauso de plateia invisível. Só eu, parada no calor de 1955, sorrindo feito idiota cósmica diante de um parque inacabado.

Então ouvi algo.

Não com os ouvidos. Com aquela parte de mim que sente o tempo como tecido e música.

Uma nota errada.

Baixinha. Quase escondida sob martelos, motores e vozes.

Virei a cabeça na direção da Main Street.

O show estava prestes a começar.

E alguma coisa, em algum lugar daquele sonho recém-pintado, já tinha entrado em cena com o papel errado.

Meu sorriso ficou mais afiado.

Ajeitei a cartola. Sacudi a barra do sobretudo. Dei um tapinha no bolso onde a varinha sônica descansava.

— Vamos lá, então.

E fui explorar.