walking stars
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Chapter 110 min read

Elas se perdem na caminhada

R: Vamos Morty, vamos dar uma volta na nave.

M: Para onde vamos Rick?

R: Apenas venha Morty.

Os dois entram na nave e decolam para o espaço. Rick não diz absolutamente nada, apenas olha sério para as estrelas.

M: Rick, o que estamos fazendo? O que você está procurando? Onde estamos indo Rick?

R: Quieto Morty, estou procurando as estrelas...

M: As estrelas...? Quais estrelas? Existem tantas delas por aí!

R: Já disse para ficar calado Morty!

M: Nossa, calma Rick! Eu só quero saber para onde estamos indo. Não quero me enfiar em mais uma de suas confusões...

E os dois continuam a vagar levemente pelas estrelas. O silêncio do espaço e de Rick incomodavam Morty, mas ele preferiu ficar em silêncio, já aceitando dentro de si que Rick possivelmente colocaria os dois em uma confusão maluca. A única coisa que podia fazer era observar as estrelas pela janela da nave.

É impossível contá-las, existem tantas por aqui e ali... O que o Rick procura exatamente?

Os olhos de Rick se movimentavam rapidamente, observando, procurando... Continuaram assim por um bom tempo, no silêncio do espaço.

M: Rick... Vamos voltar. Não sei o que você procura e não sei o porquê de você estar olhando tanto as estrelas. São apenas estrelas Rick! Me leva de volta para casa!

R: Cala à boca Morty, eu estou procurando e quero te mostrar algo.

M: Me mostrar o quanto o espaço é tão chato? Você já conseguiu Rick...

Eles entraram nessa pequena e tediosa discussão, Rick insistindo em procurar algo pelas estrelas e mostrar a Morty e Morty reclamava o quanto estava cansado das esquisitices de seu avô. Até que no meio da frívola discussão Morty vê algo peculiar.

M: Rick o que é aquilo? Que estrela estranha é aquela Rick? – Diz apontando a uma estrela que se movia como um pássaro voando lentamente pelo céu na Terra.

R: Isso Morty, isso era o que eu estava procurando! Muito bem garoto! –Fala de forma animadora, que no fundo existia algo a mais, algo que Morty não conseguia identificar e sentia medo em descobrir o que era.

Rick vira a nave na direção de onde vinha a vagarosa estrela caminhante. O caminho se iluminou ainda mais, mais e mais estrelas, estrelas caminhantes voavam vagarosamente ao redor deles, tomando rumos diferentes, todos viam de um único ponto específico. Morty não entendia o que estava acontecendo e nem o porquê daquelas estrelas serem assim.

Lentamente eles se aproximaram de uma forma grande e estranha que flutuava sem nexo, sem se encaixar naquele lugar. Morty observou aquele objeto, até dar forma àquilo.

M: R-Rick... O que é isso...?

R: Isso Morty, isso é um dos fenômenos mais raros de todo o universo. A coisa mais rara, mais linda e a mais triste.

Enquanto Rick dizia aquelas palavras, a forma se movimentava, de certa forma se abria. Revelando ser uma mulher nua, saindo da encolhida posição fetal. Esticando braços e pernas, soltando no meio de si, várias outras estrelas caminhantes. Seu corpo era tão branco, que quase se confundia com o brilho das estrelas, seus cabelos eram tão longos que não se podia dizer onde era o fim dos fios, mas também mal se podia dizer qual era a cor deles, os fios se tornaram translúcidos, só podia se identificar que eles estavam ali por causa dos pequenos brilhos que os fios faziam. Seu rosto era quase surreal de tão belo, um rosto impecavelmente perfeito, seus olhos se encontravam fechados, mas era perceptivo que lágrimas saíam deles e escorriam pelo rosto triste, lágrimas que assim que se afastavam de seu rosto, viravam estrelas, as estrelas caminhantes.

M: Rick, q-quem é ela? O q-q-quê é ela?

R: Sabe Morty, existe uma velha história. Uma história dela: Anos atrás uma mulher, uma mulher normal e humana, que se tornou tão vazia dentro de si, que foi sugada pelo Universo e que a cada dia se funde a ele. Quando humana ela sofreu muito, até o dia que encontrou um rapaz e o amou muito, o amou tanto, que esse amor não cabia em seu peito. Os dois se amaram... Se amaram de forma sentimental, espiritual e física. Mas esse amor foi interrompido. A família, a família que fez da sua vida um inferno desde que ela nasceu, soube desse amor e com isso resolveram atrapalhar o casal. Ela sabia que essa perturbação atrapalharia o amor deles, que eles não iam conseguir ser felizes... Então em um dia fatídico, ela terminou com o seu amor, enquanto ela terminava com ele, ela chorava inconsolavelmente, sentindo a dor em perdê-lo. Ela preferia terminar, do que ver os dois sendo destruídos pela infeliz família dela. Enquanto ela chorava e se despedia dele, ele percebeu o que ela estava fazendo. Com isso ele não ficou bravo e a culpou, e aceitou aquilo. Durante dias, semanas e meses ela chorou pela perda. Até que um dia ela resolveu “viver” novamente, fazer mais do que chorar. Três anos tinham se passado, ela passou três anos chorando... Quando ela voltou a “viver”, más línguas disseram a ela o quão feliz o amor de sua vida estava feliz com outra mulher. Ela dolorosamente aceitou aquilo e continuou em frente. Até que um dia monótono, quando ela saía de um prédio, ela o avistou ao longe, ele estava mudado, mas ela o reconheceria até mesmo se tivesse reencarnado em outro corpo. Mas foi aí que ela viu a quem ele segurava em seu braço, a mulher que o estava fazendo feliz. Grávida. Acolhida em seu abraço. Ela não suportou ver aquela cena. Correu furiosamente para casa e chorou dolorosamente, mas esse choro foi mais intenso do que todos os outros. Ela chorou tanto, que o universo sentiu pena da pobre criatura e a sugou para o espaço, abraçando-a e consolando-a. Com isso, o Universo apagou as mentes de todos que tinham lembranças dela, assim apagando sua existência na Terra. Até hoje ela é abraçada por ele, aos poucos... Lentamente ela está se juntando a ele. Cada lágrima que escorre, vira essas estrelas caminhantes...

M: Rick, eu não entendo...

R: Você não precisa entender Morty, apenas a observe.

M: Ela pode nos ouvir Rick?

R: Eu não sei Morty, mas é possivelmente que sim Morty.

Os dois em silêncio observaram a mulher parar de chorar e lentamente abrir os olhos. Ela não olhou para eles, olhava para algo embaixo de si, mas parecia não se importar com o que via.

R: Sabe Morty, dizem que os olhos dela podem ver tudo em todos os universos e dimensões, ela pode observar tudo e a todos em todos os planetas que existem.

M: O que será que ela olha agora Rick?

R: Eu não sei Morty.

M: Mas Rick... Como você sabe dessa história?

R: Morty, antes de sua avó. Eu tive outras mulheres, outras namoradas.

M: Urg Rick. O que isso tem haver de como você saber essa história?! Urg!

R: Eu me lembrava de todas... Mas existia uma lacuna entre elas... Quando sua avó morreu, procurei saber que lacuna era essa. Quase fiquei louco Morty! Comecei a beber pra caralho por causa disso. Até que me lembrei... Me lembrei dela... –Aponta com seu cantil de uísque na mão.

M: D-dela?! C-c-como assim Rick?!

R: Eu sou o cara Morty... Sou o cara que ela amou tão intensamente, que a fez sofrer tanto ao ponto de agora estar se fundindo com a porra do universo, as estrelas... Eu sou aquele puta cretino que fez isso com ela. Sou eu Morty! –Lágrimas, começaram a brotar nos olhos de Rick.

E agora Morty entendeu finalmente aquela coisa a mais na expressão séria de Rick quando procurava pelas estrelas. Era dor, tristeza...

R: Quando me lembrei dela, fui até a família dela, mas eles não tinham noção de quem eu estava falando. Foi por causa dela que criei o controle interdimensional, foi para procurá-la, não importasse qual planeta ou universo ela estivesse. Pensei que o desaparecimento dela foi por causa de alguma espécie cretina de alien ou qualquer outra merda. Até que encontrei um alien nojento e misterioso que me contou sobre essa coisa estranha que ele tinha encontrado vagando pelo espaço. Passei meses procurando, sei lá, era a única coisa que eu tinha conseguido de diferente desde que comecei a procurá-la, era minha única pista. E então a encontrei da mesma forma como hoje, encolhida. Todos os dias vinha visitá-la, me desculpando e dizendo que me lembrava dela, que ela não estava sozinha. Mas ela continuou a chorar encolhida, fazendo mais e mais estrelas caminhantes. Até que no dia do solstício de inverno, quando vim visitá-la como fazia todos os dias, até que assim como hoje Morty, ela se esticou, parou de chorar e olhava para baixo inexpressiva, desolada... E quando o dia acaba, ela volta a sua posição original.

M: Isso é triste Rick... Você vem todo dia de solstício Rick?

R: Não Morty, eu venho vê-la todos os dias Morty.

M: Oh...



M: Rick... O dia está acabando... Você não acha que deveria dizer algo a ela?

Rick encarava a mulher petrificada em um corpo quase translúcido, que olhava de forma tão vazia para algum lugar ou para o nada.

Então Rick sussurra: Eu te amo...

Como se essas palavras fossem um tipo de gatilho, a mulher do espaço, que nem o Rick se lembrava de seu nome, apenas das vagas lembranças que tinha com ela, se movimenta. Rick e Morty acharam que ela iria voltar a sua posição de fazer estrelas. Mas ela movimenta o braço e aponta diretamente para Rick, com um movimento de dedo, ela puxa a nave.

M: O-o que é isso Rick?!

R: Ela está nos puxando Morty, ela é a porra do universo agora, ela pode fazer o que ela quiser! Espera... Ela me ouviu?

A nave para em frente a ela, nem Rick e nem Morty disseram nenhuma palavra e nem se movimentaram. A mulher do espaço e universo então levanta os seus olhos, mesmo levantando os olhos, sua expressão era a mesma, totalmente inexpressiva, então ela olha para Rick, de Rick para Morty e voltando para ele. Eles se encararam por longos minutos, que possivelmente poderiam ter se tornado horas.

R: Eu te amo! EU TE AMO SUA MALUCA! EU ME LEMBRO DE VOCÊ, EU ME LEMBRO! –Grita Rick batendo no pára-brisas da nave. –EU ME LEMBRO! EU ME TORNEI MALUCO POR SUA CAUSA! TE PROCUREI EM CADA CANTO DE TODOS OS UNIVERSOS E DE TODAS DIMENSÕES...!

Não importava o quanto gritasse para ela, sua expressão não mudava.

M: Para Rick, ela não está reagindo. Para!

E então Rick para de gritar e volta a se sentar desoladamente no banco. Morty nunca vira Rick assim antes, era mesma expressão da Mulher, os dois eram um espelho. Então a Mulher dá um grito silencioso e começa a chorar de dor. Com um movimento de braço, ela manda a nave de Rick e Morty para longe, em direção à Terra. Enquanto eles se afastavam dela, ela lança um último olhar a eles e volta lentamente à posição fetal.

Durante a volta para casa, nenhum dos dois disse uma única palavra. Rick estaciona a nave na garagem, o desliga e retira as chaves do contato.

R: Não diga nada sobre hoje a ninguém Morty.

Silenciosamente Rick sai da nave e vai para dentro da casa. Morty o observa, sai da nave e vai atrás do Rick, mas quando abre a porta, ele vê o velho e brincalhão Rick divertindo a sua irmã e sua mãe, como se aquele dia nunca tivesse existido.

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