“Você me traiu. E eu sei que você nunca vai se arrepender, pelo jeito que me machucou. Você conversava com ela quando estávamos juntos. Amei você no seu pior momento, mas isso não importou”
(Traitor — Olivia Rodrigo)
POR UM MOMENTO, Klívia não acreditou no que seus olhos viram. Uma marca de batom, rosa, na gola da camisa social de Damian.
Estava passando as roupas da máquina de lavar para a secadora quando encontrou aquela camisa, esquecida, atrás do eletrodoméstico. Diana havia pego alguns dias de licença devido a morte repentina da mãe, e coincidentemente Klívia estava no seu primeiro dia de férias, que pediu antecipadamente, de duas semanas, pois no final do mês iriam viajar para Milão para comemorar o aniversário de Maddie.
Seu peito se apertou. Milhões de hipóteses passaram pela sua cabeça, mas uma em questão lhe martelava mais, quase como uma certeza.
Damian estava a traindo... seria possível? Com quem ele a trairia? Por que a trairia? E como nunca conseguiu reparar nos sinais?
Nesse momento pegou o celular e ligou para o escritório onde ele trabalhava, pediria para que ele voltasse mais cedo para lhe esclarecer o ocorrido, todavia a resposta da secretária a surpreendeu.
— Desculpe, mas o Sr. Wayne já foi embora.
— Como assim, já foi embora? — questionou sem entender. — O expediente dele só termina às 19 horas.
Sua respiração falhou.
— Na verdade, termina às 16h30. Todos os dias. — corrigiu ela e isso quase fez Klívia se desequilibrar.
Respirou fundo. “Ele está mesmo mentindo para mim”. Seus olhos lacrimejaram com o pensamento.
— A Sra. tem algo importante para tratar com ele? Posso deixar seu recado, qual é o seu nome? — a secretária voltou a falar.
— Não precisa — fez uma pausa e apertou firme a pia de mármore da lavanderia. — Eu retorno amanhã... — disfarçou, trocando de cômodo. — Obrigada pelas informações.
— Disponha. — respondeu a jovem simpática e a ligação se encerrou.
No corredor, encostada na parede vermelha e marrom, encarou o quadro que Damian havia pintada para ela, pendurado na parede, dias antes do casamento deles. A obra consistia em Klívia, junto dele, vestindo trajes típicos de noivo e noiva, com uma rosa branca — a sua flor preferida —, que simbolizava o afeto deles, segurada por ela e com a mão dele por cima.
Simbolizando amor, união, confiança, carinho e proteção.
Aquelas foram belas palavras proferidas, acompanhadas de um belo gesto, no entanto era uma pena que agora não se passavam de uma promessa antiga quebrada.
Olhou a pintura com raiva.
— Há quanto tempo... — murmurou, trincando os dentes. — Há quanto tempo está me enganada? — disse e pegou o quadro, jogando-o para cima do guarda-roupa de um dos quartos de hóspedes. Se olhasse para a pintura por mais um minuto, seria capaz de rasgá-la.
Não conseguiu racionar muito bem em como abordaria o marido sobre aquele assunto, pois o alarme de seu celular apitou. Era hora de buscar as crianças na escola.
— Diana, que falta você me faz — disse massageando a têmpora e pegando as chaves do carro.
— — —
Recebeu uma mensagem de Kory, havia acabado de pegar Martha e Tommy na escola quando o celular vibrou. Terminou o trajeto até a Elementary School onde Madeline estudava, estacionou de frente a entrada na espera da filha caçula vir ao seu encontro e aproveitou o tempo para visualizar a mensagem de Anders.
Amiga Klívia, adivinha quem está completando 18 anos de casamento hoje?!
Isso mesmo, eu e o amor da minha vida!
Parabéns, como vão comemorar? — respondeu, logo a ruiva mandou outra mensagem.
Ele vai me levar para jantar no Olive Garden, que sortuda eu sou!!!!
Mas não conta pra ninguém, porque ele pediu para que ficasse no sigilo
Antes que pudesse enviar mais alguma coisa, a voz de Martha suou perto do seu pescoço.
— Hm, que romântico o tio Dick levando a tia Kory para esse lugar chique. — comentou, olhando para a tela do celular da mãe, de xereta. — Por que o papai quase nunca te leva para esses lugares legais também?
— Ei! O que eu te disse sobre ficar espiando o celular dos outros sem permissão? — respondeu levemente irritada.
— Foi mal — levantou as mãos pra cima, em sinal de rendição. — Você me pegou, culpada! Não está mais aqui quem ‘tava olhando. — retornou a encostar no banco de trás.
— Bem, como eles vão sair hoje, significa que a Mari vai passar a noite com a gente, né? — Tommy comentou empolgado. Martha o olhou maliciosa. — Não que eu me importe... é-é só que eu não acho prudente ela ficar em casa sozinha. — corou as bochechas.
Klívia olhou divertida para o filho, achando fofo a sua reação.
— Aham, sei — Martha riu, desconfiada. — Maninho, não sei se você se lembra, mas a Mari já tem 16 anos, igual a gente, e já é madura ó — estalou os dedos. — Até demais.
— Você fala como se todo mundo fosse que nem você... — acusou.
— O que você quis dizer com isso, hein, seu nerd?
— Parem vocês dois! — exclamou Klívia, fazendo os dois cessarem, cada um virando o rosto parta um canto. Verificou-os um momento pelo retrovisor. Assim que se garantiu que a discussão havia mesmo acabado, retornou a conversa com Kory.
Nossa, que chique
Dick deve amar mesmo você, de verdade!
E encaminhou uma figurinha de coração roxo.
Você tem sorte
Nós duas temos sorte
O Damian é tão bom para você, não é?
Klívia sentiu formar um nó na garganta. Madeline chegou e abriu a porta traseira do carro.
É claro que é...— enviou com uma carinha feliz.
Mentiu para Kory, definitivamente não estavam num momento bom, entretanto não queria amolá-la com suas desconfianças, tampouco queria atrapalhar o clima do programa romântico de sua amiga. Estava sozinha, essa era a verdade. Teria que lidar com isso sozinha. Teria que desmascará-lo sozinha.
— Como foi o seu dia, Maddie? — perguntou para sua filha, disfarçando o máximo que pôde o seu desconforto, enquanto guardava novamente o celular na bolsa.
— Muito divertido, mamãe! Hoje eu brinquei com a Maya e a gente fez bonequinhos de argila na aula de artes e...
Nesse momento, Klívia deu partida no automóvel.
— — —
Quando voltou para casa, percebeu que Damian havia retornado mais cedo do “trabalho”. Trancou o veículo e foi de encontro a ele, que estava sentado na mesa, ainda de terno, bebericando um café enquanto verificava o relógio de hora em hora, parecendo nervoso.
Inspirou fundo. Teria de agir naturalmente para conseguir interpretar a sua personagem. Se quisesse comprovar a sua teoria, deveria encontrar provas mais congruentes primeiro.
— Boa tarde, petit gâteau — cumprimentou a mulher usando o apelido que apenas ela o chamava, depositando um beijo na testa do Wayne.
O apelido surgiu durante um encontro onde a sobremesa foi petit gâteau e Klívia fez um comentário comparando o doce com o marido, porque por mais que parecesse durão por fora, era mole e doce por dentro. De início ele odiava o apelido, então isso motivou-a continuar, no fim, aquilo virou uma maneira carinhosa e habitual dela chama-lo.
— Boa tarde, amor. — respondeu, mas não a olhou diretamente nos olhos.
Martha e Tommy acenaram para ele de longe e subiram para o quarto, haviam um projeto grande de Química para entregar no dia seguinte. Maddie gritou “Papai!” e beijou estalado sua bochecha.
— Oi meu anjinho! — a abraçou com força. — Papai te ama viu?
— Também te amo, papai! — deu um outro beijo no pai e o envolveu com os braços ao redor do pescoço. — Você vem brincar comigo de pirata? — perguntou inocentemente apontando com um menear de cabeça para o barco de quase 2 metros, construído de madeira, que o vovô Wayne mandou encomendar para a neta mais nova, que era fissurada em piratas desde que assistiu “Piratas Pirados” no cinema particular que ele projetou em um dos quartos em desuso de sua enorme mansão.
— Vai na frente, já, já o papai vai lá.
— Eba! — comemorou e correu para ao quintal, com as mãos para cima.
— Lembre-se de fazer o seu dever depois mocinha! — lembrou Klívia vendo a filha cruzar a porta de vidro. — Ela é tão elétrica, né? — reparou. — Aliás, você em casa antes das 19 horas, que milagre é esse? — cruzou os braços, começando a analisá-lo minuciosamente.
— Ah! É só que... — coçou a nuca. E olhou para o lado esquerdo, inflando as narinas. Toda vez que ele fazia isso, Klívia sabia que ele estava prestes a soltar uma mentira. Ela o conhecia perfeitamente bem.
— É só que? — insistiu que ele continuasse.
— É só que... — ele pareceu formular uma resposta. — Eu tenho uma reunião com meu pai e o Dick mais tarde, então me liberaram mais cedo para eu ter tempo para tomar banho e me arrumar, mas antes vou separar 15 minutos para brincar com a minha bebezinha, é claro! — forçou um riso.
— Com o Dick, sei — estreitou os olhos.
— Sabe como é, marcam tudo em cima da hora. Típico do meu pai.
— É, claro.
— Você confia em mim, não confia?
— Sempre — sorriu e ele se aproximou dela, deu-lhe um selinho e a abraçou forte.
— Eu te amo tanto, amor.
— Eu também. — retribuiu o abraço.
Kory mencionou que eles planejariam um encontro romântico hoje à noite. Qual a probabilidade de Grayson estar em dois lugares? Precisaria tirar isso a limpo. Precisava descobrir quem era ela...
— — —
Dez para as sete, Damian saiu de casa. Klívia, aproveitou o tempo que ele estava no banho, para telefonar para Evelly, uma amiga de longa data sua, para ficar de babá das crianças.
Se ela confiava nos filhos de 16 anos? Em Tommy sim, em Martha não. Sem contar que a probabilidade dela manipular o irmão e armar uma festa, com até os professores substitutos como convidados, era enorme.
Separou uma roupa discreta. Escolheu uma camisa de manga comprida e uma calça legging, ambas as peças eram pretas. Vestiu também um casaco azul escuro com botões pretos e um cinto na cintura, no entanto o deixou aberto num primeiro momento. Calçou um tênis branco, com detalhes rosa e com cadarços igualmente brancos e padrões. Prendeu os longos cabelos castanhos escuro em um rabo de cavalo. Passou apenas uma manteiga de cacau nos lábios, dispensou o uso da maquiagem, pois saberia que iria borrá-la até o final daquela noite. Espirrou algumas gotas do seu perfume favorito, de cheiro de lavanda, que havia recebido de presente de aniversário de sua amiga Rachel na confraternização de natal do ano anterior, nas regiões do pescoço e por trás das orelhas.
Pegou a bolsa e colocou as chaves do carro, o celular, a carteira com os documentos e um binóculo, caso se fizesse necessário, depressa dentro da mesma.
— Aonde a senhora vai com tanta pressa? — perguntou Martha, pegando-a de surpresa, enquanto encaixava um brinco pequeno em formato de flor na orelha direita, esperando Evelly aparecer.
— Ai, que susto, Martha! — levou a mão no peito, quase a fazendo deixar o brinco cair. — Você não ‘tava no quarto com seu irmão estudando?
— Já terminei. — disse a menina vestida de pijama roxo. — E já tomei banho. Eu ia perguntar se podíamos pedir uma pizza para comemorar o meu A+ em matemática, mas me parece que a senhora tem outros planos. — disse se referindo a mãe, olhando-a dos pés à cabeça. — O papai sabe que você vai sair a essa hora da noite e chamar a desmiolada da Evelly para cuidar da gente?
“É claro que ela escutou a minha ligação, atrás da porta”. Isso não lhe era relevante agora.
— A tia Evelly de babá? — Tommy surgiu de repente, chegando perto da irmã, após a constatação. — Nós estamos perdidos! — bateu a mão na testa.
— Não contei nada para o seu pai — ajustou as pulseiras de pratas nos pulsos. — E ele nem pode saber.
— Por quê? Depois dos 40 virou adúltera?
Tommy abriu a boca e a cobriu com as palmas das mãos.
— Olha como se dirige comigo, mocinha! — repreendeu a apontando um dedo. — Eu apenas tenho assuntos pessoais, que envolvem diretamente o seu pai, para averiguar.
— Não acredito que vocês dois estão nesse papo de fantasia sexual depois de velhos. — reclamou rindo debochado. Tommy corou ao imaginar a cena.
— Martha! — exclamou ele.
Klívia a lançou um olhar de reprovação. Iria rebater a filha, quando a campainha tocou no andar debaixo, era Evelly.
— Depois temos que conversar melhor sobre o seu comportamento, dona Martha — remeteu-se à filha, antes de arrumar a postura e ir recepcionar a amiga.
Primeiro agradeceu a Wester por ter vindo e depois retomou a sua lista de informações sobre como controlar seus filhos. Evelly revirou os olhos depois da 3º regra.
— E lembre-se de não dar doces para a Maddie agora de noite, ela fica muito agitada e...
— Tá bom Klí, tá bom. Eu já cuidei das crianças mais de uma vez, se esqueceu? Comigo é completamente seguro, eu já te desapontei alguma vez? — Klívia abriu a boca para responder. — Foi uma pergunta retórica — se apressou e empurrou a Wayne pelos ombros até a porta. — Deixa as crianças comigo que é sucesso.
— Tá bem, estou apostando as minhas fichas em você.
— Fica tranquila, comigo você pode confiar. — ajeitou a gola da camisa.
— Tá bem. — “É melhor eu ir logo antes que me arrependa” — Tchau crianças! Qualquer problema, podem me ligar. Amo vocês!
— Tchau mamãe! — Maddie disse, mostrando um sorriso doce e banguela.
— Tchau mãe — Tommy se despediu, erguendo os óculos. Antes de voltar a atenção ao celular em suas mãos.
— Boa sorte na sua fantasia sexual, se lembra da camisinha porque eu já tenho irmãos o suficiente — gritou Martha, para a ruborização da mãe.
Martha poderia ser sua filha, apesar disso sua personalidade refletia muito a de sua irmã gêmea, Katherine. Por um segundo, sentiu um dejá-vu de quando eram adolescentes, de quando saiu com Damian pela primeira vez e Kathy gritou algo parecido sobre levar camisinhas na bolsa, seu pai a olhou feio por isso.
Aquela vez foi o estopim da história de amor deles, agora provavelmente estava se dirigindo ao último capítulo dela... e não sabia se estava preparada para aquilo.
— — —
Damian seguiu com o carro para o lado oposto do escritório de sua família, por mais que ainda tivesse esperanças de estar errada, ela esperava.
Deveria estar indo ao encontro da dona do batom rosa que manchou sua camisa, tinha certeza disso.
Ele dirigiu por bairros que há tempos não passava. Girou o volante e o viu dando a seta para o estacionamento de um conjunto de apartamentos de no máximo 2 estrelas.
“Então é aqui que ela mora...”
Adentrou o estacionamento, parando o veículo em uma vaga que dava de frente a panorâmica do hotel.
Ele saiu do carro, ativou o alarme e se encaminhou para as escadas, olhando para trás vez ou outra como se estivesse desconfiado. Abaixou-se atrás do volante e desejou que ele não a reconhecesse. Agradeceu quando não a notou ali.
Sua figura sumiu, até novamente aparecer no corredor dos apartamentos do 3° andar. O mesmo era coberto por uma grade grande, grossa e cinza de segurança.
Parou em frente ao apartamento 203 e bateu três vezes na porta. As paredes externas eram da cor padrão, amarela, mas a porta apresentava um tom fosco de marrom. Dos dois lados da porta e abaixo de uma pequena janela, da cor branca, que se localizava na posição esquerda, encontravam-se vários vasos de plantas das mais variadas cores, rosas, vermelhas, violetas, porém as amarelas e azuis eram as mais predominantes.
Não conseguiu enxergar muito bem os traços da moça que atendeu, no entanto era perceptível que essa era morena, de pele clara, possuidora de grandes olhos verdes marcantes — semelhantes aos de Damian —, apresentando média estatura e suas características faciais a fizeram deduzir que ela fosse bem jovem.
Ela o recepcionou com um sorriso largo no rosto e o abraçou com força. Ele a retribuiu depressa e beijou o topo de sua testa, carinhosamente.
Klívia inclinou para frente e ajustou o binóculo.
— Eu achei que você não ia vir hoje — deduziu pela rasa leitura que fez dos lábios da moça.
Logo em seguida, ele entrou no apartamento. Assim, Klívia desceu do carro.
Apareceu na portaria, e o porteiro, um homem de meia-idade, sobrepeso e com uma expressão cansada na face, proibiu sua entrada.
— Mas eu preciso entrar, preciso encontrar uma minha amiga lá dentro.
— E qual é o nome da sua amiga?
— Thamíris — respondeu, externando o primeiro nome feminino que lhe veio à mente.
— Perdão, mas não mora nenhuma Thamíris aqui.
— Ela é moradora nova. — tentou sorrir, para parecer mais natural, entretanto seus lábios tremiam.
— Eu teria conhecimento se uma morada chamada Thamíris tivesse se mudado recentemente para cá.
— Mas ela se mudou hoje de manhã, não era turno do senhor, eu imagino, por isso você não tem conhecimento dela.
O porteiro a olhou por cima dos óculos. Levantou um pouco da cadeira. Nessa posição, Klívia conseguiu sentir o seu hálito de menta.
— Meu bem, eu tenho 20 anos de experiencia nesse serviço e não tem nada que acontece nesses prédios que passe despercebido por mim, entendido? — rebateu voltando a se sentar normal. — Agora, se a senhora não tiver mais nenhum assunto para tratar aqui, peço que se retire.
Klívia estalou a língua no céu da boca, começando a se irritar.
— Te disseram alguma vez que o senhor é um poço de simpatia? — cruzou os braços, sustentando um olhar entre os dois, demonstrando que não deixou se abater pelo seu tom. — Já que nada passa batido por vossa senhoria, poderia pelo menos me responder o que o homem de olhos verdes vestindo um sobretudo da Calvin Klein, acabou de fazer ao passar por aqui?
— A dona é insistente, hein? Perdoe, mas além de não poder permitir sua entrada, não posso te passar informação dos moradores.
— Moradores, então ele mora aqui?
— Informação confidencial.
Klívia inspirou fundo, deveria manter o controle, todavia aquele homem estava testando a sua paciência em um dia nada favorável.
— O que eu preciso fazer para poder ter acesso a suas “informações confidenciais”? — fez aspas no ar.
— A senhora me parece estressada — riu divertido. O seu trabalho era tão monótono ali em seu gabinete, que era divertido quando esse tipo de entretenimento apertava a campainha. — Pois bem, além de um mandato de busca com a assinatura do juiz, não posso te informar nada.
— O senhor não está entendendo.
— Então me explique.
— Esse homem, o de sobretudo de marca, é meu marido e eu acho... — aproximou-se, cochichando — Que ele esteja me traindo com uma vagabunda que mora nesse prédio, tá me entendendo?
— Olha — acariciou a barba. — Eu posso te dar um conselho?
— Claro. — fingiu parecer amigável.
— A senhora deveria trocar de marido.
— Ah, você jura?
— Juro. E eu conheço um ótimo advogado de divórcios para isso. — andou com a cadeira de escritório para trás e pegou um cartão de dentro de uma das gavetas atrás de si, para depois estendê-lo para a Wayne, que o encarava confusa. — Toma o cartão do meu primo, Carl, ele é o melhor desse ramo aqui em Gotham.
— Agradecida. — tomou o cartão de sua mão e o jogou de qualquer jeito dentro de sua bolsa. — E, continuando, como imagino que o senhor saiba, eu preciso dar um fragrante nele, para ter certeza de seu adultério, tá me entendendo? — ambos riram. — Então não teria como o senhor...
— Lamento, mas vão contra as regras do regulamento.
Klívia grunhiu. Batendo na mesa. Controlando-se para não explodir.
— Tenha uma ótima noite — estava pronta para sair dali, frustrada, quando ele retornou a falar:
— A senhora mencionou que o seu marido entrou aqui usando Calvin Klein, não é mesmo? — Klívia apenas assentiu, meio desinteressada. — E eu soube que essa é uma marca bem cara, não é? E geralmente apenas pessoas com bastante dinheiro sobrando compram esse tipo de produto e...
— Desculpe, aonde quer chegar?
— Digamos que eu, um simples assalariado de classe média, apenas deduzo que para a senhora estar casada com um homem, de classe alta, aparentemente, cheio de elegância, tenha dinheiro disponível também, principalmente agora, dentro da sua bolsa, que por sinal tem o símbolo de uma marca famosa — apontou com a caneta azul para a bolsa com o símbolo da Gucci, o gesto fez Klívia puxar a bolsa mais para si. — Sabe, nós somos fruto de um sistema capitalista. Ah, é! E sabe o que motiva as pessoas a fazerem vista grossa? Se acertar, ganha uma bala.
— Quanto você quer pelas informações? — perguntou voltando a ficar em frente ao seu gabinete. — Já aviso que se for um absurdo, eu vou embora agora mesmo.
— US$ 200,00 e te informo até qual é a calcinha que ela mais pendura no varal.
Klívia franziu o nariz.
— Até que é um preço justo, concordo. — pegou a carteira e deixou o valor separado em suas mãos. — Mas primeiro, me dê o que eu quero saber, depois eu te pago.
— Eu acho melhor...
— É pegar ou largar.
O homem bufou. Somente nesse momento ela percebeu o nome no crachá em sua roupa branca; Patrick Williams.
— Ok. — disse satisfeito. — Gostei de negociar com você.
Klívia revirou os olhos.
— Tá bom, vou começar. — iniciou Patrick, voltando sua atenção ao notebook, coçando a garganta. — O senhor Damian Doppelganger — Klí levantou as sobrancelhas — Foi assim que o seu marido se registrou aqui, há 1 ano e meio. É ele quem deposita o aluguel todos os meses. E, claro, o contrato foi feito no nome dele. O número do apartamento é...
— 203? — completou por ele.
— Isso. — desviou a atenção da tela.
— Imaginei.
— E ele tem o costume de vir aqui todos os dias depois das cinco horas.
Finalmente estava explicado aí o motivo de tantas horas extras no trabalho. Como nunca se deu conta de nada?
Fez sinal com as mãos para que ele prosseguisse.
— E ele sempre traz presentes. Quando não é um buquê de rosas, é um daqueles presentes caros, sabe? Outro dia ele trouxe um embrulho grande para o apartamento. Parecia ser bem pesado inclusive, fiquei bem curioso para saber o que tinha dentro.
— E o que mais?
— Bom, não é algo totalmente concreto, mas eu soube pela Charlene que é grande amiga da dona Sheila, que é vizinha da dona Taylor, que é vizinha de cima da moradora do 203...
Umedeceu os lábios, começando a se incomodar com a enrolação.
— Que eles se apresentam como casal, sabe? Mas não casal de namorados, casal de casamento mesmo. Eles até ganharam a competição de melhores dançarinos no baile aqui da esquina, se destacaram entre os outros casais pela beleza e desenvoltura.
— Beleza e desenvoltura? Hum! Sinceramente...
“Ainda bem que honestidade não era um dos critérios de seleção!”
A mulher arrumou a franja, que caia sobre seus olhos, logo dizendo:
— Mas me diga, tem mais alguma informação relevante? Sobre ela?
— Olha, a moradora do 203 é muito discreta quanto a sua vida pessoal. Só sei que ela se mudou para essa cidade há uns 3, 2 anos no máximo e trouxe uma filha dela com ela. Ela nunca comentou quem era o pai quando uma das fofoqueiras de plantão a perguntou, então não vou poder te informar se o seu marido tem peso de paternidade aí. Sem contar que, na minha opinião, ela é uma belezura, moreno dos olhos azuis. Olha!
— Certo — assentiu. — Mais alguma coisa?
— Isso é o máximo que posso fazer por um deposito de 200 dólares, mas se a senhora quiser mais informações.
— Agradeço, mas já sei o suficiente. — respondeu, lhe entregando a quantia pedida. — Tenha uma boa noite.
— Igualmente e disponha. — falou e viu a bela mulher se retirar da sala. — Bonita, mas bem doidinha essa dona. — retornou a leitura de sua revista.
— — —
Que todas essas descobertas de uma vez estavam deixando Klívia doida, isso nem ela poderia negar, mas olhe só para sua atual situação: Escalando um muro de uma altura considerável, num ponto cego das câmeras, para conseguir invadir a área de lazer do condomínio.
Damian ainda pagaria caro por isso!
“Eu deveria ter contratado um detetive particular” — essa era a única certeza que carregava consigo quando passou a segunda perna pelo muro, ficando assim sentada no mesmo, e pulou. Tendo a queda abafada por uma moita.
Conseguiu escutar o som de uma música pop baixa tocando, ele parecia sair de um pátio central entre os quatro apartamentos existentes. Enxergou bexigas coloridas e uma luz led roseada, vinda dali.
Aproximou-se, seu extinto lhe guiava, dizendo que Damian, por alguma razão, se encontrava ali.
Ao chegar, ainda abaixada, viu a garota jovem, que o recepcionou, sentada em uma das mesas, parecendo pouca entretida em seu celular, enquanto suas pernas freneticamente balançavam.
— Por que eles estão demorando tanto? Será que nenhum dos meus amigos vão vir? — perguntou para si mesma, roendo as unhas. Sua voz era grave e doce.
Atrás da mesa onde ela se encontrava, se localizava a mesa com o bolo cenográfico e guloseimas, os escritos “Ashley – 14 anos” em letras maiúsculas e em papéis vermelhos brilhantes eram grudados nas paredes. Haviam poucas pessoas presentes — possivelmente parentes próximos, como tias, primos e amigos próximos de seus pais —, pareciam estar terminando de arrumar a decoração.
— A Angela vai me zoar até o final do ano se descobrir que minha festa foi um fracasso!
— Não se preocupe meu, minha princesa — uma voz masculina surgiu. — Que, mesmo se ninguém comparecer, eu estou aqui para fazer deste, o seu primeiro aniversário que passamos juntos, como o mais incrível de todos!
Era Damian, que surgira segurando uma mesa de plástico. Ele estava de short jeans bege e uma blusa cavada esverdeada. Klívia ficou boquiaberta, nunca havia o visto com trajes tão informais, mesmo de férias, dentro de sua própria residência.
— É, isso parece legal — sorriu fraco.
— Não está animada para passar o dia de hoje comigo? — deixou a mesa que carregava de lado e juntou-se à ela.
— Não, não é isso... é só que, eles me prometeram que estariam aqui. Sabe, eu não tenho muitos amigos e então eles são os únicos que eu posso confiar de olhos fechados. Eu criei tantas expectativas sobre eles que estou com medo delas se quebrarem hoje.
— Sabe — colocou a mão em suas costas. — Confiança é uma coisa preciosa. Então, devemos procurar nunca quebrar a confiança que alguém tem na gente. Se eles forem mesmo seus amigos, eles vão cruzar aquela porta e estarão aqui, comemorando e se divertindo com você. — ergueu seu queixo com o indicador. — Você é incrível, Ash, acredite quando eu digo isso. E caso eles não compareçam, seja clara, diga que eles te magoaram e, se for preciso, corte-os de sua vida sem pensar duas vezes. Alguém que quebrou sua confiança não é digno de seu esforço.
— Obrigada. — a garota o abraçou, sentindo-se reconfortada por suas palavras.
Ainda agachada na moita, Klívia travou o maxilar. Era de fato belas palavras, chegava a ser uma pena ele não colocar em prática aquilo que pregava.
Farta daquilo, levantou-se, ajeitou o cabelo, retirando algumas folhas que ficaram presas no mesmo, e veio, lentamente, ao encontro deles.
— Olá Damian — chamou enquanto ele ainda abraçava Ashley. — Há quanto tempo você vem se encontrando com outra?
— Klívia? — se alterou, se levantando e se virando depressa para trás, a olhando com os olhos arregalados, escondendo a menina de olhos verdes para atrás dele. — O que você está fazendo aqui?
— Achou mesmo que eu nunca saberia de todas as coisas que vinha escondendo de mim?
— Você está entendo tudo errado! — ele quase gritou. Tentou alcançá-la, mas Klívia deu um passo para trás.
— Eu entendi?
— Sim.
— Então me explique! — perguntou para ele, de cabeça erguida, olhando fixamente em seus olhos. Olhar esse que Damian não conseguiu manter, rapidamente o desviando. Talvez por culpa ou simplesmente vergonha. — Anda, Damian, eu quero uma explicação agora, merda! — praguejou exasperada.
— Ashley, tá tudo bem? — uma figura muito conhecida para a Wayne apareceu diante de seus olhos; usando um vestido curto rosa claro, salto alto, para compensar a baixa estatura, com os cabelos agora tingidos de preto. Ela a encarou tão chocada quanto ela.
— Tara?!
Encontrava-se desacreditada. Nunca imaginaria que justo naquela noite ela reencontraria sua velha amiga da adolescência, Tara Markov, pela primeira vez depois de um período de quase 15 anos.
Ela nunca soube ao certo o motivo pelo qual fez a amiga se afastar tão repentinamente da equipe, apenas alegando, meses depois, em uma carta, que estava bem e que havia conseguido uma promoção repentina no escritório da Scotland Yard em Londres, e o aceitou para a satisfação de seu pai, um aposentado detetive renomado da região. Apesar de desconfiada, ela concordou com a amiga, sem se opor.
Seus olhos transitam de Damian, para Tara, para Ashley e retornam a Damian. Notou as semelhanças, os olhos verdes marcantes de Damian, o cabelo num tom de preto semelhante ao do cônjuge, somado a pele clara, ao formato do nariz e aos lábios carnudos herdados da Markov. Sua altura, mesmo com a pouca idade, era superior alguns centímetros que a da mãe.
Klívia umedeceu os lábios.
— E-eu acho que já entendi, eu que estou fazendo papel de trouxa aqui, não é mesmo? — sentiu as primeiras lágrimas embaçarem seus olhos.
— Klí — Damian chamou, tentando uma nova aproximação.
— Não encosta em mim! — gritou ela, num misto de raiva e repulsa. — Como pôde fazer isso comigo? Eu confiei em você, e em você também — apontou para Tara. — Você era a minha melhor amiga, como pôde fazer isso comigo? Foi por isso que foi embora sem dar explicações para ninguém?!
— Klí, eu sinto muito...
— Não, você não sente. — dirigiu-se novamente ao adultero. — É essa a confiança que você tanta prega para sua filha, hein Damian?! É esse o exemplo que você quer dar para ela?! “Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. — engrossou a voz, numa falha tentativa de imitá-lo. — Alguma vez já mencionou para ela que é casado? Que ela tem outros 3 irmãos?
— Não envolva a Ash no meio disso.
— É impossível não envolver!
— Pai, o que tá acontecendo? — murmurou a garota, abraçando o próprio torso. Ela não era a única ali que estava perdida, as demais pessoas que organizavam os últimos preparativas também observavam a cena, perplexos.
— Não é nada querida — Tara sussurrou em resposta para a filha e beijou o topo de sua testa. — Vá até a porta, por favor, seus amigos já devem estar chegando.
— Mas...
— Depois a gente conversa melhor com mais calma. — disse firme. — Ashley, apenas faça o que eu pedi
A garota concordou, fingindo se retirar do recinto. Subiu a primeira escada e se escondeu em uma parede que intercalava o primeiro andar de escada com a segunda. As demais pessoas também fingiram se dispersar para deixá-los mais à vontade.
— Pode me deixar falar? — Tara pediu, parando ao lado de Damian.
— Foi para isso que vim — sorriu falso.
Tara suspirou fundo e olhou para Damian uma última vez antes de iniciar sua explicação. Damian assentiu com a cabeça, incentivando-a.
— Bem, eu estava bêbada, nós dois estávamos bêbados naquela noite. O Sr. Wayne deu um jantar de final de ano e convidou a família e os conhecidos. Você e o Damian tinham tido a primeira briga depois do casamento, e eu estava chateada por ver o Garfield e a Rachel juntos, mesmo que já fizessem 6 meses que Gar e eu tivéssemos terminado. Daí você foi embora junto com o Jaime e a sua irmã. Eu estava no bar, bebendo, Dami se juntou a mim e a gente riu muito, demos um brinde para os nossos desastres amorosos, ficamos muito loucos de vodca e uísque e então, quando nos demos conta, já estávamos aos amassos no quarto de hóspedes — contou, suas bochechas ganharam uma tonalidade avermelhada.
Klívia fincou as unhas na palma da mão.
— Depois que isso aconteceu — Damian prosseguiu. — Eu e Tara combinamos que ainda seríamos amigos e não contaríamos nada para ninguém. Nem ao menos comentaríamos mais sobre isso entre a gente e assim se passou 3 meses, até a Tara me ligar desesperada no meio da madrugada.
— Faziam 3 meses que minha menstruação estava atrasada, ela nunca foi de fato regulada, mas sempre uma hora ou outra vinha depois de 2 meses, o que não havia acontecido aquela vez. E somado ao fato de que estava começando a ter leves enjoos e o cheiro da manteiga de amendoim estar me dando ânsia, comecei a ficar desconfiada.
Tara descansou a mão direita no seu braço esquerdo, antes de dar o veredicto:
— Eu engravidei. Tive a comprovação disso num teste de farmácia que eu fiz. Depois, tive a comprovação de novo quando marquei o exame laboratorial. Eu fiquei desesperada! Sem saber o que fazer, meu pai iria me matar — seus olhos marejaram. — E aí eu telefonei pro Damian, ele desde o primeiro momento me apoiou, me fazendo uma promessa de que não iria desamparar nem a mim e muito menos a nossa filha. Ele está cumprindo corajosamente ela até hoje. Por favor Klí, não brigue por ele ser um bom pai.
Klívia deixou uma lágrima escorrer.
— Um bom pai?
— É, amor. — pela primeira vez em anos, esse apelido carinhoso soou tão errado para os ouvidos da Wayne. — Eu te amo, Klívia, eu te amo muito, mas era a minha filha. Tente entender, não seja egoísta.
— Egoísta? Eu? Óbvio, como se não fosse você quem mentiu pra mim esse tempo todo.
— Não fale assim, não fale como se os nossos anos juntos tivessem sido uma mentira, porque não foram. O sentimento foi real, verdadeiro. Eu amei você e os nossos filhos em todo momento... apenas, tive que ocultar alguns fatos sobre o meu passado.
— Pare de dizer como se isso não fosse nada. Chega até mesmo a ser um desrespeito para Tara, mesmo eu não dando a mínima pra ela!
Tara abaixou a cabeça.
— Klí... — Markov murmurou.
— Não, chega, não quero mais ouvir. Agora é a minha vez de falar! — exigiu, cruzando os braços. Seus olhos voltam a se embaçar. — Eu deveria ter suspeitado desde o início. Os atrasos, os bilhetes, as joias compradas na nossa conta bancária que nunca vieram pra mim, o motivo de você sempre fazer questão de lavar as próprias roupas, dispensando os serviços da Diana. Me neguei em ver os sinais, porque tinha medo de perder a gente. Mas, eu te perdi de qualquer jeito, não é mesmo?
— Não fale assim...
Olhou-o, desgostosa.
— Eu não acredito que você foi capaz de fazer isso comigo.
— Eu sinto muito.
— É claro que sente. — fungou, dando um sorrisinho irônico. — Sabe, eu tenho uma pergunta, o que eu fiz para você para merecer isso? Eu sempre dei meu melhor para essa relação ir para frente, quanta coisa eu deixei de falar, deixei de fazer, pensando na gente, na nossa família. Você nunca pensou em mim nenhuma das vezes em que você vinha aqui se encontrar com ela, não é mesmo? Outra família, sério. — limpou as lágrimas com a manga da camisa. — Nunca esperei nada disso vindo de você. Eu estou decepcionada, mas é óbvio que você não liga para minha opinião. — deu de ombros. — Eu realmente sou uma otária.
— Nunca te vi como uma otária, nunca pensaria isso de você — ele inflou as narinas — Veja, apenas me parece que não está conseguindo entender a situação. Tá tudo bem, tudo no seu tempo, eu te garanto que irá compreender o meu lado. Eu amo você, amo a nossa família, como também amei a família que conquistei com a Tara. E eu gostaria muito de poder continuar assim, fazendo parte da vida de vocês duas, cada uma à sua maneira. — passou os braço esquerdo pelos ombro da Markov.
— Ah, então você gostaria?
— Sim, por favor. E agora que você sabe, vai ser mais fácil de poder consolidar melhor toda essa situação, olha vocês duas poderiam aprender a viver juntas apesar dos acontecimentos, voltarem a serem melhores amigas e… eu assumo a responsabilidade, apenas não me deixe.
— Isso realmente não é pra mim. Tem coisas que não tem como serem apagadas. Não tem sentido forçar algo que um dia naturalmente já foi, como a nossa amizade ou como o nosso amor.
— O que está querendo dizer com isso, amor? — seu olhar era de preocupação.
— Que você me enganou durante todo esse tempo. Por mais que eu tente, não consigo compreender como foi capaz fazer isso comigo? Você me destruiu e não parece estar nem um pouco arrependido por isso. A nossa história termina aqui Damian e nenhuma palavra bonita que sair da sua boca agora será capaz de reverter isso. — disse por fim, dando-lhes as costas.
Encaminhou para se retirar pela porta da frente, passando por Ashley no meio do caminho.
— Eu lamento muito garota, mas você tem pais horríveis — cuspiu.
A garota estava escolhida, analisando minuciosamente a situação. Era impossível não se empatizar, afinal ela não tinha culpa de nada nessa situação.
— Eu gostaria ter te conhecido em melhores circunstancias. Me parece ser uma boa garota. Apenas posso me lamentar por ter destruído o clima de seu aniversário. Enfim, foi um prazer te conhecer, apesar de tudo.
Ashley sorriu.
— Também foi um prazer.
Klívia assentiu e continuou seu trajeto, passando também pelo gabinete do porteiro Patrick que a olhou com os olhos arregalados, interrompendo-o enquanto devorava um donut de morango.
— Como a senhora...? — indagou falhoso, com a boca cheia de migalhas.
Klívia ignorou sua pergunta, proferindo somente:
— Avise aquele seu primo que ele acaba de ganhar uma nova cliente — saindo do recinto, com os olhos cheio de lágrimas e com o coração estilhaçado.
— — —
Evelly foi a primeira dentre as suas amigas que Klívia esclareceu toda a história, quando retornou para casa, aos prantos. A amiga a abraçou e a deixou chorar baixinho em seu ombro. No andar de cima, as crianças dormiam tranquilamente, sem imaginar que o casamento dos pais se encontrava em ruínas.
Nos braços da amiga, Klívia sentiu uma inexplicável vontade de chorar e gritar, ainda sentia-se inconformada com a revelação e o seu coração se apertava muito em seu peito. Aquela sensação de impotência e revolta ardia tanto, que chegava a se assemelhar com a sensação da dor física de um sangramento.
— Eu odeio ele, odeio ele — soluçou.
— Vai ficar tudo bem, ok? Agora vai ficar tudo bem — isso foi tudo que a amiga lhe disse entre os seus soluços.
No dia seguinte, a batalha foi explicar para as crianças — principalmente para Maddie — sobre a separação e o fato de que o pai não moraria mais no mesmo teto que eles.
Martha foi a que ficou mais furiosa com a atitude do pai. Tommy também se sentiu sufocado e frustrado com toda a situação, contudo o sentimento que mais o envolveu foi o de tristeza.
— E a nossa nova irmã, papai? — Maddie questionou. — Nós iremos conhece-la?
A curiosidade da caçula fez a mãe se encolher no sofá e apertar ainda mais a filha mais nova, sentada em seu colo na sala de estar. Klívia situava-se junto com os filhos no sofá em forma de L, enquanto Damian estava acomodado na poltrona em frente a eles.
— Em breve vocês irão conhecê-la, meu anjinho. Em breve.
Damian deu um beijo na bochecha de Maddie, bagunçou os cabelos de Tommy e foi friamente ignorado por Martha antes de terminar de recolher suas malas e ir embora.
Naquela mesma manhã, ambas as partes acionaram seus advogados para dar início a primeira entrada do pedido de divórcio.
Antes de sair, ele acenou para Klívia, que apenas abaixou o olhar.
Aquela foi a última vez que Damian atravessou a porta da mansão.
— — —
Três dias haviam se transcorrido desde a descoberta. Klívia estava assentada na cadeira da mesa de jantar, observando calmamente a noite pela enorme janela de vidro, chovia bastante do lado de fora. A vista era bela e trazia uma sensação acolhedora. Levou uma caneca de porcelana, cheia de chá a boca e bebericou o líquido morno.
Sentia-se sozinha e o silêncio da casa chegava a ser ensurdecedor.
No fim da tarde, Dick e Kory chegaram acompanhados de Mari, para conversar com Klívia e ver como todos estavam reagindo em relação aquilo.
— Ainda não acredito que meu irmão foi capaz de fazer essa presepada com você. — Dick disse. Ele e a esposa achavam-se no mesmo sofá onde o ex-casal deu a notícia para os filhos dias antes.
— Vocês dois sempre me pareceram tão felizes — Kory começou. — Nunca imaginei que ele fosse capaz de fazer isso com você, amiga.
— É, acho que eu não fui tão especial para ele quanto ele foi para mim — sorriu fraco. — Mas é a vida, né? Relacionamentos terminam e as crianças vão se acostumar com a ideia. — suspirou fundo. — Só fico me questionando o que eu fiz de tão errado para ele me enganar dessa maneira.
— Amiga, eu tenho certeza que você não fez nada de errado. — Anders tentou apaziguar.
— Ela tem razão. Meu irmão foi um babaca, ele é o único errado dessa relação. — Grayson complementou a esposa.
— 14 anos, Kory, 14 anos! É a idade que a outra filha dele tem. 14! Não acredito que ele me fez de boba durante todo esse tempo. E o pior de tudo, é que eu sei que ele nunca vai se arrepender pelo jeito que me machucou. — tratou de secar rapidamente uma lágrima que escorreu. — Me desculpe.
— Tudo bem — Kory massageou seu joelho. — Tá tudo muito recente ainda, pode chorar, não vamos te julgar. Nunca faríamos isso. Você pode não ser mais cônjuge do Damian, mas ainda faz parte da nossa família. — assegurou.
Agora, Klívia se encontrava ali. Sozinha, naquela casa silenciosa. Deu mais um gole no chá e aumentou o volume de Rolling in the deep, canção de Adele, que tocava no rádio, cuja letra representava muito bem o misto de emoções que a consumiam.
Dobrou os braços na mesa e acariciou o buquê de flores que sua melhor amiga, Beatriz, a havia encaminhado no dia anterior. Ela soube através de Evelly e logo preocupou-se com o bem-estar da ex-Wayne.
Beatriz nunca havia de fato ido com a cara de Damian. Ele sempre lhe pareceu suspeito e chato, porém como a amiga estava feliz, disfarçou seu descontentamento durante os últimos anos, até os xingamentos voltarem com força no início semana.
Junto ao buquê havia uma carta:
Oi amiga, eu soube o que aconteceu com você e até agora estou desacreditada, eu sempre desconfiei do comportamento dele, pelo modo que ele olhava para outras mulheres, mas nunca pensei que ele fosse capaz disso. Enfim, agora não é momento para isso.
Saiba que para o que vier a precisar, estarei aqui, para te ouvir e te acolher, ok? Eu espero encarecidamente que você fique bem. Você é forte, destemida e capaz, tenho certeza que logo conseguirá sair desse trauma mais confiante do que nunca.
Mandei essas rosas brancas para te alegrar, espero que goste. Sei que elas são suas favoritas e carregam um significado para ti. Veja-as agora como um recomeço de uma nova vida próspera e feliz.
Você merece tudo de bom, merece encontrar alguém que realmente te ame e te cuide, sem omissões.
Dias melhores virão!
Com amor, Bia
Sorriu com o escrito. Era grata pelo apoio dos amigos de ouro possuía e, por mais que ainda doesse, sentiu-se otimista em relação ao futuro.
O celular notificou a chegada de uma nova mensagem. Ao conferir, se deparou com uma mensagem inusitada de Jason Todd — irmão adotivo de Dick e Damian.
Eram meramente conhecidos, raramente se encontravam pessoalmente durante os jantares que Bruce promovia em sua mansão e seus cumprimentos não passavam de um “oi, como está?” por educação, nunca passavam disso. Portanto não imaginou que ele tivesse seu número.
Pressionou a notificação.
Klívia, tudo bem?
Você e meu irmão terminaram, fiquei sabendo do motivo
Muito vacilão ele!
Eu nunca teria coragem de fazer isso caso fosse casado com uma mulher como ti
Queria saber se está disponível agora para sairmos para beber e conversar melhor sobre isso?
Ela sorriu. Apesar das turbulências, estava na ativa. Pronta para se permitir embarcar até onde essa aproximação pudesse a levar, sem medo.

