The Long and Winding Road
The Long and Winding Road
Capitolo 27 min di lettura

Unchained Melody

Bella voltou do funeral improvisado como quem atravessa um nevoeiro espesso demais para distinguir formas ou sons. A bandeira dobrada estava agora sobre a cômoda, ocupando um espaço que jamais deveria existir ali, e a casa — sempre cheia demais de vozes, crianças e passos — parecia suspensa num silêncio quase artificial, como se o mundo estivesse prendendo a respiração por respeito ou por pena. Anthony dormia no quarto ao lado, exausto de chorar sem entender completamente o que perdera, e as mulheres haviam insistido em ficar até que Bella se deitasse, mas ela não se deitou. Não de verdade. Apenas caminhou até o quarto e fechou a porta atrás de si, como se aquele gesto simples pudesse conter a devastação.

A cama estava impecável.

O lado de Edward permanecia exatamente como ele deixara antes de partir: o travesseiro alinhado, o lençol esticado sem uma única dobra fora do lugar. A cabeceira exibia a fotografia da família — ela sentada no jardim com Anthony no colo, Edward atrás deles, as mãos apoiadas nos ombros dela, o sorriso torto que sempre surgia quando tentava parecer sério demais. Ao lado da foto, o terço que Esme lhe dera antes da segunda partida, o relógio de pulso que Carlisle lhe presenteara ao concluir a faculdade de medicina, tudo organizado com a precisão quase obsessiva que o caracterizava. Edward sempre fora metódico, como se pudesse controlar o mundo ao seu redor através da ordem dos objetos.

O violão descansava encostado na janela, as cordas silenciosas, mas ainda tensas, como se aguardassem os dedos dele para despertar novamente. Ele costumava sentar-se ali nas noites quentes, cantarolando baixinho para ela enquanto Anthony adormecia no berço, a voz grave preenchendo o quarto com promessas simples demais para o tamanho da vida que enfrentavam.

Bella aproximou-se da cama e sentou-se no lado dela, encarando o espaço vazio ao lado. Estendeu a mão e tocou o travesseiro dele, pressionando-o como se ainda pudesse encontrar calor ali. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. Ela respirou fundo, fechou os olhos, mas o sono não veio. Não viria.

Depois de longos minutos que se estenderam como horas, ela se levantou e caminhou até o armário. Abriu as portas devagar, quase pedindo permissão. As roupas estavam alinhadas por cor, por tecido, por ocasião. As camisas sociais à esquerda, as casuais ao centro, os casacos pendurados com espaçamento idêntico entre um e outro. Bella passou os dedos pelos tecidos até parar em uma camisa azul clara. Era a que ele usara no dia em que ela lhe contara sobre a segunda gravidez. Lembrava-se da maneira como as mãos dele tremeram levemente antes de segurá-la pela cintura e rir, um riso incrédulo e emocionado ao mesmo tempo.

Ela levou a camisa ao rosto e aspirou o perfume que já começava a se dissipar. Fechou os olhos. Por um segundo doloroso, quase conseguiu fingir que ele estava apenas atrasado.

Mas o silêncio respondeu.

Bella ergueu-se nas pontas dos pés e alcançou a parte superior do armário, puxando a primeira caixa de madeira onde guardava as cartas. Sentou-se no chão, a barriga pesando contra as coxas, e abriu a tampa com cuidado reverente. Ali estava o passado, organizado em envelopes amarelados pelo tempo, amarrados com fita azul.

Pegou a mais antiga.

20 de junho de 1959.

Ela reconheceria a própria caligrafia em qualquer lugar — firme demais, quase desafiadora.

Ao abrir o envelope, o quarto desapareceu.

E o verão voltou...


O dia estava quente demais para qualquer atividade que exigisse esforço, mas a cidade parecia pulsar com a energia despreocupada da juventude. Era aniversário de dezoito anos de Edward Cullen, e a notícia correra entre os amigos como se fosse um evento nacional. Dezoito anos significavam muitas coisas: liberdade parcial, responsabilidade iminente, e para Bella, um medo silencioso que ela ainda não sabia nomear completamente.

Ela tinha dezessete.

Usava calças jeans de cintura alta e uma camisa branca de mangas dobradas, enquanto as outras garotas insistiam em vestidos rodados e cinturas marcadas. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo despretensioso, e um livro descansava aberto sobre o colo enquanto ela fingia ler na varanda da frente. Fingir, porque a cada poucos segundos seus olhos escapavam para a casa em frente.

Edward atravessava o jardim com Emmett e Jasper, rindo alto demais de alguma piada interna. Emmett gesticulava exageradamente, quase tropeçando nos próprios pés, enquanto Edward balançava a cabeça, sorrindo daquele jeito que sempre fazia o estômago de Bella apertar de maneira irritante.

— Você vai continuar fingindo que não está olhando? — Alice apareceu ao lado dela, girando o próprio vestido com leveza.

— Estou lendo — Bella respondeu sem levantar os olhos.

— Claro que está. Pela décima vez na mesma página.

Bella bufou e fechou o livro com força controlada.

— Ele é só o melhor amigo do meu irmão.

— Ele é apaixonado por você desde que tinha doze anos — Alice rebateu, sorrindo com malícia suave. — A cidade inteira sabe disso.

Bella levantou-se, atravessando a rua antes que pudesse reconsiderar. Cada passo parecia uma decisão tomada tarde demais.

Os rapazes interromperam a conversa ao vê-la aproximar-se. Emmett abriu um sorriso largo.

— Vejam só, a intelectual resolveu sair da biblioteca.

Jacob Black e Paul Lahote riram ao fundo, enquanto James Platt inclinava-se contra o capô do carro, avaliando-a com aquele olhar típico dos garotos da época, como se fosse um prêmio a ser conquistado.

— Feliz aniversário, Edward — Bella disse, mantendo o queixo erguido.

Ele ficou subitamente sério, como se aquele simples cumprimento fosse mais importante do que qualquer festa.

— Obrigado, Bella.

Havia algo diferente naquele olhar. Não era apenas admiração juvenil. Era expectativa.

Mais tarde, quando o sol começava a descer no horizonte e os amigos se dispersavam para organizar a pequena celebração improvisada no quintal dos Cullen, Bella chamou Edward para o lado da casa, longe das risadas.

Ela lhe entregou o envelope.

— É só… uma carta — explicou, evitando encará-lo diretamente.

Edward abriu ali mesmo, os olhos correndo pelas linhas escritas com cuidado excessivo. O silêncio entre eles tornou-se denso, carregado de algo que nenhum dos dois fingia mais ignorar.

— Você escreveu que me ama — ele disse finalmente, a voz mais baixa.

Bella sentiu o coração bater no pescoço.

— Escrevi.

— Você nunca diz isso.

— Talvez eu estivesse esperando você fazer dezoito anos para levar a sério.

Ele deu um passo à frente.

— Eu sempre levei você a sério.

O vento soprou entre eles, levantando uma mecha do cabelo dela. Bella manteve o queixo erguido, mas os olhos brilhavam com vulnerabilidade que só ele parecia perceber.

— Eu quero o mundo, Edward — ela disse, quase como um aviso. — Quero escrever. Quero sair daqui. Não quero ser só… esposa de alguém.

Ele não hesitou.

— Então eu vou ao seu lado. Onde quer que seja.

Foi ali, sob o céu alaranjado de junho de 1959, que o primeiro beijo deles aconteceu — desajeitado, urgente, jovem demais e sincero demais para caber no futuro que os aguardava.

Eles ainda não sabiam.

Que em poucos anos trocariam discussões sobre The Beatles e The Rolling Stones por silêncios pesados.

Que a palavra “convocação” destruiria o verão.

Que promessas feitas com dezoito anos seriam testadas pelo fogo.

Mas naquela noite, enquanto Edward encostava a testa na dela e murmurava que passaria o resto da vida tentando ser digno da carta que recebera, tudo o que existia era o presente.

E o presente era amor.

E o amor, naquela idade, parecia suficiente para vencer qualquer guerra.