the friday
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Chapter 112 min read

Capítulo 1 - De onde ele veio?

M — John chega, vamos parar um pouco, minhas pernas doem, minha cabeça parece que vai explodir, esse maldito platô parece que está cada dia mais quente, essas malditas expedições do Challenger, estou cansada, com fome e com sede.

J — Está bem, está bem, mas só porque se continuar reclamando desse jeito quem terá dores de cabeça serei eu. Aliás não estaríamos andando nesse calor se a vossa alteza tivesse acordado mais cedo.

M — Ah Claro! Agora a culpa é minha, é sempre culpa minha mesmo! Se eu tivesse acordado mais cedo, se bem me lembro o responsável por isso tudo é você mesmo, que me fez dormir tarde, você é culpado Lord Roxton, não eu.

J — Você não parecia estar reclamando não é mesmo Marguerite? Aliás tenho impressão que até queria mais.

M — Pois, teve a impressão errada, você me viu pedindo mais?! Não, então não tire conclusões precipitadas. Agora vamos logo com isso, mal posso esperar para chegar em casa, não aguento mais esse calor.

O caçador percebendo que Marguerite não estava de bom humor, preferiu não mais provocá-la, ou do contrário ela poderia muito bem deixa-lo falando sozinho e sair andando rumo a casa da árvore ou se perdendo e arrumando encrencas, que era o que menos precisavam no momento, e que obviamente não seria a primeira vez que aconteceria. Ambos seguiram calados, rumo a um riacho próximo, não só para se refrescarem, mas também para reabastecerem seus cantis e seguirem de volta para a casa.

Desde a partida de William há aproximadamente 01 mês, o casal havia reatado o seu compromisso, agora vivendo sobre o mesmo teto como “marido e mulher”, o relacionamento dos dois iam de vento e poupa, claro não deixaram seus costumes de lado, sempre tinha um joguinho aqui um ali, uma troca de olhar, e a cumplicidade, Malone e Verônica também viviam agora como casados, até porque de fato eles realizaram a cerimônia, diferente de Marguerite e Roxton, que decidiram esperar mais alguns meses, a alegria era nítida no rosto de cada um dos exploradores, enquanto que em contrapartida Challenger passava mais tempo no laboratório ou com suas invenções se comparado há algum tempo atrás, mais calado ou reservado, e por vez ou outra comentando algo sobre sua esposa Jessie. Marguerite tinha pra si que tais mudanças de comportamento do cientista estava relacionado a saudades, assim como tinha a consciência de que não poderia mais protelar a volta dos exploradores por muito mais tempos, até por conta do carinho que carregava pelo cientista, sabia que teria que encarar o seu passado e voltar pra Londres antes mesmo que desejasse, o amigo precisava disso, ele havia sido compreensível quanto a aguardar mais tempo, até que ela tivesse uma boa quantia de pedras, no entanto dada as circunstâncias isso não estava longe de se tornar uma preocupação de todos.

No rio o casal se refrescava e aproveitava o momento para descansar um pouco, mesmo a expressão de Marguerite parecia ter suavizado, havia tirado às botas e camisa de cima, sentada a beira do rio molhando os pés, com um lenço úmido passando no busto, a água estava na temperatura ideal, gelada e com calor que vinha fazendo, a herdeira não perdeu tempo para se deleitar daqueles minutos de tranquilidade, além de estar segura, com John próximo encostado sobre a sombra de uma árvore, atento a qualquer movimento, nada poderia acontecer ou dar errado, talvez.

M — John a água está maravilhosa, porque não vem se refrescar um pouco?

J — Não, acho melhor não. Notou como está tudo quieto por aqui?

M — E isso significa perigo, certo?

J — Ainda não sei, mas vou descobrir. É melhor se vestir. Você fica aqui e eu irei dar uma volta nas proximidades.

M — Você vai se meter em encrencas ou pior nos meter em encrencas, como sempre faz.

J — Não se eu souber o que estou fazendo e outra não falei que estamos em perigo, apenas está tudo muito quieto.

M — Ah sim claro e quantas vezes não falou isso e nos metemos em encrencas mesmo John?

Roxton apenas encarou a herdeira que a contragosto se vestia, o caçador naquela manhã parecia tão mal humorado quanto a própria Marguerite, ao ponto que já começava a se perguntar se isso era a convivência ou apenas o calor que estava demasiado no platô por aqueles dias. Poucos minutos depois empunhou o seu rifle, enquanto Marguerite tomou seu lugar, já de saída para averiguar às proximidades, passou as últimas recomendações.

J — Volto em 15 minutos, caso eu não voltar vá para casa da árvore buscar os outros. E tome cuidado enquanto ficar por aqui também, está certo?

M — Certo, como quiser Milord.

Nas proximidades encontrou não muito longe dali um T­Rex devorando o seu almoço, um triceraptor que possivelmente havia decidido lutar e infelizmente teve um feliz destino, o predador aparentemente faminto, sequer notaria se Roxton passasse ao seu lado, mas ainda que isso fosse possível, era melhor não arriscar, bom este deveria ser o motivo do silêncio. Voltando ao seu ponto de partida, rumo ao local que havia deixado a herdeira, para seu desespero Marguerite havia “desaparecido”.

J — Mas que droga Marguerite, no que se meteu dessa vez?!

Recordando-se que próximo daquele rio havia uma caverna cheia de pedras preciosas encravadas nas paredes e os rastros como esperado, o levaram até lá. Pois bem, a herdeira escavava algumas das pedras na entrada da caverna, não acreditava no que via, como ela podia ser tão irresponsável às vezes, ele a deixou por 15 minutos apenas, para não a encontrar no lugar de volta, andando por aí sozinha em lugar que ambos sabiam dos riscos. Ele apenas a observava em silêncio, ela sequer o viu, estava “ocupada” demais, com intuito de chamar sua atenção o caçador começou a bater palmas, o que a fez de imediato olhar para entrada da caverna e ver o caçador, sendo visível sua insatisfação e desaprovação.

M — John?!

J — Marguerite?!

M — Olha não é o que você está pensando.

J — Ah não, nunca é.

A herdeira dessa vez estava errada e sabia disso, mas ela tinha que recolher aquelas pedras, até porque quanto mais, melhor. Porém sabia que se esperasse John retornar, ele não a acompanharia, por isso foi sozinha, só que se esqueceu do pouco tempo que tinha.

J — Então Marguerite, qual é a explicação dessa vez?

A herdeira que até então estava de cabeça baixa, a levanta para encarar o caçador e também como sinal de “redenção” levanta os braços para cima.

M — Está bem eu saí para pegar às pedras, simples assim, se fosse te esperar você não viria mesmo. Vim sozinha, até porque não preciso de nenhum cão de guarda.

J — Sabe Marguerite você é mulher mais teimosa, mais cabeça dura que já conheci. Quando vai aprender que nesse lugar não se pode sair por aí andando sozinha? E pior, por causa dessas pedras?

M — Nunca, ou melhor até que você aprenda Lord Roxton que essas pedras valem como uma forma de quitar boa parte das minhas dívidas e que não preciso de ninguém, mas como isso nunca vai acontecer, nunca aprenderei suas “lições”.

Ambos se encaravam, um querendo dar uma resposta mais atravessada que a outra, definitivamente aquele não era um bom dia para os seus jogos. No intuito de desviar os olhares, para evitar mais uma discussão, John olho para o lado, para todas as aquelas pedras, quando reparou que dois olhos brilhavam no escuro, se aproximando de ambos, mais ainda da herdeira, do que a si próprio, Marguerite percebeu o olhar do caçador e logo deduziu que pela sua expressão havia algo atrás de si.

M — Certo tem algo atrás de mim, não tem?

J — Sim, eu não sei o que é, sugiro que faça movimentos leves e vamos sair daqui devagar.

M — Está bem.

O caçador começou a andar de costas, os movimentos mais leves possíveis, assim como a herdeira a sua frente o seguia. O animal atrás de Marguerite, emitiu uma espécie grunhido, que ecoou por toda a caverna, além de inexplicavelmente correr em sua direção, a mulher obedecendo um sinal do caçador, saiu correndo da caverna, assim como o próprio de mãos dadas, ao se distanciarem o suficiente da entrada e já respirando ambos mais aliviados.

M — John o que era aquilo?

J — Eu não sei Marguerite, mas veio em sua direção e a primeira coisa que pensei foi em tirá-la de lá.

Antes que a herdeira pudesse responder algo, ela sentiu como se fosse pequenas garras a prendendo ou a arranhando em sua perna direita. O que a fez soltar um grito não de dor, mas de surpresa, que logo alarmou o caçador que em questão de segundos estava ao seu lado verificando o que havia acontecido e também a protegendo.

J — Um gato? Aqui no platô?

Um gato grande não propriamente em peso, mas em tamanho, cinza com listras, e os olhos da cor azul, como duas safiras. A herdeira no momento que percebeu o gato que John segurava não teve dúvida alguma, era o seu gato, gato o qual havia deixado em Londres.

M — John esse gato é meu.

J — Seu?! Ora Marguerite até entendo que tenha gostado do animal, assim como ele gostou de você, mas sabe que não podemos levá-lo para casa.

M — Não John, ele é meu mesmo. Até hoje não vimos espécies de gatos aqui no platô, nenhuma, esse gato que está segurando é o meu gato, eu o deixei em Londres quando partimos.

J — Se o deixou em Londres, como ele estaria aqui?! Mais um motivo para crer que ele é só um animal desde platô, e outra não se esqueça que até hoje o platô é um mistério, não podemos acreditar em tudo que vemos.

M — Sabe John... Às vezes você até parece o Challenger falando de seus experimentos. Porque não olha a coleira do gato?

J — Coleira?

M — É John, coleira, é esse pequeno detalhe azul escuro, envolta do pescoço do animal, sabe geralmente indica os dados do dono e do animal.

J — Eu sei o que é uma coleira Marguerite, só não reparei que esse… Bem que esse gato usava uma.

M — Ótimo, então agora percebeu, porque não vê o que está escrito.

Alguns segundos depois...

M — Então? O que diz?

J — A paciência é uma virtude.

M — Esta bem, já chega, deixa que eu mesma vejo isso. É só uma coleira.

J — Então pegue e faça como falou, já que não sabe esperar.

O gato quando se viu no colo de Marguerite, se aninhou e logo começou a emitir ronrono, a herdeira tinha um sorriso de canto nos lábios, verificando os dados e constatando que de fato era seu o gato.

M — Nome Sexta feira, número de registro 280768, Dono ou melhor dona Baronesa Von Helsing. Então o que tem a dizer?

O caçador não podia acreditar no que ouvia, mas os que seus olhos viam, era incontestável, ainda que no platô houvesse gatos, certamente não seriam domesticados, não como aquele e os dados, ou melhor só o nome a quem ele pertencia.

J — Está bem, digamos que eu acredite que esse gato é seu, até porque acho que não tem muito como eu negar, de onde ele veio? Porque daquela caverna não foi, sabemos que lá não tem saída.

Marguerite pensou e se negou a acreditar no que lhe ocorreu, nem ela mesmo sabia de onde ele havia surgido, mas não estava machucado, na verdade até cheirava bem, como se tivesse chego a pouco tempo no platô, então algo surgiu em sua mente, depois da primeira noite que ela e o caçador haviam ido até Avebury dançar, eles foram outras mais, incluindo a noite passada, só se por alguma falha do Oroboros ou dela, o qual não seria a primeira vez a acontecer, o gato tivesse ido parar no platô.

J — Marguerite, não temos o dia inteiro para ficarmos aqui procurando explicações.

M — Mas que droga John! Não é você mesmo que falou há pouco que paciência é uma virtude. Pois bem, não preciso procurar explicação nenhuma. Acho que sei o que houve. Se lembra que o Oroboros pode apresentar falhas, foi isso que aconteceu, durante a nossa viagem essa noite, trouxemos o Sexta feira sem querer.

J — Se foi isso mesmo que aconteceu, é só levá-lo de volta então.

M — Não John, não podemos, uma por ser dia é mais fácil de nos reconhecermos e outra porque pode apresentar outras falhas. Não sabemos de onde partiu essa falha. Eu não me lembro de ter pensado no Sexta Feira, o que nos leva a crer que às falhas então vem do próprio medalhão.

J — Está bem, concordo com você, mas sabe que também não podemos aparecer assim com um gato domesticado que surgiu do nada em casa.

M — Então o que sugere? Não vou deixá-lo no meio desse lugar para ser morto e virar comida de dinossauros.

J — Talvez esteja na hora de contarmos a verdade para eles.

M — Está sugerindo de contarmos tudo, das nossas noites na sociedade? Challenger vai querer voltar para Londres, sabe disso, o quanto antes e eu ainda tenho às minhas dívidas e às minhas pedras não são suficientes para pagar todas, você sabe disso e não poderei aparecer em público.

J — Ei, ei… Eu sei de tudo isso, eu não vou permitir que nada te aconteça, nem aqui nesse platô, nem lá em Londres, ou onde quer que seja. Vamos resolver isso juntos certo, como sempre resolvemos, mas eles também devem saber do que está acontecendo e tenho certeza que irão entender os motivos.

M — Espero que esteja certo, porque tudo o que menos precisamos agora é mais problemas e se algo der errado, vou falar que a culpa a sua Lord Roxton.

J — Porque será que isso não me surpreende?!

Marguerite apenas fez uma careta, um suspiro profundo, um pequeno gesto que dizia ao caçador que a mulher estava preocupada, que muito mudaria daqui em diante e também, o suficiente para chegar ao fim das suas brincadeiras pelo dia, John depositou um beijo carinhosamente na bochecha da herdeira, como sinal de que tudo daria certo, e que como sempre estaria ao seu lado, e assim ambos seguiram para casa da árvore, agora com um animal de estimação, que só pelo modo como dormia no colo de Marguerite, dizia o quanto era apegado a ela, mas também um lembrete, de que novos problemas e aventuras estavam por vir.