Donna esperou alguns minutos até que tocassem os sinos, marcando o início das aulas, e saiu. Aquela era sua hora favorita do dia, sair da escola fria e escura e ir até o armazém em que eles haviam deixado a Tardis. Dez ou quinze minutos de caminhada era tudo o que ela precisava para rever sua caixa azul favorita. Donna destrancou a porta e entrou, reconhecendo o painel de controle e sentindo o conforto de estar num lugar tão familiar, praticamente seu lar desde que ela havia se juntado ao Doutor em suas aventuras.
— TARDIS doce TARDIS — disse Donna, acariciando os controles, antes de começar com suas tarefas diárias.
Primeiro um banho. Um banho numa banheira decente, com espuma, água quente e xampú, todas as maravilhas do século XXI que Donna tinha o direito de usar. Depois roupas confortáveis, nada de espartilho. Apesar de se sentir sexy e elegante com o espartilho, nada lhe dava mais alívio do que dispensá-lo por algum tempo. Calças jeans e uma blusa de malha, eram muito mais fáceis de usar. E então Donna estava pronta para ler seus chick-lits na biblioteca ou relaxar nos jardins. Apesar de Donna sempre aproveitar aqueles momentos, era estranho estar sozinha na Tardis sem o Doutor. Ela sentia falta dos momentos em que ele aparecia para descobrir o que ela estava lendo, ou quando lhe contava alguma curiosidade sobre as plantas aliens dos jardins. Ao menos Donna tinha aqueles momentos para se distrair do fato de estar presa em 1913 até segunda ordem.
Antes que as aulas terminassem, a Tardis avisava Donna, que tinha que voltar à escola. Depois das aulas da manhã, John Smith sempre precisava de seu trabalho como secretária à tarde, seja datilografando seus livros, seja procurando algum livro ou artigo que poderia ajudar em suas pesquisas. Depois de trancar a Tardis, Donna sempre fazia questão de colher algumas peras no caminho. Donna sabia que se divertiria bastante quando ele recuperasse suas memórias e percebesse que havia comido peras todos os dias durante aqueles meses disfarçados. Ela mal podia esperar, na verdade.
Quando Donna voltou à escola, encontrou John no corredor, conversando com Joan Redfern, a enfermeira. Donna não suportava aquela mulher. Ela tinha um ar de ingenuidade e gentileza, sempre composta, sempre séria. No começo Donna até havia gostado dela, talvez pelo fato dela ser uma das poucas mulheres na escola. Como Redfern era viúva, Donna pôde lhe contar sobre Lance, mesmo sem citar a maluquice sobre a Imperatriz Racnoss. Donna achou que tinha realmente encontrado uma nova amiga naquele lugar.
Mas não demorou para que Redfern começasse a olhar para Donna com reprovação. Inicialmente era só um olhar, tão rápido que se ela piscasse não perceberia. Mas aos poucos Redfern não tinha outra expressão quando olhava para Donna que não fosse aquela pequena raiva mal resolvida. Às vezes Redfern até parecia Sylvia quando Donna chegava em casa tarde depois de virar a noite com as amigas ou não conseguia arranjar emprego. Mesmo quando Donna começou a viajar com o Doutor, ela sabia que sua mãe ainda estava decepcionada por ver sua única filha “desperdiçando sua vida”. Joan tinha o mesmo olhar.
Tudo só piorou quando Joan começou a repreendê-la pela forma como Donna falava com o Doutor, ou quando a criticou por conversar com as empregadas. Ela até mesmo delatou Donna para John, dizendo que as pessoas estavam “comentando”. Sinceramente, aquela mulher não tinha mais nada o que fazer na vida? Se não fosse o disfarce, Donna já teria deixado bem claro o que ela pensava sobre a enfermeira. Mas eles estavam em 1913, os costumes eram diferentes, e Donna não podia se arriscar a ser demitida. Como ela poderia tomar conta do Doutor se a expulsassem da escola? Então, contra todos os seus extintos, a ruiva começou a evitar a Sra. Redfern, antes que ela perdesse a cabeça. O único problema era que a enfermeira não parava de seguir o Doutor com aqueles olhos apaixonados.
Donna sabia bem o que se passava na cabeça da Sra. Redfern. Ela tinha uma queda pelo Doutor, o que tinha ficado óbvio desde o momento em que suas bochechas coraram quando ele se apresentou no primeiro dia. Mas, por algum motivo insano, a mulher tinha ciúmes de Donna. Como se ela fosse alguma ameaça! Humano ou não, o Doutor jamais se interessaria por ela. Eles eram amigos, melhores amigos, e desde que ela pisou na TARDIS, ele havia deixado bem claro que não haveria nenhum interesse romântico da parte dele. Não que ela estivesse interessada, longe disso. Porque Donna jamais se interessaria por um magricelo como ele, independente dele ter um cabelo incrível ou não. Ele não era o seu tipo, assim como ela não era o tipo dele. O Doutor gostava de loiras, assim como a Sra. Redfern.
— Olá Sr. Smith... Sra. Redfern… — disse Donna, juntando-se a eles.
Joan se afastou um pouco do Doutor, limpando sua garganta. Donna viu de longe o olhar de frustração da enfermeira, apesar da loira tentar esconder. Já o Doutor pareceu feliz em vê-la. Ele abriu um enorme sorriso, como sempre fazia, e mais uma vez Donna o comparou com um cachorrinho alegre. Só faltava balançar o rabo e pular em cima dela.
— Srta. Noble — cumprimentou a enfermeira, sem muita animação.
— Srta. Noble, você saiu hoje? — ele perguntou, surpreso.
— Apenas uma breve caminhada, para esticar minhas pernas. Eu passo muito tempo sentada, digitando — explicou Donna, a mesma desculpa de sempre.
— Vejo que você também colheu algumas peras — ele disse, com um enorme sorriso.
— Ah, sim! Eu sei que você gosta muito delas — disse Donna, se segurando para não gargalhar.
“Regra número 5: Não me deixe comer peras. Eu odeio peras. John Smith é um personagem que eu criei, mas eu não vou saber disso. Eu vou pensar que sou ele e ele pode fazer algo estúpido como comer uma pera. Em três meses eu não quero acordar de ser um humano e sentir esse gosto.”
— Veja como minha secretária cuida bem de mim, Sra. Redfern. Todos os dias Donna me traz uma pera recém-colhida — ele disse, com um enorme sorriso. Donna sorriu também, mal conseguindo se conter. Ela sabia que ele não ficaria tão agradecido quando voltasse a si.
— Certamente — disse a mulher, com um sorriso educado, mas que não combinava com seus verdadeiros sentimentos — Sr. Smith, Srta. Noble, eu lamento, mas preciso ir. O jovem Sr. Porter deve estar me esperando na enfermaria.
Assim, Joan Redfern se despediu e desceu as escadas. Não sem olhar uma última vez para o Doutor e para Donna, desviando o rosto quando percebeu que a ruiva ainda a observava. John Smith como o cavalheiro que era, deixou que Donna tomasse a frente e abriu a porta do escritório para ela quando eles chegaram. Ela ainda achava estranho quando ele fazia aquilo, mas um pouco de cavalheirismo não era tão ruim.
— E então, Como foi esta manhã? — ele perguntou.
— O de sempre, você sabe — ela disse, colocando as peras em um cesto.
Donna voltou à sua mesa. O escritório de John era também um quarto, com lavatório e cama em um canto, um sofá, uma estante e a mesa de mogno de costas para as amplas janelas. Donna havia ganhado um pequeno espaço quando chegaram, já que colocaram uma mesa pequena num canto, mas o Doutor era gentil em deixá-la sentar em sua mesa quando ele não estava usando (o que costumava acontecer frequentemente).
— Sei… Você trabalhou sozinha até ficar entediada e saiu para colher peras — ele disse, sorrindo e pegando uma delas. Ele mordeu a fruta e se sentou no sofá, pensativo. Donna sorriu — Donna, há algo entre você e a Sra. Redfern?
— Como o que? Um caso proibido? — Donna o provocou.
— O que? — John se surpreendeu, corando — Não, eu não quis dizer isso. Não que seja um problema, quer dizer... Você não tem um caso com a Sra. Redfern, tem?
Donna riu. Ela adorava ver John Smith corar.
— O que realmente quer saber, Sr. Smith?
— É que às vezes eu tenho a impressão de que vocês não gostam uma da outra.
— E por que você pensou nisso?
— Eu não sei, eu só…
— Não se preocupe, Homem do espaço — ela disse, mordendo a língua. Donna estava se segurando para não usar um dos seus apelidos estúpidos, mas sem querer ela deixou escapar.
— Homem do espaço?
— É só um apelido. Me desculpe, Sr. Smith — Donna queria se enfiar na Tardis e não sair nunca mais. Só faltava ela falar da chave-de-fenda sônica e convidar John para visitar a Tardis. Ele provavelmente pensaria que ela é uma mulher maluca.
— Por causa do Doutor? — ele perguntou, sorrindo. Aparentemente, John havia gostado daquilo. Ela assentiu, sem saber o que dizer — É adorável, mas é melhor que você não me chame desta maneira, não fica bem para um professor.
Donna não disse nada, com medo de piorar a situação. Ela e sua boca grande! Bem que sua mãe lhe falava para controlar a língua.
— Talvez eu use no meu diário de aventuras — ele sugeriu, pensando ter chateado Donna.
A ruiva sorriu. John Smith tinha um lado doce também, assim como o Doutor.

