— Pode pedir para os meus pais entrarem, por favor? — Pediu ele travando o maxilar com força, porém eu sentia em sua voz que ele não estava nada bem de estar ali naquele momento, se permitindo a olhar somente para baixo, provavelmente para escapar da minha expressão de desespero. — Obrigado.
Não consegui dizer nada após aquilo porque eu o conhecia o suficiente para saber que ele não iria voltar atrás então apenas levantei e caminhei abrindo a porta e dando passagem ao Sr e a Sra Traynor, o pai de Will não tinha expressão alguma quando entrou e apertou meu ombro silenciosamente provavelmente ao perceber por minha expressão como eu estava por um fio de desmontar ali na frente de todos, já a mãe dele claramente já não se importava mais em tentar esconder as lágrimas e chorava baixo balançando a cabeça negativamente, recusando-se a encarar o filho, então apenas me encarou por um breve momento e abaixou o olhar voltando a chorar.
— Will, filho... — Começou a Sra Traynor com a voz trêmula o encarando com o rosto vermelho.
— Mãe, não faça isso... Eu prometi 6 meses a você e ao papai, mas isso precisa acabar... Não vamos ter essa conversa de novo, por favor. — Pediu Will com a voz um tanto dura a fazendo aumentar a intensidade do choro.
Houve uma leve batida na porta e todos exceto Will olhamos para a porta no mesmo segundo, quando abri a mesma um homem alto de cabelos loiros entrou seguido de Nate que diferente de antes agora tinha uma expressão neutra, estava calado e apenas acenou com a cabeça para mim quando percebeu meu olhar em sua direção. O rapaz que provavelmente era um médico ou algo do gênero curiosamente encarou apenas a mim antes de contornar a cama com uma mala metálica grande parando ao lado de Will que o encarou por alguns tempo antes de desviar o olhar para uma direção aleatória.
— Desculpe Sr. Traynor, mas pelas regras do instituto Dignitas eu sou instruído a novamente perguntar a respeito. Você tem realmente certeza absoluta que quer prosseguir com o procedimento? — Perguntou o homem tirando da maleta algumas coisas que fiz questão de não olhar pois a situação toda já era traumatizante demais para mim.
— Sim, eu tenho certeza. — Disse Will com a voz dura e mesmo sem olhá-lo pude sentir seu olhar queimar sobre mim enquanto falava, além disso, ao meu lado pude jurar que vi a mãe dele vacilar como se estivesse a ponto de desmaiar a qualquer momento, porém seu marido a segurou pela cintura provavelmente percebendo e imaginando o mesmo que eu ou algo bem parecido. — Clark?
— Sim? — Falei completamente destruída por dentro fazendo um grande esforço para conseguir encará-lo sem correr o risco de começar a chorar.
— Pode segurar a minha mão, por favor? — Pediu ele olhando para baixo no espaço de sua cama que em geral eu costumava ocupar e depois para mim.
Pensei em gritar com ele e sair correndo dali o mais rápido possível, mas tinha que aproveitar meus últimos segundos com ele, meus últimos segundos de felicidade que estavam prestes a terminarem para sempre, porém o fato dos pais dele estarem ali com a gente me fez hesitar a respeito. Então pelo canto de olho vi a Sra Traynor balançar a cabeça me encorajando a ir para o lado de seu filho, e foi exatamente o que fiz. Caminhei até a cama deitando ao lado dele, colocando a cabeça em seu peito exatamente sobre o coração dele... O meu som favorito no mundo em breve não mais existiria, fechei os olhos e me permiti deixar escapar uma lágrima, senti a respiração dele ficar um pouco mais pesada e não precisava levantar a cabeça para saber que agora ele também finalmente havia se rendido de vez e estava chorando.
— Me... Me conta uma coisa boa Clark. -Pediu com a voz bastante trêmula e muito mais baixa que o normal.
— Queriiiiia... Viiiveeerrr laaa em Molaronk do seu lado... Foi la la la que eu nasci li li li... — Cantei fechando os olhos com força me apertando ainda mais a ele desejando poder fazer com que aquele momento durasse para sempre.
E então cedo demais alguém pigarregou ao nosso lado estragando toda a magia daquele momento. Daquele nosso último momento juntos.
— Sr. Traynor estou pronto. Podemos prosseguir? — Perguntou o médico com a voz fria como gelo, me cortando por dentro de uma forma que nunca imaginei ser algo possível.
— Não, por favor, não faça... Não me deixe sozinha Will. — Sussurei não me importando nenhum pouco com o fato de que provavelmente todos conseguiram me ouvir.
Will apenas balançou a cabeça positivamente e muito embora estivesse em pedaços fiz questão de permanecer deitada ali onde estava, o médico começou a mexer em várias coisas fazendo barulhos que faziam meu coração acelerar cada vez mais, colocando alguns fios no peito dele e então colocou uma agulha no braço dele e na outra ponta encaixou uma agulha com um líquido azul e isso me chamou a atenção.
— Ele vai sentir dor? — Perguntei mantendo os olhos fixos na seringa com o líquido azul.
— Não moça, o remédio também contém um sedativo forte o suficiente para derrubar um cavalo. Ele estará dormindo pesado demais para sentir e ouvir qualquer coisa antes de chegar na metade da injeção e a outra parte também não vai durar mais que 20 segundos. — Explicou o médico ao qual eu não me importei de descobrir o nome ou qualquer coisa a respeito.
Era dor demais, disso eu tinha certeza absoluta. Tornei a fechar os olhos porém um grito que ecoou por todo o quarto, me fez pular assustada e os acontecimentos seguintes claramente mudariam a minha vida.
Para sempre.
— NÃO! PARA AGORA! Tirem essas coisas de mim imediatamente, droga! — Gritou Will apavorado com lágrimas nos olhos fazendo o médico descongelar do susto e rapidamente começar a remover os tubos e fios e o restante de nós se pôs a trocar olhares completamente confusos. — O que estou fazendo? Quem eu estou querendo enganar fingindo que não estou morrendo de medo? A minha vida havia acabado no dia do acidente e por todos esses meses eu pensei que morrer era a melhor opção que eu tinha. A minha antiga vida havia acabado naquela manhã e eu não estou nem ai porque você Clark com suas roupas horríveis e piadas piores ainda me deram uma nova vida e seja lá para onde eu fosse jamais teria paz sabendo que não dei uma chance para essa vida incrível que ganhei depois que percebi a verdade. Quando eu percebi que estava completamente apaixonado por você.
— Graças a Deus! -Sussurou a Sra Traynor escondendo o rosto com as mãos provavelmente se entregando as lágrimas, mas por motivos diferentes dessa vez.
O Sr Traynor sorriu para mim sussurrando um inaudível obrigado que apenas eu percebi, então sem me importar com quem estivesse ali ou como reagiriam apenas levantei o corpo e juntei meus lábios aos de Will certa de que daquele momento para frente as coisas claramente não seriam exatamente muito fáceis, mas seriam melhores por estarmos juntos.

