dollhouse
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Chapter 114 min read

Capítulo Único

Quando Ambre abriu os olhos naquela manhã, sentiu que havia algo errado.

Sentiu-se também esquisita, e quando se espreguiçou percebeu que estava vestindo um ridículo vestido azul-bebê, coberto por delicadas flores cor de rosa. O vestido não se encaixava de jeito nenhum em seu estilo usual, ele era cheio de babados e rendas. Sem contar que algum idiota, não contente com a catástrofe colossal que era aquela peça de roupa, havia colocado quatro lacinhos na frente dele.

E ainda por cima tinha aquelas mangas bufantes ridículas!

Ambre percebeu também que seus pés estavam calçados com sapatilhas pretas delicadas, e no topo de sua cabeça ela tinha um laço cor de rosa.

Que tipo de brincadeira era aquela?! Estava parecendo uma boneca de bebê! Era Nathaniel que estava lhe pregando aquela brincadeira de mau gosto?! Não, não podia ser. Afinal, as brincadeiras de Nath tinham acabado faz tempo.

Não entendia o motivo de ter dormido ou de estar daquele jeito, mas não questionou. Talvez seu pai tivesse pedido para vestir tarde da noite e ela tivesse pegado no sono e esquecido de tirar a roupa ridícula...

É, com certeza tinha sido isso.

Sentiu seu estômago roncar e percebeu que estava morrendo de fome. Olhou para as vestes um pouco contrariada, mas decidiu trocar de roupas depois do café da manhã.

Abriu a porta e saiu do quarto. Estava tudo estranhamente silencioso e escuro. Que horas eram? Será que tinha acordado muito tarde e perdera o café? Ou então talvez o tempo estivesse nublado logo de manhã.

A loira deu de ombros e seguiu seu caminho, descendo as escadas de forma audível. Quando chegou à sala avistou sua família toda reunida ao redor da mesa. Eles olhavam para o horizonte e não disseram uma só palavra quanto à chegada dela.

— Bom dia! – cantarolou, tentando acordá-los do transe esquisito

Nem se mexeram ou desviaram o olhar do ponto fixo o qual observavam com tanto afinco.

Então, quando Ambre sentou-se à mesa, coisas definitivamente esquisitas começaram a acontecer.

(Neste momento você clica no play)

Uma melodia nunca antes ouvida por Ambre começou a tocar, algo parecido com a melodia que se ouve quando abrimos uma caixinha de música. Algo que lembrava... Bonecas.

- Ok, ok. Quem é que teve a brilhante ideia de me pregar uma peça? – a loira começou a reclamar, irritada. Nathaniel estava ferrado – Não é nada engraçado, parem com essa música idiota.

Sua família sequer piscou.

- Porque é que vocês não me respondem?!

O ritmo da música mudou, se tornou algo mais encorpado. Nathaniel então levantou-se, com o olhar preso no da gêmea e sorriu assim que parou ao seu lado.

Então, ele começou a cantar.

Hey, girl, open the walls (Ei, garota, abra as paredes)

Play with your dolls (Brinque com as suas bonecas)

We'll be a perfect family (Nós seremos uma familia perfeita)

- O que...? – Ambre olhou-o confusa. Seus pais não pareceram estranhar a cantoria do irmão, que dizia e insinuava coisas sem nexo

When you walk away (Quando você vai embora)

It's when we really play (É quando nós realmente brincamos)

You don't hear me when I say (Você não me ouve quando eu digo...)

Francis e Adelaide levantaram-se neste instante, ficando ao lado de Nathaniel, ainda com os olhares fixados no infinito.

Ambre começou a achar que todos estivessem loucos

"Mom, please, wake up, dad's with a slut (Mãe, por favor, acorda, papai está com uma vadia)

And your daughter is smoking cannabis" (E a sua filha fumando maconha)

Os olhos esverdeados de Ambre se arregalaram, incrédulos. O que no mundo estava acontecendo?! Ela só podia estar sonhando!

Seu pai então agarrou Nathaniel pelo braço de forma exageradamente violenta e começou a arrastá-lo em direção à cozinha. O loiro ainda cantava, com um sorriso macabro nos lábios e como se nada estivesse acontecendo.

No one ever listens, this wallpaper glistens (Ninguém nunca escuta, este papel de parede brilha)

Don't let them see what goes down in the kitchen (Não deixe que eles vejam o que acontece na cozinha)

Houve um blackout, que durou aproximadamente dois segundos, e quando tudo se fez claro novamente Francis estava de volta à sala, ao lado de Adelaide, junto com Nathaniel que estava ao lado de Ambre e continuava a cantar sua música estranha. Ele agora estava com uma das bochechas muito avermelhada, um vergão estranho na pele levemente bronzeada do irmão. Talvez estivesse corado, mas corado apenas de um lado do rosto? O vergão começou a tomar forma, e mostrou-se como uma marca de mão.

A mão de Francis estava avermelhada na palma.

Places, places, get in your places (Lugares, lugares, todos em seus lugares)

Throw on your dress and put on your doll faces (Vista seu vestido e coloquem seus rostos de boneca)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please, don't let them look through the curtains (Por favor, não deixe que eles vejam através das cortinas)

A loira não tinha percebido que estava num palco de auditório até as cortinas vermelhas e pesadas se fecharem na sua frente. Ambre estava assustada, queria acordar logo daquele sonho maluco. O que Nathaniel queria dizer com “o que acontece na cozinha”?

Adelaide esforçava-se para arrumar a todos, ajeitando a saia do vestido de Ambre, a gravata da roupa social de Nathaniel e o paletó do marido. Ajeitou os próprios cabelos e olhou para frente, como se estivesse posando para algo.

Então, todos sorriram.

Picture, picture, smile for the picture (Foto, foto, sorria para a foto)

Pose with your brother, won't you be a good sister? (Pose junto de seu irmão, você não vai ser uma boa irmã?)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please, don't let them look through the curtains (Por favor não deixe que eles olhem através das cortinas)

Enquanto tentava focar no ponto para o qual todos olhavam, Ambre quase foi cegada por um flash. Estavam tirando uma foto de família?! Porque diabos estavam tirando uma foto?! E quando a marca no rosto de Nath? Porque ninguém estava fazendo sentido?

O irmão continuava a cantar, mesmo durante a foto e depois dela.

- Nathaniel... Que está acontecendo? Porque está cantando? – Ambre tentou interrompê-lo com toque no ombro, e ele virou e sorriu para ela

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

Então estavam realmente presos em uma casa de bonecas? O que Nathaniel queria dizer com tudo aquilo? Ambre abriu a boca para perguntar, mas outro blackout aconteceu.

Dessa vez, todos estavam sentados no sofá da sala. Lado a lado, olhando para a televisão desligada. Como ela tinha ido parar ali?! A loira tinha certeza que nem ela nem ninguém tinha se mexido!

Nathaniel olhou para ela novamente com o sorriso no rosto, cantando. Apontou para a mãe e os dois olharam para ela.

Hey, girl, look at my mom (Ei, garota, olhe para a minha mãe)

She's got it going on, ha (Ela tá que tá? Há!)

You're blinded by her jewelry (Você está cega por suas jóias)

When you turn your back (Quando você vira de costas)

She pulls out her flask (Ela pega sua bebida)

And forgets his infidelity (E esquece a infidelidade dele)

Simultaneamente às palavras de Nathaniel, a mãe tirou do bolso de seu próprio vestido um frasco prateado e virou-o na boca enquanto uma lágrima solitária descia por seu rosto.

Ambre olhou-a horrorizada, e depois para o pai. Então ele a estava mesmo traindo?! Porque sua mãe não reagia?! O que estava acontecendo?!

A mãe voltou o olhar para a filha, juntamente com o pai.

Uh oh, she's coming to the attic, plastic (Uh-oh, ela está vindo para o sotão, plástico)

Go back to being plastic (Voltemos a ser plástico)

Francis levantou do sofá e puxou Nathaniel pelo braço novamente. Ambre dessa vez tentou segurá-lo e puxá-lo de volta, mas a força do pai era demasiada e ela perdeu a luta.

No one ever listens, this wallpaper glistens (Ninguém nunca escuta, esse papel de parede brilha)

One day, they'll see what goes down in the kitchen (Um dia, eles vão ver o que acontece na cozinha)

Quando se levantou desesperada para seguir os dois até a cozinha, outro blackout aconteceu e quando tudo se iluminou encontravam-se todos em cima do palco novamente, nos mesmos lugares.

Desta vez Nathaniel tinha um olho roxo e a boca um pouco avermelhada, além da marca que já tinha no rosto. Ambre segurou seu queixo desesperada.

- O que está acontecendo com você, Nath?! Diga-me, por favor! Eu quero ajudá-lo! – ela gritou para o irmão, que limitou-se a sorrir como um boneco novamente, num ritual muito peculiar

Ele não parou de cantar.

Places, places, get in your places (Lugares, lugares, todos em seus lugares)

Throw on your dress and put on your doll faces (Vista seu vestido e coloquem seus rostos de boneca)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please, don't let them look through the curtains (Por favor, não deixe que vejam através das cortinas)

Adelaide novamente começou a ajeitar a todos. Remexeu a saia de Ambre, que desvencilhou-se da mãe em desespero, tentando ajudar Nathaniel. Como se nada tivesse acontecido, a mãe foi até o filho e ajeitou sua gravata sem olhar para seu rosto. Nathaniel sorria. A mulher ajeitou o paletó de Francis que tinha os nós dos dedos avermelhados. Adelaide ajeitou os próprios cabelos e olhou para frente, assim como Nathaniel e Francis.

- Por favor, Nath! Me responda! Oh, por favor! – Ambre gritava, tentando fazer com que seu irmão a notasse

Todos sorriram.

Picture, picture, smile for the picture (Foto, foto, sorria para a foto)

Pose with your brother, won't you be a good sister? (Pose junto com seu irmão, você não vai ser uma boa irmã?)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please don't let them look through the curtains (Por favor, não deixe que vejam através das cortinas)

O flash da câmera veio novamente, e Ambre não olhou para ele desta vez. Começou a ligar as marcas no rosto de Nathaniel as da mão do pai, e seu coração iniciou a batida descompassada, quase saindo do peito.

Porque tudo aquilo estava acontecendo?! Porque Nathaniel fingia que nada tinha acontecido?!

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

- Eu acredito em você! Acredito! – a loira segurou os ombros do irmão enquanto ele a puxava pelas mãos para um canto mais afastado dos pais – Me conte tudo Nath, eu ouvirei você!

O sorriso macabro apossou-se novamente do rosto dele.

Blackout.

Desta vez, encontravam-se em um corredor desconhecido por Ambre. Nathaniel estava sentado em uma cadeira, com o rosto abaixado. Sua camisa branca estava pintada de vermelho, e Ambre temeu que fosse...

Quando ele levantou a cabeça e ela pôde olhar para seu rosto novamente, Ambre não conseguiu reprimir um grito.

Ensanguentado, era como ele estava. O nariz estava quebrado, tinha um corte profundo acima de uma das sobrancelhas e a boca sangrava cheia de feridas. Sem contar outros pequenos cortes espalhados por sua face e os machucados que já tinha antes.

Ambre correu até a cadeira e ajoelhou-se perante a Nathaniel, abraçando-o pela cintura e chorando em seu colo. Ele acariciou sua cabeça e ela olhou para cima.

Hey, girl (Ei, garota)

Hey, girl, open your walls (Ei, garota, abra suas paredes)

Play with your dolls (Brinque com suas bonecas)

E sorriu novamente, daquela forma terrível de sempre. Como se absolutamente nada tivesse acontecido, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Como se ele ainda pudesse fingir que nada estava acontecendo.

We'll be a perfect family (Nós seremos uma família perfeita)

Ambre o olhou completamente horrorizada e caiu sentada no chão. Agora estava com as mãos sujas com o sangue do irmão. Os pais reapareceram, saindo de portas escuras que sequer estavam lá antes. Ficaram parados um de cada lado de Nathaniel e tinham botões costurados no lugar dos olhos.

Sorriam.

Places, places, get in your places (Lugares, lugares, todos em seus lugares)

Throw on your dress and put on your doll faces (Vista seu vestido e coloquem seus rostos de boneca)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please, don't let them look through the curtains (Por favor, não deixe que vejam através das cortinas)

Deixando Nathaniel sozinho na cadeira, ainda cantando, seus pais começaram a vir na direção dela. Ambre deu alguns passos para trás e trombou com a parede. Estava presa. Espalmou as mãos no mármore frio e olhou assustada para aqueles que deveriam amá-la.

Eles traziam dois botões nas mãos, linha e agulha, junto com aqueles sorrisos pontilhados no rosto agora desfigurado pela expressão de boneca.

Ambre puxou os cabelos loiros, tentando acordar daquele pesadelo terrível. Precisava sair dali. Precisava se salvar.

Precisava salvar o irmão.

Saiu correndo e entrou em uma das portas escuras do corredor, que iluminou-se apenas por sua presença. Estava em seu quarto, e ainda podia ouvir Nathaniel cantar ao som daquela maldita melodia terrível.

Picture, picture, smile for the picture (Foto, foto, sorria para a foto)

Pose with your brother, won't you be a good sister? (Pose junto com seu irmão, você não vai ser uma boa irmã?)

Everyone thinks that we're perfect (Todo mundo pensa que nós somos perfeitos)

Please don't let them look through the curtains (Por favor, não deixe que vejam através das cortinas)

Ambre foi até a penteadeira, procurar qualquer coisa com a qual pudesse se defender. Enquanto remexia as gavetas, percebeu seu reflexo e tentou localizar seus olhos que costumavam ser verdes.

Eles agora eram botões negros.

Ambre puxou a pele debaixo deles, gritando desesperada e incontrolavelmente. Quando eles tinham sido costurados?! Porque tinham sido costurados?!

Nathaniel apareceu ao seu lado, com dois botões no lugar dos olhos também. Deles escorria sangue, como se ele estivesse chorando em vermelho. O loiro apoiou a mão direita no ombro da irmã e sussurrou-lhe no ouvido os últimos versos de sua canção terrivelmente real.

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

D-O-L-L-H-O-U-S-E, I see things that nobody else sees (C-A-S-A D-E B-O-N-E-C-A-S, eu vejo coisas que ninguém mais vê)

***

Ambre acordou de supetão, desesperada em sua cama. Demorou para assimilar as coisas, mas logo percebeu que estava em seu quarto, vestida em seus usuais pijamas cor de rosa. Levou as mãos até os olhos, e percebeu aliviada que eles não eram botões grotescos. Levantou-se e foi até o espelho, para ter certeza de que estava bem. E estava. Perfeitamente bem.

Tudo não passara de um sonho, mas ela ainda queria muito abraçar Nathaniel e sentia medo dos pais. Principalmente do pai.

Olhou para o endereço preso ao espelho da penteadeira, o endereço do novo apartamento de Nath. Ele agora estava seguro. Seguro das marcas, dos cortes, dos socos, dos narizes e costelas quebradas. E seguro dos olhos de botão.

Ambre sentiu-se aliviada e suspirou.

Agora ela também precisava ficar segura, apesar de nunca ter corrido perigo real. Mas ela redobraria a atenção e dormiria de olhos abertos. Afinal, os botões podiam substituir os olhos verdes dela durante a noite...

Mal notou, a pobrezinha, o par de botões negros e reluzentes sobre a escrivaninha.

Só esperando para serem costurados.

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