O que há com esse mundo? Está tudo tão diferente desde a última vez que estive nesse lugar. Eu ainda me lembro... Aquelas florestas... Paisagens repletas de verde que foi coberta por um monte de cinza e concreto. O que há com esse mundo? Eu me lembro das pessoas sorrindo e sendo de bem com a vida. Hoje vejo pessoas com expressões monótonas em suas vidas chatas e sem graça. Não sorriem, não conversam, se estressam e não há amor. A vida me surpreende. O humano me surpreende. Como conseguem ser tão incríveis e tão idiotas ao mesmo tempo? A vida é um relógio que nunca sabemos quando irá acabar sua pilha.
O que houve comigo? Estive o tempo inteiro em coma e nunca havia estado tão perdida como agora. Eu não sei se é o certo, mas algo me diz que devo escapar deste lugar. É um hospital, ou talvez fosse pra ser. Este quarto tem a aparência de que não é feito uma limpeza há anos. Nas camas ao lado, há cadáveres, eu dei um pulo de susto quando vi aquela cena. Havia sangue para toda parte e muitos insetos como baratas e aranhas. O que houve com esse lugar? Eu não tenho lembranças dele assim. Eu saio do quarto e me impressiono mais ainda. Aquele lugar escuro, mal iluminado, abandonado... Cheio de poeira e muitos corpos pelo chão e sangue para todo o lugar. Eu me dou conta de que houve algo de errado ali e então começo a imaginar... Por que eu ainda estou viva? Será que... A vida tem algum motivo reservado pra mim?
Eu ando sobre os corpos e aquele lugar vai ficando cada vez pior quando começo á ver pessoas andando e flutuando sob aquele local, mas elas não existem. Está todo mundo morto. Eu não consigo tocar essas pessoas flutuantes. Elas não me olham... Elas possuem um triste olhar. Mas outras, um olhar de raiva. Mas isso não me assusta... O que me assusta é não saber a verdade... E se eu não encontrar mais ninguém ali?
Eu finalmente chego ao local que deveria ser a recepção... E então ali, a saída. Eu acordei pro mundo real. Aquele não é o que eu esperasse que fosse. Se bem que... Toda vez que acordamos, nem sempre é o que esperamos que fosse, esta é a vida. Dormimos pra esquecer e acordamos para nos lembrar de que aquilo não é real. Mas até em sonhos existem pesadelos... Por que não existiriam sonhos nesse pesadelo chamado “mundo real”?
Lá fora era muito pior que imaginei... Parecia ter ocorrido uma grande guerra no local e então percebo que há destruição para todo lado. Aquele local completamente destruído e sem vida alguma... Mas as pessoas estavam mortas, porém eu tinha impressão de que aquilo não havia ocorrido á tanto tempo assim e eu me assusto cada vez mais. Por quanto tempo fiquei em coma? Aquele lugar não é o mesmo em que eu fui internada. Eu parecia estar apenas dormindo... Parece que nem faz muito tempo que fui dormir, é engraçado. Mas querer saber de tudo agora é muito inútil, então resolverei não ir muito longe por enquanto. Mas agora eu precisava comer alguma coisa, estava morrendo de fome.
Logo na esquina, havia um mercado e resolvi entrar. Em todo lugar que se botava os olhos, tinha gente morta e sangue. Aquele mercado estava cheio de mercadorias espalhadas pelo chão. Era um mercado muito grande e eu estava morrendo de fome... Eu resolvi então pegar um carrinho e lotar de suprimentos e outras coisas á mais e resolvi voltar ao hospital, no quarto em que estava antes. Eu me sentia segura lá por algum motivo, apesar de tal cena horrível.
Eu devo ter passado o resto do dia ali... Quando finalmente chegou a noite. Não havia energia, eu me esqueci dessa possibilidade. Agora sim, morria de medo. Eu olhava para os lados e aqueles cadáveres me encarando, era horrível. Fechei os olhos e imaginei que iria acordar no dia seguinte junto com a minha família e amigos que sempre tive... Mas junto com aquelas memórias, me vieram aquelas trágicas memórias de quando eu tive o grave acidente... Eu e minha família éramos muitos felizes, e, aquele dia era um dia especial. Nós estávamos indo viajar e aconteceu algo que minha mente não consegue se lembrar muito bem, mas, o meu irmão estava apertado e meu pai parou na beira da estrada. Mas o problema é que... Ele foi, mas não havia voltado fazia quinze minutos e nós estávamos preocupados. Então, entramos na floresta e saímos em busca de meu irmão.
Lembro que, a floresta era bem assustadora e causava espanto. Gritávamos pelo seu nome, mas nada de resposta e a preocupação apenas aumentava a cada segundo. Então avistamos uma mansão abandonada em meio á uma clareira e dei idéia de entrarmos lá dentro para procurar por meu irmão. Estava muito escuro lá dentro. Nós gritamos por alguém e nenhuma resposta era obtida. Aquela mansão era muito arrepiante e enorme também. Mas o pior ainda está por vir... Mamãe acabou se separando da gente também e agora éramos somente eu e meu pai. Nós agora não sabíamos á quem buscávamos e quando me deparei, meu pai já não estava mais ao meu lado e eu estava falando sozinha á um bom tempo. No mesmo instante, eu joelhei-me ao chão e comecei á chorar e me perguntar o que era aquilo e o que estava acontecendo. Então apenas senti algo passando ao meu lado e então foi aí que me lembrei da lanterna do celular e a liguei-o, morrendo de medo. Eu novamente gritei pelo nome de meu irmão, com alguma esperança, mesmo que pequena. “Kentin! Você está aí?”
A casa parecia ter realmente sido deixada e por algum motivo, eu tinha um mal pressentimento daquele lugar, ainda mais após aquele sentimento ruim que tive. Eu resolvi não gritar por ninguém, estava com muito medo. Eu então subi as escadas e havia um corredor sem fim cheio de portas que estavam todas trancadas. Ou então, quase todas trancadas. Havia apenas uma aberta e essa tinha a porta colorida de vermelho sangue, e foi lá que entrei. E foi lá que me arrependi de ter entrado.
Lá eu vi coisas horríveis. Aquele era o quarto sem fim e todos os meus pesadelos estavam lá. Por que fizeram isso comigo? Eu era só uma criança, que depois disso, eu jamais pudi esquecer tudo o que houve na floresta e na mansão.
“Você tem medo de escuro?” Uma voz grave indaga-me porém não lhe dou retorno. “Eu perguntei... VOCÊ TEM MEDO DE ESCURO?” A voz pergunta novamente, gritando dessa vez. E eu então, resolvi que seria melhor eu responder. “S-sim...”. Após responder-lhe, a luz começa a piscar até chegar ao ponto em que a lâmpada não emite mais tal. E então, por um momento eu apenas fecho os olhos, mas quando abro-os, eu avisto um par de olhos surgindo em meio aquela ausência de luz. Então, quando me deparo, eu estou frente á frente com meu irmão, mas ele se transforma diante de meus olhos em algo horrendo. Ele virou algo que não sei explicar bem com as palavras... Ele tinha grandes olhos que pareciam humanos, porém bem maiores e bem pretos e brilhantes. Seu corpo era bem fino e ele era inteiro preto... Deveria ter uns 2,07 de altura e sua boca não era possível ver, mas quando ele sorria era possível ver as enormes presas lá. Suas mãos pareciam mãos humanas gigantes e deformadas, com enormes unhas acinzentadas. Ele então me fez a seguinte pergunta.
— Você tem medo de mim?
Eu o encarei brevemente, parecia que agora eu não sentia tanto medo assim por algum motivo e quando olhei para seus olhos, eu vi tristeza, raiva e solidão. Ele não era uma criatura má... Eu realmente gostaria de saber o que houve.
— Não.
— Você mente. – A criatura entortou o pescoço pro lado e então sumiu e a luz acendeu-se.
“O que foi aquilo?” Perguntei á mim mesma. Mas era uma tortura, pois eu não sabia se aquilo era real ou não e então não podia provar á mim mesma o que era sonho e o que era realidade.
Eu comecei á andar e fui perdendo minhas forças até o momento em que, quando coloquei meus pés pra fora da casa, eu desmaiei e... Acordei aqui, nesse hospital. Como descobri que eu estava em coma? Quando apaguei, era uma criança de sete anos... Hoje, tenho aparência de adulta, mas não sei dizer quantos anos exatamente eu tenho, muito menos o tempo que fiquei aqui.
Esse tempo todo tenho vivido um mundo irreal de sonhos em que estava num lugar completamente distante daqui. O que vivi esse tempo foi apenas imaginação, certo? Eu não sei de nada, mas sei que algo de errado ocorreu aqui... O que houve? Ah! Eu queria saber de tantas coisas... Como queria eu, ter esse dom... Esses meus sonhos caíram e agora vejo aquela escuridão novamente. Não no sentido literal, mas dessa vez, é pior. Não há monstros pra culpar, não há pra onde ir, não há quem procurar, não há esperanças pra nada.
Resolvi então que sairia daquele hospital e procuraria por algo, mesmo que estivesse sem rumo algum. Eu percebo que logo ali por perto, há um caminho que leva á uma floresta não muito distante e me pergunto se devo ou não... Quem sabe? A minha curiosidade me leva ao extremo. Eu resolvi entrar naquele lugar, mas não posso dizer “novamente”, pois não tenho a certeza de que é o mesmo local. Eu ando sem parar e me canso muito, eu dou uma leve parada na caminhada, mas logo continuo e então... A mansão, eu a achei. Mas dessa vez ela não tinha aparência de abandonada, ela parecia ter sido reformada ou então... Recém construída.
Como dizem... “A curiosidade matou o gato”, eu digo “A curiosidade ainda matará á mim”. Eu não pudi deixar de pisar naquela mansão novamente, após tudo aquilo. Era o fim, preferia morrer sabendo. Os móveis, a pintura... Tudo parecia novo. “Tem alguém aqui?” Perguntei e, sem resposta. Olhei ao meu redor e entrei no corredor que antes não havia, ou pelo menos, não o vi. Era um pequeno corredor e nele, havia três portas ao máximo e logo no final, uma sala sem porta, e é lá que fui parar. A sala possuía muitas pinturas, todas elas em tons terrosos e quentes. Havia uma televisão na parede, um grande tapete de urso marrom ao chão, piso de madeira, diferente de toda casa e dois sofás vermelhos e macios. Quando me virei para voltar, percebo que a televisão liga-se sozinha e fica chiando, apenas. Surge-se uma porta diante da passagem entre a sala e o corredor e eu fico presa lá dentro, nada a derrubava. A luz começa á piscar novamente como da outra vez e então a luz se apaga por completo.
“Você tem medo de escuro?” Ouço a voz e respondo com rapidez e certeza: “Não.” E novamente, ouço. “Você tem medo de mim?”... Eu parei por um breve segundo e percebi que a criatura não estava diante de mim, mas me virei e percebo que ela estava lá. Eu olhei para seus olhos e percebo cada vez mais tristeza e solidão. “Não, eu não tenho medo de você”. A criatura começa á rir e então...
— Você mente muito m... – Eu o interrompo.
— Eu não minto.
A criatura me lança um olhar desafiador de quem sente-se feliz, porém confuso com a situação.
— Por que não sente medo de mim?
— Eu apenas não sinto.
— Eu causei a guerra. Eu os matei. Não sente medo algum?
— Porque deixou somente á mim?
A criatura então desaparece sem pista alguma. A luz acende-se novamente. Os sofás mudaram de cor, agora são azuis. O chão não é de madeira. As pinturas são em tons esverdeados.
— Apareça. Diga seu nome.
Ouço apenas a voz, dizendo.
— Meu nome é Kentin.

