Capítulo 04 — Chapéus
— Então...iniciemos nosso primeiro jogo. UHuhuhu! — ria o palhaço, bastante animado com aquilo.
"Jogo dos Chapéus...foi o que ele disse", pensei comigo. "O que exatamente seria isso? Bem, com certeza deve haver com chapéus, mas não vejo nenhum por aqui"
Edmilson, o mais antipático do grupo, apenas bufa alguma coisa. Parecia querer acabar logo com aquilo. Os outros ainda aguardavam o que Pitre tinha a dizer.
— Chapeus? Eu gosto de chapeus! — comentou Taís, a loirinha — Espero que sejam bonitos!
Foi um comentário desnecessário. Mas, ignorando isso, nosso extravagante anfitrião continua as explicações.
— Antes de tudo...pedimos que se acomodem nas cadeiras do saguão.
Ninguém tinha reparado (bem, pelo menos eu ainda não havia reparado), mas havia catorze cadeiras dispostas em círculo em todo o saguão. Os catorze participantes se sentam e podíamos ver a todos em volta. Era uma grande roda de cadeiras, mas, ainda não via chapéu nenhum.
— Tá legal. Sentamos — comenta Aline — E agora?
Pitre deu uma risadinha.
— Agora...peço que não se assustem.
Também não havia reparado, mas havia um criado atrás da cadeira de cada participante. Em um movimento extremamente rápido, eles vendaram nossos olhos. Mal percebemos esse movimento, e eles também algemaram nossas mãos atrás das costas. Foi tudo extremamente rápido. Tão rápido que é até difícil de descrever.
— Ei! O que é isso?! Me solta, seu filho da... — gritava Edmilson, já desesperado.
— Uhuhuhu! Por favor, acalmem-se! Eu disse para não se assustarem! — interrompe Pitre, que parecia estar se divertindo muito com tudo aquilo — Iremos tirar as vendas de seus olhos agora e explicar as regras.
De fato, eles tiram nossas vendas. Eu estava assustado, mas ao mesmo tempo preparado para o que viesse. Seja o que fosse esse jogo, eu teria que encarar! Assim que pude enxergar novamente, vi diante de mim todos os meus concorrentes usando um tipo de chapéu pontudo, posso dizer, esses chapéus de bruxa, em forma de cone. Colocaram em nossa cabeça sem ao menos percebermos. Eram pessoas muito habilidosas mesmo. Assim como esses chapeuzinhos de festa de criança, que possuem uma cordinha amarrando-o na cabeça, estavam colocados catorze chapéus estranhos na cabeça de cada participante. Via diante de mim, treze pessoas com um chapéu azul. Eram todos azuis? Que tipo de jogo ele podia fazer com aquilo? Antes que alguém pronunciasse qualquer palavra, Pitre assume as explicações novamente.
— Bem, silêncio por favor. Agora, irei explicar as regras do Jogo dos Chapéus
Tudo bem. Estava nervoso, mas todo ouvidos para as regras.
— Como podem perceber...as pessoas a seu redor estão usando chapeus coloridos.
— Coloridos? Mas... — Taís iria falar alguma coisa, mas a moça mascarada atrás dela pede que fique em silêncio. Pitre continuava a explicação.
— Disse coloridos, mas a verdade é que só temos chapéus azuis ou vermelhos. As regras desse jogo são muito simples. Tudo que vocês precisam fazer é levantar e dizer a cor de seu próprio chapéu.
— Só isso? Tranquilo — comenta Giovani, o gordinho.
— A primeira pessoa que se levantar e adivinhar a cor exata do próprio chapéu será imediatamente a vencedora do jogo, mas...
Sempre tinha um "mas".
— Caso a pessoa erre na cor de seu chapeu...será imediatamente eliminada do jogo!
— O quê?! Eliminada? — disse Edmilson indignado.
— Sim. Por favor, peço que fiquem em silêncio até eu terminar de explicar todas as regras.
Todos estavam ouvindo em silêncio.
— Esse jogo termina assim que a primeira pessoa se levantar e dizer a cor do próprio chapéu, azul ou vermelho. Caso esteja correta, ela vence e pode escolher qualquer um dos outros treze participantes para ir automaticamente para a próxima rodada. Mas...caso esteja incorreta, essa pessoa está automaticamente eliminada e todos os outros treze irão direto para o próximo jogo.
— Mas...nesse caso da pessoa acertar e escolher outra para ir ao próximo jogo, o que acontece com os outros doze? — pergunta Sr. Alípio, o mais velho dos presentes.
— Nesse caso, teremos uma sessão de votos.
— Sessão de votos? — pergunta Aline.
— Com exceção do vencedor e da pessoa que o vencedor escolher, todos os outros doze terão que escolher uma pessoa para ser eliminada
— Entendo...então os participantes são eliminados um a um — comentou Valéria.
— Exato. Ao final de cada jogo, pelo menos um participante terá que deixar a casa. Nesse ponto, até que é bem semelhante a alguns reality-shows por aí, mas...essas eliminações não serão sempre tão simples assim.
— Não? — pergunta Giovani.
— Tudo a seu tempo, meu rapaz. Primeiramente, preocupem-se com esse jogo.
Todos ficam em silêncio, aguardando mais orientações.
— Bem, imagino que todos possam ver a cor dos chapéus de seus companheiros, não é? Com exceção do seu próprio chapéu...então, acho que não seria muito inteligente falar muito sobre o chapéu dos outros nesse jogo.
Taís morde os lábios imediatamente. Era verdade. Falar qualquer coisa nesse jogo poderia dar de graça a vitória para uma outra pessoa, mas...como poderia saber a cor de meu próprio chapéu? Não poderia confiar em ninguém. Ora, era óbvio, ninguém iria dizer a cor de seu chapéu. Seria o mesmo que dar a vitória para você. Como proceder então?
— Talvez vocês estejam se perguntando: "Como poderei saber a cor de meu próprio chapeu? Isso não é possível" — diz Pitre, em um tom de quem realmente estava adorando tudo aquilo. E, de fato, ele adivinhou meu pensamento.
— Não se preocupem — ele continuou — Há um telão visível a todos vocês ali do lado. Conseguem ver?
De fato havia. Mas o que poderia aparecer ali que nos ajudasse?
— Esse telão será acionada a cada cinco minutos e dará uma dica útil a todos vocês.
Todos parecem ter assumido uma postura mais confiante. Ah, então teria uma dica! Nesse caso, talvez as coisas fosse mais justas. Talvez não fosse um jogo tão complicado...será? Ainda estava receoso. Estou sempre cheio de dúvidas
— E pode dizer para que essas malditas algemas? — reclama Edmilson, que já teria levantado dali há muito tempo se não fossem as regras do jogo.
— Nada demais — respondeu Pitre — Isso é apenas para evitar que vocês tire o próprio chapéu da cabeça. E as amarras do chapéu são de excelente qualidade. Eles não irão cair do nada, então não adianta se agitar para derrubar o chapéu.
— Droga — lamentou Edmilson.
— Ora, temos que ter alguma dificuldade no jogo, não acham? Uhuhuh! — ele ri. Era inegável o prazer que Pitre sentia em nossa situação — Então...se não há mais dúvidas. Que o jogo comece...e então? Qual é a cor do seu chapeu? Azul ou vermelho?
O cronômetro do telão começa a rodar. Todos estavam quietos, olhando uns para os outros. Demian era o mais concentrado, mas olhava para uma direção aleatória, distante. Estaria mesmo concentrado no jogo? Queria ter conversado com ele antes de começar...poderia estar tão assustado quanto eu? Duvido. Aquela expressão confiante não lembrava medo em momento algum. Já eu, estava totalmente perdido. Ninguém falava nada...no máximo, dava para ouvir algumas risadinhas das meninas, que ainda tentavam quebrar o gelo do ambiente, mas isso, em si, já era difícil. Sentado, algemado e com um dilema em mãos. Natural ninguém falar nada, afinal, seria o mesmo que dar pistas para o adversário, mas a situação em si era muito estranha. Cinco minutos depois, veio a primeira dica. Pitre nos alertou.
— Cinco minutos se passaram, caros amigos. Vejamos qual será a nossa primeira dica para o jogo — disse ele.
Todos olham para o telão, ansiosos por uma novidade. Com uma pista talvez as coisas caminhassem. Infelizmente, não foi uma sensação de conforto quando o texto surge na tela.
"Existe uma pessoa usando chapéu azul"
Era tudo que dizia.
— Quê? É só isso? — pergunta Edmilson, já indignado.
— É uma dica, não é? E tenham certeza de que todas as dicas colocadas nesse telão são 100% verdadeiras...e, mais uma vez, aconselho não abrir muito a boca nesse jogo. Uuhuhuhu.
Sem dúvida era verdade. Mas uma verdade inútil. Não me ajudava em nada. Tudo bem. Talvez a próxima fosse mais útil. Cinco minutos depois aguardando a próxima dica, com ninguém falando nada e...tudo que surge é, mais uma vez:
"Existe uma pessoa usando chapéu azul"
Era a mesma frase. Sem tirar, nem por. Exatamente a mesma informação. Como aquilo poderia me ajudar? Todos se desanimam de vez. A situação de estranha, já estava começando a ficar desagradável e tensa.
Mesmo assim, tentei manter as esperanças. Após mais cinco minutos de ansiedade...de novo.
"Existe uma pessoa usando chapéu azul"
— Aaaahhh!!! Que agonia!!! — grita Aline, com uma voz bem estridente. Isso, com certeza, atrapalhou a concentração de muita gente. Mais um pouco e a menina começaria a chorar.
— Algum problema Srta. Aline? — pergunta Pitre
— Esse jogo horrível é o problema!!! — ela grita, histérica — Não tem jeito! É impossível! Não tem como saber qual a cor do meu chapéu só com isso de informação! Vocês estão fazendo a gente de palhaço!
— Uhuhuhu! O que a senhorita tem contra palhaços? — diz Pitre, irônico — Mas...se quer tanto terminar esse jogo...basta se levantar e dizer qual a cor do seu chapéu. Apenas esteja ciente de que se errar, será eliminada automaticamente.
— Eu...eu...não posso! Também não quero me arriscar a perder! Droga! Aaaaaaahh!!!! Deixa pelo menos eu gritar um pouco!!! — ela grita, batendo o pé direito com força no chão de tanto nervoso. Aline era uma pessoa que demonstrava bem seus sentimentos. Queria poder tapar meus ouvidos ao ouvir os gritos dela, mas as algemas me impediam. Mas não podia culpá-la. Todos ali deviam estar nervosos, ou tentando achar um jeito de sair do dilema. Por algum instante, também comecei a achar que era impossível, mas, ao lembrar que meu pai estava contando comigo, resolvi me esforçar.
"Tudo bem, tudo bem...vamos manter a calma", pensei, "Diante de mim, todos os participantes estão usando chapéu azul. E a dica que recebo a todo instante é que existe uma pessoa usando chapéu azul. O Pitre disse que só existem chapéus azuis e vermelhos...então, o meu chapéu só pode ser vermelho. É isso. Será?"
Foi o que pensei. Mas ainda bem que não levei meu raciocínio mais adiante. "Mas espere...só porque todos tem chapéu azul não quer dizer que meu chapéu seja o vermelho. É perfeitamente possível que todos os chapéus colocados sejam azuis, assim como todos poderiam ser vermelhos. Não. Eu não posso afirmar que ele seja vermelho!", pensei, antecipadamente. "Ele pode ser vermelho...ou azul...a única certeza que tenho é a que todos os outros chapéus são azuis, mas eu não posso ter certeza do meu chapéu. Se pelo menos eu pudesse perguntar para alguém a cor do meu chapéu, mas ninguém iria me dizer nada. Isso é um jogo. Ninguém vai ajudar ninguém. Eu teria que arriscar sozinho!"
Via todos à minha volta, com chapéus azuis e em silêncio. Imaginava que todos estavam pensando o mesmo que eu. Que não se podia afirmar nada sobre a cor do próprio chapéu. Todos podiam estar pensando que seu próprio chapéu podia ser vermelho ou azul. Certas coisas só os outros podem ver, não é?
"Existe uma pessoa usando chapéu azul"
A mesma frase surge no telão pela quarta vez. O que eles queriam? Nos enlouquecer?
"Acho que entendi", pensei, enfim. "Isso é um jogo de risco! O jogo acaba quando a primeira pessoa arriscar a cor do chapéu...ela vai ter que chutar uma cor. Se acertar, ganha. Se errar, é eliminada. Droga. Eu nunca vou poder fazer isso. Se arriscar, do jeito que sou azarado, com certeza vou errar a cor do chapéu. Alguém vai ter que arriscar...tudo bem. Essa pessoa não serei eu. Mas vou aguentar. Nem que fique aqui o dia inteiro, eu não vou levantar. Mas queria muito acabar com isso. Vamos. Alguém levante. Erre ou acerte...mas acaba logo com essa tortura!"
Meu desejo seria realizado mais rápido do que pensei. De repente, sem ninguém esperar, Demian se levanta.
— Senhor Max Demian...deseja alguma coisa? — pergunta Pitre.
— Eu já sei a cor do meu chapéu — ele disse, com um olhar confiante.
Todos olham admirados para ele. Finalmente alguém teve a coragem de se levantar e arriscar. Será que ele acertaria? Será que erraria? Eu podia ver que usava um chapéu azul, mas ele adivinharia ou não?
— O senhor tem certeza de que deseja arriscar a cor do seu chapeu? Esteja ciente de que será eliminado imediatamente se errar — o palhaço pergunta.
— Certeza absoluta.
— Sendo assim...diga, Senhor Max Demian, qual a cor de seu chapéu? Azul ou vermelho?
Demian fez uma pausa e respondeu.
— Meu chapéu é azul. Tenho certeza!
Como ele podia estar tão certo?
