— Vamos receber hoje em nossos estúdios a vidente que está trabalhando como consultora da CBI no caso do serial killer mais procurado da Califórnia. — o apresentador disse olhando fixamente para a câmera — Por favor recebam Teresa Lisbon!
Toda a platéia aplaude enquanto a dita vidente fazia seu caminho até o centro do estúdio, onde o apresentador estava.
“As pessoas adoram uma má notícia”, pensava Lisbon. “São como abutres procurando por alimento”, mas antes que pudesse expressar seu desgosto, sorriu escaneando mais uma vez a platéia.
Seu trabalho ali naquela noite não seria difícil.
E realmente foi fácil. Conforme a entrevista de 15 minutos acontecia, Lisbon também percebeu que havia um incrédulo na platéia, então resolveu realizar um simples truque de leitura fria, que funcionou maravilhosamente bem.
— Que bom que a polícia da califórnia pode contar com sua ajuda, então — disse o apresentador — Ou acha que com o caso Red John será diferente?
— Bem, obviamente é um caso difícil — disse ela — Mas eu diria que em breve já terei resolvido — ela sorriu — Muito em breve — enfatizou e, apesar do frio na barriga que ela sentiu naquele instante, prosseguiu — Red John é um homem-
— Ele é um homem, então?
— Sim — afirmou com certeza e continuou — Ele é um homem psicopata, patético e triste. Não é um gênio do crime ou nada parecido… Logo será descoberto.
Do outro lado da tela da televisão, um espectador em específico fitava atentamente a dita Vidente e ao ouvir suas últimas palavras, sorriu e logo se levantou e saiu.
Tinha um importante trabalho a realizar.
***
Querida senhora Lisbon,
Eu não gosto de ser difamado na mídia, principalmente por uma fraude patética e triste como você.
Se a você fosse mesmo uma vidente, não precisaria abrir a porta para descobrir o que eu fiz ao seu doce marido e filho.
:)
***
O barulho insistente do alarme soou e, ao que parecia para ela, ele nunca parava de soar e ecoar em sua mente.
Era hora de comer, mas ela não sentia fome, nem mesmo quando o gentil enfermeiro lhe trouxe a comida quente.
Frango e batatas.
Mas ela não tinha fome.
Então em vez de comer, virou-se para a parede e fechou os olhos.
Sempre havia a esperança de que aquilo não passasse de um pesadelo, e de que ela acordaria no meio da noite em sua casa em Malibu e encontraria seu marido na cozinha preparando um copo de achocolatado para seu filho com seu olhar amoroso.
Mas era sempre a mesma coisa. Quando ela abria os olhos, o pesadelo era sua própria vida e ela nunca mais se esqueceria do olhar sem vida que ficou estampado no rosto de seu marido.
Seu filho estava de olhos fechados, ela não teve coragem de abrí-los porque sempre queria se lembrar de seus olhos radiantes e cheios de inocência. Tão inocente. Tão pequeno.
O alarme soou novamente. Ela olhou para o outro lado.
Era hora de comer. Peixe e cenouras.
Uma mulher abaixou-se para poder ficar na mesma altura de seus olhos e começou a falar palavras que ela não conseguia interpretar e então ela fez que sim com a cabeça e virou para o outro lado.
Não estava com fome.
Seu estômago não reclamava e seu cérebro não a avisava que ela precisava mesmo se alimentar.
Fechou os olhos e por um instante podia jurar que estava frente a frente com seu marido. Ela o abraçou, surpresa.
Mais uma vez o alarme soou.
Havia perdido a noção de tempo. Era hora de comer.
O enfermeiro a ajudou a sentar-se em sua cama e encheu uma colher com comida.
Carne e brócolis.
Ela engoliu sem sentir o sabor. Não estava com fome, mas mesmo assim comeu o que o enfermeiro lhe dava a colheradas.
Deitou-se novamente, quase que ansiosa para voltar a ter o sonho onde ela abraçava seu marido, mas ao invés disso outro pesadelo a atormentava.
O programa de TV.
A entrevista.
O carro estava sem combustível.
Chegou em casa.
As luzes estavam apagadas.
A carta grudada na porta.
O medo.
O desespero.
O pior pesadelo.
Acordou ofegante, alguns enfermeiros já estavam lá tentando acalmá-la, mas ela estava furiosa. Não queria mais estar ali.
Queria voltar no tempo.
Queria ter recusado a entrevista.
Queria não ter parado para abastecer o carro.
Quem sabe se tivesse chegado mais cedo.
O que teria feito?
Teria cortado em pedacinhos aquele que tirou os bens mais preciosos de sua vida de maneira tão cruel e brutal?
E depois de muito tempo fazendo a mesma pergunta, enfim obteve uma resposta.
Sim.
***
A imprensa estava um caos com as novidades do caso Red John. Todos queriam saber sobre os avanços, quem eram os suspeitos.
E apesar da diretora da CBI sempre dizer que não podia dar detalhes sobre uma investigação em andamento, deixando propositalmente transparecer que algum avanço estava ocorrendo, a verdade é que não havia mais pistas a seguir.
Bem, havia uma pista.
Única.
Teresa Lisbon.
O problema era que, desde o ocorrido com marido e filho, há seis meses, ela sumiu do mapa.
Até aquele dia.
Patrick Jane, chefe da divisão de crimes graves, mal pôde acreditar quando ouviu que ela estava lá.
— Teresa Lisbon? Tem certeza? — perguntou Patrick
— Sim, absoluta chefe — respondeu Stefany Hannigan
— Ela disse o que quer? Ninguém sabia onde ela estava nos últimos seis meses.
— Não, ela só disse que queria falar com o responsável pelo caso — Stefany olhou para fora da sala de seu chefe e disse — Mando ela entrar?
Patrick pensou por alguns instantes e então respondeu:
— Não, eu vou lá fora falar com ela

