Emily admirava a palma das mãos, virou-a; os dedos miúdos e unhas roídas em carne-viva. Colocou a mão frente os seios e expirou fundo; podia sentir sua respiração.
— Incrível... – sussurrou a si mesma, analisando que seu corpo reagia a todos os estímulos. – Mas... Isto não sou eu. Este, não é meu mundo. – olhou ao redor.
O campo verde, extenso e plano, trazia o frescor das matas e soprava brandamente seus cabelos; O sol da tarde ardia os olhos; A rapariga tinha de segurar a bainha da saia, para que o vento devasso não remexesse os tecidos azulados.
Embora as sensações confortáveis fossem demasiadas verdadeiras, aquilo não era nada menos que um jogo. Mas não um mero jogo, aquilo era...
(...)
— World of Caelum! Eu não acredito que chegou!
— Como tem tanta certeza que é ele, Lucy? – perguntou Emily à irmã, levando uma colherada de cereal à boca. As bochechas insufladas.
— Minha intuição nunca falha! — retirou-se, rapidamente, da mesa do café. Correu para abrir a porta e receber a entrega.
Emily nunca compreendera a paixão da irmã por cibernética, visto que aquilo não era o tipo de divertimento que lhe agrava; Preferia mais, algo como leitura ou pintura.
Dentro de alguns minutos, Lucy retornou à mesa com uma grande caixa quadrada:
— Ei, ei! Está vendo essa belezinha? – apontou para o pacote. — É o passaporte para o paraíso. — completou elevando os braços de modo teatral.
— Seu café vai esfriar. – demonstrou indiferença à entrega da irmã.
— Pode ficar com ele. Acho que vou lá para cima abrir isso aqui. – apanhou a embalagem. — Você... Deveria tentar também.
Emily não suportava mais. Os televisores, as rádios, os jornais; tudo e todos só falavam do maldito “World of Caelum”. É claro! Este era um jogo onde um simples capacete de realidade virtual conseguia estimular os cinco sentidos do usuário.
(...)
Emily trabalhava na biblioteca do colégio após o período de aulas. Eram trabalhos simples para serem executados, tais como: Empilhar, carimbar e organizar livros. Enquanto, Lucy, permanecia em casa para tratar da avó, quem não podia mais realizar certas tarefas.
Alguns alunos permaneceram na biblioteca para os grupos de estudo; o período de exames aproximava-se.
— Não aguento mais. – comentava um dos garotos. – Não importa quantas vezes eu leia isso, minha cabeça não quer absorver.
— Entendo, Kentin. – respondeu o colega. – Quero meu World of Caelum.
— Eu também!
Emily, de pé sobre a escada, enfileirava alguns livros sobre a estante. Ouvia atentamente aos outros estudantes, tentando parecer mais discreta possível.
“Não suporto mais ouvir sobre este jogo!” – pensava revirando os olhos.
— Podem ficar quietos vocês dois? – murmurou outro, com os olhos fixados sobre o livro aberto. – Biblioteca é lugar de silêncio.
— Nathaniel, já que entende a matéria tão bem, por que não nos ensina? – o moreno cruzou os braços.
— Como vou ensinar alguma coisa se vocês não param de pensar naquele jogo idiota?
“Alguém me entende! Graças a Deus!” — ao comemorar mentalmente, por pouco a garota não se animou e despencou da escada.
— World of Caelum não é “idiota”. Você pelo menos já jogou?
— Não, não, Armin. – fez um gesto brusco com a cabeça, tornando-se impaciente. – Apenas me deixe ler.
Emily sentiu-se perplexa.
“O garoto tem razão. Eu... nunca joguei. É como aquele ditado: “Não julgue um livro pela capa”.”
Era difícil de admitir, mas embora seu escárnio pela computação, Emily achou que deveria experimentar ao menos uma vez as formas de divertimento de sua irmã Lucy.
(...)
Sentou-se na beirada da cama; deitou-se. Observava em silencio o ventilador branco do teto, sujo e empoeirado. Sacou o elmo tecnológico de cima do criado-mudo; esticando os braços, colocou-o na direção dos olhos. Encaixou-o sobre a cabeça.
“Se acalme Emily. Isso não vai sugar sua vitalidade.” – pensou num suspiro.
E, finalmente, ditou as tão temidas palavras:
— Link Start.
(...)
—“Please, selection your language.”— comandou uma voz robótica feminina.
— Isso... Parece um sonho. – olhava a sua volta, a imensidão negra. Inclinou-se para selecionar o ícone de sua língua nativa.
— Selecione sua classe.
— Hm... Classe? – pôs o dedo indicador sobre o queixo, observando a imensa lista. – Não faço a mínima ideia. –fitou o ícone escrito “aleatório”. – E se eu clicar nisso...
— Classe “engenheiro” selecionada. A seguir, escolha seu skill.
Emily não compreendia metade daqueles termos cibernéticos. Selecionou qualquer uma das opções e seguiu com as configurações finais.
— Puxa, não estou entendendo nada! Onde está Lucy quando preciso? – abanou a cabeça. – Espera! Não posso depender dela por tudo! Não é possível que uma garota de dezesseis anos não saiba mexer nisso.
Após organizar todas as configurações, lentamente, Emily fechou os olhos. Sentiu que permanecera na mesma imensidão negra, e tinha receio de que ficasse para sempre por lá. Apertou as mãos entrelaçadas entre si, levou-as fronte o seio.
— “Por favor, que ocorra tudo bem.” — pensou na agonia da expectativa, franzindo os lábios.
Aos poucos, tomou coragem para abrir os olhos. Desenroscou os dedos, e fitou a palma rubra das mãos. Ao obsevar o campo que a cercava, mergulhou em êxtase, fissurada com a beleza verde da paisagem.
(...)
— MEU DEUS EU ESTOU PERDIDA!
Cerca de meia hora a caminhar, Emily finalmente percebera que estava andando em círculos por um cenário nomeado “Forest of Crocodiles”. O panorama consistia numa imensa floresta de gráficos pintados por uma espécie de aquarela. Era uma mata fechada, de árvores esguias e pequenos riachos cristalinos.
Em um destes recipientes d’água ela sentou-se à beirada, retirou os sapatos e mergulhou os pés na água morna. Suspirou enquanto balançava os membros submersos.
— O pior é que nem sei como dar “logoff”.
Emily abriu um pequeno sorriso na lateral da boca — sentia-se culta por utilizar uma palavra “complicada” daquelas. Logo voltou a bufar, lembrando-se de sua deplorável situação.
O grande réptil analizava, de dentro d’água, os pés brancos e carnudos da garota. Ele levantou-se rapidamente para sacá-los, mas Emily logo avistou-o e esgueirou-se, berrando e, logo em seguida, caindo para trás.
— Socorro! Socorro! Socorro! — bradava enquanto corria desesperadamente pela mata.
Aquela curiosidade pelo jogo foi a pior coisa que deveria ter feito. Agora poderia estar lendo alguns contos de Christie. Mas não, preferiu “arriscar-se”. Isso era o que pensava.
— Então é por isso que aqui é chamado de “Forest of Crocodiles”..? — suspirou. Pisou em algumas folhagens secas, produzindo ruídos que soavam bem sobre seus ouvidos.
Se aquilo era tão real, será que caso o crocodilo mordesse, ela sentiria a dor?
Emily parou por um momento, pressentia ouvir um chamamento longíquo — atiçou a audição como um felino.
— Ei, tem alguém por aí?! — exclamou.
Obteve um pedido de socorro como resposta. Ao identificar que este provinha da altura da árvores, esticou o pescoço para cima. Lá pode se deparar com um jogador, o manto marrom ficara suspenso num dos galhos mais altos. Ele fitou Emily e bradou:
— Será que pode me ajudar?!
(...)
Ambos estavam envolta uma fogueira criada pelo rapaz, a iluminação abóbora refletia em seus semblantes distraídos.
— É a primeira vez que joga? — perguntou ele, erguendo as mãos frias que pairavam acima do fogo.
— Sim. — Emily respondeu, encoberta pelo manto que o garoto emprestou. — Como foi parar lá em cima?
— Parece que fui enviado para os ares quando fui logado. Tentei desligar mas eu simplesmente não achava o botão. Além do que, ainda não tenho muita técnica para me locomover.
— Quantas vezes já jogou?
— Bem, esta é a segunda vez.
— Claro.
Um silêncio desconfortável reinou. Os únicos sons predominantes eram os estalos da fogueira e os grilos da noite. Emily encarou desfarçadamente seu parceiro, ele lhe parecia estranhamente familiar. Talvez a voz fizessem-na recordar de algum ator de seus filmes prediletos. Não, talvez fossem seus olhos cor de mel. Ela não fazia a mínima ideia.
— Me desculpe a pergunta tão de repente, mas.... Qual é seu nome? — questionou ela. — Sabe.. seu nome real.
Surpreso, o rapaz levantou o rosto em sua direção. Ele sorriu. A atenção de Emily voltou-se para os lábios ressecados do louro, estes abriram-se mudamente. Ela não pode ouvir sua resposta.
[Lucy]
Eu estava andando por um enorme corredor branco, com os olhos semicerrados por causa da claridade. Ouvia passos além dos meus, as vezes vozes, e apesar da minha enorme curiosidade em saber de onde vinham tais sons, o meu medo também era grande, sentia que alguma coisa estava fora do lugar. Um barulho de tiro preencheu todo o ambiente, e depois desse barulho, não se ouvia mais nada.
— O que foi isso? — Eu me perguntava, olhando pros lados — Ei, seja lá quem for o maldito que deu esse tiro, apareça!
Eu olhei pra cima, pra baixo, pros lados, e nada. Até que senti uma dor violenta no meu estômago. O ambiente todo foi preenchido com a cor vermelha, e quando me virei, a unica coisa que eu conseguia ver era uma arma apontada pra minha cabeça, obviamente, havia alguém segurando a arma, mas a pessoa estava desfocada.
— 1... — Uma voz masculina falava, como se fosse um sussurro — 2... 3... Foi ótimo trabalhar com você, Charlotte
— Meu nome não é Charlotte, que droga! — eu acordara antes mesmo dele puxar o gatilho.
Charlotte era o nome da minha mãe, eu sempre tinha esse sonho, as vezes com vozes diferentes ou algum detalhe insignificante no cenário. Mas sempre, sempre, me chamavam pelo nome da minha mãe.
Fui ajudar a minha avó com as tarefas domésticas. Ela era cadeirante, e apesar de recusar ajuda na maioria das vezes, eu nunca hesitava em ajudá-la. Sempre cuidou tão bem de mim e da Emily, agora chegou a hora de devolvermos o favor.
Era assim a nossa vida: Emily ia para a escola e trabalhava para nos sustenta; eu estudava em casa e fazia as tarefas de casa. O porquê de eu estudar em casa, você se pergunta? Digamos que não tive experiências muito boas na escola, então eu estudo todas as matérias em casa, mas não sou uma vagabunda ou coisa do tipo, eu realmente estudo e aprendo alguns... extras. É algo bem interessante o que você se aprende fora da escola com toda essa tecnologia que existe agora, pois em alguma emergência, eu posso muito bem hackear a conta bancária de alguém e pegar um pouquinho de dinheiro emprestado.
Depois de um café da tarde com direito à conversas sobre as séries que assistimos, subi para o meu quarto jogar World of Caelum. Abri a caixa do jogo e retirei um dos capacetes, observando o outro que estava na caixa.
— Dois capacetes são feitos pra se jogar com alguém, então por que eu sempre acabo sozinha em jogos assim? — pensava — Talvez se eu tivesse algum amigo na vida real, mas a unica pessoa que eu tenho é a Emily e ela odeia jogos... Ah, pare de pensar nessas bobagens Lucy, você vai entrar nesse jogo e acabar a quest dos javalis.
Eu respirava fundo e colocava o NerveGear, eu jurei para mim que não ia mais ficar triste por estar sozinha, estar sozinha foi uma escolha minha, e não é algo totalmente ruim.
— Link Start!
Após pronunciar essas palavras, fechei os olhos e era como se eu estivesse sendo transportada para uma outra dimensão. A sensação de estar logando Caelum é a mesma que dormir, mas o sonho é completamente diferente, é mais real.
(...)
Depois de matar os trinta javalis, fiquei com preguiça de entrar na masmorra logo de cara, então fiquei andando pela cidade. O nome da cidade era Vetus, em latim "o antigo" e a cidade fazia jus ao nome, ela era todinha em estilo medieval, e era a primeira cidade do jogo.
— Puxa! Já são 20:50? — Eu abria o menu de configurações que continha o horário — A vovó queria assistir comigo e com a Emily um filme que começa às 21!
Desloguei com pressa, e assim que fui guardar o meu capacete, percebi que o outro não estava mais na caixa.
— Ahn? Emily, você pegou o outro capacete?! — gritava, mas nada dela responder.
Fui em direção ao seu quarto, bati várias vezes na porta e ela não respondeu, por mero impulso acabei abrindo a porta, era um milagre não estar trancada.
— Emi vai fazer uma carinha tão alegre quando descobrir que eu estava aqui — Eu pensava, olhando o seu quarto abarrotado de livros.
Até que quando olhei para sua cama, para a minha surpresa, Emily estava jogada lá com o NerveGear em sua cabeça.
— Ah, não pode ser... Eu estou sonhando? — esfregava meus olhos, e conforme a minha visão voltava ao normal, Emily ainda estava lá com o NerveGear.
— Emi, o que é isso? — gritava alegremente, tirando o seu NerveGear
Demorou algum tempo pra ela entender o que estava acontecendo
— L-Lucy? — parecia um pimentão me olhando, logo antes de olhar pro NerveGear nas minhas mãos e pular em minha direção para pegar — Me devolve!
— Se explique antes — Eu andava para trás rápidamente, até que bati com as costas na parede, então a unica solução foi segurar o capacete no alto — E pra quê toda essa raiva?
— Eu estava prestes a descobrir uma coisa, me devolva! — Ela gritava, por um momento, cheguei a me perguntar se algum demônio possuíra ela enquanto jogava.
— Sabia que você ia se render uma hora ou outra.
— Me render a quem? Sua grande idiota. — Ela pegava o elmo com raiva. Na verdade eu que deixei ela pegar, mas claro, vamos deixar ela pensar que foi pelo próprio esforço
— Aos meus dois bebês — Suspirei — O primeiro deles, a maravilhosa e prática tecnologia — disse animada, estendendo a minha mão direita — O segundo, o velho, porém divertido, RPG — Estendi a minha mão esquerda
— Você tomou muito café hoje, é?
— Não, é que eu sempre soube que chegaria o dia que a minha irmãzinha jogaria os mesmos jogos que eu — eu a abraçava e a balançava de um lado para o outro
— Lucy, você quer me matar? — ela perguntava com dificuldades, tendo em vista que eu estava quase a esmagando.
(...)
O filme com a vovó foi ótimo, era Mamma Mia!, um dos nossos filmes favoritos. Vovó era nosso pai e a nossa mãe, ela sempre foi nosso apoio, sabíamos que uma hora não a teríamos, então aproveitávamos ao máximo.
Depois do filme e algumas risadas, subimos para o quarto, combinei de ajudar Emi a subir de level, e era a data perfeita, já que a partir de meia-noite, por ser aniversário de um mês que o Caelum foi lançado, EXP estaria multiplicada 5X e vários itens iriam estar mais baratos.
Depois de logar, procurei o nick da Emi e a adicionei, como não éramos muito experientes ainda, ambas estávamos na primeira cidade. Nos encontramos em frente ao NPC que vendia armas, Emi com cabelos azul bem claro até os joelhos e olhos violetas. Pelo visto, Emi gostava de fugir da sua aparência da vida real, assim como eu, que estava com um cabelo curtíssimo preto, olhos azuis tão claro que poderiam ser confundidos com um tom de branco, e algumas coisas tipo saia curta, meias enormes, além de um chapéu bonitinho e outras coisas que eu certamente nunca usaria na vida real.
— Pronta para aprender com a melhor, irmãzinha? — perguntei com um sorriso desafiador.
— L-Lucy, no que você está pensando? — saquei meus dois calibres 38, apontando um deles pra cabeça da Emily. — E-Ei, você está pensando que isso é aquele seu sonho maluco?
— Vamos Emily, apenas por diversão. Afinal, é esse o objetivo de jogar!
Alguns players pararam o que estavam fazendo e ficaram nos encarando, eu ouvia eles comentando, e alguns até mesmo apostando Cash.
— Ei ei, é roubada apostar na azulada, eu explodo a cabeça dela com apenas um tiro, duvidam? — Eu brincava com a arma na minha mão
— "Se divertir" você disse, certo? — Emily me mandava um convite de duelo, é claro que eu dei uma risada e aceitei o convite.
— Meus cumprimentos, irmãzinha. — Eu me abaixei fazendo uma referencia a ela, quando me levantei, percebi que havia uma multidão aos gritos envolta da gente
— Igualmente. — Ela fez a mesma referência — Mas espera, a mais velha sou eu! Eu que deveria te chamar de irm...
Emily se desmaterializou bem a minha frente, ela não poderia ter dado logout só pra fugir do duelo, poderia? Não, eu teria visto ela abrir o menu, de forma alguma não tem como ela deslogar sem ninguém ter viso. Abri o menu para deslogar, vai ver havia acontecido algo em casa
— O que? — Eu pensava, vendo que o botão de logout não estava ali — Pessoal, mais alguém está com um bug no botão de deslogar?
Quando levantei minha cabeça, todos eles estavam se desmaterializando.
— Que merda é essa?
Todos os players que iam nos ver se desmaterializaram, e eventualmente, eu também. O que aconteceu é que todos fomos transportados para a praça central de Vetus. Logo que cheguei, gritei pelo nick da Emily, logo a achei e corri até ela
— O que tá acontecendo? — Emily perguntava assustada
— Não sei, talvez seja algo do evento, afinal, são 00:01 — eu dizia, otimista — Calma, não há motivo para se preocupar.
Uma tela holográfica enorme apareceu no céu, todos os players se viraram para vê-la. Menos Emily, que continuava tremendo de medo.
— Não vai te acontecer nada — segurava a mão dela — Eu não vou deixar!
Ela tomou um pouco mais de coragem e ergueu a cabeça, olhando para a enorme tela branca;
— Sabe Lucy, eu estou com um mal pressentimento — sua mão tremia quase tanto quanto suas pernas.
A enorme dela branca adquiriu a mesma imagem de uma TV quando está fora do ar. A voz que se ouvia em seguida era distorcida de uma maneira em que ficava mais grossa, como se quem estivesse falando não quisesse mostrar sua verdadeira voz.
— Boa noite, jogadores de Caelum! Eu sou da Hack, a empresa responsável pela criação do jogo. Então me digam, vocês estão gostando?
Todos colocamos os braços pra cima e gritamos em resposta afirmativa.
— Ótimo, ótimo! Com isso, preparamos um grande evento para comemorar o primeiro mês de World Of Caelum, sem vocês, não teríamos chegado ao primeiro lugar da lista de jogos mais vendidos do ano em tão pouco tempo! Nós, da Hack, só temos a agradecer.
— Tá vendo Emi? Não é nada!
— Não é nada? Se o caso era apenas um agradecimento, eles poderiam ter nos mandado uma mensagem ou coisa assim — parei para pensar, e realmente, Emily estava certa — Até porque, ele está usando um programa para distorcer a sua voz, o que ele tem a esconder?
Apesar de tudo o que ela estava dizendo fazer algum sentido, eu só tentava pensar positivo.
— Ei, maldito, por que não nos mostra sua voz? — Um player gritava.
— Ah sim, perdão. — desabilitou o programa, e agora, era possível ouvir claramente a sua voz, que me soava estranhamente familiar. — Pois bem, como vocês podem perceber, o botão de logout desapareceu, mas fiquem calmos, pois daqui a algum tempo vocês irão conseguir deslogar e voltar para as suas vidinhas. Daqui a muito tempo... — Ele soltava uma risada de leve — A questão é que agora o jogo está bem mais interessante, e a primeira demonstração disso é agora
Fomos envoltos pelo mesmo brilho que aparece em todos nós antes de deslogarmos, morrermos, e pelo visto, o mesmo brilho antes de sermos transportados. Conforme o brilho cessava, todos os players mudavam de aparência. Quando olhei pra Emi, ela estava exatamente como é na vida real, apenas com as roupas do jogo. Passei a mão pelos meus cabelos, vi que haviam voltado a ser aquelas ondas loiras cujo eu tanto odiava.
— Isso é o que conseguimos fazer ao calibrar os seus cinco sentidos, enquanto vocês calibravam, coletamos uma amostra de DNA de todos vocês, por isso conseguimos fazer a aparência de vocês ficar como a da vida real.
— Não surte Emily, não surte. — sussurrava ao meu lado, tentando manter a calma.
— Agora, vamos ao que interessa — a voz continuava, que droga, de onde eu conhecia essa voz? — Vocês estão todos presos aqui, não é o máximo? E a parte divertida, é que se vocês morrerem aqui, um choque será enviado ao cérebro de vocês através do NerveGear e vocês morrem na vida real!
Gritos de pânico preencheram toda a praça central, Emily apertava a minha mão cada vez mais forte, mas dessa vez com lágrimas rolando no seu rosto. Eu queria acreditar que aquilo não estava acontecendo, que era apenas um sonho, mas ao observar os gritos e os players em pânico, cada vez mais eu tinha certeza de que era real
— A propósito, se alguém do mundo real tentar remover o NerveGear de vocês, irá acontecer a mesma coisa, com direito a choque e tudo mais — falava de uma maneira tão irônica que eu tinha vontade de enfiar duas agulhas nos meus ouvidos para não ter que ouvir mais — Porém, nem tudo está perdido, se algum de vocês conseguir derrotar o boss da última masmorra, você e todos os outros players irão se deslogar automaticamente. Contudo, não pensem que será fácil — Ele riu — Bom, acabei de dar todos os nossos avisos, portanto, bom jogo para todos, e tentem não se desesperar!
Conforme a tela ia diminuindo, eu me lembrei de onde eu conhecia essa voz um tanto quanto fina, que não deixava de ser masculina mesmo assim
— Emily, é a mesma voz do cara do meu sonho, o que me chama pelo nome da mamãe — Eu sacava meus dois calibres e mirei na tela — Você é algum tipo de retardado? Seu maldito! — Dei dois tiros com cada arma mas não obtive sucesso, já que as balas atravessaram a tela, até que ela sumiu completamente. Claro, eu realmente queria atirar na tela holográfica, sou um gênio!
Me virei para Emily, ela estava de joelhos no chão com as mãos no rosto, quando chamei seu nome, seus olhos estavam vermelhos e inchados, não pude evitar de chorar também. É claro que eu estava com medo, mas antes dos meus pais morrerem, papai me disse para ser forte e proteger a Emily.
— Lucy? Está chorando? — disse ela.
— Claro que não, babaca — Eu limpava os meus olhos e estendia a mão pra ela se levantar
— Você não está com medo? — A sua voz ainda estava trêmula
— Ah, apenas detalhes... — Eu limpava um dos meus olhos — Sabe, tem um ditado que segui durante a minha vida inteira, mas ele nunca se aplicou tão bem a uma situação quanto essa
— E qual é?
— "Se você está no inferno, abrace o capeta".
— Quando finalmente pensei que você ia dizer algo que fizesse sentido... — suspirou.
— Emily, já estamos aqui, não é? Ele quer que a gente jogue para finalmente podermos dar logout, e adivinhe o que a gente vai fazer...
— Jogar?
— Melhor que todos os outros players, minha cara irmãzinha.

