Virgo Next Door
Virgo Next Door
Chapter 16 min read

Como Leão Conseguiu a Chave do Quarto do Virgem

Leão, majestoso como sempre, descia as escadas para tomar café lentamente, como se fosse uma princesa Barbie descendo para seu baile – situação que não era de fato muito diferente.

Diferente mesmo foi a reação dos outros onze signos quando o viram adentrar na cozinha. Todos pararam o que faziam para observá-lo – Mais do que normal. Uma estrela nunca consegue passar despercebida. – no entanto, ao invés de o cumprimentarem ou voltarem a comer, eles riram. A avalanche de risadas pegou desprevenido o leonino, que, também fora do normal, tropeçou no próprio rabo, o que fez com que as gargalhadas aumentassem o tom. Capricórnio tentava se conter colocando a mão sobre a boca. Até mesmo o peixinho ria descontroladamente.

—O que é isso? – Perguntou o Leão, irritado. – Por acaso tenho cara de palhaço?

—Na verdade... – Começou o Escorpião. – Está mais para Bobo da Corte.

O queixo do Leão caiu. Está certo que Escorpião realmente gostava de implicar com ele e sempre era insensível em suas respostas, mas isso feria seu ego profundamente. Após isso, uma nova onda de gargalhadas ainda mais altas, como se isso fosse possível, tomou conta do recinto. Leão mal percebeu que Aquário e Gêmeos deram um soquinho de mãos enquanto chegava para trás a passos lentos e, de repente, virava-se para correr até o próprio quarto.

Estava pronto para se jogar nas cobertas de sua cama quentinha, porém desfeita, quando viu um vulto estranho pelo canto do olho. Vinha do banheiro. Cheio de adrenalina, apressou-se para abrir a porta, deparando-se com seu pior pesadelo.

O reflexo que o espelho mostrava era o de um monstro irreconhecível. Maquiagem borrada escorria sobre seu rosto – e nem sequer combinava com o resto. Faltava tufos de cabelo em diversas partes de sua juba e os que ainda estavam presos a sua cabeça estavam horrivelmente desgrenhados. Usava um macacão e um chapéu com sininhos, ambos símbolo do bobo da corte, de cores berrantes e intragáveis. A flor que estava pendurada em seu peito soltou um jarro d’água e só então percebeu que aquela aberração era ele próprio. O som de risadas voltou a preencher o cômodo e os rostos maldosos dos outros moradores da casa apareceram ao seu lado no espelho.

—Nãããããooooo!!!!

O grito de desespero fez com que ele acordasse e fosse impulsionado até sentar-se na cama. Com um salto, saiu de lá e chegou veloz no banheiro, arfando. Tocou loucamente a própria face, ignorando o suor, só para ter certeza de que aquela figura que, mesmo quando acabava de acordar era maravilhosa, era ele mesmo. Um suspiro de alívio. Foi só um pesadelo.

Voltou lentamente à cama para dormir, mas sua mente fazia com que lembranças daquele sonho horrível aparecessem o tempo todo. Virava de um lado para o outro, mudava a posição, contava leãozinhos, mas nada adiantava. Sabia que assistir àquela maratona de filmes de terror com o Escorpião e o Peixes era uma má ideia, mas, se o doce peixinho aguentava, então ele tinha que provar sua soberania mostrando que isso também era fichinha para ele. Agora estava lá, com medo de dormir, que nem o Peixes.

Espera. Era isso. Mesmo que não fosse admitir com todas as palavras em voz alta, assim como o Peixes, ele precisava que alguém dormisse com ele. E ele já havia alguém em mente.

Levantou-se e, na ponta dos pés, bateu à porta de seu vizinho. Um resmungo pôde ser ouvido de lá de dentro. O dono do quarto tinha sono leve.

—Quem é? – A voz do Virgem saiu arrastada.

—Sou eu, seu gatinho. – Disse manhoso com a bochecha colada na porta.

Mais um resmungo pôde ser ouvido de lá de dentro.

—O que você quer?

—Posso dormir com você?

—Não. – Curto e grosso.

—Ah, qual é, Virgem! Qual o problema?

—Ao contrário de você, que fica vagabundeando por aí, eu tenho que fazer faxina. Então, só vá dormir e me deixe em paz!

—Por favor, Virgem! Só hoje! Estou te dando o ilustre prazer da minha presença e você me trata assim?

—Se você não sair agora, eu vou te dar uma vassourada.

—Quê!? Você é tão maníaco por limpeza que dorme com uma vassoura no quarto? – Leão girou a maçaneta e tentou abrir a porta em vão. – E ainda por cima tranca o quarto!? Quão neurótico você é?

Apesar do questionamento completamente válido, Leão foi deixado no vácuo. Com um longo suspiro, ele repousou a mão sobre a madeira fria e começou:

—Virgem... – Sua voz deixou de ser séria e começou a cantar como se estivesse em um musical da Broadway, o que era extremamente provável de acontecer. – Você quer brincar na neve? Um boneco quer fazer?

De repente, pode-se ouvir um estalo vindo da porta, que se abriu mostrando um Virgem descabelado e furioso com uma vassoura na mão.

—Caramba! Nem pra dormir você tira esse vestido?

Virgem nem se deu ao trabalho de responder. Levantou a vassoura e se preparou para correr atrás do meliante, que fugiu para o próprio quarto. Aliviado por não precisar fazer muito esforço, fechou novamente a porta do quarto e deitou-se para dormir.

O sono, contudo, não chegou. O som abafado, porém audível, de choro do Leão não o permitia dormir. Tanto porque era um barulho que realmente incomodava tanto porque ficou com peso na consciência. Por fim, bufou e cedeu ao seu coração mole.

Abriu um pouco a porta do quarto de Leão e disse um pouco a contragosto:

—Só dessa vez.

E saiu antes de ver a reação que causara no leonino. Um sorriso que se estendia de uma orelha a outra nasceu em seu rosto e permaneceu lá até chegar à confortável cama do virginiano. Deslocou-se tão rápido que conseguiu deitar lá antes do próprio Virgem.

Revirando os olhos, o de cabelos negros recostou-se do outro lado e teve o corpo envolto pelos aconchegantes braços de Leão. Por mais que o aquecessem naquela madrugada fria, Virgem, corado e com um grunhido, afastou o outro, que o encarou com as sobrancelhas franzidas.

—Esse canto é seu e este é meu. – Definiu. – Sem ultrapassar.

“Mas o Escorpião e o Peixes estavam abraçados... Meu brilho deve ser demais para ele.” – Leão pensou chateado enquanto se virava para o outro lado, respeitando o pedido do Virgem, que dormiu aliviado com isso.

O que ele não esperava era que essa não seria a última vez. Leão foi sagaz ao menos uma vez na vida e lembrou-se de roubar a chave do quarto de virgem e fazer uma cópia para poder entrar lá toda vez que tivesse um pesadelo – ou quisesse companhia para passar a noite. Virgem acabou se acostumando às visitas noturnas repentinas do vizinho. Após tanta súplica, acabou deixando que ele continuasse com aquilo, desde que nunca contasse a ninguém sobre essas escapadas.

E acabou gostando delas tanto quanto o de mechas castanhas, apesar de que nunca fosse admitir isso em voz alta.

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