The Wicked
The Wicked
Chapter 128 min read

Capítulo I

I

Just a small town girl, living in a lonely world. She took the midnight train going anywhere. Para ser sincera, a música do Journey nunca havia feito tanto sentido como naquele momento em especial. Durante toda a minha vida eu tive certeza que estava destinada a brilhar. Que eu seria uma grande cantora, famosa por meu talento e com uma base de fãs tão grande que filas quilométricas se formariam apenas para me ouvir. E sabia que um futuro como esse custaria inúmeros tipos de desapegos com relações criadas ao longo da vida, momentos de dificuldade e angústia. E quer saber? Eu estava disposta a passar por isso.

Eu só não esperava que Los Angeles fosse capaz de me foder daquela maneira.

Como nativa de uma cidade como Walker em Minnesota — que não contava com mais de mil habitantes para compor sua população total — e saindo de um mundo onde as pessoas se casavam cedo, construíam famílias e morriam no mesmo lugar onde nasceram, eu não havia visto muito do mundo. Meus pais haviam se apaixonado ainda no colegial e haviam conseguido construir um bom legado profissional na medida em que meu pai se mostrava um ótimo homem de negócios.

E as coisas começaram a soar bem para nós.

Ainda assim, éramos uma família de completos caipiras que não tiveram oportunidade de conhecer todas as maravilhas que o mundo oferecia além das barreiras de Minnesota. E eu sonhava grande com o momento em que meus olhos finalmente se abriram para o mundo real, oferecendo um mar de oportunidades que me arrancariam do destino fatídico de nascer e morrer em Walker Minnesota.

Eu estava me mudando para a cidade dos anjos.

Dezesseis anos de idade e um caminhão de mudanças. O negócio bancário dos meus pais começou a ganhar destaque na medida em que uma grande oportunidade de expansão da empresa surgia e se tornava uma meta para a nossa família. Logo estaríamos construindo uma vida completamente diferente e eu estava ok com isso. Não apenas pelo motivo de eu apoiar meus pais em todas as suas decisões cegamente, mas porque eu também sabia que o destino sorriria para mim.

Eu sempre tive a ambição de sair de Minnesota e ir à uma cidade grande quando eu me formasse. E agora, com todas aquelas mudanças, eu havia adiantado os meus sonhos em pelo menos cinco anos. Isso era incrível! E a ansiedade, o frio na barriga, a animação de finalmente poder sentir que a vida estava trabalhando para fazer todos os meus planos funcionarem da maneira que eu queria, era indescritível!

Minha família e eu sempre fomos muito unidos e por eu ser filha única, minha mãe estava preocupada desde já do que seria de mim. Eu entendia completamente. Uma coisa era criar uma adolescente de dezesseis anos em uma cidade onde a maior festança era oriunda de um jogo de futebol de homecoming, enquanto outra coisa completamente diferente era ter uma adolescente de dezesseis anos na maravilhosa e vasta Los Angeles. Com pais protetores, eu tinha um pouco de medo de ser privada de fazer o que eu queria, mas eu tinha certeza de que eles seriam compreensíveis. Afinal, eles também já foram jovens como eu.

Eu poderia dizer que não vivia uma vida perfeita, mas na verdade eu vivia sim. Tinha pais maravilhosos, era cercada de amigos, estava prestes a me mudar para a cidade dos meus sonhos e se tudo saísse como o planejado, em alguns meses eu estaria me apresentando cidade afora. Tudo estava dando certo e existia uma fórmula perfeita para meu sucesso que estava pronta para seguir.

E quando o caminhão finalmente chegou no meu mais novo lar, mal tive tempo de ver minha casa nova. A construção ainda estava cheia de caixas e um pouco caótica, mas ela era pelo menos quatro vezes maior que minha antiga casa e era absolutamente maravilhosa. Eu tinha um quarto gigante – mais uma boa notícia – no qual passei pouquíssimo tempo, apenas para dormir até o dia seguinte.

Com a mudança repentina e planejamentos de última hora, nós havíamos chegado de noite na cidade e eu teria escola logo pela manhã. Eu seria uma aluna em meio de semestre e já tinha plena consciência de que seria uma morte horrível. Mas eu ia sobreviver. Afinal, eu sabia que todas aquelas dificuldades eram apenas portas se abrindo para algo muito, mas muito maior!

Eu pensei que estava pronta para o meu primeiro dia de aula, mas eu definitivamente não estava. Quando pulei para fora do ônibus, ainda ouvindo Don’t Stop Believing em meus fones de ouvido em meu discman, percebi como estava desesperada. Estava tudo errado. As pessoas usavam roupas muito diferentes das minhas, elas andavam de um lado por outro e ninguém parecia me notar. O mais enlouquecedor de todos os fatos era: haviam mais pessoas ali do que na minha bendita cidade inteira.

Eu fui ingênua de pensar que estava pronta para aquela situação e que poderia lidar com isso. Eu era uma rata de interior, eu nem sabia como me locomover pelo colégio e muito provavelmente seria motivo de piada para as outras garotas. Era demais para mim. Só percebi que tinha que me mover quando as pessoas já começaram a me empurrar. Pensei em dar meia volta e entrar no veículo escolar, mas antes que pudesse, a porta fechou na minha cara e o ônibus se foi. Senti minha pressão cair e então minhas mãos segurarem trêmulas a alça da bolsa. Vamos lá Cherry, você consegue.

Respirei fundo e forcei meus pés a trabalharem. Minhas botas batiam contra o chão e disparei pelo pátio, tentando entrar o mais rápido possível nos dos corredores abarrotados de gente e cheio de armários. Tirei do bolso o papel que minha mãe havia me entregado e olhei o itinerário das minhas aulas. Sala 405, bloco C. Que Deus me ajude.

Eu tinha livros pesados em minhas mãos, mas nem perdi meu tempo com esperança de encontrar meu armário. Ainda era um pouco cedo, mas havia feito a escolha correta ao chegar um pouco antes já que provavelmente me perderia algumas vezes até encontrar a sala. Geralmente, em um primeiro dia de aula, os alunos vão até a secretaria para só então pegar seus cadernos e seus horários. Minha mãe pensou que estaria me ajudando ao adiantar aquela missão para mim, mas de certa forma eu gostaria que ela não tivesse o feito. Se eu tivesse ido até a secretaria pegar meus horários, talvez encontrasse alguém que pudesse me ajudar a encontrar a minha sala. Mas não. Agora estava perdida e claustrofóbica em um mar de gente.

Encontrei uma placa com uma seta que apontava ao bloco C e sentindo quase um alívio instantâneo, virei o corredor, esbarrando acidentalmente em pelo menos três pessoas no processo. Meus olhos estavam focados nas numerações das salas e meu coração batia forte com o medo que eu sentia. Era como se estivesse esperando por um ônibus na saída de todos os trabalhos do mundo. Eu não estava acostumada com aquele mar de gente e por um momento cheguei a me perguntar se conseguiria me acostumar um dia. Talvez a resposta fosse não.

Pulei para dentro da sala quando encontrei o número procurado e soltei um suspiro aliviado, levando a mão ao peito e respirando, agora em um local não tão lotado quanto o corredor. Analisei o local um pouco sem jeito conforme via grupos de todos os tipos formados e conversando, fazendo com que eu engolisse em seco e tentasse me acalmar. Aquelas pessoas provavelmente se conheciam desde pequenas e estavam em seus grupos formados. Eu esperava que conseguisse fazer amigos ali e que as pessoas fossem minimamente receptivas.

Abracei meus livros contra o peito e respirei fundo mais uma vez, caminhando em direção ao fundo da sala. Encontrei um grupo de asiáticos que conversavam e riam, mas sequer olharam para mim quando passei. Do outro lado da sala estava um grupo de meninas, elas usavam óculos e camisetas quadriculadas muito semelhantes e pareciam discutir algum livro do qual eu nunca havia falar. Do outro lado estava um grupo de garotos, todos vestidos em jaquetas varsity, muito provavelmente do time da escola. E nenhum dos grupos me pareceu exatamente receptivos. Foi então que eu vi ele.

Sentado na última cadeira de uma fileira no canto, estava um rapaz solitário. Seus cabelos loiros e ondulados estavam um pouco grandes e ele parecia prestar atenção em anotações – ou então um desenho – na qual ele estava concentrado até que provavelmente sentiu que estava sendo observado. Eu pensei em desviar os olhares para não parecer estranha, mas antes que pudesse, congelei fitando os olhos negros que me encaravam com a mesma curiosidade da minha. E eu consegui ver bem o seu rosto. Traços marcados, pele pálida, olhos escuros e cabelos claros. Ele parecia uma espécie de assombração, ainda mais sozinho como estava, e a expressão em seu rosto não era amigável, mas era atraente.

Abaixei os olhares, abrindo um sorriso de canto e parei por um momento. Ele não me parecia ser realmente receptivo, mas já havia me conectado o suficiente por termos trocado olhares. Talvez ele não quisesse conversar comigo e me mandasse cair fora, mas eu não ligava. Pelo menos poderia dizer que tentei socializar com alguém.

A cadeira ao lado da dele estava vazia e foi exatamente ali que me sentei, pendurando minha bolsa na lateral. Os olhos do rapaz acompanharem meu trajeto inteiro, parecendo não disfarçar as encaradas, mas isso não me deixou sem graça. Seus olhos tinham um brilho intimidador, mas não foi suficiente para fazer com que eu perdesse minha postura. Apenas abri um sorriso e então me virei em sua direção para dizer “olá”, mas antes que pudesse, fui abordada por um rapaz que – sem pedir licença — se sentou sobre a minha mesa.

—Ei, garota novata. Este lugar está ocupado.

Arregalei os olhos em surpresa, dando atenção para o menino de cabelos castanhos e braços fortes, abrindo um sorriso sem graça e então pegando minha bolsa pendurada. O menino de cabelos loiros revirou os olhos e logo percebi que ele não parecia gostar muito do jogador de futebol – fator perceptível pela jaqueta que ele usava – que falava comigo.

—Me desculpe, eu realmente não sabia. –Abri um sorriso simpático, apoiando a bolsa em meu colo. –Eu vou escolher outro lugar.

—Tecnicamente não está ocupado ainda, só reservado.

Ele explicou, fazendo com que eu permanecesse sentada e o observasse confusa, tentando entender de que diabos ele estava falando. Ergui uma sobrancelha.

—Reservado? Para quem?

—Minha futura namorada.

Ele respondeu com um sorriso largo, fazendo com que meu rosto corasse. Meu Deus, eu havia pegado o lugar pertencente a namorada do menino e todos os olhos já estavam em mim por causa disso. Eu não sabia quem era o garoto de cabelos castanhos, mas ele deveria ter certa popularidade para todo mundo estar tão preocupado com o lugar da namorada dele que eu havia pegado por engano. Mas espere... Ele havia dito futura namorada?

—Me desculpe, eu não sabia. Posso sentar em outro lugar, sem problemas.

Falei confusa, me colocando de pé, mas assim que fiz, o menino tocou a mão em meu ombro, me impedindo de afastar. O sorriso em seu rosto se alargou, mostrando uma covinha charmosa no canto dos seus lábios.

—Na verdade, ela já estava sentada aí esse tempo todo.

Abri a boca para responder e minha face se contorceu em uma expressão de confusão conforme eu tentava entender as palavras do jogador. Pisquei algumas vezes, ainda pensando, e encarei por um bom tempo o sorriso brincalhão de alguém que havia acabado de fazer o trocadilho do ano. Quando finalmente percebi que eu era a futura namorada, e que aquela havia sido uma péssima tentativa de flerte, comecei a rir. Não uma risadinha fofa de uma menina tímida e interessada, mas uma gargalhada pela tentativa ridícula de me cantar. Em poucos segundos o sorriso no rosto do moreno desapareceu.

—Ai meu Deus, isso foi...? –Não consegui completar a frase, cobrindo minha boca com as mãos, conforme eu gargalhava mais ainda. Eu não conseguia leva-lo à sério, e isso parecia irritar o menino. –Me desculpe, eu... –Gargalhei mais um pouco, sentindo meu rosto esquentar. Eu provavelmente havia adquirido uma coloração vermelha nada atraente, mas não conseguia evitar. –Isso foi uma cantada?

—Eu não entendi a graça.

O moreno respondeu irritado, cruzando os braços e me observando em uma expressão nada amigável. Levei a mão até o peito, respirando fundo para parar de rir, mas não sem antes rir mais um pouco. Aquela havia sido a coisa mais patética que já vi em toda a minha vida.

—Eu achei engraçado. –Dei de ombros, voltando a me sentar no meu lugar de origem. –É daquele tipo de piada que de tão ruim fica engraçada.

Risadinhas coletivas puderam ser ouvidas e então os olhos raivosos do menino fitaram a sala, logo depois parando em mim. Ele se colocou de pé e então revirou os olhos, passando a bola de futebol de uma mão para a outra.

—Vadia.

Ele resmungou entredentes, conforme me dava as costas e então voltava para perto dos seus amigos com jaquetas combinando. Um sorriso de canto se abriu em meu rosto conforme meus olhos caíam mais uma vez sobre o menino de cabelos loiros que balançava a cabeça negativamente e anotava alguma coisa em seu caderno, com um sorriso estampado em seu rosto e uma mão tentando encobri-lo.

Não entendi muito bem a razão de ele estar tentando esconder o sorriso quando era tão bonito, mas tudo o que consegui fazer foi me virar e então soltar uma risadinha baixa. Não entendi o porquê de eu ter gostado tanto da aprovação de um estranho, mas estava inexplicavelmente feliz. De certa forma, eu queria que aquele menino misterioso e de olhos negros gostasse de mim.

A atenção de todos os alunos se voltou para a parte da frente da sala quando, finalmente, o sinal tocou e a professora adentrou a sala. Franzi a testa observando a figura mais interessante que já vi em minha vida, vestida em uma longa saia branca, uma blusa florida extremamente larga e cabelos cacheados, loiros, levemente atrapalhados. Em seu rosto havia um sorriso e ela parecia genuinamente feliz em nos ter ali. Ergui uma sobrancelha, percebendo que a primeira professora que eu conhecia naquele dia era uma hippie. Essa cidade é muito estranha.

—Bom dia, meus raios de sol! –A mulher cumprimentou em tom completamente sereno, fazendo com que todos os alunos trocassem olhares divertidos. –Bem-vindos a mais uma aula de Cidadania e mais um dia em que o sol brilha claro. Fiquei sabemos que temos uma nova aluna de fora da cidade... Cheryl?

A mulher conturbada me chamou, fazendo com que um sorriso se abrisse em meu rosto. Me coloquei de pé ao lado da cadeira e não me importei em ter todos os olhos voltados para mim. Eu poderia estar um pouco em pânico por causa da escola nova em uma cidade nova, mas eu sempre gostei de atenção. Não era agora que eu iria desenvolver uma timidez ridícula.

—Cherry, como a fruta. –Corrigi a professora, que aplaudiu. Abri um sorriso amarelo, estranhando um pouco a mulher tão peculiar. –Eu sou de Walker, Minnesota. –Contei, dando de ombros. –E, sim, sou aluna nova de meio de semestre, então, por favor, sejam legais. –Abri um sorriso de canto, ouvindo umas risadinhas. –Eu mudei por causa dos meus pais, mas acho que sempre tive vontade de morar aqui. Se não fosse agora, seria na faculdade. Ah... E eu abomino pessoas que não sabem flertar. –Acrescentei, ouvindo risadas, agora mais altas, de grande parte da sala. –Acho que é isso.

—Muito bem, minha jovem! –A professora vibrou, me observando em puro tom de diversão. — Meu nome é Helena, mas quero que me chame de professora Solaia! Eu não sei como eram as aulas na sua cidade, mas aqui nós fazemos tudo de um jeito diferente. –Ela comentou, fazendo um gesto com as mãos para que todos se levantassem. Quando a sala toda o fez, obedeci. –Nós não usamos cadeiras nessa aula. Elas são apenas projeções de um sistema que impõe. Nós não impomos nada nessa aula, tratamos tudo por meio de debates e conversação. Podem formar o ciclo da vida.

Abri a boca em total confusão conforme todos os alunos se movimentavam e iam ao centro da sala, se sentando no chão como uma espécie de círculo. Me sentei ao lado do menino de cabelos loiros e ergui uma sobrancelha para ele, que não parecia muito animado com as vibrações da professora. Soltei uma risadinha com a careta que ele fez ao meu gesto de “o que está acontecendo? ”.

—Em todas as aulas nós trocamos de vizinhos, Cherry, então na próxima aula não poderá sentar ao lado dos seus colegas. Eu faço isso porque é uma forma de integração da sala como sociedade. Não temos preconceitos nessa sala, somos um. Entendido?

—Sim, senhorita Solaia.

—Ótimo! –A mulher abriu um sorriso, olhando para toda a sala animadamente. Só ela parecia estar animada. –Como temos Cherry aqui, será uma ótima oportunidade de fazer um exercício de reconhecimento! Quero que façam duplas com pessoas com quem vocês não conversem e tragam amanhã, na próxima aula, um relatório contando sobre essa pessoa. Deverão trazer relatórios em todas as aulas até o final da semana, contando tudo o que aprenderam sobre o outro. Seus sonhos, seus medos, suas ambições e seus gostos. Quero que passem horas conversando com suas duplas. Depois esse trabalho será convertido em uma apresentação para a sala na semana que vem.

Um gemido desanimado coletivo foi ouvido em resposta a proposta da professora, mas o bom humor dela parecia barrar qualquer energia ruim, pois ela só continuou sorrindo.

—Vocês têm dez minutos para formarem duplas. Poderão usar depois, o tempo restante de aula, para começarem o bate-papo. Vão, vão, vão!

Ela bateu palmas animadamente enquanto todos os alunos se colocavam de pé desanimados, e olhavam uns para os outros. Era claro que haviam grupos que não se comunicavam com outras pessoas e estavam desesperados por sair das suas zonas de conforto. Eu não tive muitos problemas com minha primeira opção de parceiro quando olhei para o menino loiro aos meus lados. Ele estava focado em seu caderno e quando sorri ele pareceu não notar. Tive que limpar a garganta para conseguir chamar sua atenção.

—Oi!

O menino tirou os olhos das páginas e então me observou, em silêncio, mantendo a expressão neutra que ele parecia ter como única expressão. Ele me analisou por um breve segundo e então abriu um sorrisinho de canto. Senti meu coração bater forte, com o fato de ele estar realmente falando comigo. Qual é o seu problema, Cherry? Você nunca foi assim!

—Olá, Cherry, como a fruta.

Abri um sorriso divertido com o cumprimento e então o observei, completamente entretida pela nossa socialização mínima. Ergui a mão para ele, oferecendo como um cumprimento, mas ele simplesmente observou meus dedos e ergueu uma sobrancelha. Cocei a cabeça com a mão erguida, um pouco sem graça, mas tentei disfarçar.

—Hm... Qual é o seu nome?

—Ah, perdão, eu realmente não sou perito nesse lance de se comunicar. –Ele comentou em um tom provavelmente irônico, fazendo com que eu franzisse a testa. Sorriu sem exibir os dentes. –Sou Tate.

Eu não conseguia entender como existia um ser humano como Tate, era impressionante. Ele tinha o rosto e o sorriso de uma pessoa simpática, dócil e por mais que ele jogasse palavras dóceis para mim, de certa forma eu sentia como se tudo fosse uma espécie de piada de humor negro que ele fazia para se divertir de alguma forma conturbada. Era estranho encontrar uma pessoa dócil que era rude sem ser rude. Eu havia trocado seis palavras com Tate e ele já havia causado um nó na minha mente.

Cheguei a questionar por um momento se seria uma boa ideia fazer trabalho com ele, quando ele não parecia realmente muito disposto a conversar comigo – ou ninguém -, mas algo naqueles olhos escuros fazia com que eu quisesse arrancar mais palavras dele. Ele parecia ser uma pessoa interessante, por alguma razão. Eu sentia que, se eu não conversasse com Tate naquele momento, eu estaria perdendo algum tipo de oportunidade única de fazer um amigo.

—Você por acaso já tem uma dupla?

Perguntei sem pensar, recebendo em troca um olhar que gritava um claro “ sério? ”, estampado. Abri um sorriso sem graça e acompanhei Tate que olhava para os lados, mostrando que não existia ninguém próximo da gente. Era óbvio que ele não tinha uma dupla. Abri um sorriso sem graça conforme o menino me observava de testa franzida. Com o meu silêncio, ele percebeu que deveria falar alguma coisa.

—Não, não tenho uma dupla.

—Ótimo. –Sorri, sentindo meu rosto esquentar. –Quer dizer, ótimo que encontrei alguém que não tem uma dupla, não ótimo que você não tenha uma dupla.... Porque, sabe? Tanto faz.

Fechei os olhos me perguntando que diabos tinha errado comigo e me forcei a olhar para o loiro novamente, para encontrar um sorriso divertido em seu rosto. Tate assentiu e então cruzou os braços, se encostando contra a mesa da professora.

—Sim, ótimo.

Corei como a droga de um tomate. Eu nunca fui tímida, geralmente conseguia conversar com garotos sem problemas, mas alguma coisa estava estranha comigo e eu não entendia. Por que ele me intimidava tanto? Simplesmente não fazia sentido.

—Tudo bem. –Soltei, me sentando sobre uma das cadeiras e então abri um sorriso para ele, esperando um em troca. Tate cruzou os braços e então me observou em uma expressão exageradamente interessada, que me fez querer rir. Revirei os olhos com um sorriso idiota no rosto. –Tudo bem, senhor irônico. Me conte um pouco sobre você.

—Acho que eu sou um pouco irônico. –Ele brincou, fazendo com que eu soltasse uma risada divertida. Fiz um gesto com a mão, pedindo por mais adjetivos. –Ok, eu moro em Los Angeles desde que nasci.... Eu venho para essa escola desde os meus primeiros anos.... Eu tenho dezesseis anos.... –Ele parou pensativo, tentando encontrar alguma outra informação importante. –Isso seria muito mais fácil se você me fizesse perguntas.

—Ah! –Exclamei, dando um pulo na cadeira por perceber que ele tinha razão. Sorri. –Certo, desculpe! O que você acha das aulas de cidadania?

—Eu gosto do cheiro de maconha que a professora exala. –Ele respondeu naturalmente, fazendo com que eu parasse de anotar. –Você não?

—Bem, eu não posso escrever isso. –Dei risada, apagando o início da frase que eu já havia começado a anotar. Olhei de rabo de olho para a professora que praticamente flutuava pelo local. –Você realmente acha que ela está chapada?

—Eu tenho certeza disso. –Ele assentiu, abrindo um sorriso sem exibir os dentes. –O que mais?

Pressionei os lábios tentando pensar em mais uma pergunta. Eu havia amado aquele exercício, queria perguntar tanta coisa para Tate! Você tem uma namorada?

—Você mora com seus pais?

—Mãe. –Ele corrigiu brevemente, dando de ombros. Poderia ter sido minha impressão, mas ele não pareceu querer muito prolongar aquele tópico em questão. Assenti. –E o que você quer da vida?

—Como assim o que eu quero da vida?

—Quais são seus sonhos? Onde você se vê daqui dez anos?

Os olhos negros me fitaram com um brilho intenso, mas eu não obtive uma resposta. Tate ficou em silêncio, realmente parecendo pensar, mas ele não me respondeu. Apenas ficou me encarando, conforme eu mudava de posição desconfortável. Aquela não deveria ser uma pergunta difícil, mas parecia difícil para ele. Mordi o lábio inferior, um pouco inquieta com a reação do loiro.

—Eu não tenho ideia. –Ele respondeu sinceramente, parecendo um pouco cansado. –Eu não acho que fiz planos para o futuro. Nunca perdi meu tempo com isso, digo, a vida é tão inesperada. Você não sabe se vai ser atropelada por um ônibus amanhã, se nos próximos cinco minutos vai cair enfartada. Como pode fazer planos para dez anos?

—Eu gosto de chamar de ambição. –Dei de ombros, um pouco confusa com a resposta dele. Franzi a testa, o observando cuidadosamente. –Eu realmente não sei se vou ser atropelada por um ônibus amanhã, mas caso eu não seja, quero ter uma perspectiva do meu futuro. Saber o que fazer quando eu chegar lá e... Eu sei lá. Acho que sempre acreditei em fazer o que você ama. Eu pretendo seguir minha carreira baseada na minha única paixão e eu acho que vale a pena planejar e lutar por isso, entende? Pode ser um minuto, um dia ou dez anos. Eu acredito que tem que ser feita o máximo de cada vida, independentemente da duração dela.

Eu só percebi que estava tagarelando quando percebi que Tate tinha 100% da sua atenção em mim. Seus olhos me fitavam como se conseguisse me ver sob a pele e ele se manteve em silêncio conforme eu lhe contava sobre minhas perspectivas. Nós pensávamos bem diferente. Eu realmente acreditava que tínhamos que viver a vida como um show de rock, e não apenas passar por ela como se fosse uma espécie de espera. Espera para quê? Tate ergueu uma sobrancelha, parecendo só então digerir todas as minhas palavras.

—Você fala muito bonito, Cherry.

—Obrigada.

—Mas eu descordo. –Pisquei algumas vezes, surpresa pela reviravolta. –Digo, é muito fácil enxergar assim com uma vida relativamente perfeita. Cada dia é uma oportunidade porque pessoas que realmente sentem vontade de viver pensam assim. E eu acho isso muito bonito, sério. Ver a vida como uma caixinha de jujubas ou coisa do tipo, mas sei lá. Tem gente que não tem uma vida fácil, Cherry. E para essas pessoas, cada dia não é uma oportunidade, mas um fardo, a cada que dia que passa, mais pesado. O mundo não é tão colorido e doce assim. As pessoas são más, todo dia tem um obstáculo e eu.... Eu não sei. Acho que prefiro desviar deles do que pular um por um para conseguir atingir um objetivo que nem eu mesmo sei qual é. Parece sem sentido.

Pela primeira vez na minha vida, eu não soube o que falar. Apenas fiquei encarando o menino, boquiaberta, conforme as palavras deprimentes dele entravam em minha mente, uma por uma. Eu entendia o que ele estava dizendo, mas não entendia como aquilo estava saindo da boca dele. Tate parecia uma pessoa normal para mim, que vivia uma vida como qualquer outra pessoa ali e tinha acesso ás mesmas coisas. Por que ele falava assim então? Ele estava em depressão ou algo do tipo? Eu quis perguntar, mas tive medo de soar indelicado. Me mantive em silêncio por longos cinco minutos, tentando pensar no que dizer.

—A vida é um fardo para você, Tate?

Soltei, ainda um pouco atônita, mas me arrependendo logo em seguida. Um sorriso largo se abriu no rosto do menino, fazendo com que meu coração disparasse. Por que ele estava sorrindo?

—Eu nunca disse que estava falando de mim, cereja. –Ele deu de ombros. –Eu só fico triste de ver uma pessoa tão legal como você, ser como eles.

—Eles quem?

Perguntei confusa, vendo o menino – mais uma vez – dar de ombros em indiferença. Mordi o lábio, me sentindo aflita.

—Todos eles. –Respondeu, apontando em volta. –Não estou falando de mim, mas eu sei que existem pessoas nessa situação. Não é por não ser o meu caso que eu simplesmente ignoro e acho que todo mundo pensa que nem eu ou você. Isso seria ignorante. Como todos eles, como você.

Pisquei algumas vezes, chocada com o fato de ter sido simplesmente xingada de ignorante. O babaca do time de futebol havia me chamado de vadia mais cedo e essa palavra não havia me afetado quanto o adjetivo que Tate usou para me descrever. Eu me mantive boquiaberta por um bom tempo, esperando que ele pedisse desculpas ou algo do tipo, mas ele não se manifestou. Nada. Ele havia me xingado de ignorante e aquilo havia me atingido como um soco no rosto.

O sinal tocou e apenas com um sorriso Tate se colocou de pé, me dando as costas e saindo da sala junto com todos os alunos. Pisquei algumas vezes, ainda em choque, tentando raciocinar o que havia acontecido, mas estava difícil. A professora começou a gritar por atenção, falando para não nos esquecermos do relatório de amanhã e assim como todo mundo, ignorei. Peguei minha bolsa na cadeira e me coloquei de pé, caminhando em passos pesados para fora da sala. Quem ele pensa que é para me chamar de ignorante? Eu não sou ignorante!

Era difícil encontrar qualquer pessoa pela multidão, mas eu consegui. Tate não parecia querer conversar com ninguém, apenas se movimentou pelos corredores diretamente até seu armário e abriu a porta, colocando seus livros ali dentro e retirando alguns outros. Ele não parecia com pressa ou incomodado, ele sequer reparou minha presença até que eu segurei a porta de metal, impedindo que ele fechasse o armário e reparasse que eu estava ali. Quando ele me reconheceu, pareceu relaxar um pouco. Ergui uma sobrancelha, completamente irritada. A última coisa que você deve se sentir ao me ver nesse momento, parceiro, é relaxado.

—Eu entendi qual é a sua.

Disparei, fazendo com que o menino mudasse de apoio da perna e erguesse uma sobrancelha, soltando um suspiro impaciente. Ele parecia com preguiça de ouvir o que eu tinha a dizer.

—Qual é a minha?

Ele perguntou indiferente, fazendo meu corpo esquentar mais de ódio. Ora, seu...!

—Você usa essa capa mórbida como forma de criar uma barreira entre você e as outras pessoas. Você fica todo “oh, a vida é uma droga, coitado de mim”, mas na verdade você só reclama de barriga cheia de uma vida ótima que Deus te deu.

—Deus?

Ele perguntou em tom debochado, mas ignorei.

—Ao invés de simplesmente aceitar o que você tem, você acha mais fácil ficar reclamando porque, por alguma razão, você encontrou zona de conforto longe das pessoas. Eu percebi que você não se mistura. Eu percebi também que a única conversa que tivemos para podermos nos conhecer, você fez questão de estragar com essa ladainha melancólica que você joga em todo mundo. E se vitimiza. E eu não entendo porque você tenta afastar as pessoas, mas não vai rolar comigo. Eu entendi qual é a sua e temos um trabalho de cidadania para fazermos juntos, então não quero saber o que pensa disso, é minha nota, minha vida e você não vai atrapalhar. Você não me engana, Tate...

—Langdon.

—Tate Langdon!

Um sorriso se abriu no rosto de Tate e por um momento eu quis lhe dar um tapa na cara. O menino assentiu e então fechou a porta do armário, soltando um suspiro cansado. O observei em silêncio, conforme ele não se manifestava e me deixava desconfortável pelo silêncio. Com o tempo o meu ódio foi baixando e foi sendo substituído pela vergonha. Faz alguma coisa!

—Biblioteca depois da aula, ok? Sem surtos.

Ele me surpreendeu ao finalmente falar alguma coisa. Pisquei vezes consecutivas tentando entender a simples frase do garoto conforme ele abria um sorriso rápido sem mostrar os dentes e me desse as costas. Corri em sua direção, parando em sua frente, antes que ele pudesse seguir.

—Você não está bravo comigo?

—Desapontada?

Ele respondeu, erguendo uma sobrancelha. Balancei a cabeça negativamente, colocando uma das mechas dos meus cabelos para trás da orelha.

—Não.

Tate abriu a boca para me responder, mas antes que pudesse, foi interrompido por um rapaz com camiseta do time de futebol que passou por nós e deixou um rude:

—Aberração.

Arregalei os olhos me virando completamente indignada e dei um passo pronta para persegui-lo, mas Tate segurou meu braço antes que eu pudesse me mover, fazendo eu ficar plantada onde estava. Me virei para ele em total surpresa, principalmente pelo fato de ele não ter parecido ligar para o que havia acontecido.

—Como deixa falarem assim com você?!

—Eu tive problemas com um dos amiguinhos desse otário, é só isso. –Tate comentou, dando de ombros. –Deixe pra lá.

Eu ia discutir com ele, mas com o pouco tempo de conversa que havia tido com o menino, percebi que ele era irredutível. Por fim apenas dei de ombros e engoli o ódio, tirando do bolso o papel com meus horários e procurando pelo número da sala. B 215.

—Qual é a sua próxima aula?

—História. –Tate respondeu, erguendo uma sobrancelha. –E a sua?

—Educação física. –Lamentei, fitando meus pés. Tate abriu um sorrido, dando de ombros, como quem diz “é a vida”. –O ginásio B 215 fica longe daqui?

—Do outro lado do colégio.

—Droga! -Exclamei dando um pulo, vendo o menino soltar uma risadinha baixa que fiz questão de ignorar. –Te vejo depois da aula, Tate!

Me despedi com um único berro, disparando na direção apontada pelo menino de cabelos loiros. Eu não podia me atrasar logo no primeiro dia de aula ou teria grandes problemas quando chegasse em casa. Começou bem, Cherry. Parabéns!