A noite em que os cães ficaram quietos
A primeira pessoa a reclamar do silêncio foi Lídia Sampaio, o que provocou certo constrangimento entre os moradores da rua dos Jacarandás, pois havia seis anos que ela ameaçava processar os donos de qualquer cachorro incapaz de distinguir a noite do dia. Não era uma mulher cruel. Nunca machucara um animal e costumava deixar água na calçada durante os meses mais quentes, embora preferisse que os beneficiários dessa gentileza bebessem depressa e não estabelecessem relações afetivas com a propriedade. Seu problema com os cães era, essencialmente, acústico. Considerava injusto que um animal de oito quilos pudesse anunciar suas preocupações à vizinhança inteira enquanto pessoas adultas, obrigadas a comparecer ao trabalho no dia seguinte, precisassem suportá-las com maturidade.
Na terça-feira em que os latidos cessaram, Lídia acordou às cinco e dezessete da manhã, quinze minutos antes do despertador, e permaneceu deitada à espera de alguma coisa. Conhecia os sons de Vila Olaria com a intimidade desagradável de quem passara quarenta anos ouvindo a vida alheia através de paredes finas. Às cinco e vinte, o cachorro da casa verde costumava iniciar uma discussão com o portão; às cinco e meia, os dois vira-latas da oficina respondiam de maneira ofensiva, e por volta das seis o pequeno animal de dona Zefa acrescentava sua opinião, embora fosse cego, praticamente surdo e não tivesse a menor ideia do assunto. Naquela manhã, nenhum deles se pronunciou. O ruído de um caminhão subindo a ladeira pareceu atravessar a casa inteira, sem encontrar a costumeira resistência dos animais.
Lídia levantou-se, preparou café e abriu a janela da cozinha. O bairro estava coberto por uma névoa rala, dessas que desaparecem assim que o sol encontra disposição para trabalhar. Havia um caminhão de entregas diante da padaria, um homem varrendo folhas para dentro do bueiro e três pombos examinando um saco de lixo com interesse profissional. Tudo estava no lugar. Mesmo assim, a rua lhe pareceu desproporcionalmente grande, uma sala de onde haviam retirado os móveis sem alterar as portas.
O silêncio durou até as sete e meia, quando dona Zefa apareceu na calçada carregando Pirulito nos braços. O animal era velho, amarelado, com uma língua que já não cabia adequadamente na boca e o temperamento de um sacerdote ofendido por uma heresia. Lídia o conhecia desde filhote e nunca tivera motivos para considerá-lo agradável. Pirulito costumava latir para a bicicleta do entregador de gás, para a mangueira de seu quintal e, em ocasiões especialmente inspiradas, para o espaço vazio entre dois postes. Naquela manhã, estava calado, com as patas dianteiras tremendo contra o braço da dona.
— Ele não quer fazer barulho — anunciou dona Zefa, parada diante do portão. Lídia, que acabava de levar a xícara aos lábios, sugeriu que aproveitasse enquanto durasse. — Não está comendo também. E não sai da cama. Passei a noite achando que ele tinha morrido, só que estava me olhando o tempo inteiro.
Lídia se aproximou para examiná-lo. Pirulito respirava depressa, sem desviar os olhos da esquina, onde a rua terminava num terreno cercado por tapumes. Quando ela estendeu a mão, ele tentou recuar e soltou um som baixo, contínuo, sem abrir a boca. Não era exatamente um gemido. Lembrava o choro de alguém muito pequeno, escondido dentro do peito do cachorro. Dona Zefa o apertou contra o corpo e perguntou o que deveria fazer. Lídia recomendou o veterinário e voltou para buscar a bolsa. Do alto do fio elétrico, os três pombos tinham abandonado o lixo e observavam a mesma esquina. Um deles caminhou alguns centímetros para a direita; os outros o acompanharam, sem tirar a cabeça daquela direção.
Às oito, Lídia abriu a oficina. Trabalhava com estofados, cortinas e cadeiras antigas, atividades que exigiam paciência, mãos firmes e a capacidade de ouvir clientes explicarem por que determinado objeto não poderia simplesmente ser substituído. A oficina ocupava a garagem onde o pai guardara um Fusca azul durante quase trinta anos. Depois da morte dele, Lídia vendera o carro, comprara uma máquina de costura industrial e descobrira que a maior parte das famílias conservava pelo menos uma poltrona cuja destruição seria entendida como ofensa aos antepassados. Naquela semana restaurava uma dessas peças, um móvel de encosto alto e veludo marrom que a proprietária desejava preservar exatamente como estava, excetuando-se as manchas, os afundamentos, o cheiro de mofo e a madeira apodrecida.
Bruna chegou às oito e vinte, trazendo dois pães de queijo e um pacote de linhas. Tinha vinte e quatro anos, usava os cabelos presos num lenço vermelho e atravessava Santa Amélia numa motocicleta cuja aparência sugeria um acordo informal com as leis da mecânica. Colocou a sacola sobre a bancada e perguntou se Lídia havia ouvido alguma coisa durante a noite. A patroa respondeu que não, e Bruna apontou para a rua.
— Exatamente. Lá em casa aconteceu a mesma coisa. O Pingo sumiu.
Pingo era o cachorro de seu irmão Marcelo, um vira-lata cinza que fora recolhido ainda filhote, depois de uma doença na garganta. Latia duas vezes e terminava com um pequeno assobio, falha que provocava risadas nas crianças e deixava o animal profundamente indignado. Bruna imitara aquela voz tantas vezes na oficina que Lídia a reconheceria em qualquer lugar, mesmo sem ter grande simpatia pelo dono. Naquela manhã, Marcelo encontrara a coleira fechada sobre a cama; o cachorro dormia no quintal, com o portão trancado, e ninguém ouvira a porta abrir. Havia também uma marca no chão da cozinha.
Bruna mostrou a fotografia no telefone. Os azulejos brancos, a geladeira e o fogão estavam perfeitamente nítidos. Perto do rodapé, cinco depressões escuras se estendiam pelo piso numa direção que não correspondia à posição natural de uma mão. Havia outra marca mais alta, na porta do armário. Marcelo esfregara detergente e água sanitária sobre elas, mas o pano saíra seco, e as impressões continuavam no mesmo lugar.
— Seu irmão olhou se a geladeira está vazando? — perguntou Lídia.
— Você acha que alguém entrou de madrugada, tirou o cachorro, fechou a coleira e resolveu deixar uma mão pintada na cozinha?
— Acho que primeiro deviam conferir a geladeira. Depois podem discutir o resto.
Bruna guardou o telefone com irritação. Não gostava quando Lídia transformava uma preocupação em defeito doméstico, sobretudo porque a patroa quase sempre acabava descobrindo alguma coisa de fato quebrada. Estava prestes a responder quando seu Jurandir apareceu no portão. O velho visitava a oficina quase todas as manhãs, geralmente para pedir uma ferramenta que só devolveria depois de ameaças. Fora carpinteiro, tinha setenta e muitos anos e uma dedicação admirável a oferecer conselhos sobre serviços que não realizava havia décadas. Naquela manhã, porém, não queria alicate nem café. Trazia o boné entre as mãos e examinava os fundos da oficina com uma ansiedade mal escondida.
— Cadê os cães? — perguntou.
— Não faço chamada, Jurandir. Se quiser, pergunto aos gatos.
— E o General? Viram ele hoje?
General era um vira-lata preto, enorme, com uma orelha rasgada e a dignidade de um proprietário rural que perdera as terras, mas continuava exigindo respeito. Surgira em Vila Olaria oito anos antes, mancando da pata traseira, e acabara se tornando uma autoridade informal entre os cachorros. Dormia diante do açougue, acompanhava o caminhão de lixo até a esquina e aceitava comida de quase todos, embora reservasse um desprezo ostensivo aos homens que tentavam acariciá-lo depois de beber. Lídia não o vira naquela manhã. Jurandir pediu que fechasse a oficina mais cedo e, diante da expressão que recebeu, acrescentou apenas que os animais estavam fazendo falta.
— Os cachorros cansaram de avisar — disse, antes de atravessar a rua.
Bruna o acompanhou com os olhos. O velho caminhou até os tapumes da antiga olaria, inclinou-se diante de uma abertura e ficou imóvel. Uma das tábuas se moveu, embora o vento soprasse do lado contrário. Jurandir se afastou depressa, olhando para a própria mão. Lídia o viu desaparecer na esquina e voltou ao trabalho, decidida a não acrescentar a loucura dos vizinhos à lista de problemas que precisava resolver antes do almoço.
Às nove e dez, a poltrona começou a arranhar o chão.
O ruído veio do encosto, acompanhado por uma respiração entrecortada. Lídia levantou os olhos da bancada. A peça aguardava o conserto perto da parede, com as pernas apoiadas sobre pequenos pedaços de papelão para não riscar o piso. Bruna perguntou se havia um rato preso no revestimento. Lídia pegou uma lanterna, abaixou-se e examinou a estrutura. Encontrou poeira, um botão perdido e um pouco de serragem. Quando se ergueu, Bruna apontou para o veludo.
Havia cinco marcas no encosto, fundas, compridas, separadas por vincos estreitos. O tecido afundou novamente, desta vez de dentro para fora, e por trás da espuma alguém soltou uma respiração longa, satisfeita. Bruna apanhou a tesoura de estofador. Lídia reconheceu o barulho das molas e o estalo de uma ripa cedendo, mas o móvel estava vazio na tarde anterior. Ela mesma o desmontara. Conhecia cada prego.
Pelo vidro da janela, uma extensão escura passou devagar na calçada. A cortina acompanhou seu movimento sem tocar o caixilho. Lídia viu uma superfície úmida, coberta por pequenas depressões, e não conseguiu determinar onde começava ou terminava. A coisa parou diante da oficina. Os dois lados do encosto da poltrona se aproximaram, e o som de respiração cessou. Alguém bateu à porta: três pancadas discretas, cuidadosas, de uma educação que, àquela hora, Lídia considerou ofensiva.
— Dona Lídia? Abre aqui, mulher. Ele está pesado.
Era a voz de Jurandir. Bruna tentou impedi-la, mas Lídia foi até a janela lateral e afastou a cortina. O velho estava diante do portão com General nos braços, embrulhado num lençol amarelo. A cabeça enorme do cachorro descansava em seu ombro; os olhos permaneciam abertos e as patas pendiam sem força. A calçada atrás deles estava vazia. Lídia abriu e ajudou Jurandir a deitar General sobre um pedaço de espuma limpa, junto à máquina. O cão tentou levantar o focinho. Não latiu. Sob a mandíbula havia um risco escuro, fino, tão regular que lembrava um fio de costura enterrado na pele.
— Achei ele na frente do terreno — contou Jurandir. — O Toninho disse que tinha morrido. Quando peguei, vi que estava tentando avisar. Não sai nada.
A poltrona raspou outra vez o chão. Jurandir olhou para o encosto, depois para Lídia, e pediu um estilete. Ela hesitou. A proprietária pagara metade do serviço adiantado e dissera expressamente que não aceitava mudanças na aparência do móvel. O velho repetiu o pedido. Bruna já havia encontrado a ferramenta, e Lídia a recebeu contrariada, mais ofendida pela situação do que pela ameaça que a provocava.
Cortou a primeira costura. O veludo se abriu, revelando a espuma escurecida. Sob ela não havia a ripa de madeira que ela própria conferira no dia anterior, mas um corredor estreito, revestido por um tecido brilhante de umidade. A luz da lanterna avançou alguns metros e se perdeu. Alguma coisa se afastou do rasgo com um ruído de unhas pequenas. Bruna recuou até a mesa; General abriu a boca num esforço mudo e contraiu as patas. Lídia cortou novamente, até alcançar a borda do assento, e a poltrona pareceu ficar maior por dentro, embora suas quatro pernas continuassem firmes no piso da oficina.
Uma mão apareceu na abertura. Os dedos eram finos, compridos demais, sem unhas; as pontas terminavam numa pele lisa que se dobrava para dentro. Não avançaram muito. Procuravam a costura, acompanhando-a com pequenos movimentos exploratórios. Bruna acertou os dedos com uma cadeira. O encosto se contraiu, as molas estalaram e a mão desapareceu. Jurandir segurou o móvel enquanto Lídia arrancava a espuma, as ripas e o resto do tecido. A abertura diminuiu à medida que a estrutura se desmanchava. Deixou escapar um cheiro de barro antigo e frutas apodrecidas; em seguida, onde antes havia um corredor, restaram duas molas, três pregos e madeira quebrada.
Lídia permaneceu com o estilete erguido. A bancada estava coberta de pedaços de veludo. General respirava deitado sobre a espuma, acompanhando a poltrona destruída sem fechar os olhos. Bruna recolheu uma das ripas, examinou o lugar onde deveria estar presa e perguntou, numa voz muito baixa, se a patroa pretendia contar à cliente o que havia acontecido.
— Primeiro quero saber o que aconteceu comigo — respondeu Lídia. — Depois vejo o que faço com a cadeira.
Jurandir sentou-se. Retirou o boné, enxugou a testa e permaneceu olhando para General. Durante algum tempo não disse nada. Quando Lídia lhe perguntou se conhecia aquela coisa, contou apenas que a avó chamava certas aparições de Bicho do Fundo. Era um nome antigo, usado sem muita convicção, e o velho não sabia se designava um animal, um buraco ou algum acontecimento que a família preferia não lembrar.
— A olaria tinha um forno enterrado — acrescentou, apontando para a esquina. — Quando eu era pequeno, ouvi gente dizer que o chão crescia para dentro depois que os homens saíam. Meu pai não deixava ninguém brincar lá. A vó alimentava os cachorros na porta.
— Porque guardavam o forno? — perguntou Bruna. — Não podiam ser ratos?
— Tinha rato também. A natureza raramente se dá ao trabalho de organizar os problemas separadamente. Ninguém explicava direito. Só lembro que os cães ficavam olhando para a terra à noite. Minha avó deixava panela de comida mesmo quando faltava para nós. Dizia que era mais barato dividir o jantar com eles.
Lídia passou um pano sobre a lâmina do estilete. Havia barro entre os dentes do metal, embora não tivesse tocado em terra alguma. Perguntou por que Jurandir nunca contara a história. O velho deu de ombros: cinquenta anos haviam transcorrido sem que ninguém precisasse acreditar nele, e não era pouca coisa. Antes que continuasse, ouviu-se um grito vindo da padaria.
O padeiro chamava-se Orlando e estava diante do depósito com uma chave inglesa na mão. Dois fregueses seguravam a porta aberta, sem coragem de entrar, e de trás dos azulejos vinha uma tosse convulsa. Era Douglas, o rapaz das entregas, que entrara para buscar embalagens e não regressara. Orlando tentou bater na parede. A voz pediu que parasse, gritou que as pernas estavam presas e começou a chorar de um modo tão humano que os presentes se calaram, envergonhados de não saber por onde começar.
Lídia examinou a superfície. Os azulejos estavam frios. Não havia rachaduras nem qualquer abertura por onde um rapaz adulto pudesse ter passado. Junto ao rodapé encontrou uma marca úmida, idêntica às da fotografia de Bruna. Pediu uma espátula, retirou a primeira peça e descobriu atrás dela uma camada de madeira escurecida, revestida de terra, apesar de o depósito ter sido construído em alvenaria. Sob seus dedos, a superfície se moveu. Douglas gemeu, e uma região do revestimento adquiriu o relevo de seu rosto: a boca aberta, os olhos apertados, uma pequena verruga junto ao nariz. Orlando ergueu a chave inglesa para golpear, mas Lídia segurou seu braço.
— É nele que você vai bater.
— Então o que faço? Fico olhando?
Ela mandou que segurasse a parte solta enquanto Bruna buscava a tesoura. Cortaram o isolamento, arrancaram as ripas e encontraram Douglas até a cintura, espremido numa cavidade escura de onde vinha um cheiro de terra velha. O rapaz tentava apoiar os pés, mas não alcançava o chão. Atrás de seus quadris, pequenos vincos se formavam e desapareciam na superfície úmida, comprimindo o tecido da calça. Jurandir e Orlando agarraram seus braços; Lídia passou os próprios por baixo de suas axilas. Puxaram. Douglas gritou. A parede estreitou a abertura, e Bruna enfiou o cabo do martelo entre as bordas antes que se encontrassem.
Um som veio da rua. Era um latido pequeno, quase sem voz, de um animal que precisara reunir tudo que lhe restava para ser ouvido. A madeira se contraiu; os vincos atrás de Douglas sumiram. Os três caíram para trás, arrastando o rapaz para fora da parede, e o martelo saiu voando até atingir um saco de farinha. Por um momento ninguém disse nada. Douglas chorava, sentado no chão, examinando as próprias pernas, que tremiam sem sustentá-lo. Atrás dele, o depósito exibia tijolos, madeira quebrada e uma cavidade de poucos centímetros, insuficiente até para guardar uma caixa de fósforos.
Dona Zefa estava na calçada, abraçada a Pirulito. O cachorro tremia inteiro, com a boca aberta e os olhos fixos no depósito. Lídia ouviu-o tentar latir de novo e falhar, soltando apenas uma tosse áspera. Zefa começou a chorar. Não eram lágrimas discretas; fazia um barulho considerável, o que ninguém naquela rua ousou criticar. No fio elétrico, os pombos observavam a esquina sem se mover.
Do outro lado da rua, os tapumes da olaria avançaram um pouco para a calçada e voltaram à posição. A madeira inflou novamente, tão lentamente que Lídia teve tempo de contar as ripas que se afastavam umas das outras. O som que saiu de trás delas foi grave, úmido, contínuo. Toninho, o mecânico da esquina, apareceu com as mãos sujas de graxa e perguntou se os homens da obra estavam mexendo no solo. Ninguém respondeu. O terreno estava fechado desde a tarde anterior; a construtora dispensara os operários depois de uma sequência de acidentes com a escavadeira. Uma das paredes do forno antigo, segundo Toninho, desmoronara sozinha. A máquina ficara parada dentro do terreno, embora seu motor tivesse sido desligado antes do almoço.
Jurandir aproximou-se dos tapumes sem tocá-los. Contou que, quando era menino, a olaria perdera um funcionário chamado Vicente. Os homens encontraram sua marmita, uma camisa pendurada num prego e o forno recém-apagado. Procuraram o rapaz entre os tijolos, nas casas próximas, até na beira do córrego; nada. O irmão de Vicente jurava ouvir sua voz à noite, vindo da parede do forno. Jurandir não sabia se o homem dizia a verdade. Recordava apenas que a avó o proibira de ir ao terreno e mandara levar comida aos cachorros que permaneciam diante do portão.
— Meu pai dizia que o forno tinha cedido — concluiu.
— E você acredita em quê? — perguntou Lídia.
— Acredito que Vicente não voltou para buscar a camisa.
Toninho exigiu que a cerca fosse aberta. Jurandir pediu que aguardassem. O mecânico apontou para Douglas, que dois vizinhos carregavam até a padaria, e perguntou se o velho pretendia esperar que todas as casas adquirissem paredes com fome. Lídia não conseguiu encontrar uma objeção razoável, mas também não gostou da ideia de arrancar as tábuas antes de tirar as pessoas da rua. Foi Bruna quem propôs começar pelos moradores. A jovem atravessou a calçada, bateu no portão da primeira casa e mandou que todos saíssem. Uma mulher apareceu com a vassoura na mão, pronta para reclamar, e perdeu o interesse no assunto quando Bruna descreveu o que acontecera com Douglas.
As pessoas começaram a sair. Primeiro vieram os mais velhos, carregando documentos, remédios e pequenas bolsas que mantinham preparadas perto da porta. Depois apareceram famílias com crianças, homens de chinelo, mulheres segurando telefones, uma senhora com uma samambaia. Quando Lídia perguntou por que trouxera a planta, a mulher respondeu que a samambaia não tinha culpa de nada. Lídia deixou passar. Havia assuntos demais para discutir com quem estava tentando salvar uma planta de vaso.
À medida que os vizinhos se reuniam, surgiram relatos. Na casa de um rapaz chamado Alan, alguém batera por dentro do guarda-roupa durante a madrugada; na de dona Célia, uma almofada repetira o nome do filho com voz de criança. Um senhor encontrara pegadas no teto do banheiro, suficientemente nítidas para mostrar que o pé esquerdo tinha seis dedos. Ninguém havia prestado muita atenção enquanto os acontecimentos permaneciam isolados. Agora, todos queriam falar ao mesmo tempo, e Lídia começou a sentir saudade da época em que o maior problema de Vila Olaria era um cachorro latindo para o caminhão de gás.
Na casa verde, Ester tentou retirar algumas roupas do quarto antes de sair. Encontrou, em vez da cama, uma escada estreita descendo por uma abertura de madeira úmida. O corredor terminava numa curva, embora a casa não tivesse porão e a escada descesse na direção da cozinha da vizinha. Alguém cantarolava lá embaixo, muito devagar, sempre a mesma passagem de uma música sem palavras. Ester fechou a porta e chamou o filho, que abriu novamente, convencido de que a mãe se confundira de cômodo. A escada continuava ali. Agora a voz cantava mais alto.
Bruna chegou primeiro, seguida por Lídia, que ouvira os gritos da calçada. A porta estava entreaberta, e alguma coisa subia os degraus. O intervalo entre os movimentos era longo, não exatamente porque os passos fossem lentos: parecia que o corpo precisava retirar do chão uma parte de si mesmo antes de continuar. O filho de Ester permanecia diante da passagem, segurando um pedaço de madeira, com a expressão desprotegida de um homem cuja opinião sobre arquitetura acabava de sofrer um prejuízo irreparável.
— Pode ter gente presa aí — disse ele.
Bruna puxou a mãe para longe.
— Então você vai perguntar o nome de quem está lá, mas vai fazer isso do lado de fora.
Lídia encontrou a janela do tanque, cuja tela de proteção retirara anos antes para consertar a moldura. Ajudou Ester a passar para o quintal vizinho, depois o filho, que reclamou de cortar o braço no vidro. Bruna foi a última. Quando Lídia deixou a casa, a porta do quarto se abriu completamente, e ela viu quatro degraus escuros, marcados por pequenas depressões que continuavam para baixo, até a curva. Um objeto redondo, pequeno, rolou do fundo da escada e parou no terceiro degrau. Era uma bola de borracha vermelha, igual às que vendiam na papelaria da praça. Da escuridão, uma voz infantil perguntou se alguém podia devolvê-la. Lídia fechou a janela antes que o filho de Ester resolvesse demonstrar seu espírito de colaboração.
No quintal havia roupas estendidas, formigas atravessando o piso e uma manga apodrecida sob a árvore. O sol aquecia as paredes. Lídia olhou para a casa, a menos de dois metros, e sentiu uma vontade súbita de arrancar todas as portas de suas dobradiças. Bruna já seguia para a calçada com Ester, que repetia sem parar ter escolhido aquele imóvel porque não tinha escadas. Era uma reclamação modesta para a gravidade dos acontecimentos, mas ninguém soube consolá-la.
Perto do portão da olaria, Toninho discutia com Jurandir. O mecânico queria derrubar os tapumes. O velho insistia em que havia algo atrás deles que talvez só continuasse contido porque ninguém via o terreno inteiro. Lídia pensou na poltrona: a coisa respirava entre as almofadas, procurava a costura e recuara quando arrancaram tudo. O rapaz da padaria só conseguira sair quando a parede fora aberta. A escada de Ester, entretanto, continuava lá depois que a porta se fechava, e a voz infantil provavelmente aguardava que alguém voltasse. Nenhum daqueles acontecimentos lhe oferecia uma regra confiável. Ainda assim, continuar deixando a criatura escolher sozinha suas aberturas parecia uma forma pouco promissora de prudência.
— Tira as pessoas de perto — ordenou a Toninho. — Vamos abrir o terreno. Se alguma coisa sair, pelo menos não vai encontrar uma sala de estar pronta.
Jurandir olhou para ela durante alguns segundos. Depois se aproximou do carrinho de mão em que Lídia acomodara General. O cachorro permanecia deitado sobre um cobertor, com a orelha rasgada voltada para a cerca. Quando o velho lhe tocou o focinho, General tentou erguer a cabeça e abriu a boca, mas nenhum som saiu.
— Minha avó dizia que o Bicho do Fundo fugia dos cachorros — murmurou Jurandir. — Nunca soube se era por causa dos latidos ou se eles enxergavam alguma coisa que a gente não via. Os homens faziam piada, fechavam a porta e iam dormir. De manhã perguntavam por que os cães tinham latido.
— E o Vicente? — perguntou Bruna, que acabara de voltar.
— Não o encontraram. Nem depois de fechar o forno. A irmã dele me contou que, durante alguns anos, a casa inteira tinha cheiro de barro quando chovia.
Lídia examinou a cerca. Não encontrou naquele passado qualquer instrução sobre como agir, apenas o retrato de outra rua cheia de gente incapaz de compreender o que a ameaçava. Mandou que os moradores se afastassem mais e pediu a Toninho uma corrente. Ele trouxe também um gancho de ferro e a caminhonete usada para transportar motores. Bruna procurou extensões e refletores nas oficinas vizinhas, porque a claridade que entrava pelas frestas dos tapumes não iluminava nada além das próprias tábuas. Algumas pessoas levaram cadeiras para a esquina. Uma senhora ofereceu café. Lídia recusou ambos.
Prenderam a corrente a um dos postes. Toninho entrou na caminhonete e começou a recuar. A madeira estalou, uma ripa se soltou e a cerca avançou lentamente sobre a calçada, como se alguma coisa a empurrasse pelo lado de dentro. O mecânico acelerou. Metade dos tapumes caiu, arrastando um pedaço do portão e expondo o antigo terreno da olaria à luz do meio-dia.
Havia entulho, uma escavadeira abandonada, tijolos quebrados e, na região central, uma depressão irregular cujo fundo não aparecia. A claridade alcançava as primeiras camadas de terra e desaparecia alguns metros abaixo, embora a borda tivesse profundidade suficiente para permitir que um homem enxergasse o fundo se houvesse qualquer fundo ali. O espaço não era exatamente preto. Havia movimento em sua superfície, uma ondulação lenta que deslocava a terra sem fazer rolar as pedras.
Os moradores se aproximaram até que Bruna os mandou recuar. Lídia observou uma porção úmida surgir sob os tijolos, coberta por pequenas marcas de mãos. Algumas tinham cinco dedos; outras terminavam em círculos minúsculos, como impressões de criança. Entre elas havia dobras estreitas. Uma se abriu, deixando escapar um som de mastigação, e depois fechou-se. Lídia tentou seguir a linha externa daquilo que via, mas os contornos mudavam conforme inclinava a cabeça. Em determinado ponto, o chão parecia continuar para dentro de uma parede; em outro, abria-se o interior de um cômodo onde havia uma janela iluminada. A janela desapareceu quando ela piscou. O buraco continuou ali.
Alguma coisa latiu no fundo.
O primeiro som tinha a voz rouca de General. Depois vieram latidos menores, agudos, sons que Lídia conhecia de anos ouvindo os animais disputarem a rua dos Jacarandás. Pirulito se contorceu nos braços de dona Zefa, tentando responder, mas a garganta produziu apenas um pequeno estalo. Uma sequência de vozes caninas se espalhou entre as dobras, algumas tão distantes que Lídia precisou inclinar a cabeça para ouvi-las.
Bruna apertou seu braço.
— Espera.
Do fundo veio um par de latidos curtos, seguido por um assobio pequeno, como ar passando por uma garganta ferida. Bruna soltou Lídia e caminhou até a borda. O som se repetiu, primeiro perto, depois muito longe, e a jovem começou a chamar o nome de Pingo. A coisa respondeu com os mesmos dois latidos e o assobio. Não havia no terreno nenhum lugar onde um cachorro pudesse se esconder sem ser visto, mas aquela voz parecia circular entre as paredes de um cômodo situado no interior da terra.
— Pingo! — gritou Bruna. — Vem cá, garoto!
A superfície se moveu em direção a ela. Uma das dobras se abriu, e de dentro surgiu a pequena ponta de um focinho cinzento. Havia um olho molhado ao lado, depois uma orelha achatada, mas as partes não se encontravam numa posição que permitisse reconhecer um animal inteiro. Bruna avançou outro passo. Lídia a segurou pela cintura antes que alcançasse a borda e a puxou para trás. O focinho desapareceu. Uma mão comprida subiu pela lateral da escavação e apoiou os dedos na terra.
Bruna chorava de raiva. Repetia o nome de Pingo, às vezes muito alto, às vezes tão baixo que Lídia mal a ouvia. A voz do cachorro continuava saindo do buraco, acompanhada agora por ruídos de unhas arranhando uma porta e pelo leve tilintar de uma coleira. A jovem tentou se soltar outra vez. Lídia não a deixou.
— Não tem cachorro inteiro aí na frente, Bruna. Não entra.
A frase saiu mais dura do que pretendia. Bruna voltou-se para ela, ofendida, e Lídia teve vontade de pedir desculpas, mas a mão comprida avançava sobre a terra. Outra surgiu ao lado. O chão começou a se erguer, empurrado por uma massa que se dobrava sobre si mesma, tão grande que seu movimento alterou a posição das pedras junto à borda. Os presentes recuaram. Havia um cheiro insuportável de barro molhado e algo doce, rançoso, guardado por tempo demais num recipiente fechado.
Toninho acionou os refletores. A luz branca varreu a região central do terreno, mostrando apenas fragmentos: uma superfície pálida cheia de marcas, a curva de algo semelhante a um cotovelo, uma extensão lisa que se retraía sempre que o facho a atingia. A criatura recuou da parte iluminada, procurando a sombra projetada pela caminhonete, que continuava junto à cerca destruída. Seu movimento não foi rápido. Houve tempo para Toninho gritar que retirassem o veículo, para Bruna mudar a posição de um refletor e para Lídia perceber, com uma repulsa crescente, que a sombra sob a carroceria se alongava na direção da primeira casa.
A mão apareceu debaixo da roda dianteira. Tocou o asfalto, apalpou a calçada e desapareceu no trecho escuro sob o motor. Logo depois a caminhonete começou a ranger, e uma pequena marca de cinco dedos surgiu na parede da casa vizinha. Um dos moradores correu para acender as luzes, embora fosse meio-dia. A impressão recolheu-se ao alcançar a claridade. Surgiu outra perto do bueiro, onde o sol não batia. Bruna apontou para ela; alguém aproximou uma lanterna, e a marca sumiu de novo.
A exposição impedia que a coisa se acomodasse nas superfícies. Não a expulsava de lugar nenhum. Cada sombra abandonada deixava outra à disposição, e havia uma quantidade interminável delas sob os carros, dentro dos galpões e entre os objetos que as pessoas mantinham encostados às paredes. O terreno aberto continuava respirando. As vozes dos cães surgiam de um ponto, desapareciam e voltavam de outro, cada vez mais misturadas com sons humanos: uma tosse, a gargalhada de uma criança, alguém chamando por Vicente num tom que Jurandir identificou antes de qualquer outra pessoa.
O velho recuou até tocar a cerca caída.
— Isso foi meu pai — murmurou. — Faz cinquenta anos que não ouço essa voz.
Lídia não respondeu. Ao lado da caminhonete, uma segunda mão procurava a sombra projetada pela casa verde. O sol continuava alto, e ainda assim as ruas estavam ficando escuras nos lugares em que a criatura tocava. Havia centenas de frestas esperando, centenas de quartos com armários, sofás e camas sob as quais alguém poderia dormir sem se dar conta de que já dividia o espaço com outra coisa.
General tentou levantar-se.
O carrinho de mão balançou. O cachorro apoiou as patas dianteiras na borda, ergueu a cabeça e abriu a boca. Lídia aproximou-se, segurando-o pelo peito. A pata traseira cedeu quando tentou pular, mas o animal insistiu, arranhando o metal e mantendo os olhos fixos na escavação. Seu peito se expandia num esforço sem som.
— Fica quieto, seu velho — disse Lídia, tentando acomodá-lo. — Você já fez o suficiente.
General olhou para ela. Não havia nada de humano em seus olhos, nenhuma gratidão que se pudesse reconhecer sem algum esforço de imaginação. Havia apenas um cachorro exausto, um olho ligeiramente mais fechado que o outro e o focinho com pelos brancos que Lídia conhecia de vê-lo dormir diante do açougue. Ele encostou brevemente a cabeça em seu pulso. Depois reuniu as patas e saltou do carrinho.
Caiu sobre o asfalto e quase não conseguiu se erguer. Lídia o alcançou pelo pescoço, mas General avançou antes que pudesse segurá-lo de novo, arrastando a perna ruim até a borda do terreno. Abriu a boca diante da coisa que se elevava na escavação. O primeiro latido saiu como uma tosse rasgada. O segundo foi mais forte. No terceiro, ouviu-se de novo a voz rouca, profunda, que durante anos acordara as pessoas da rua dos Jacarandás.
A superfície se contraiu. Não foi um recuo semelhante ao provocado pela luz; as dobras pareciam se fechar umas contra as outras, prendendo as vozes que escapavam de dentro. Uma das mãos soltou a terra. General continuou latindo, com sangue na boca e o corpo inteiro tremendo. Pirulito respondeu dos braços de dona Zefa, num som agudo que começou mal e terminou pior. Os cães da oficina de Toninho vieram depois, ainda roucos, e outros animais, escondidos entre casas e quintais, abriram a boca para o mesmo lado. A rua voltou a produzir o barulho que Lídia passara anos tentando eliminar.
O terreno afundou alguns centímetros. Da criatura vieram latidos sobrepostos, um ruído de portas batendo e o mesmo assobio curto de Pingo. Bruna tentou avançar, mas parou quando o som se dividiu em duas direções diferentes. Lídia segurou General pelo peito. O cachorro não queria sair da borda. Continuava enfrentando a escavação, embora a cada latido o esforço parecesse consumir um pouco da força que ainda lhe restava.
Uma fissura abriu-se na terra. De dentro surgiram um corredor pequeno, uma janela iluminada e, além dela, uma sequência de quartos estreitos. Havia formas se movendo entre as paredes: uma pessoa de costas, uma cadeira suspensa junto ao teto, um focinho preto que desapareceu antes que Lídia conseguisse enxergar o corpo ao qual pertencia. A janela se fechou, outra surgiu mais fundo, e por um instante a estofadora viu o interior de uma rua inteira arrumada dentro de algo que não distinguia casas de corpos.
General parou de latir. Respirava com a boca aberta, apoiado nas patas dianteiras. Lídia se agachou ao seu lado, passando a mão pela orelha rasgada. O cachorro voltou os olhos para ela e permaneceu imóvel pelo espaço de uma respiração. Depois soltou-se, reuniu a pouca força que ainda tinha nas pernas e saltou para dentro da abertura.
— General!
Lídia avançou até a borda. Jurandir agarrou-a pela cintura, impedindo que caísse. O cachorro desaparecera entre as dobras escuras, mas seus latidos continuavam, agora muito fundos, vindos de um lugar cuja distância não parecia corresponder à profundidade da escavação. O chão estremeceu. As mãos que tocavam a calçada foram puxadas para trás, e a superfície se fechou sobre si mesma, arrastando tijolos, tábuas e parte da terra solta. Toninho correu para retirar a caminhonete; a roda dianteira já havia afundado, e o veículo se inclinava devagar em direção ao buraco. Os moradores recuaram, levando as crianças e os cães que mal conseguiam caminhar.
O desmoronamento durou poucos segundos. Levantou poeira, partiu o último trecho de cerca e deixou um monte de entulho onde antes havia a abertura escura. Depois o solo se acomodou. As pedras pararam de rolar. A luz do meio-dia alcançou o fundo da escavação, agora com poucos metros, e mostrou tijolos, madeira e a lâmina enferrujada de uma ferramenta. Nenhuma pele, nenhuma mão. Nenhum sinal de General.
Lídia procurou-o entre os escombros, chamando pelo nome que durante anos utilizara principalmente para mandá-lo sair da porta da oficina. Jurandir a afastou da borda quando a terra começou a ceder sob seus pés. Toninho prometeu trazer uma escada e procurar o cachorro assim que o terreno estivesse firme. Bruna permanecia sentada na calçada, olhando para a terra, onde a voz de Pingo também deixara de ser ouvida.
Dona Zefa começou a chorar. Pirulito, de volta à calçada, latia para uma bicicleta encostada no poste. O animal se irritava cada vez mais porque a bicicleta continuava ignorando suas objeções. Um dos cães de Toninho respondeu do outro lado da rua, e logo os demais se juntaram à discussão, como se houvessem passado a manhã inteira esperando que alguém finalmente os autorizasse a voltar a trabalhar.
Lídia não reclamou.
Nos três dias seguintes, Vila Olaria foi obrigada a conviver com várias versões dos acontecimentos, nenhuma delas particularmente satisfatória. O terreno ficou interditado, a caminhonete de Toninho precisou ser retirada com a ajuda de um guincho e a casa de Ester permaneceu fechada enquanto dois pedreiros tentavam descobrir por que uma porta desaparecera de uma parede que, segundo a proprietária, sempre tivera uma. Douglas voltou a andar, embora a perna direita adormecesse durante a noite. Na padaria, Orlando reconstruiu o depósito e passou a manter as caixas longe das paredes, precaução cujas razões se recusou a explicar aos fornecedores. O dono da construtora atribuiu o desmoronamento à instabilidade do solo. Houve quem concordasse imediatamente, aliviado por encontrar uma explicação que dispensasse qualquer investigação sobre as vozes e os dentes debaixo da terra.
Ninguém encontrou General. Toninho e Jurandir desceram ao buraco com uma escada, retiraram tijolos, procuraram passagens entre os escombros. O terreno terminava onde deveria terminar. Não havia galerias, câmaras ocultas ou uma abertura grande o suficiente para receber o corpo de um cachorro. Jurandir voltou outras duas vezes, sempre acompanhado. Da terceira, trouxe apenas a velha coleira de couro que encontrara sob uma pedra; Lídia a reconheceu pelas marcas dos dentes que General deixara quando tentara tirá-la. Não sabia se o objeto estivera ali desde o começo ou se chegara depois. Guardou-o numa gaveta da oficina, onde conservava coisas cujo destino ainda não decidira.
Bruna também procurou Pingo. Marcelo apareceu no terreno carregando uma fotografia do cachorro e perguntou aos homens da obra se haviam visto um vira-lata cinza. Um deles respondeu que não, e o rapaz ficou olhando para a escavação até que a irmã o levasse embora. Bruna não lhe contou o que ouvira lá embaixo. Lídia descobriu isso quando, na segunda-feira, a jovem chegou mais cedo, colocou dois pães de queijo sobre a bancada e disse que o irmão ainda deixava comida na tigela do quintal.
— Ele acha que o Pingo vai voltar — acrescentou, abrindo o pacote de linhas. — Passei a vida inteira reclamando daquele assobio que ele faz depois de latir. Agora minha mãe fica imitando para chamar, e nenhum de nós tem coragem de pedir que pare.
Lídia separou um tecido verde sobre a mesa. Pensou em dizer alguma coisa sobre esperanças mal colocadas, animais que fogem e o dever de continuar vivendo. Considerou cada formulação durante alguns segundos e acabou perguntando se Bruna queria café. A jovem aceitou. Trabalharam até o meio-dia sem mencionar novamente o assunto.
A oficina reabriu com atraso. A poltrona marrom continuava no canto, coberta por um lençol, e Lídia precisou explicar à proprietária que a estrutura havia se revelado irrecuperável em alguns pontos. A mulher reclamou do orçamento, da qualidade dos materiais atuais e de uma decadência geral que, em sua opinião, começara quando as pessoas abandonaram o costume de conservar móveis pelo resto da vida. Lídia escutou com a educação que reservava às clientes que já haviam pago metade do serviço. Cobrou a substituição das ripas e descontou parte da mão de obra, sem acrescentar qualquer valor pelo corredor que encontrara dentro do encosto. A cliente saiu satisfeita por ter conseguido uma redução. Lídia considerou justo que pelo menos uma pessoa abandonasse aquela história convencida de haver feito um bom negócio.
Dona Zefa apareceu pouco antes do almoço com Pirulito. O cachorro voltara a comer, a dormir e a nutrir ódio pela bicicleta do entregador de gás. Latia para os sacos de lixo, para a vassoura de Lídia e para uma pequena mancha no portão que, segundo sua dona, já estava lá havia anos. Zefa perguntou se podia deixar um pote com água diante da oficina, perto da sombra, para os animais que circulavam pela rua. Lídia respondeu que havia espaço e mostrou a tigela que mantinha desde a manhã anterior. Não comentou que trocara a água duas vezes antes de abrir, tampouco admitiu ter passado a reconhecer pelo som os horários aproximados em que os cachorros transitavam diante de sua casa.
Na sexta-feira, Jurandir apareceu com uma caixa de ferramentas. Queria ajudar a terminar a poltrona, embora ninguém solicitasse seu trabalho. Lídia aceitou, sobretudo porque não encontrara outra maneira de fazê-lo parar de rondar sozinho a antiga olaria. Enquanto substituíam as ripas, o velho contou que, quando menino, conhecera um cachorro pequeno e feio que dormia diante do forno. Chamava-se Chico e tinha uma orelha permanentemente dobrada. Desaparecera depois de uma noite de chuva. Durante anos, sempre que o forno ficava quieto demais, os cães do bairro começavam a latir para a terra. Sua avó dizia que estavam respondendo a Chico. O velho nunca soubera se ela acreditava na própria história ou se precisava acreditar para continuar levando comida aos animais.
— Você acha que o General ainda está lá? — perguntou Lídia, prendendo o revestimento com uma fileira de grampos.
Jurandir não abandonou o trabalho. Testou uma ripa, retirou um prego torto e escolheu outro dentro da caixa.
— Não sei. Meu pai dizia que as coisas debaixo da olaria não tinham fundo. Talvez o cachorro tenha encontrado outro lugar para sair. Talvez esteja fazendo o que sempre fez.
Lídia voltou a trabalhar. Não desejava ouvir nenhuma explicação que transformasse General num santo, num soldado ou numa criatura destinada a morrer pela segurança de pessoas que haviam passado anos mandando-o embora das portas. Ele gostava de perseguir caminhões de lixo, mastigar ossos e dormir sob o toldo do açougue quando chovia. Fora assim que a conhecera, e o resto, por mais extraordinário que houvesse se tornado, não lhe parecia motivo suficiente para inventar outro cachorro.
No fim da tarde, Jurandir foi embora. Bruna já havia fechado sua bancada, e a oficina cheirava a cola, madeira nova e café requentado. Lídia retirou o lençol da poltrona e examinou o serviço. O encosto estava firme, o tecido esticado, as costuras retas. Colocou a mão sobre a madeira, esperando alguma reação que justificasse a tensão de seu braço. Nada aconteceu. Repetiu o gesto em outra parte, desta vez com os dedos abertos. A cadeira continuou cadeira, o que lhe pareceu uma forma razoável de encerrar o expediente.
Foi ao recolher os retalhos que ouviu um arranhão sob a bancada. Havia caixas empilhadas perto da parede, um rolo de espuma e uma sobra do revestimento antigo. Lídia retirou a primeira caixa e encontrou uma marca escura junto ao rodapé, cinco depressões muito finas que não se prolongavam por mais de alguns centímetros. Abaixou-se, aproximou a lanterna e procurou a origem da mancha. A madeira estava seca. O piso não cedeu. Mesmo assim, ouviu uma respiração curta, tão baixa que por um instante a confundiu com o ruído da própria roupa roçando o chão.
Um latido veio da rua. Era profundo, rouco, com uma pequena falha no final. Lídia levantou-se depressa e abriu o portão. A calçada estava vazia. Perto do açougue, dois cachorros procuravam restos de comida num saco de lixo; um terceiro dormia sob um carro estacionado. Lídia caminhou até a esquina, examinou a oficina de Toninho e o muro novo que haviam construído diante da olaria. Nenhum sinal de General. Quando se virou para voltar, ouviu o latido outra vez, abafado, vindo de baixo de seus pés. Ficou imóvel, esperando. Um segundo som chegou mais distante, seguido por um silêncio no qual se podia escutar o motor de uma geladeira funcionando dentro de uma casa vizinha.
Na oficina, a marca do rodapé desaparecera. Lídia acendeu todas as luzes, afastou as caixas da parede e deixou a porta aberta enquanto terminava de guardar as ferramentas. Antes de entrar em casa, colocou uma tigela de água limpa junto ao portão. Ficou olhando para ela por alguns segundos, aborrecida com a própria vontade de permanecer ali esperando. Depois trancou a porta e subiu para dormir.
Pouco depois das três, acordou com o som de unhas raspando madeira. O ruído vinha de algum lugar sob o piso, muito distante, seguido por uma respiração que fazia a cabeceira da cama estalar. Lídia acendeu o abajur. O som cessou, mas a madeira demorou a parar de vibrar. Pela janela chegou um latido agudo de Pirulito, depois a resposta dos cães da oficina, do animal da casa verde e de outros mais afastados, cujas vozes atravessavam os quarteirões. Entre eles, muito abaixo da rua, um latido rouco se repetiu duas vezes, procurando uma direção que Lídia não conseguiu acompanhar.
Ela não voltou a dormir. Quando os primeiros caminhões começaram a passar, levantou-se, preparou café e abriu a janela da cozinha. Os cães continuavam latindo, alguns para os portões, outros para a esquina, dois deles aparentemente empenhados numa discussão sobre a existência de uma folha de jornal. Lídia tomou um gole de café e procurou, entre as vozes, aquela que escutara durante a madrugada. Não encontrou. Pirulito anunciou a chegada do entregador de gás com uma indignação que atravessou a rua inteira. Logo os outros começaram a responder, e a manhã recuperou, com notável entusiasmo, todos os inconvenientes de sempre.
Dessa vez, ninguém reclamou.

