As folhas caindo sobre o meu cabelo, um vento vindo oeste dança junto com os galhos, o sol iluminando tudo, até mesmo o meu rosto escondido dentro dessa árvore sem nome. É estranho para alguém como eu, preferir, até mesmo gostar, mais do dia do que à noite. Passo a maior parte da minha vida aqui, sentada ou levantada no mais alto galho que eu achar, só para olhar o sol e a vida dessas pessoas, como se as invejasse por terem uma vida tão normal e tranqüila. Queria também ser como os pássaros, que tem plena liberdade para cantar na hora que lhe mais vier a acanhar, muito diferente de mim. Não sei por que, mas hoje eu tive uma imensa vontade de cantar sem poder me controlar, talvez para provar aos pequenos seres voadores que eu também tinha a liberdade. Cantei em um tom só para a árvore ouvir, porém mais alguém que passava por ali conseguiu ouvir a minha música.
- É uma linda música. – fiquei tão surpresa em escutar a voz, que parecia ter perdido a voz podendo apenas olhar para baixo, deparando com um rapaz próximo a árvore o qual olhava em outra direção. – Por que esconder a sua voz se não tem medo de cantar?
- Pelo menos eu não tenho medo de encarar as pessoas. – fiquei com raiva do atrevimento dele e nem demonstrei surpresa em ter sido descoberta.
- Oh! Esta se referindo a mim? – a quem mais seria?! – Peço desculpas por isso... — ele começou a retirar os óculos escuros que usava, que só agora fui perceber a existência deles. – Infelizmente, mesmo que eu quisesse, não posso encarar alguém que não vejo. – seus olhos não tinham cor alguma.
- Você... é cego?
- Sim. – a principio fiquei com pena daquele garoto com uma beleza até bonita e tão jovem, com raiva do meu orgulho por ter sido surpreendida, até que, depois deste momento de pena fiquei com MUITA raiva de mim mesma.
- Idiota! – sussurrei para mim mesma, batendo a mão na cabeça. Além de ter sido surpreendida, fui surpreendida por um CEGO! Ele encostou a mão na árvore.
- Em que galho você esta?
- O mais alto. – falei sem pensar, ainda me culpando pelo deslize que fiz até que me lembrei do que tinha dito. “Por que ele quer saber isso?” Então, quase caí do galho percebendo que ele estava na minha frente. – Como você chegou até aqui?! E ainda tão rápido!
- Não sei por que você ficou tão surpresa. – guardou a bengala. – Parece-me que você é do tipo que faz isso de olhos fechados. – pior que isso era verdade. – Qual é o seu nome?
- Erica Christine Valenty Serena. – tenho tanto orgulho do meu nome, que por reação já o digo completo tenha a pessoa perguntado ou não.
- Uau! É um nome um pouco comprido. Posso chamá-la só de Erica? – a educação dele me surpreendia, talvez por eu nunca ter visto algo parecido ou por achar tal ato digno de admiração.
- Pode. – não sei por que, mas me sentia um pouco desconfortável perto daquele rapaz totalmente diferente de todos que eu já tenha visto.
- Deve ser muito bonito a visão daqui de cima. – essas palavras me fizeram olhar para ele, analisando cada detalhe e cada defeito. – Gosta de ver o sol, não é?
- Como pode saber tanta coisa sem se quer conhecer a pessoa?
- Esse é um dom que eu tenho. Acho que o ganhei quando perdi a minha visão. – gostei de vê-lo sorrir. – Parece ser até uma troca, perder algo importante e ganhar algo incomum. Mas, você... é diferente das outras pessoas. – assim que ele falou essas palavras fiquei preocupada pensando se tinha descoberto a minha verdadeira identidade.
- Por que acha isso? – controlei a minha voz para que não percebesse a minha frustração.
- Não sei. – o cabelo dele mudava de castanho claro para escuro quando movimentava a cabeça. – Acho que é por causa do seu coração. Ele tem um batimento diferente e bem forte. – quando os meus olhos encontraram com os dele, jurei que por um segundo ele estava me olhando. – Erica... você é uma vampira, não é? – peguei tão rápido a minha arma que nem tive noção do que tinha feito até ver que a apontava para o rosto dele.
- Quem é você?
- Um filho de uma vampira e de um humano. – ele disse isso tão calmamente que parecia ser a coisa mais normal do mundo. – O batimento do coração de um vampiro é totalmente diferente de um humano, por mais que ele aja como um humano. Você é a última pura, não é mesmo?
- Talvez.
- Bem, cuide-se. – ele colocou os óculos e desceu do galho facilmente caindo sem qualquer estrago, começando a andar para longe.
- Ei! – gritei ainda com a arma na mão e ele parou. – Você vai embora assim, sem mais nem menos?!
- Sim. – estava começando a ficar com raiva daquele tom de voz de brincadeira que ele fazia.
- E o seu nome?
- Você não deseja sabê-lo.
- Como assim? Eu não disse nada.
- Exatamente. – aquela voz me irritava.
- Mas, eu disse o meu.
- Porque eu quis saber. – aquele sorriso fazia os meus dentes trincarem. – Não se preocupe. Outro dia eu te conto. Até, Erica.
Fiquei olhando enquanto ele se afastava, perguntando a mim mesma o que faria agora. A arma, prata e vermelha, na minha mão se movia de um lado para o outro como se estivesse procurando pelo alvo que havia escapado. O que eu sentia naquele momento não era raiva, nem orgulho. Era solidão. Fazia quanto tempo desde que eu não conversava com alguém antes deste acontecimento imprevisto? Anos? Séculos? Nem eu mesma sabia. Queria vê-lo de novo, talvez para acabar de uma vez com esta confusão de sentimentos ou para descobrir a verdade que me era tão negada.
No dia seguinte, estava ao lado da árvore que eu tanto adorava esperando ansiosa ou nervosa pela chegada do rapaz do dia anterior. Coloquei a mão sobre o tronco e pousei a cabeça sobre ele como se procurasse por algum conselho daquele amigo fiel, mas a resposta que escutei não veio dele.
- Quer me matar? – puxei a arma já pronta para atirar até que percebi que era a pessoa que estava esperando, mas mesmo assim meu braço não baixava só tremia.
- Qual... é... o seu nome? – meu braço não parava de tremer.
- Tenho certeza que irá se lembrar. – ele segurou a minha mão que segurava a arma tão facilmente que cheguei a duvidar mais uma vez se ele era mesmo cego e a beijou.
Subitamente me lembrei de uma cena que vi no passado há alguns anos atrás. Um menino de 11 anos caiu no lago e eu o salvei, mas ele havia machucado os dois olhos e usei o meu sangue para curá-lo e ele ficou cego, porém não morreu. Ele, como agradecimento, beijou a minha mão e prometeu que da próxima vez que nos encontrássemos iria me proteger.
- Annakin? – deixei a arma cair.
- Sabe por que eu caí lago?
- Não.
- O que você estava fazendo antes de me salvar? – ele ficou tão perto de mim que consegui ouvir as batidas de seu coração.
- Cantando. – eu sorri. – Você foi muito bobo em querer ouvir uma música de uma vampira que estava voando e olha só o que lhe foi acontecer.
- Eu te amo, Erica. – fiquei tão surpresa que quase bati a cabeça na árvore se ele não tivesse me segurado. – E vou manter a minha promessa, aconteça o que acontecer. – eu sabia muito bem o que ele queria dizer com isso, mas eu fingia que não entedia, mas não era hora nem momento para aquilo. Logo percebi que eles estavam ali e pela expressão do rosto de Annakin vi que ele também sabia. Peguei a minha arma em um só chute e segurei firmemente.
- Não solte a minha mão. – segurei a mão dele e depois já estávamos no ar, voando o mais rápido para longe dos meus perseguidores.
Matei 10 humanos e 2 vampiros com balas, facas e meus poderes. Annakin matava com tanta perfeição que fiquei com ciúmes, ele usava facas especiais e nunca errava o alvo. Chegamos na minha casa despistando os idiotas por algum tempo. A minha única preocupação nem era com a minha liberdade, era com ele. Esta luta não era dele e eu temia o pior.
- Fique aqui e eu volto amanhã. – peguei todas as armas e facas que tinha e fui andando na direção da saída até que Annakin me abraçou.
- Você realmente acha que irei ficar aqui sabendo que você esta em perigo? Acha que eu não posso lutar junto com você? – “não é isso!” era o que eu queria dizer, mas o orgulho foi maior.
- Esta luta é minha. Nem você, nem ninguém têm haver com ela. É só eu e eles. Solte-me. – na verdade eu temia que se continuasse em seus braços mudasse de idéia.
- Eu prometi que iria protegê-la e nada irá me fazer mudar de idéia. – ele me virou e agora eu estava de frente para o seu rosto. – Por isso, eu quero lhe pedir um favor, Erica.
- O quê?
- Beba o meu sangue. – juro que quando escutei estas palavras deixei sair um gemido de medo e surpresa. – Eu não me importo de virar um vampiro desde que vá ajudar você.
- Annakin... – por distração minha não percebi que eles haviam chegado mais rápido do que o previsto e fui atingida na perna, caindo em cima dele. – Droga!
- Você esta bem?! – ele matou o atirador com uma de suas facas.
- Nada de mais. — eu rasguei minha blusa e coloquei sobre a ferida. Ele colocou a mão sobre a ferida e percebeu que eu tinha mentido, descontando a raiva no sofá que estávamos escondidos.
- Consegue andar?
- Não. Foi uma bala especial. Droga! Eles chegaram mais rápido do que eu previa. – segurei a minha arma ouvindo com atenção o que acontecia lá fora.
- Erica! Beba logo o meu sangue antes que a sua ferida piore e eu cuido do resto. – ele já estava preparado para mandar as suas facas.
- Mas... você vai...
- Não se importe comigo! Faça isso agora!
Na verdade eu queria muito morder aquele pescoço desde que nos encontramos pela segunda vez. A minha vontade só aumentou com aquela ferida e ainda mais... ele estava me pedindo para fazer aquilo. Como eu poderia recusar? Quando me dei conta já estava sentindo o gosto do sangue dele, tão diferente de todos que eu já tenha sentido! Tão delicioso. Tudo por conta daquele sentimento que havia aparecido do nada. Eu também o amava, amava tanto que o seu sangue para mim era a coisa mais preciosa que se tinha. Não deixei que uma gota sequer fosse desperdiçada e senti as minhas forças retornarem. Olhei para Annakin e percebi que seus olhos estavam mudando de cor. A cor de seus olhos era verde escuro e estes olharam para o meu rosto que viram lágrimas saírem dos meus.
- Este era o mínimo que eu podia fazer por você, Annakin. – ele sorriu e beijou-me na testa.
- Você é mais linda do que eu me lembro. Obrigado. – sabia exatamente o significado disto para ele.
Ficamos praticamente o dia inteiro matando e escapando deles até que finalmente fugiram, provavelmente para junto de quem os mandará. Sou a última vampira pura que existe em todo mundo. O poder de alguém como eu é incrivelmente sem limites, sou como uma arma nuclear andante que pode matar milhões a qualquer momento que eu quiser. Muitos cobiçam em ter alguém como eu, por isso eu vivo fugindo e enfrentando-os, sem poder desfrutar o sabor da liberdade. Sou como um passaro dentro da gaiola grande o suficiente para achar que tem liberdade de voar. Annakin sabia que havia pessoas atrás de mim, desde que nos conhecemos. Tenho que acabar com isso de uma vez por todas, se não irei acabar perdendo a única coisa que me resta. Admito que ainda não disse os meus sentimentos para ele, mas... deixe isso de lado. A única coisa que resta a destruir é o Labirinto, a única coisa que pode localizar os vampiros, criada há séculos atrás por um rei que odiava o meu mundo. Como se tudo tivesse um destino, esta máquina especial tinha também como poder apagar a memória de todos que já a usaram contra os vampiros, porém esta cercada de guardas, armadilhas, entre outras coisas feitas pelos meus admiradores.
Eu e Annakin entramos na instalação com a ajuda dos nossos poderes e das armas. Mesmo pelo grande numero de guardas, ninguém chegava a ter as minhas habilidades e muito menos a de Annakin. Fiquei admirando os seus movimentos como se fosse uma obra de arte, sem me preocupar com os incompetentes dos guardas. O problema foi as armadilhas, eram feitas para matar você sendo um vampiro ou não. Fiquei até impressionada quando tive que usar todas as minhas habilidades para sair de lá com vida. Quando nos deparamos com o Labirinto me senti estranha. Quanto mais perto chegava mais eu sentia a minha mão indo em busca da espada na minha cintura, até que a segurei e comecei a lutar com Annakin sem entender o que estava fazendo.
- O que foi?
- Meu... corpo esta se mexendo sozinho. – não conseguia me controlar. – Não... – ataquei de novo. – Não... consigo... – lancei uma faca nele que ainda bem não acertou. – Não consigo controlar!
- Isso deve ser coisa dessa máquina.
- Annakin... mate-me. – quando ele ouviu estas palavras, olhou para mim como se eu fosse uma louca, pedindo uma coisa daquelas.
- Por quê?!
- Eu me conheço melhor do que ninguém. Não vou parar até... o fim. Por favor... eu não quero te ferir. Pare-me antes que seja tarde demais.
- Erica, como eu poderia matá-la?!
- Seu idiota! Se eu sentisse a mesma coisa por você eu já teria falado, não é?! Eu não sinto nada por você! – eu segurava as minhas lágrimas. – O mínimo que você pode fazer para alguém como eu é isso. Eu te transformei em um mostro! Mate-me! E depois destrua o Labirinto e vá viver a sua vida!
Estava indo na direção dele mais uma vez, com a espada erguida torcendo para que ele agora me odiasse mais do que tudo. Annakin não mostrou o seu rosto, mas a sua espada estava de uma maneira que eu sabia que era para matar, me senti aliviada por um segundo até que percebi que ele sorria e soltou a espada, deixando a minha atravessá-lo. Meu coração parou por algum tempo até que o segurei aos meus braços com muita força.
- Idiota! Idiota! Por que fez isso?! – lágrimas caiam dos meus olhos sem parar. – Por que fez isso?! – senti a mão dele passar entre os meus cabelos.
- Porque você é uma mentirosa. Achou mesmo que eu acreditei nas suas mentiras? Você não é tão boa como parece. Não me importo se você sente ou não a mesma coisa que eu. Vivo só para você, a pessoa que me é mais querida. Nunca que eu conseguiria matá-la.
- Morde logo de uma vez. – virei a cabeça e abaixei a gola da minha blusa. Ele ficou surpreso. – Acha que eu ofereço para qualquer um? – ele não falou nada, mordeu o meu pescoço de uma forma mais apresada do que eu ao morder o dele.
- O que você sente por mim? – ouvi-o perguntar sem tirar as suas presas do meu pescoço.
- Eu te amo, Annakin. – sussurrei no ouvido dele. Ele parou de beber o meu sangue e beijou-me apressadamente. Aposto que isso era por que estava pedindo isso mais do que eu.
Desde que eu perdi a minha família, vivia neste mundo sozinha olhando e invejando a vida de todos os outros. Adorava cantar, mas a solidão foi apagando este sentimento tão importante para mim, até que encontrei Annakin. Na primeira vez, cantei por um motivo que desconheci assim como na segunda até que, agora, eu entendo. Quando eu estou ao lado dele, as correntes que me prendem em um mundo de solidão se quebram, tornando-se asas da minha liberdade. A liberdade de poder cantar a música de uma vampira.
- Obrigada, Annakin... – sorri tão feliz que pelo olhar dele soube que ele havia percebido a diferença em mim. – Espere só um pouco. – levantei-me e lancei um terrível olhar para a maldita máquina que havia me aprisionado neste mundo de solidão, Labirinto. “Depois de todos esses anos...”, ouvi a voz dele na minha cabeça, “Você realmente tem a coragem de querer me destruir?” – Cale a boca. Fugi todo esse tempo por sua causa, entrando cada vez mais neste mundo de solidão. Você me tirou a minha família, a minha liberdade e tentou tirar a única coisa que me havia restado! Você... NÃO MERECE EXISTIR! — “Erica, você sabe que eu sou o único que pode entendê-la. Se me destruir, terá a sua liberdade de volta, mas viverá em um mundo sem ninguém para entendê-la.” – Tente enganar a outro, Labirinto. – dei um sorriso. – Eu sou Erica Christine Valenty Serena, a última vampira. – na minha mão apareceu uma espada feita de puro fogo. – Eu vou destruí-lo! – com um só golpe corte a máquina ao meio e nem se quer sai do lugar. “Seu poder sempre me surpreendeu... depois de tudo o que fiz, acho que esse era o único fim que eu poderia merecer... destruído... pela pessoa que mais amou... Adeus...” essas foram às últimas palavras dele para mim. — ... – não sei por que mas, uma lágrima caiu do meu olho direito.
- Erica?
- Vamos, Annakin? – virei-me sorridente para ele. – Quero aproveitar cada segundo da minha liberdade ao seu lado!
- Sua tolinha. – ele me abraçou. – Não precisa esconder a suas lágrimas. Não me importo de vê-la chorar, desde que seja para o seu bem. – chorei. – Eu... fiquei muito feliz em ouvir o que você sente por mim. – como eu adorava aqueles olhos verdes, me faziam sentir tão bem. – Minha especial vampira da música. – nós nos beijamos, sem se importar com as coisas a nossa volta.
- Sabe de uma coisa? – perguntei.
- O quê?
- A minha casa é você.
- ... – ele sorriu. – E a minha é você. Desde que nos conhecemos, dediquei tudo para que no dia que nos reencontrássemos eu pudesse ser útil para você, mas... – ele colocou uma das mãos sobre os olhos. – Nunca imaginei que poderia vê-la novamente com os meus próprios olhos. Estou muito feliz por isso!
Quem diria, uma vampira como eu, apaixonada por um vampiro como ele. Acho que desde o inicio eu já sabia que daria nisso. Afinal, que tipo de vampira eu seria se não pudesse confessar que finalmente encontrei o meu ponto fraco.

