The Last Piece
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Capítulo 1 — Reencontro do Epulário;

Se tinha uma coisa italiana da qual sentia falta, era o café.

Talvez fosse nostalgia ou algum patriotismo oculto, mas a versão japonesa da bebida não chegava aos pés da que conhecia como natural. Assim como a maioria dos elementos do Japão, o café lhe era estranho, não descia bem e não despertava a sensação familiar de calor no peito.

Ainda assim, bebia, não por servir como energético, mas sim pelo costume. Café era sagrado, independente do gosto, e deixá-lo de lado por paladar era como violar alguma tradição intrínseca. Agora mesmo, bebia num copo qualquer, de uma cafeteria qualquer, que comprou no meio do trajeto para seu objetivo.

Não se preocupou em olhar o nome impresso na superfície do copo, nem com o "restinho" de café que ainda sobrava. Apenas bebeu o último gole e descartou-o na primeira lata de lixo que encontrou.

Cruzando a última rua, finalmente chegou ao edifício. Conferiu o celular uma última vez, confirmando o endereço, e logo entrou.

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A reunião não foi tão tumultuada quanto presumira.



Todos estavam razoavelmente desorientados — com exceção de ela própria e mais algumas pessoas, como Sasha e os presentes da turma C —, mas rapidamente, explicaram a situação. Houve uma edição de um reality show envolvendo vários daquela turma, onde os participantes eram obrigados a se caracterizarem como eles. Inclusive, houveram mortes em função de seus trejeitos, graças a interpretações mal feitas ou desespero.

Nenhuma das respostas que deu foram genuínas; súbitas, vinham do modo automático. Movia os olhos ao redor da sala, falando no costumeiro tom frio, mas não focava de verdade em nada. Podia sentir-se flutuando acima da atmosfera, perdida num estupor conhecido.

Em algum momento, alguém fez uma sugestão. “E se dividirmos as tarefas por especialidades?"

"Seria a melhor opção.", completou imediatamente, assentindo e se perguntando se já não tinham passado por aquele ponto. "Podemos não ter mais os títulos, mas estamos em um antro com os melhores do mundo em suas áreas. Aqui, há potencial para qualquer coisa."

Houve um instante de silêncio, no qual o ruído silencioso ocupou sua cabeça por completo de novo. Ouviu alguém reforçando seu ponto, e logo em seguida, fizeram as divisões. A parte mais burocrática ficou para ela — encontrar as raízes —, enquanto processos menores e mais rápidos ficaram nas mãos dos outros.

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Terminando a reunião, imaginou, desde o começo dela, que iria direto para sua casa. Entretanto, um letreiro brilhante em katakana chamou sua atenção.

"Café Harajuku...", leu, em voz baixa, piscando diante de um déjà-vu. Era mais uma das ditas cafeterias temporárias, cujos serviços iam desde café expresso até uma cama para que os clientes dormissem. Apesar de seus interesses não envolverem essa última parte, mais um copo de café seria bem-vindo para aguentar a viagem até em casa.

Espiou pelo vidro transparente do exterior, avistando mesas e sofás organizadamente dispostos. O local parecia harmônico, mesmo com tanta movimentação, e algumas cadeiras estavam vazias. Um canto de sua mente recomendou que entrasse e ao menos tentasse descansar, independente da tensão enorme que acometesse seu subconsciente.

Acabou o obedecendo. A cada consulta com sua terapeuta, sentia que cedia mais para o lado confortável — aquele que a fazia se sentir incrivelmente culpada — e se dava muito mais espaço que o merecido.

Adentrando a cafeteria, seus olhos foram direto para o balcão. Entretanto, o alto fluxo de funcionários a fez pensar que seria melhor simplesmente pegar uma mesa, então moveu seu foco para o conjunto afastado delas. Em meio à busca pela cadeira vazia, seus olhos bateram numa figura conhecida.

Distante da concentração de pessoas, Mitsuru sentava-se com os pés para cima da mesa pequena, onde só havia um porta-guardanapo. Tinha o visto anteriormente na reunião, assim como viu todos os seus colegas, mas enxergá-lo fora daquela sala era algo… nostálgico. Sem hesitar, aproximou-se da mesa, notando que, ao avistá-la, ele abaixou os pés, desfazendo a postura folgada de antes.

“Boa tarde.”, ela puxou a cadeira para se sentar, apoiando as mãos nas coxas. Seu olhar na direção dele parecia invasivo, mas simultaneamente vazio.

“Boa tarde, detetive-san.”

“Há… quanto tempo.” desviou o olhar para uma garçonete aleatória. Novamente, foi no automático, e não entendeu o motivo. Nem se esforçou para isso.

Mitsuru demorou mais um pouco a responder.

“… É, realmente.”, puxou a aba do chapéu. A garçonete para quem Karen estivera olhando chegou perto, e ela pediu um expresso. “Como andam as coisas?”

Houve um instante no qual ela parou pra pensar. Sua fala não fugiu do instintivo.

“… Agitadas.”, respondeu, voltando a encará-lo. Surgiu, em algum canto do seu subconsciente, o entendimento de que aquele “reencontro” estava bem diferente do que os livros contavam. Bem mais insosso. Ignorou-o. “Ainda assim, sem grandes riscos. E para você?”

“Creio que possa dizer o mesmo.”

A funcionária de antes retornou com o expresso, impedindo o silêncio de tomar conta. Karen agradeceu-a e bebeu um gole do café, fitando Mitsuru brevemente antes de continuar o assunto.

“Os casos estão gradativamente mais calmos. Há uma diferença nítida entre trabalhar no ramo particular e no ramo público.”, não se preocupou em explicar, pois ele já sabia. Tinha dado essa notícia numa das poucas ligações, antes de pararem de se comunicar por completo. “Estive lidando menos com campo e cadáveres, e mais com traições, filhos fujões, espionagem…”

Pausou, piscando devagar, como se subitamente tirada de algum tipo de torpor. Conhecendo o armeiro, ele estava interessado.

“... Apesar de serem os melhores em me fazer questionar minha fé na humanidade, eles também rendem excelentes histórias.”, ela cruzou os braços em cima da mesa. Sua fala soava, de repente, muito mais fluída.

Entre goles de café, informou-o das maiores e mais inacreditáveis coincidências e casos bizarros; narrou, segurando um calor desconhecido que insistia em subir por sua garganta, até mesmo uma vez em que desmentiu um fórum de glitches na Matrix¹, ordenado por um conspirador pós-desespero.

Seu epulário estava de volta.

Agora sim, aquele era um reencontro de verdade.

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