— Mamãe!
Jaqueline despertou com a voz do filho. Permaneceu alguns segundos de olhos fechados, torcendo para que ele voltasse a dormir sozinho, mas o chamado se repetiu.
— Mamãe, vem aqui!
Ela estendeu a mão até o criado-mudo e apertou a tela do celular. Duas e cinquenta e três da manhã.
— Ai, Nicolas...
Era a terceira vez naquela semana.
Afastou o edredom, procurou os chinelos com os pés e se levantou. Acendeu a luz do corredor antes de chegar ao quarto do filho, cuja porta estava fechada.
— Nico?
Não recebeu resposta.
Ao entrar, encontrou a cama aparentemente vazia. Um volume sob o edredom azul se mexeu quando ela se aproximou.
— Nico, o que aconteceu?
O menino abaixou a coberta o suficiente para mostrar os olhos castanhos. Estava encolhido perto da cabeceira, com os cabelos desgrenhados e o rosto preocupado.
Jaqueline se sentou na beirada da cama.
— Teve outro pesadelo?
Ele balançou a cabeça.
— Não foi pesadelo, mamãe.
— Então o que foi?
Nicolas demorou um pouco a responder. Tirou uma das mãos debaixo do edredom e a estendeu na direção dela.
— Minha mão tá estranha.
Jaqueline segurou seus dedos.
— Estranha como, meu amor?
— Não sei. Tá esquisita.
Ela aproximou a mão da luz, examinou a palma, as unhas e o espaço entre os dedos. Não havia vermelhidão, inchaço ou qualquer alteração que conseguisse identificar.
— Está doendo?
— Não.
— Está formigando? Parece que tem umas formiguinhas andando nela?
Nicolas franziu a testa.
— Não, mamãe. É diferente.
— Diferente como?
Ele abriu e fechou os dedos algumas vezes, olhando para eles com evidente insatisfação.
— Não sei explicar.
Jaqueline soltou o ar devagar.
Aquelas reclamações haviam começado meses antes. Primeiro, Nicolas dizia que suas mãos estavam esquisitas. Depois vieram os pés, com sensações que ele descrevia ora como coceira, ora como alguma coisa que parecia se esticar por dentro. O pediatra solicitou exames, examinou suas articulações e investigou as queixas sem encontrar alterações. Mais recentemente, Jaqueline procurou uma psicóloga infantil, que levantou a possibilidade de as sensações estarem relacionadas à ansiedade ou à dificuldade de Nicolas para compreender e descrever o que sentia.
Não era uma resposta definitiva. Jaqueline sabia disso. Mas, depois de tantas consultas, precisava admitir que estava ficando difícil lidar com um problema que ninguém conseguia identificar.
— Vamos fazer aquela massagem?
Nicolas assentiu.
Ela acomodou a mãozinha sobre a própria palma e começou a massagear os dedos, um por um. Depois passou o polegar pelo centro da mão, fazendo pequenos movimentos circulares.
— Assim está bom?
— Tá.
— E agora?
O menino observou os dedos.
— Ainda tá esquisita.
Jaqueline conteve um suspiro.
— Às vezes a gente dorme numa posição ruim e acorda sentindo umas coisas diferentes. Pode ser isso.
Nicolas pareceu considerar a explicação. Então afastou o edredom com os pés.
— Meu pé também tá coçando.
Ela olhou para ele.
— Ah, Nicolas...
— Tá, mamãe!
— Eu acredito, filho. Deixa eu ver.
Segurou o pé que ele lhe oferecia e examinou a sola. Também não encontrou nada. Passou as unhas delicadamente pelo calcanhar.
— Aqui?
— Mais pra cima.
Ela moveu os dedos.
— Aqui?
— Aí!
— Melhorou?
— Tá melhorando.
Jaqueline continuou por mais alguns instantes, até perceber que o menino havia relaxado os ombros.
— Pronto. Agora vamos tentar dormir? Daqui a pouco o sol aparece e nós dois precisamos acordar cedo.
Nicolas assentiu, mas, assim que ela começou a se levantar, segurou seu pulso.
— Mamãe?
— Oi.
— Posso dormir com você?
Jaqueline lembrou-se do horário. Em poucas horas precisaria estar de pé, preparar o café, organizar a mochila do filho e enfrentar mais um dia de trabalho.
A psicóloga havia conversado com ela sobre a importância de estabelecer uma rotina de sono, especialmente porque Nicolas vinha apresentando dificuldades para descansar. Jaqueline tentava seguir as orientações, mas colocá-las em prática às três da manhã, depois de várias noites interrompidas, era outra história.
— Nicolas, nós já conversamos sobre dormir na sua caminha.
Ele abaixou os olhos.
— Eu sei.
— E ontem você dormiu comigo.
— Mas hoje minha mão tá esquisita.
Ela observou o rosto do filho. Nicolas não parecia estar fazendo birra. Havia alguma coisa naquele olhar, uma preocupação que ele não conseguia traduzir em palavras.
— Está com medo de alguma coisa?
O menino demorou a responder.
— Não sei.
Jaqueline acariciou seus cabelos.
— Vem cá.
O sorriso surgiu imediatamente.
— Posso?
— Só hoje. E sem ficar fazendo bagunça na minha cama.
— Tá bom!
— Estou falando sério, Nicolas.
Ele assentiu com uma expressão tão séria que ela quase riu.
Jaqueline o pegou no colo, acomodando-o contra o quadril. Aos cinco anos, Nicolas já estava ficando pesado para ser carregado daquela maneira, mas ainda gostava de esconder o rosto no pescoço da mãe quando estava com sono.
Ela apagou a luz do quarto e saiu com ele nos braços.
Ao atravessarem a porta, percebeu que Nicolas estava olhando para trás.
— Esqueceu alguma coisa?
— Não.
— Então por que está olhando?
O menino acomodou melhor o rosto contra seu ombro.
— Nada, mamãe.
Jaqueline não insistiu.
No quarto dela, acomodou Nicolas ao seu lado, ajeitou os travesseiros e apagou a luz.
A promessa de dormir tranquilamente durou aproximadamente três minutos.
Primeiro, Nicolas se virou de um lado para o outro, procurando uma posição confortável. Depois começou a mexer os pés sob o edredom, encostando os calcanhares nas pernas da mãe. Por fim, passou a produzir pequenos estalos com a boca.
— Nicolas — chamou Jaqueline, sem abrir os olhos.
O barulho parou.
Cinco segundos depois, voltou.
— Filho.
Ele soltou uma risadinha.
— O quê?
— Você não vai dormir?
— Vou.
— Então por que está fazendo esse barulho?
— Porque é engraçado.
Jaqueline abriu um olho.
— Sabe o que também seria muito engraçado?
— O quê?
— A mamãe conseguir dormir antes de amanhecer.
Nicolas riu e se aproximou, passando um braço ao redor dela.
— Eu te amo, mamãe.
— Eu também te amo, meu amor. Agora fecha esses olhinhos.
Ele obedeceu, embora ainda tenha perguntado se poderiam comprar morangos no dia seguinte e se os peixes fechavam os olhos para dormir.
Jaqueline respondeu à primeira pergunta e fingiu não ouvir a segunda.
Quando finalmente adormeceu, Nicolas estava abraçado ao braço dela, com uma das pernas atravessada sobre seu corpo.
Jaqueline afastou delicadamente a perna que a prendia e tentou encontrar uma posição confortável no espaço que restara da cama.
Ela permaneceu algum tempo olhando para o teto.
Precisava marcar outro retorno com a psicóloga. Talvez também fosse o caso de conversar novamente com o pediatra.
Fechou os olhos.
Naquela noite, decidiu que pensaria nisso pela manhã.
O despertador tocou cedo. Jaqueline estendeu o braço para desligá-lo e permaneceu deitada por alguns segundos, sentindo os olhos pesados. Virou-se para o lado, esperando encontrar Nicolas, mas o espaço estava vazio.
Da sala veio o som de pequenos passos, seguido pelo ruído de alguma coisa sendo arrastada pelo piso.
— Nicolas?
— Tô aqui, mamãe!
Ela se levantou, prendeu os cabelos e caminhou até a sala. Encontrou o menino de pijama, na ponta dos pés diante da estante, tentando alcançar o controle remoto da televisão.
— Bom dia, dona mamãe! — anunciou ele, com uma animação quase ofensiva àquela hora.
Ela sorriu apesar do cansaço.
— Bom dia, senhor Nicolas. Dormiu bem?
— Dormi!
— Que maravilha. Sua mãe não pode dizer o mesmo.
Nicolas riu e finalmente conseguiu pegar o controle.
— Posso ver desenho?
— Primeiro, vem me dar um beijo.
Ele correu até ela, abraçou sua cintura e ergueu o rosto. Jaqueline se abaixou para beijá-lo, aproveitando para apertar suas bochechas.
— Agora vamos escovar os dentes e trocar de roupa.
— Posso ficar de pijama?
— Pode, se você quiser ir para a escola desse jeito.
Nicolas olhou para o próprio pijama, considerando seriamente a possibilidade.
— Eu gosto dele.
— Eu também. Mas acho que sua professora vai estranhar.
Depois de alguma negociação, conseguiu levá-lo ao banheiro. Enquanto Nicolas escovava os dentes, Jaqueline separou o uniforme e conferiu se havia alguma mensagem da escola.
— Mamãe, posso mexer no seu celular?
— Agora não, filho.
— Só um pouquinho?
— Nicolas.
Ele reconheceu o tom e desistiu da negociação.
Pouco depois, já vestido, correu para a sala, onde escolheu um desenho de animais.
Jaqueline aproveitou para tomar banho e se arrumar. Diante do espelho, tentou disfarçar as olheiras com maquiagem. Não adiantou muito.
Havia meses que não dormia uma noite inteira sem interrupções. Nicolas sempre tivera um sono leve, mas, ultimamente, as madrugadas se tornaram particularmente difíceis.
Às vezes, sentia falta de ter alguém com quem dividir tudo aquilo. Não necessariamente porque desejasse mudar a vida que construiu, mas porque teria sido agradável encontrar outra pessoa acordada às três da manhã, alguém que pudesse dizer que daquela vez cuidaria de Nicolas enquanto ela continuava dormindo.
Seus pais ajudavam quando podiam, mas moravam longe o suficiente para que a maior parte das responsabilidades permanecesse exclusivamente com ela.
Jaqueline gostava da profissão, do apartamento e da independência que conquistara em Brasília. Tinha orgulho da vida que construiu e nunca se arrependeu de ter Nicolas.
Isso não significava que não houvesse dias em que desejasse passar algumas horas sem precisar resolver absolutamente nada.
Na cozinha, começou a preparar o café e organizar os lanches do filho.
— Nico, vem comer!
— Já vou!
Ela terminou de colocar os pratos sobre a mesa.
— Nicolas!
— Tô indo, mamãe!
O som da televisão diminuiu. Alguns instantes depois, o menino apareceu na cozinha e arrastou uma cadeira para se sentar.
Comeu conversando sobre o desenho a que estava assistindo, interrompendo a própria história várias vezes para fazer perguntas. Quando terminou, olhou para o prato vazio.
— Quero mais.
Jaqueline ergueu as sobrancelhas.
— Mais? Você acabou de comer, meu filho.
— Mas ainda tô com fome.
Ela o observou por um instante e se levantou para servir outra porção.
O apetite de Nicolas era uma preocupação antiga. Desde pequeno, parecia sentir fome com uma frequência que a surpreendia, especialmente depois de dias muito ativos. Jaqueline já havia conversado com o pediatra e procurado orientação nutricional. Seu crescimento estava adequado, e a recomendação era manter uma alimentação variada e observar suas necessidades.
Ainda assim, havia manhãs em que ela se perguntava onde o menino colocava tanta comida.
— Você vai me levar à falência desse jeito.
Nicolas sorriu.
— O que é falência?
— É quando a mamãe fica sem dinheiro porque o Nicolas comeu o supermercado inteiro.
Ele caiu na gargalhada.
Jaqueline permaneceu alguns segundos observando-o, apoiada na bancada.
Havia uma expressão que Nicolas fazia enquanto comia. Os olhos se estreitavam, as sobrancelhas se erguiam ligeiramente e o sorriso surgia antes mesmo que ele percebesse.
André fazia exatamente a mesma coisa.
A lembrança veio tão nítida que, por um instante, Jaqueline quase conseguiu imaginá-lo sentado à mesa, olhando para ela com aquela expressão satisfeita.
Desviou os olhos para a pia.
Fazia muito tempo que não pensava nele daquela maneira. Ou, pelo menos, gostava de acreditar que sim.
— Mamãe?
— Oi, meu amor.
— Você não vai comer?
— Vou, sim.
Ela puxou a cadeira e se sentou ao lado dele.
Enquanto preparava o próprio prato, lembrou-se da madrugada.
— Como estão suas mãos hoje?
Nicolas olhou para os dedos.
— Boas.
— E os pés? Ainda estão coçando?
— Não. Já passou.
— Tem certeza?
— Tenho, mamãe.
Jaqueline segurou uma das mãos do filho, examinando-a mais uma vez. Não encontrou nada diferente.
Nicolas permitiu a inspeção por alguns segundos antes de puxar os dedos de volta para continuar comendo.
Ela decidiu não insistir.
A escola ficava a poucos minutos do apartamento. Nicolas frequentava a instituição desde os seis meses, quando Jaqueline precisou retornar ao trabalho depois da licença-maternidade.
Ao longo dos anos, ele havia criado vínculos com as professoras, as funcionárias e muitas crianças que cresceram ao seu lado. Era conhecido pela simpatia, pelos abraços espontâneos e por uma disposição que frequentemente deixava os adultos exaustos.
Assim que Jaqueline estacionou, Nicolas começou a procurar os colegas pela janela.
— Mamãe, o Pedro já chegou!
— Estou vendo, filho. Espera eu tirar seu cinto.
Ele se remexeu, impaciente.
— Ele tá me esperando!
— E vai continuar esperando por mais dez segundos.
Nicolas riu.
Na entrada, cumprimentou a funcionária da recepção e acenou para uma professora que atravessava o pátio. Jaqueline caminhou ao lado dele, carregando a mochila enquanto o menino falava sobre uma brincadeira que pretendia fazer com os amigos.
Antes de entrar, Nicolas se virou e abriu os braços.
— Beijo, mamãe!
Ela se abaixou para recebê-lo.
— Se comporta, hein? E escuta as professoras.
— Tá bom.
— Sem correr dentro da sala.
— Só no pátio — respondeu ele, sorrindo.
— Exatamente.
Nicolas a abraçou com força, beijou sua bochecha e se afastou.
— Tchau! Te amo!
— Também te amo, meu amor.
Jaqueline permaneceu alguns segundos observando-o atravessar o portão. Nicolas encontrou Pedro e o cumprimentou com um abraço tão entusiasmado que os dois quase perderam o equilíbrio.
Uma professora chamou sua atenção, e ele imediatamente se endireitou, oferecendo a ela um sorriso inocente.
Jaqueline balançou a cabeça, divertida.
Pouco antes de voltar ao carro, encontrou a mãe de um dos colegas de Nicolas.
— Continua tudo certo para o jiu-jítsu?
— Tudo certinho. Vou buscar os dois aqui e levar para a aula. Você consegue pegar o Nicolas na academia depois?
— Consigo, sim. Muito obrigada. Você está me salvando.
— Imagina! Já vou levar o meu mesmo.
Jaqueline agradeceu novamente e confirmou o horário.
Nicolas havia começado a praticar jiu-jítsu havia pouco tempo. Gostava dos exercícios, das brincadeiras e de passar mais algumas horas com outras crianças. Também frequentava a natação, atividade pela qual demonstrava um entusiasmo ainda maior.
Jaqueline procurava oferecer oportunidades para que o filho gastasse energia e desenvolvesse novas habilidades. Seguia as orientações dos profissionais que o acompanhavam, embora nem sempre os resultados fossem os que esperava.
Havia imaginado, por exemplo, que as atividades físicas ajudariam Nicolas a dormir melhor.
Até aquele momento, isso não havia acontecido.
No trajeto até o tribunal, aproveitou o trânsito para organizar mentalmente as tarefas do dia. Tinha algumas pendências administrativas, uma reunião no início da tarde e documentos que precisava revisar.
Também precisava marcar uma consulta.
Talvez duas.
Além das sensações nas mãos e nos pés, Nicolas vinha reclamando de um incômodo dentro da boca. Às vezes dizia que os dentes estavam apertados; em outras ocasiões, que alguma coisa parecia empurrá-los. Jaqueline já o levou a diversos odontopediatras, sem que encontrassem uma causa evidente. As radiografias estavam normais e, embora alguns profissionais considerassem a possibilidade de desconfortos relacionados à dentição, nenhum conseguiu explicar satisfatoriamente as queixas.
Na última consulta, perdera a paciência.
Disse ao dentista que compreendia os resultados dos exames, mas que o filho continuava sentindo dor. Não esperava que ele inventasse uma resposta. Queria apenas saber o que fazer quando Nicolas acordava chorando e não havia nada que ela conseguisse identificar.
Depois se arrependia do tom.
O profissional havia sido educado, explicando suas limitações e recomendado acompanhamento. Jaqueline sabia que ele não tinha culpa.
Mas estava ficando cansada de ouvir que tudo parecia normal.
Ao chegar ao tribunal, conferiu as mensagens e guardou o celular na bolsa.
Ainda precisava conversar com a psicóloga sobre os despertares noturnos. Recentemente, o psiquiatra infantil também levantou a possibilidade de investigar TDAH, sem estabelecer um diagnóstico. Nicolas era agitado, tinha dificuldade para permanecer parado em determinadas situações e parecia possuir uma quantidade extraordinária de energia.
Jaqueline não descartava nenhuma hipótese, mas também não queria que cada característica do filho fosse imediatamente transformada em sintoma.
O expediente transcorreu mais lentamente do que Jaqueline gostaria.
Depois de uma madrugada interrompida, precisou de várias xícaras de café para conseguir se concentrar. Em determinado momento, uma colega percebeu que ela estava quase adormecendo diante do computador.
— Nossa, Jaque. Está tudo bem?
Jaqueline endireitou as costas.
— Estou. O Nico não dormiu direito de novo.
— Coitada. E você vem trabalhar desse jeito?
— Se eu descobrir outra opção, te aviso.
A colega riu.
Jaqueline também, embora estivesse falando apenas parcialmente em tom de brincadeira.
Durante a tarde, recebeu duas mensagens da mãe do colega de Nicolas. A primeira avisava que as crianças haviam saído da escola. A segunda confirmava que estavam na academia de jiu-jítsu.
Jaqueline agradeceu e voltou ao trabalho.
Quando finalmente encerrou o expediente, já pensava no jantar. Precisava passar no supermercado, buscar Nicolas e, se tudo desse certo, colocá-lo na cama cedo.
Estava procurando as chaves do carro dentro da bolsa quando o celular tocou.
O número era da academia.
Jaqueline franziu a testa e atendeu.
— Alô?
— Boa tarde. Eu falo com a mãe do Nicolas?
— Sim.
— Aqui é o professor Marcelo, da academia. Aconteceu um incidente durante a aula.
Ela parou ao lado do carro.
— Que incidente? O Nicolas está bem?
— Está. Ele não se machucou.
— Então o que aconteceu?
— O Nicolas mordeu um dos colegas durante um exercício.
Jaqueline demorou um instante para compreender.
— Mordeu?
— Sim, senhora.
— Mas como assim? Eles estavam brigando?
— Não. Estavam fazendo uma atividade em dupla. O problema é que a mordida foi bastante séria. O outro menino precisou ser levado ao pronto-socorro.
Jaqueline sentiu o estômago apertar.
— Ao pronto-socorro? Meu Deus, professor! O que aconteceu com essa criança?
— Houve um ferimento no braço. Um dos nossos professores o acompanhou até o hospital, e os pais já foram avisados.
— Mas ele está bem? Foi muito grave?
— Ainda estamos aguardando a avaliação médica. Dona Jaqueline, seria importante que a senhora viesse até aqui para conversarmos.
Ela passou a mão pela testa.
— Estou saindo do trabalho agora. Vou direto para aí. Mas, por favor, me avise se tiver notícias do menino.
— Pode deixar.
Jaqueline desligou e entrou no carro.
Por alguns segundos, permaneceu parada, tentando organizar o que acabara de ouvir.
Nicolas havia mordido outra criança. Não conseguia acreditar. Quando ele era muito pequeno, passou por uma fase de mordidas, como tantas crianças. Mas aquilo havia terminado anos antes. Aos cinco, já compreendia que não podia machucar os colegas e agora havia mordido um menino com tanta força que ele precisou ir ao hospital.
Jaqueline ligou o motor.
Enquanto dirigia, sentiu a irritação crescer junto com a preocupação. Nicolas teria que explicar o que acontecera. Não admitiria que ele resolvesse conflitos daquela maneira, especialmente durante uma atividade supervisionada.
Mas havia outra coisa que a incomodava.
Uma mordida poderia realmente provocar um ferimento tão grave?
Jaqueline entrou na academia procurando o filho.
Encontrou-o sentado em um banco próximo aos tatames, acompanhado por um dos professores. Nicolas ainda vestia o quimono branco, com a faixa solta sobre as pernas. Estava com os olhos inchados, as bochechas molhadas e o nariz vermelho de tanto chorar.
Pequenas manchas de sangue apareciam perto da gola do uniforme.
Quando viu a mãe, levantou-se tão depressa que a faixa escorregou para o chão.
— Mamãe...
Jaqueline caminhou até ele e se abaixou a tempo de recebê-lo nos braços.
— Meu Deus, Nicolas! O que aconteceu?
O menino se agarrou ao pescoço dela.
— Desculpa, mamãe.
— Calma. Deixa eu olhar para você.
Ela se afastou um pouco, examinou seu rosto e segurou seus braços.
— Você está machucado?
Nicolas balançou a cabeça.
Jaqueline olhou para as manchas no quimono.
— Isso é sangue?
O menino começou a chorar mais forte.
— É do Lúcio.
Ela sentiu um aperto no estômago.
— Nico, olha para mim. — passou o polegar pelas bochechas molhadas do filho. — Eu preciso saber o que aconteceu.
— Ele me segurou, mamãe.
— Quem?
— O Lúcio. Eu queria sair e ele não deixava.
— E você mordeu ele?
Nicolas assentiu, escondendo o rosto novamente.
Jaqueline fechou os olhos por um instante.
— Filho, pelo amor de Deus... Você sabe que não pode fazer isso.
— Eu sei — respondeu ele, entre soluços.
— Então por que fez?
Nicolas não conseguiu responder.
Foi quando o professor Marcelo se aproximou.
— Dona Jaqueline?
Ela se levantou, mantendo uma das mãos sobre o ombro do filho.
— Professor, o senhor pode me explicar direito o que aconteceu? Porque ele está dizendo que o colega estava segurando ele.
— Estava, sim. Era o exercício. Os dois estavam trabalhando uma posição de imobilização no chão, e o Lúcio conseguiu prender o Nicolas.
— Certo.
— O Nicolas tentou sair da posição. Em determinado momento, virou a cabeça e mordeu o braço do colega.
Jaqueline olhou rapidamente para o filho.
— E ninguém conseguiu separar?
Marcelo hesitou.
— Conseguimos, mas tivemos dificuldade. Quando o Lúcio começou a gritar, interrompemos a atividade imediatamente. O problema é que o Nicolas não soltava.
— Como assim não soltava?
— Ele continuou mordendo. Precisamos intervir para conseguir afastá-los.
Jaqueline franziu a testa.
— Professor, eles estavam de quimono. Como foi que machucou tanto?
— Foi justamente isso que nos assustou.
Marcelo pegou uma peça do uniforme que havia sido separada e mostrou a ela.
Era a parte superior do quimono de Lúcio.
Na manga branca, próxima ao braço, havia uma mancha escura de sangue. O tecido estava amassado e apresentava pequenos pontos danificados na região em que os dentes haviam pressionado.
Jaqueline se aproximou, incrédula.
— Isso foi uma mordida?
— Foi. Quando conseguimos separar os meninos, vimos que a pele estava perfurada em alguns pontos. Havia também uma lesão aberta. Não era apenas uma marca de dentes.
Ela levou a mão à boca.
— Meu Deus...
Por alguns segundos, não conseguiu pensar em nada para dizer.
Olhou para Nicolas, tão pequeno dentro do uniforme branco, e depois para a manga manchada de sangue.
— E o Lúcio? Ele estava machucando o Nicolas? O menino ficou desesperado?
— Não percebemos nada fora do normal antes da mordida — explicou Marcelo. — Eles estavam treinando juntos. O Nicolas tentou escapar da imobilização e tudo aconteceu muito rápido.
— Mas ele nunca fez isso aqui?
— Nunca. Pelo contrário, sempre participou muito bem das aulas.
Jaqueline passou a mão pelos cabelos.
— Eu não estou entendendo...
Nicolas começou a chorar novamente.
— Eu não queria, mamãe!
Ela se abaixou diante dele.
— Nicolas, você machucou muito o Lúcio. Muito mesmo. Não pode fazer isso com as pessoas, filho.
— Desculpa...
— Eu sei que você está pedindo desculpa, mas o Lúcio está no hospital. Você entende como isso é sério?
Ele assentiu, chorando.
— Eu tentei, mamãe.
Jaqueline franziu a testa.
— Tentou o quê?
— Soltar.
Ela ficou olhando para o filho.
— Então por que não soltou?
Nicolas esfregou os olhos.
— Eu não conseguia.
— Como assim?
— Eu queria soltar… — a voz falhou. Ele se aproximou e envolveu a cintura da mãe com os braços. — Eu não queria machucar ele.
Jaqueline acariciou seus cabelos.
Ainda estava tentando compreender aquela resposta quando uma voz masculina, alta e irritada, chamou a atenção dos presentes.
— Quem é o responsável por aqui?
Ela se virou.
Um homem acabara de entrar na academia, segurando o celular. Tinha a expressão fechada e caminhava diretamente na direção de Marcelo.
— Sou eu — respondeu o professor. — O senhor é o pai do Lúcio?
— Sou. E quero saber o que aconteceu com meu filho.
Marcelo fez um gesto para que conversassem perto da recepção, mas o homem não se moveu.
— Minha mulher está no hospital com ele. Acabou de me mandar umas fotos. Você viu o estado daquele braço?
— Senhor, nós estamos acompanhando a situação...
— Acompanhando? — interrompeu. — Eu deixei meu filho aqui para fazer jiu-jítsu. Não para sair com o braço daquele jeito!
Nicolas se escondeu atrás das pernas da mãe.
O homem ergueu o celular diante do professor.
— Olha isso! Como é que uma coisa dessas acontece numa aula supervisionada?
Marcelo procurou manter a calma.
— Foi um incidente durante um exercício em dupla. Assim que percebemos o que estava acontecendo, interrompemos a atividade e prestamos atendimento.
— E quanto tempo demoraram para separar os dois? Porque, pelo estado do braço dele, não foi pouca coisa!
— Foram segundos, senhor. Mas a mordida foi muito forte.
— Então alguém devia ter percebido antes!
Jaqueline observou a discussão com o peito apertado.
Compreendia a indignação daquele homem. Se Nicolas estivesse no hospital, ferido daquela maneira, provavelmente também estaria desesperada. Mas não suportava a ideia de que o filho estivesse ouvindo tudo aquilo sem compreender direito o que acontecera.
Aproximou-se.
— Com licença. Eu sou a mãe do Nicolas.
O homem se voltou para ela.
— A senhora é a mãe do menino que mordeu meu filho?
— Sou. Acabei de chegar e estou tentando entender o que aconteceu. Sinto muito pelo Lúcio.
Ele a observou por um instante.
— Então olha isso.
Virou a tela do celular em sua direção.
Jaqueline viu a fotografia de um braço apoiado sobre uma superfície hospitalar. A pele apresentava marcas profundas, manchas avermelhadas e uma lesão aberta, irregular, próxima ao bíceps. Havia sangue ao redor do ferimento, e a região parecia bastante machucada.
Na imagem seguinte, Lúcio aparecia deitado e chorando.
Ela sentiu o estômago se contrair.
— Meu Deus...
— Minha mulher está lá com ele, esperando terminar o atendimento. Está com dor, assustado, e ninguém consegue me explicar como isso aconteceu.
Jaqueline ergueu os olhos.
— Eu sinto muito. De verdade. Não sabia que tinha sido assim.
— Pois foi. E agora quero saber o que vocês vão fazer.
— O senhor tem razão de cobrar uma explicação. Eu também quero entender, porque o Nicolas nunca fez uma coisa dessas.
— Bom, hoje fez.
A resposta a pegou desprevenida. Jaqueline respirou fundo.
— Fez. E eu não estou dizendo que foi certo. Vou conversar seriamente com ele sobre isso. Mas meu filho não costuma machucar outras crianças.
O homem olhou para Nicolas, que continuava escondido atrás da mãe.
— Então por que mordeu desse jeito?
Jaqueline apertou os lábios.
Era exatamente o que gostaria de saber.
— Eu ainda não sei, senhor.
Marcelo interveio.
— Eles são amigos, inclusive. Sempre treinaram juntos e nunca tivemos nenhum problema entre os dois.
— Isso não muda o estado do braço do meu filho — respondeu o homem.
— Não muda — concordou Jaqueline, antes que o professor respondesse. — E eu não estou tentando diminuir o que aconteceu. Mas Nicolas tem cinco anos. Nós precisamos entender o que houve.
O homem passou a mão pelo rosto e soltou o ar com força.
— Minha preocupação agora é com o Lúcio. Eu não quero que ele volte aqui e aconteça alguma coisa parecida.
— E ele tem todo o direito de se sentir seguro nas aulas — respondeu Marcelo. — Vamos conversar com a coordenação e avaliar as providências necessárias.
Jaqueline assentiu.
— Eu também quero que isso seja tratado. Mas gostaria de conversar com vocês antes de qualquer decisão definitiva.
O pai de Lúcio olhou novamente para o celular. Sua expressão se alterou quando uma nova mensagem apareceu na tela.
Jaqueline percebeu, mas não perguntou imediatamente.
Foi Nicolas quem rompeu o silêncio.
— Mamãe, vamos embora...
Ela se virou.
O menino estava chorando outra vez, apertando a barra de sua blusa.
— Já vamos, filho.
Uma professora se aproximou e ofereceu-se para ficar com ele enquanto os adultos terminavam a conversa.
Nicolas balançou a cabeça.
— Não quero!
— Nico, a mamãe precisa conversar com o professor só mais um pouquinho.
— Eu quero você.
Jaqueline se abaixou diante dele.
— Eu estou aqui, filho. Não vou embora sem você.
Ele fungou, ainda agarrado à sua blusa.
Ela limpou seu nariz com um lenço que encontrou na bolsa e ajeitou os cabelos úmidos de suor.
— Faz uma coisa para mim? Senta ali com a professora. Você consegue me ver de lá, está vendo?
Nicolas olhou para o banco, depois para a mãe.
— Mas você não vai embora?
— Não, meu amor. Eu vou ficar aqui.
Ele hesitou antes de aceitar a mão da professora. Caminhou até o banco, olhando para trás duas vezes.
Jaqueline acompanhou o filho com os olhos.
Quando voltou a atenção aos homens, o pai de Lúcio estava falando ao telefone com a esposa. Afastou-se alguns passos e permaneceu ouvindo por um tempo.
Marcelo aproveitou para explicar que a coordenação precisaria avaliar o ocorrido, inclusive a possibilidade de afastar Nicolas temporariamente das aulas.
Jaqueline não gostou de ouvir aquilo. Sabia o quanto o filho adorava o esporte.
Mas também compreendia que alguma providência teria de ser tomada.
— Eu quero conversar com a coordenação — disse. — Não estou dizendo que não deve haver consequências. Só não quero que decidam tudo sem ouvir o que aconteceu com o Nicolas também.
— Claro. Vamos fazer isso.
O pai de Lúcio encerrou a ligação e voltou. Parecia menos exaltado, embora continuasse visivelmente preocupado.
— Minha mulher disse que o médico já examinou o braço. Ainda estão fazendo o atendimento.
Jaqueline se aproximou um pouco.
— Ele vai ficar bem?
— É o que esperamos.
Ela assentiu.
— O senhor pode me dar notícias depois? Eu gostaria de saber como ele está. E, se houver alguma coisa em que eu possa ajudar, por favor, me avise.
O homem a observou por alguns segundos.
— Vou conversar com minha mulher.
— Está bem.
Trocaram os números de telefone.
Quando finalmente foi buscar Nicolas, Jaqueline o encontrou sentado de cabeça baixa, segurando a própria faixa com as duas mãos.
— Vamos, meu amor.
Ele se levantou imediatamente e segurou sua mão.
Estavam quase na saída quando Nicolas parou.
— Moço...
O pai de Lúcio se virou.
Nicolas apertou os dedos da mãe.
— Desculpa, pai do Lúcio...
Jaqueline sentiu o coração apertar ao ouvir aquela voz tão pequena.
— Eu não queria machucar ele — continuou o menino, com os olhos novamente cheios de lágrimas.
O homem permaneceu em silêncio por um instante. Olhou para Jaqueline e depois para Nicolas.
— Espero que você não faça isso de novo, menino.
Nicolas balançou a cabeça rapidamente.
— Não vou.
Jaqueline apertou sua mão.
— Vamos, filho.
No estacionamento, Nicolas continuava chorando.
Não era mais o choro alto de antes, mas pequenos soluços que voltavam sempre que ele tentava respirar mais fundo.
Jaqueline abriu a porta traseira do carro, guardou a mochila no banco e o ajudou a entrar na cadeirinha.
— Vem cá. Deixa eu limpar esse rostinho.
Pegou um lenço e enxugou suas bochechas e seu nariz.
Nicolas obedeceu em silêncio.
Ela permaneceu abaixada ao lado da porta aberta, observando o filho.
Estava exausta. Tinha passado a noite praticamente acordada, trabalhado o dia inteiro e agora precisava lidar com uma situação que jamais imaginara enfrentar.
A fotografia do braço de Lúcio não saía de sua cabeça.
— Agora nós vamos conversar, Nicolas.
O menino baixou os olhos.
— Desculpa, mamãe.
— Eu sei que você está arrependido. Mas escuta o que vou falar.
Ele ergueu o rosto.
— Você não é mais um bebezinho. Já tem cinco anos, sabe conversar e sabe pedir ajuda. Não pode morder seus amiguinhos quando alguma coisa acontece.
— Eu sei...
— O Lúcio é seu amigo, Nicolas. Vocês brincam juntos e treinam juntos. Hoje ele precisou ir para o hospital porque você mordeu o braço dele. Você tem ideia de como isso é sério?
Os olhos do menino se encheram novamente.
— Eu não queria...
— Filho, você machucou ele. Mesmo que não quisesse machucar tanto, machucou.
Nicolas começou a chorar.
Jaqueline esperou um instante.
— Quando vocês estão treinando e alguém te segura, o que você precisa fazer se não consegue sair?
— Chamar o professor — respondeu ele, quase sussurrando.
— Isso. Você chama o professor. Pede ajuda. Não pode usar os dentes para machucar ninguém. Eu não quero que isso aconteça de novo. Está me entendendo?
O menino assentiu.
— Estou.
— Porque foi muito grave, Nicolas.
Ele cobriu o rosto com as mãos e começou a soluçar mais alto. Jaqueline sentiu vontade de abraçá-lo imediatamente. Em vez disso, esperou alguns segundos, tentando controlar a irritação que ainda sentia.
Não podia deixar de repreendê-lo apenas porque estava chorando. Nicolas precisava compreender o que havia feito. Mas também não queria assustá-lo ainda mais.
— Nico.
Ele não levantou a cabeça.
— Filho, olha para mim.
Nicolas afastou as mãos devagar.
Jaqueline passou um lenço pelo seu rosto.
— Eu não estou brigando porque não gosto de você. Estou brava porque você machucou o Lúcio. São coisas diferentes.
O menino apertou os lábios, tentando conter o choro.
— Você tá muito brava comigo?
— Estou, filho. Estou chateada e muito preocupada.
Nicolas olhou para ela por mais alguns instantes antes de se inclinar para a frente, procurando seu abraço.
Jaqueline o recebeu.
Ele se agarrou ao seu pescoço, chorando contra seu ombro.
— Eu te amo, mamãe!
Ela fechou os olhos por um instante e beijou seus cabelos.
— Eu também te amo, meu filho. — permaneceu abraçada a ele até sentir que sua respiração começava a se acalmar. — Pronto. Respira um pouquinho.
Nicolas fungou.
— Assim. Devagar.
Quando o menino se afastou, Jaqueline percebeu que ele levava uma das mãos à boca.
— O que foi?
Ele não respondeu imediatamente.
— Nico, está doendo alguma coisa?
O menino assentiu.
— Minha boca.
Ela ficou séria.
— Sua boca está doendo?
— Tá.
— Onde?
Nicolas apontou para a parte de trás da boca.
Jaqueline soltou um suspiro preocupado.
— De novo, filho?
Ele assentiu.
Ela pediu que abrisse a boca e aproximou o rosto para examinar. Olhou os dentes, as gengivas e a parte interna das bochechas, procurando algum machucado que pudesse ter sido provocado durante a mordida.
Não encontrou nada.
— Abre mais um pouquinho.
Nicolas obedeceu.
— Aqui dói?
— Não.
— E aqui?
— Não, mamãe. É dentro.
— Dentro de onde, Nicolas?
O menino franziu a testa, frustrado.
— Da boca!
Jaqueline se afastou um pouco.
— Está bem, não precisa ficar nervoso.
— Mas dói!
— Eu sei, filho. Vamos marcar outra consulta.
Nicolas fez uma expressão desanimada.
— Mas o dentista fala que não tem nada.
Jaqueline ficou olhando para ele por um instante. Não era uma reclamação nova. Já havia perdido a conta de quantas vezes Nicolas tentava explicar aquele incômodo sem conseguir. Os dentistas examinavam, faziam perguntas e pediam exames. Tudo parecia normal.
E, ainda assim, ele continuava reclamando.
— Eu sei, meu amor. Mas precisamos descobrir por que está doendo.
Nicolas abaixou os olhos.
Ela terminou de ajustar o cinto da cadeirinha e se preparou para fechar a porta, mas o menino segurou seu braço.
— Mamãe?
— Oi.
— Eu não queria machucar o Lúcio.
Jaqueline olhou para ele.
— Nós já conversamos sobre isso, filho.
— Mas não foi porque eu tava bravo.
Ela hesitou.
— Então por que você mordeu?
Nicolas olhou para as próprias mãos.
— Ele tava me segurando.
— Eu entendi essa parte.
— E eu queria sair.
— Certo. Mas você podia ter chamado o professor.
O menino apertou os lábios.
— Eu sei.
— E quando o Lúcio começou a gritar? Por que você não soltou o braço dele?
Os olhos de Nicolas voltaram a se encher de lágrimas.
— Eu tentei.
Jaqueline permaneceu em silêncio.
— Nicolas, o professor disse que teve dificuldade para separar vocês. Você está me dizendo que tentou soltar?
Ele assentiu várias vezes.
— Eu tentei, mamãe.
— Então o que aconteceu?
Nicolas passou a mão pelo rosto.
— Eu não sei...
Jaqueline se apoiou na borda da porta.
Talvez o menino tivesse entrado em pânico durante a imobilização. Talvez tivesse ficado assustado e não soubesse como reagir. Mas havia uma diferença entre uma mordida impulsiva e continuar pressionando os dentes mesmo quando outra criança começava a gritar.
— Você ficou com medo quando o Lúcio te segurou?
Nicolas pensou um pouco.
— Não sei.
— E quando ele começou a gritar?
O menino assentiu.
— Fiquei.
— Então por que não parou?
Nicolas começou a chorar novamente, desta vez com uma expressão de frustração que Jaqueline ainda não havia visto naquela conversa.
— Eu queria, mamãe!
— Queria o quê?
— Soltar!
Ela esperou.
O menino respirou fundo, tentando encontrar as palavras.
— Eu queria abrir a boca. Só que não abria.
Jaqueline franziu a testa.
— Como assim, não abria?
Nicolas apontou para os próprios lábios.
— Eu mandava abrir, mas ela não obedecia.
Por alguns segundos, Jaqueline não soube o que responder.
Olhou para o filho. O rosto ainda estava marcado pelo choro, e pequenas manchas de sangue permaneciam visíveis na gola do quimono.
— Você quer dizer que ficou travado?
Ele pareceu pensar na pergunta.
— Não sei.
— Sua boca ficou presa no braço dele?
— Ficou.
— E você não conseguia tirar?
Nicolas assentiu.
— Eu tentava, mamãe. Eu tentava abrir.
Jaqueline sentiu um desconforto difícil de explicar.
Não sabia se Nicolas estava descrevendo corretamente o que acontecera. Crianças podiam interpretar situações de maneiras muito diferentes dos adultos, especialmente depois de um susto. Talvez tivesse ficado tão desesperado que não conseguisse coordenar os movimentos.
Precisaria conversar novamente com Marcelo. E, provavelmente, com os profissionais que já acompanhavam o desenvolvimento do filho.
Mas havia alguma coisa naquela explicação que a incomodava. Nicolas não parecia estar tentando escapar da bronca. Parecia verdadeiramente confuso.
— Está bem, filho — respondeu, procurando manter a calma. — Nós vamos conversar melhor sobre isso em casa.
Ele segurou sua mão.
— Você acredita em mim?
Jaqueline olhou para ele. Não queria mentir. Também não queria que Nicolas pensasse que precisava inventar alguma explicação para agradá-la.
— Eu estou tentando entender o que aconteceu, Nico.
O menino abaixou os olhos.
Ela acariciou sua bochecha.
— Mas quero que você me conte a verdade sempre. Mesmo quando fizer alguma coisa errada. Está bem?
Nicolas assentiu.
— Eu falei a verdade.
Jaqueline permaneceu olhando para ele por alguns segundos.
— Está bem, meu amor.
Beijou sua testa e se levantou.
— Vamos para casa.
Fechou a porta traseira e caminhou até o banco do motorista.
Antes de entrar, apoiou as mãos sobre o teto do carro e respirou fundo.
Sentia vontade de chorar.
O dia havia sido longo, e o incidente na academia parecia apenas mais um problema em meio às preocupações que vinham se acumulando nos últimos meses.
Jaqueline conhecia o filho. Sabia que Nicolas era um menino carinhoso, alegre e querido pelos colegas. Mas também sabia que isso não significava que ele fosse incapaz de apresentar dificuldades de comportamento.
A possibilidade de existir algum problema que ela não estivesse percebendo a assustava.
Pensou na avaliação com o psiquiatra, nas conversas com a psicóloga, nas noites mal dormidas e nas reclamações constantes que os médicos não conseguiam explicar.
Será que havia alguma relação entre tudo aquilo?
Ou estaria procurando explicações onde não existiam?
Entrou no carro e colocou o cinto.
Pelo retrovisor, viu Nicolas sentado em silêncio, com o rosto ainda inchado de tanto chorar.
O menino estava olhando para as próprias mãos. Abriu os dedos devagar. Depois os fechou, observando o movimento com atenção.
— Nicolas?
Ele ergueu a cabeça.
— Oi, mamãe.
— Suas mãos estão doendo também?
— Não.
Jaqueline ligou o motor.
— Então por que está mexendo nelas?
Nicolas abaixou os olhos novamente.
— Só queria ver.
— Ver o quê?
O menino demorou a responder.
— Se não estão estranhas.


