Sidewalk Philosophy
Sidewalk Philosophy
Capitolo 125 min di lettura

Sempre lembre da música Forever Young do Bob Dylan

— É, baby… A vida é assim. Ou você faz, ou você cria. Vem cá, menino, pode vir. Não tenha medo. Não vou te machucar, eu nem mordo… Só bebo. E por falar nisso, boy, você tem vodca aí? Não? Tudo bem. Bom… Já ouviu falar na tal ‘’vida’’? Ela é uma droga. Mas é boa também, nela existem cigarros e bebidas, várias delas! Como esse meu whisky na mão esquerda. E a vodca em meu pensamento. Ah, agora quero cigarros, de menta e maça, você tem? Foda-se. Então, quantos anos você tem, rapaz? Bonito você, apesar de ser um tanto magro. Gosto de brancos com cabelos e olhos negros feitos os teus, minha visão a noite é melhor, percebeu? Dizem que bebida e senso não batem, que bobagem. Olha eu, bato muito bem da cabeça… Só me perco nessas palavras que saem de mim, do que eu estava falando mesmo, boy?

— Quer ajuda, senhora?

— Senhora está no céu, meu amor.

— Perdão, senhorita.

— Tanto Faz.

— Dei-me a mão que vou lhe ajudar a levantar.

— Perdão… Eu sempre quis isso de meus pais. E você? Claro que não, deve ser filhinho de papai, e bebê da mamãe, não é? Deve gostar de tua mãe e odiar teu pai. Sai para baladas apenas para se livrar dele, não é? Bem, meu caso é diferente, nenhum deles me queria ou quer. Sou indesejada, baby. Já notou meu rosto?

— Que foi, está machucado?

— Não, pequeno. Está desfigurado, eu apanhei demais dessa tal vida. Nem a tal da “morte” me quer, imagina? Sou uma bosta mesmo. Uma bosta muito bonita, como disse Axel Rose. Já transei demais, e você? Ah, eu gosto de falar da minha feiúra como se fosse boniteza.

— Eu? Sei lá, algumas vezes.

— Sei, só umas duas, com a menina que você amava, ela te deixou e você se debulhou em lágrimas, não é mesmo, boyzinho? Você tem vodca?

— Bom, nem tenho. Pois é, acho que você tem razão.

— Sobre o que? Sobre como aquele cão de duas cabeças te ataca, ou sobre a noite que caí e te faz ficar deprimido como pseudo emos? Bom, eu sei. Tenho razão sobre muitas coisas. Até como seria bom um cigarrinho neste instante, não é, rapaz? Você fuma?

— Não, senhorita.

— Engraçado você.

— Como assim?

— Tu cheiras como flor-cadáver, mas está mais para dama – da — noite.

— Isto é bom, é… Como é teu nome mesmo?

— Agatha, minha criança. A-ga-thá, nome de mulher traída, cansada, bêbada e drogada, não? Gurizinho, achas que este nome combina comigo? Porque acho que meus pais prevêem o futuro, não? O que acha, boy?

— É um bonito nome.

— Que bom, fulano.

— Quer saber meu nome?

— Nem pensar, nomes são uma perda de tempo. Sabe… Se eu tivesse uma filha o nome da criatura seria Thalyssa. Adolescente safada que transa com os garotinhos da escola por diversão, e para fazerem descobrir o poder do pênis. Pênis… Gosto deles, você tem um, garoto? Vaginas são uma delicia… Já provou?

— Sim, acho que eu tenho um pênis sim, sou um garoto, senhora.

— Senhora está no céu, bebê. Hm… E ele é grande e grosso? Posso ver?

— Tem dezoito centímetros, senhorita.

— Que lindo, já bateu uma?

— Hm…

— Nem responda, sei que tens medo que teus pais te peguem fazendo isso à noite, não é, piá?

— Bom…

— Vem cá, quantos anos acha que a titia tem, amorzinho?

— Vinte o quatro?

— Gays… Suponho que meu pai seja, sempre recusava uma bela foda com minha mãe. Em suas costas tinha marcas grandes de mãos masculinas.

— Quantos anos têm?

— Sessenta e nove, piá!

— Mentira…

— Trinta e cinco.

— Dezoito.

— Que idade bela, dezoito anos é tudo!

— É sim…

— Para você não, não é, gatinho? “Quando você crescer vai assumir o cargo do papai” Bem assim, não?

— Sim.

— Ué, trabalho é bom.

— Você acha?

— Você tem vodca? Eu quero fumar.

— Não, não.

— Que pena.

— Por que tanto pede isto?

— Para esquecer de mim, algum problema?

— Nenhum, titia.

­— Ok, moleque.

— E consegue se esquecer assim?

— Sim… Consigo me esquecer até pensando em mim.

— Como assim?

— Você é muito novo para entender. Sabe… Sempre quis ser muito nova para tudo. Só para correr o risco de ser mais velha, mas acabou que os anos passaram e eu sou muito velha para isso.

— Para isso o quê?

— Para viver.

— Que nada, já pensou em morrer, mulher?

­— Sou muito nova para isso.

— Que bom. Deus precisa de você, e nós precisamos de Deus.

— Se o mundo precisa de Deus, boy, eu preciso do Diabo.

— Por que o diz?

— Porque veio à cabeça, menino.

— Não pense mais assim.

— Deus é que manda na minha mente.

— E por que citou o diabo?

— Porque é ele meu guia.

— Como assim?

— Você é muito novo… E eu, muito velha.

­— Que pena.

— Que porra.

— Você tem filhos, dona?

— Um tanto.

— Um tanto?

— Sim. Dois dogs e uma gatinha. Adoro gatos, é para gente sofisticada, “acho — chique”. E você?

— Sem filhos.

— Você não é pai, porque ainda é filho, garoto

— É…

— Meu pai não presta. Faz desgosto depois se arrepende. Quero ser mãe solteira, assim minha filha não terá para onde fugir. Tem vodca? Tanto faz. Como eu dizia, meu caro, minha filha vai ouvir Tom Jobim, mas não vai ser santa nem estudiosa, só louca…

— Feito a mãe.

— Como é? Não, minha criança, não sou louca. Só desgostosa da vida. Só vivo a morte. Sabe… Já que está no inferno, abrace o capeta!

— Você me faz rir.

— Bêbadas são engraçadas, tem cigarros? Ok. Quer se casar com minha filha?

— Mas você não tem filhos.

— Quando Thalyssa crescer, amore. Ah, mas nem dá. Ela iria te iludir, e você cair. Bobão. Acho até que ela seria mais velha que você, com cara de dezesseis.

— Quer esta filha?

— Sim, quero meu desgosto.

— Desgosto?

— Claro, garoto, filhos não são sonhos, são desgosto, todo mundo se arrepende em algum dia, filhos só reclamam, berram e querem tudo na hora. Enchem o saco, e se os mandarmos para a puta que pariu, choram. Hilário.

— Você acha?

— Tenho certeza, baby.

— Quero ter filhos.

— Ainda é moleque, sua mulher vai ser diferente, vai mudar depois que se casarem, vai ficar feia e gorda, pode ver… Disso sei, minha mãe é assim. Ah, dona Silva. Eu sou o desgosto e você a velha feia e gorda da bosta do papai. Pois é.

— Você ainda não falou de amor.

— Bom… Para dizer que não falei das flores, amor é uma coisa chata, um fardo, uma melodia sertaneja irritante! Não vale nada, é um tabu idiota empunhando pela televisão e livros. O amor é lindo.

— Contraditório.

— Gosta de livros? São cheirosos e deliciosos, gosto de ler cada frase e imaginar como o autor fez tudo aquilo, perfeito! Tem autor preferido? Ah…

— Tenho, Jonathan Swift!

— As Viagens de Gulliver? Adoro! Bem inteligente e diferente, do jeitinho da bebida! Tem algum cigarro? Não? Aceito vodca.

— E você, algum autor preferido?

— Muitos, boy, muitos. Mas adoro mesmo é Caio Fernando Abreu. O gay mais foda que existiu! Era o par perfeito com Cazuza! Queria que ambos estivessem vivos, eu iria contar minha louca história de amor, e drástica história de vida!

— Tens uma louca história de amor?

— Não, rapaz. Confundi novamente. Louca história de vida, e drástica história de amor.

— Que houve com teu amor?

— Ele nunca existiu, boy. Nunca.

— Entendo, ou não. Sei lá.

— Não, fofo, ninguém entende. Precisa estar na pele de quem vê e sente para saber ou entender. Pois cada um leva do teu jeito o que passou.

— É, senhorita, tem a maior razão.

— Sou dona da razão, sou uma poetisa insana, uma bêbada drogada, jogada nos fios da morde, puxada pela vida e sangrando amor.

— Nossa! Que intenso.

— Vai tomar no cu, você está é com medo.

— Um tanto.

— Vai para casa, boyzinho. Mamis está preocupadinha, já brigou com teu pai por tua causa, e já transou com outro hoje.

— Não, quero ficar, boa moça.

— Má, muito má.

— Não parece…

— Ei, me beija, boy?

— Sim…

— Beija bem, boy, eu gosto.

— Obrigado.

— Vou deitar aqui em seu ombro e reclamar da solidão sem nem perceber que está aqui, tirando-me dela, ok?

— Claro, não se preocupe.

— Solidão… Passei minha vida inteira com um nó no coração, caí em mil buracos e estou aqui, disposta a viver morrendo, e você? Já morreu por alguém? Já viveu pela mesma pessoa, querido? Então sabe como é. Primeiro você se sente cuidado e desejado, depois e pisado e deixado na terra até apodrecer. Solidão. Enfrenta chuva e sol, até ir embora.

— Sim, sei.

— Cala a boca, neném. A titia está falando. Beijo teu pescoço, ok? Que cheiro bom, flor-cadáver… Mergulhou nelas, é? Engraçado você, pequeno. Que horas são?

— Duas, titia.

— Obrigada, garoto. Duas… Sabia que temos duas almas? Estranho isso, não? Mas só conhecemos uma, porque humanos são burros. Idiotas, fedidos e fodidos.

— Eu sei senhorita.

— Sabe demais. Mas saiba que eu gostei de você, gostosinho, sabidinho, lindinho e arrumadinho. Assim como quem é agradável de ver. Cabelo liso, boy, olhos firmes. Quer cigarros também?

— Obrigada, Agatha… A-ga-thá.

— Isso, meu pecado. Tem vodca?

— Não.

— Meigo. Sorrir é bom… Eu não o faço há duas semanas. Há duas semanas estou na rua, nos bares, nos cantos, rapaz. Vivo como dependente. Nem sou. Há duas semanas briguei com meu dad, ele acha que tem sempre razão. Ele é isso, ele é aquilo. Minha mãe não presta, mas ele a ama. Coisas assim que ele diz. Insano, não? Insanidade… Gosto disso. Admiro adolescentes loucos por vida, com sede de aventura. Eles são espertos e… Ricos. Dinheiro é fundamental. Mas tem gente que é tão pobre que só tem dinheiro, boy.

— Eu concordo.

— Vem cá, você é de poucas palavras, eu de muitas. Somos diferentes demais, boy. Então, cara, cadê seus amigos, hein? Where is the playboys?

— Não sei.

— Eles estão gozando da vida por aí, roubando bebidas e partindo o heart das meninas.

— Não são disso.

— Nops, você não é disso. Eles vão abusar de ti, seu pai te obrigou a entrar na linha deles, não é? Tudo filhos de sócios. E tua mãe constrangida te acolhe à noite, balançando e passando a mão vagarosamente por teu cabelo. É, meu querido, mãe é mãe.

— Pois é.

— Aí, boy. Pretende ter alguém essa noite?

— Você.

— Que honra.

— Sei.

— Beijo bom, menino. Devia usar mais nas pessoas, elas iram gostar.

— Tentarei.

— Ei, a morte não é tão feia, sabia?

— É?

— Sim, ouve o que te falo. Sempre quis saber como é, já tentei inúmeras vezes, mas só por curiosidade, acho que é por isso que nem deu certo. Ah, mas que coisa, não é? Esses ônibus passam e abafam o que nós falamos, que coisa!

— Sim, sim.

— Ah, boy, queria tanto aprender a amar e ser amada, deve ser maravilhoso.

— E é.

— Eu sei, eu sei. Meu Deus, como a vida é má. Ela te joga no chão e te pisa só para te mostrar como é forte, mas forte mesmo é uma vodca, tem alguma aí?

— Não, senhorita.

— E cigarros de menta ou maça?

— Nem, titia.

— Educado… Sabe, educação nunca foi meu forte, por que você acha que estou aqui? Estou morrendo no frio, e bebendo onde quer que vá, tenho muito dinheiro para isso, menino. Eu só não sei se algum dia vou parar, é só a vida parar de me pressionar.

— É um tanto ruim, pois é.

— Como sabe? Você é jovem ainda, Não sabe como é ruim o mundo, como são péssimas as pessoas. Acordar de manhã é o que mais dói.

— Então, senhorita, por que não acorda à tarde?

— Porque a vida me espera menino.

— Mas você não gosta dela!

— E nem ela de mim, por isso estou a seguindo, para ver se um dia me apaixono por aquele brilho que machuca os olhos, logo da janela.

— Não entendo.

— Não tente.

— Como quiser.

— Como eu quis.

— Ai, rapaz, que inferno de céu é esse? Escuro como teus olhos, claro como teu coração. Frio como tua pele e quente como teus pensamentos.

— Está sendo contraditória novamente…

— Eu sou um paradoxo, boy.

— Você é linda.

— Olha, boy, beleza é relativa, assim como o amor, e pode ser fácil enganada, posso dizer que o céu está verde, você vai acreditar, posso falar que teu ombro é torto, você vai acreditar, posso falar qualquer coisa que você vai acreditar… Menos se eu disser que te amo, isso você vai descartar. Mesmo se fosse a mais pura e límpida verdade, boy.

— Eu acreditaria.

— Não seja bobo, moleque. É por isso que te enganam. Ainda cria e recria expectativas, segue a vida, deixa isso para lá, o amor não presta para nada, só para respirar.

— Eu tento.

— Que tenta nada, você gosta é de viver sofrendo, gosta de fingir que está fingindo que dói. Gosta de se ver remoendo os pensamentos.

­— Você tem razão.

— Eu sou a razão, baby.

— Sim, sim.

— Tem vodca? Cigarros? Eu quero alguns estou precisando, boy, eu não necessito disso. Quero isso. Posso definitivamente viver sem, mas não ‘tô afim.

— Eu sei, eu sei.

— Você sabe demais.

— Que nada.

— Que tudo.

— Bem, boy, vou sentir tua falta. Sabe, como a falta que sinto do meu não-amor, lembro, falo, discuto, mas sei que nunca voltará.

— Teve algum amor, senhorita?

— E quem nunca teve?

— Pois é.

— Quem nunca sofreu?

— Pois é.

— Quem nunca nunca?

— Que?

— Ai, baby. O coração nos mata às vezes.

— Disso sei.

— Mas eu gosto de me apaixonar, odeio amar.

— Amar é melhor.

— Amar é clichê, tão idiota e bobo. Gosto de ser possessiva, brava, louca por ele. Gosto de quase destruir coisas por tal.

— Isso não é ruim?

— Foda-se. Eu gosto.

— Desculpa.

— Não gosto de desculpas, perdoe-me.

— Engraçada você, hein?

— Sei, sei.

— Titia, e o que quer fazer agora?

— Morrer.

— Que tal só dormir?

— Whatever, serve também.

— Deite-se aqui, em meu peito.

— Garoto, gostava quando meu pai agia assim, mas faz um tempão, eu era garota ainda. Eu, sempre besta, achava que meu velho me amava.

— Ele te ama, só não sabe explicar.

— Isso na puta que pariu, não é? Meu pau que ele me ama, só sabe xingar e bater, só sabe ignorar e esquecer. Nessa porra de família só minhas bebidas servem. And I know you're oh so sorry dad, I truly believe that you're a better man…

— Gosto desta canção.

— Gosto de cantar.

— Cante para mim?

— Nem fodendo, boy.

— Teu jeito sujo de falar me encanta.

— Obrigada, rapaz.

— Não era para falar um “foda-se” agora?

— Sou educada, caralho.

— Já percebi.

— Que porra de dor de cabeça.

— Já disse para deitar.

— Não ‘tô afim, neném.

— Ok.

­ — Yeah, yeah.

— Você é legal, sincera.

— Sou chata, deselegante.

— Bem…

— Gosta de sorrir?

— Sim.

— E é bom?

— Sim, sim.

— E rir?

— Ótimo!

— Não sei mais como é, garoto.

— Não?

— Sim, já destruíram tanto meu ser, já me usaram, me fizeram, me moldaram. Não sei mais o que é ser feliz. É bom, boy? Deve ser. Eu já fui, quando eu acreditava na farsa, vivia nas mentiras, eu gostava, amava. É tão ruim cair na real, não acha, meu pequeno? Ah, você ainda não sabe como é, é jovem demais. E eu velha demais.

— O que você tem?

— Nostalgia.

— Por que não gosta de amar?

— Porque quando se ama, boy, qualquer planta é árvore…

— Disso sei.

— Amor é egoísta também, quanto mais se dá menos se tem, quanto menos se dá, nada tem. Quem vai entender?

— Os amantes.

— Que se foda os amantes. Com vibrador e tudo. Meu pai tem amantes, sabia? E pior que a burra da minha mãe sabe e não faz nada, que idiota, herdei isso dela. Sempre me traiam… E o que eu fazia? Entrava na brincadeira e traia adoidado com homens e mulheres, até travesti, se deixasse. Sou uma mulher de igualdade, rapaz. Sou uma pessoa do mundo, e o mundo é meu também.

— Você se dá assim tão fácil?

— Não, menino, eu me divirto assim tão fácil, eu me faço assim tão fácil, eu me sinto assim tão fácil, eu me gosto assim tão fácil.

— Você é perfeita.

— E você ainda acreditou no que eu disse?

— Estava mentindo?

— Sou tão falsa quanto Judas, baby. Ele traiu Jesus e eu me trai.

— Não sei se eu entendo…

— Você conhece o Johnny, garoto?

— Quem é Johnny?

— João Roberto era o maioral, um puta cara legal. Tinha até um Opala metálico azul, pegava geral com seu conhecimento sobe Janis, Led Zeppelin, Beatles, e Rolling Stones.

— Era seu amigo?

— Meu filho, sei lá quem era Johnny.

— Você tem razão.

— Sobre o que?

— Bêbadas são engraçadas.

— Como é que vocês dizem agora…? Ah, “isso é fato”. Exatamente. Mas vocês vêem graça no sofrimento, na imundice da incerteza. Se alcoólatra não é legal, não é bom, não te livra de porcaria alguma, ser alcoólatra é uma vergonha nacional, e todos sabem disso, mas continuam sendo como são, pois não querem se habituar a novos prazeres e lazeres, não querem. O que não sabem, mas sabem do mesmo modo, é que será muito melhor, mesmo não querendo. Entende?

— Não.

— Nem eu, tem vodca? Cigarros? Gosto do de menta.

­ — Não tenho.

— ”Isso é fato”.

— Exato.

— Sabe, boy. Coração apertado nunca é bom. Eu canso às vezes de lutar por tudo que foi perdido. Eu canso.

— E por que ainda luta?

— Por que não lutar? Até um olhar passageiro é motivo de expectativas, até isso. Até uma briga te faz amar alguém ainda mais. Lutar pelo que não se tem te faz pensar que tem, e isso dói e alegra ao mesmo tempo. Sabe aquele cheiro que faz casa nos seus braços? Que te lembra algo ou alguém?

­— Sei.

— Sabe o que é isso?

— Não, o que é titia?

— Amor platônico. Conhece?

— Sim.

— Sabia que até quem pensa que ama de verdade é enganado?

— Sim.

— Aí, amore. A vida prega peças, peças de mau gosto, e isso me dá ódio, mas ódio é bem, pois é, te faz pensar, te ensina a amar.

— Não gosto de odiar.

— Faz bem.

— Mentira. Mas isso é bem engraçado, titia.

— O que, sobrinho?

— Odiar ter ódio.

— Você nem odeia, boy, é mentira. Apesar de engraçado. Mentiras são engraçadas quando parecem serem contadas em verdades. Eu gosto de mentir, mas odeio ouvir mentiras, é estranho e engraçado, mas tem mentiras que eu gosto, boy.

— Que mentiras?

— Aquela de sempre: “Eu te amo”. Isso é mentira boa, qualquer mulher caí! Se o homem abaixa o olhar e junta as mãos e finge chorar, pronto, fez-se a mágica do se — apaixonar.

— Só isso?

— Só isso?! Uma mulher apaixonada é uma mulher louca, se é machucada mata, se é ela que machuca, morre. É algo complexo, cheio de inseguranças e buracos. Um dia alguém se apaixonará por ti, menino, e pode chegar a te arrancar a pele.

— Isso é amor?

— Não, isso é paixão. A que devora, mata e corrói, a que possessa, a que prende a alma, a que desgasta o coração, a que quer, a que deseja, a que necessita… Paixão, oh, paixão, uma grande arma em minhas mãos. Tens medo de se apaixonar?

— Agora tenho.

— Tem vodca?

— Nem.

— Que se lasque o mundo! Quero cigarros!

— Cigarros fazem mal, senhorita.

— Eu faço mal, senhorito.

— Não acho.

— Não? Já eu… Tenho certeza. Tenho certeza de muitas coisas, que sou feia, que sou velha, talvez gorda, empacada e depravada… Teria coragem de me dizer isto? Não… É óbvio, menino. Sou um paradoxo com uma só escolha. Sem “mas”, nossa, isso sim é uma antítese, não? Sou o máximo, o máximo de uma porcaria.

— Nem é.

— Mentir é feio, mané.

— Boba.

— Esperto… Tem visto como esta história anda devagar? Que bosta, não? Caio Fernando Abreu sempre fazia isto com entusiasmo, já eu? Eu que morra! Eu sempre gritei isto em silêncio, e ninguém nunca ouviu.

— Eu ouço.

— Eu não gritei, boy. Sabe, eu sempre gostei de fazer textos para comemorações, para decepções e dramatizações. Um dia eu esperei um texto dele dizendo o quão me ama e não queria que eu partisse, mas foi o contrário.

— E quem é ele?

— Eu não sei…

— Como?

— Ele mudou, garoto, não sei quem ele foi. Muito menos quem é, porque não o falo mais. Mas sei que não é o mesmo, sei que não sei quem é, até mesmo não sei quem sou, saí tanto deste corpo e voltei que minha alma tem buracos e meu coração não bombeia sangue… Bombeia solidão. Mas como Lennon disse: “As pessoas não mudam, elas querem mudar.”

— Tem razão.

­— Lennon tem, e… Vodca, você tem? E cigarros?

— Nada.

— Tudo bem, tudo bem, tudo bem, nada bem.

— Está tudo bem.

— Gosta de “para sempre”, rapaz?

— Sim…

— Sabe, aquele negócio de infinito não funciona para mim, até hoje não encontrei nada que me dissesse o contrário, a não ser a vodca e o cigarros, que você não tem. Mas o infinito é bobagem, história desenhada e inventada, ele é só mais um oito, e oito não vale nada. Acaba. Oito dias, noites. Oito semanas, meses. Oito anos, segundos. Viu?

— Por que acha isso?

— Se o que representa o infinito não tem começo, meio nem fim, o infinito existe?

— Claro que existe.

— Tem razão. Eu existo, e nem tenho começo, meio, e quem dirá fim. Só tenho a mim, a mais pura mentira. Nem a mim eu tenho, pois é. Perdi tudo a que me diz respeito… Respeito? Que se foda, tem cigarros?

— Não, querida.

— Eu sinto falta…

— Do que?

— De mim.

— Mas você está aí.

— Infelizmente. Eu poderia estar em outro lugar, em um lugar mais quente, mais confortável, mas lindo… Em um abraço.

— Eu lhe dou um, titia.

— Obrigada, sobrinho. Teu abraço é macio, é quente, é meu, por enquanto. Só não solta.

— Nunca.

— Meigo. Eu queria algo…

— O que quer?

— Eu queria que ele caísse de amor por mim.

— Ele?

— Sim, eles. Todos que eu já caí de paixão, todos que matei o coração, todos que pisei e desprezei, queria todos para mim agora, ou depois. Mas sei que isso nunca acontecerá. Nada de bom nunca acontecerá, sempre acaba se tornando uma tragédia no final… Mas eu sinto falta, sempre senti. Só não sei se sempre sentirei.

— Já não posso prever.

— Já posso morrer, não é? Cadê minha vodca?

— Não tem.

— Não posso morrer sem ela! Não posso nem viver sem ela!

— Pode morrer comigo se quiser.

— Bom moço. Eu aceito. Você a substitui muito bem.

— Obrigado.

— Disponha menino. Ei, eu estou tão só, ando falando com os telhados, eles me seguram, entende, até me aquecem. Gosto deles, me deixam ver o sol, e me trancam à noite, para eu não enlouquecer.

— Mas onde está morando?

— Em minha mente.

— Deve ser um inferno.

— Que nada, menino. O inferno é quentinho.

— Por que diz isso?

— Oras, porque eu sei. Já estive lá.

— Como?

— Tive overdose.

— Acidental?

— Não, overdose de sentimentos mesmo.

— Como?

— Ah, quero vodca, tem? Não, não é? Já sabia. Bom, boy, percebeu que ainda não me soltou do abraço? Que meigo. É tão… Confortante. Saber que está aqui. Sinto-me segura, melhor…

— Que ótimo!

— Que tal um beijo, boy?

— Agora.

— Meigo. Meigo.

— Boba.

— Gosto desse apelido, é ridiculamente fofo, eu gosto. Para quem sonha em ser chamada de “princesinha parabólica” é um bom começo… Gosto de Engenheiros do Hawaii. Passei tanto tempo me chateando, me magoando e te ligando que nem sei como era chamada.

— Ligando-me?

— Não, ligando para ele. Mas quem é ele afinal? Um dos trinta vadios que acabaram com meu coração e vida. Uns idiotas com que corro atrás, mesmo nem sabendo quem os são. Já faz tanto tempo…

— E por que ainda corre atrás?

— Porque meu coração quer, e como quer. Ouvimos o coração, não o cérebro, aprenda garoto.

— Ah, aprendi.

— Também não sou besta de ser última opção, mas é que…

— Mas é que…?

— Que é ele, boy! Irresistível.

— Não sei se entendo.

— Não entende, não. Agora, mudando de pau para cacete, esses novos boyzinhos adoram tirar com minha cara, não é? Todos eles são fãs de The Killers, gostam de Beatles e tomam café o dia inteiro, usam aqueles chapeis que parecem uma nave espacial e todos são românticos, ah.., Vai dá para mãe. Isso é tudo viado. Mas não de serem gays, gosto de gays, de serem inúteis mesmo. Agora os verdadeiros, sim, os que são assim de nascença, sentem ódio de si por serem deste modo, e acabam com não sendo mais o que são, pois não querem ser o que todos estão sendo, entende?

— Tua implicação é confusa, intensa, mas gosto dela… Gosto de você.

— Obrigada, boy. Então… Não seja como eles, ao menos que você os seja. Ok?

— Ok… Acho.

— Sim, sim. Ei, estou sentindo falta do meu vô.

— Onde ele está?

— No inferno. E aqui… Só o cheiro de teu cigarro permaneceu, o resto… Infelizmente foi embora, para um lugar pior, incrivelmente.

— Aí já não sei…

— Ele sempre me perguntava o que faria para não ser como os outros, eu apenas respondia: Faça. Ele não entendia, mas o fato é que fazer algo, ninguém faz, só sonham, mas não correm atrás, aí ficam dizendo que Deus reserva isso a elas e bla bla bla. E as pessoas que fazem realmente, são inexistentes, então se você quiser ser diferente, faça.

— E como ele se foi?

— Ele foi levado, o Diabo o levou, tirou meu menino velho de tua cama. Sabe? Não tem melhor lugar do que a cama da gente, e melhor amigo é o travesseiro. Sem sombra de duvidas. Mas eu não chorei, e sabe por quê? Porque eu me fui junto dele, e eu me espero até hoje… Ele voltou como uma fotografia velha para mim, mas eu? Eu? Eu não volto nem com vodca, boy. E isso me fere.

— Mas você está aqui!

— Mas a vodca não, meu garoto. Pense nisto.

— Entendo…

— No que está pensando agora?

— Em teu jeito bobo de pensar, de falar… De ser. Esse jeito errado e tosco que me fascina hoje. Eu gostei dele, mas eu amei você. Isso é no que estou pensando.

— E é bom pensar em mim?

— Você é minha princesinha parabólica.

— E você é meu Johnny.

— Sou então um cara legal que tem um Opala metálico preto?

— Azul, boy!

— Isso!

— Agora o engraçado é você, o sóbrio.

— Obrigado, boba.

— Sóbrio, está tarde, seja esperto e vá embora.

— Certeza de que quer isto?

— Certeza de que você precisa…

— Ok, são quatro e cinquenta, já vou indo...

— Ei, espera!

— Que foi?!

­— Tem vodca?

— Não…

— E cigarros…?

— Nops. Ei...

— Oi, moleque.

— Obrigado por me ensinar a viver hoje, e ensinar a ser feliz também.

— Disponha menino.

— Eu te amo.

— Mentira que eu amo tanto ouvir!

— Sei, titia.

— Ei!

— Que foi?

— Sempre se lembre da música Forever Young do Bob Dylan, ok?

— Vou ouvi-la hoje, prometo.

— By the way, boy… Qual é teu nome?

— É Matheus, girl.

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