Trafalgar Law gostava de acreditar que tinha uma vida razoavelmente organizada. Não era uma afirmação que seus colegas de hospital necessariamente apoiariam, considerando a quantidade de café que consumia e a frequência com que esquecia de almoçar, mas, dentro das circunstâncias, julgava estar indo muito bem.
Aos vinte e sete anos, dividia seu tempo entre a residência em cirurgia, livros que se acumulavam sobre a mesa da sala e um apartamento no terceiro andar de um prédio relativamente tranquilo e antigo, com um daqueles elevadores que vira e mexe paravam de funcionar nos momentos mais inoportunos. Sua rotina era cansativa, previsível e, sobretudo, silenciosa. O prédio era composto em sua maioria por idosos e Law havia escolhido aquele lugar justamente porque não conhecia ninguém no edifício e não pretendia mudar isso.
Então Monkey D. Luffy se mudou para o apartamento 304.
O primeiro encontro aconteceu numa terça-feira, pouco depois das onze da noite. Law havia acabado de sair de um plantão de quatorze horas e só queria tomar banho quando encontrou um rapaz sentado no corredor, cercado por caixas de papelão que bloqueavam a entrada do apartamento de Law . Ele usava uma camiseta vermelha, bermuda jeans e um chapéu de palha pendurado nas costas, como se estivesse prestes a sair de férias em vez de concluir uma mudança.
— Você mora aqui? — perguntou o desconhecido assim que Law se aproximou.
Law olhou para a porta do 303, diante da qual estava parado.
— Infelizmente.
O rapaz riu, aparentemente imune ao sarcasmo.
— Sou o Luffy. Me mudei hoje. Você sabe onde fica o depósito de lixo?
Law indicou o final do corredor e explicou como chegar ao térreo. Luffy agradeceu e recolheu duas caixas vazias, liberando a passagem até a porta de Law. Antes que o vizinho conseguisse entrar em casa, porém, perguntou seu nome.
— Trafalgar Law.
Luffy repetiu as palavras, testando a pronúncia.
— Trafalgar... Torao!
— Não.
— Não o quê?
— Não me chame assim.
— Por quê? Combina com você.
Law não tinha energia para discutir a lógica daquela afirmação. Tudo em que conseguia pensar era no banho quente que o esperava. Entrou no apartamento e fechou a porta, convencido de que o assunto havia terminado.
Na manhã seguinte, encontrou um bilhete preso à maçaneta: Valeu pela ajuda, Torao! Embaixo havia o desenho de um chapéu de palha tão ruim que poderia representar qualquer coisa.
Law jogou o bilhete fora.
Três dias depois, uma encomenda de Luffy foi entregue por engano no apartamento 303. Law poderia ter deixado a caixa na portaria, mas resolveu levá-la pessoalmente ao vizinho. Luffy abriu a porta usando um avental com a frase Beije o cozinheiro e uma expressão de entusiasmo que pareceu desproporcional à chegada de uma air fryer.
— TORAO! Você encontrou!
— A portaria encontrou. Eu só trouxe.
— Entra! Fiz almoço.
Law olhou por cima do ombro dele. Havia fumaça saindo de uma panela no fogão, e a bancada estava coberta por ingredientes que pareciam ter sido utilizados numa ordem inteiramente aleatória. A necessidade de uma air fryer passara a fazer mais sentido.
— Prefiro continuar vivo.
Luffy gargalhou.
— Tá com medo da minha comida?
— Tenho respeito pelo meu sistema digestivo.
— Então você sabe cozinhar?
Law deveria ter mentido.
Em vez disso, vinte minutos depois estava explicando por que não se colocava óleo numa panela já superaquecida enquanto Luffy o observava com uma atenção surpreendente.
— Você fala igual ao Sanji — comentou o rapaz.
— Quem é Sanji?
— Meu amigo. Trabalho no restaurante dele. Ele também fica bravo quando eu tento cozinhar.
— Imagino que tenha motivos.
Law não conseguia imaginar aquele homem trabalhando em um restaurante em qualquer função que fosse.
Luffy riu e se sentou sobre um banco da cozinha, apoiando os cotovelos no balcão.
— Você sempre chega tarde?
— Quase sempre.
— Deve ser cansativo.
Law ergueu os olhos. Não havia pena na voz do vizinho, apenas uma observação sincera.
— É o trabalho.
— Mesmo assim, você precisa comer.
Law considerou responder que já sabia disso, mas preferiu continuar mexendo o molho. Era uma conversa estranha para ter com alguém que conhecia havia menos de uma semana, especialmente porque Luffy parecia perfeitamente confortável em sua cozinha, como se aquela situação fosse uma continuação natural do encontro no corredor.
Quando terminou de preparar o macarrão, Luffy experimentou uma garfada e abriu um sorriso tão satisfeito que Law se pegou observando sua reação.
— Ficou muito bom!
— É macarrão com molho de tomate.
— E daí? Tá bom.
Law soltou uma risada curta.
Naquela noite, Luffy apareceu à sua porta com uma sobremesa enviada por Sanji. Na semana seguinte, voltou para pegar o tupperware do amigo de volta. Depois surgiu com uma pergunta sobre o funcionamento da máquina de lavar, outra sobre uma correspondência extraviada e, finalmente, com a desculpa de que a televisão de Law era melhor.
Ao fim de três meses, Luffy sabia onde ficavam os copos no apartamento 303, tinha aprendido a reconhecer os dias em que Law chegava especialmente cansado e conseguira a proeza de fazer o médico aceitar companhia sem precisar inventar uma justificativa.
Law, por sua vez, sabia que Luffy trabalhava no restaurante de Sanji, tinha dois irmãos mais velhos chamados Ace e Sabo, uma amiga chamada Nami que administrava suas finanças com uma severidade quase militar e um apetite que desafiava qualquer explicação científica. Sabia também que Luffy gostava de filmes de aventura, odiava ficar sozinho por muito tempo e demonstrava afeto de maneira tão espontânea que às vezes parecia não perceber o efeito que causava.
O último ponto, descobriria mais tarde, era uma avaliação equivocada.
Na sexta-feira em que tudo começou a sair de controle, Law chegou do hospital pouco depois das dez. Encontrou Luffy sentado no corredor, com uma frigideira escurecida sobre os joelhos.
— Antes de você falar alguma coisa, eu segui a receita.
Law examinou o objeto.
— A receita era para fabricar carvão?
— Eu acho que coloquei óleo demais.
— Quanto?
— Não sei. Bastante.
Law suspirou, mas abriu a porta.
— Entra. E me diz que desligou o fogão.
— Desliguei. Abri a janela também.
— Impressionante. Instinto de sobrevivência.
Luffy o acompanhou até a cozinha, rindo. Enquanto Law preparava algo simples para os dois, contou uma discussão que tivera com Sanji por causa de algumas porções de carne que haviam desaparecido do restaurante. A versão de Luffy envolvia um mal-entendido; a de Sanji, segundo o próprio rapaz, era muito menos generosa.
— Ele perguntou de você hoje — Luffy comentou enquanto Law cortava tomates.
— Por quê?
— Porque falei que vinha jantar aqui.
— Você sabia que viria?
— Esperava.
Law lançou-lhe um olhar. Luffy respondeu com um sorriso tranquilo, como se não houvesse nada de estranho em admitir que havia contado com a hospitalidade do vizinho antes mesmo de consultá-lo.
— O Sanji perguntou se você era meu namorado — acrescentou.
Law parou por um instante. Aquele era um ambiente desconhecido até então. Nenhum dos dois, durante esses três meses de convivência, havia mencionado um namorado ou uma namorada, muito menos falado abertamente sobre a própria sexualidade. Law não sabia sobre as preferências de Luffy, e a recíproca era verdadeira.
— E você respondeu o quê?
— Que não. Depois falei que você é bonito.
Law voltou a cortar os tomates.
Luffy aparentava a tranquilidade de alguém que não tinha dito nada demais.
Como se tivesse acabado de comentar que o tempo estava bom para um passeio no parque.
— Você costuma dizer isso para as pessoas?
Law não conseguiu se impedir de perguntar.
— Quando acho que são bonitas.
— Uma política bastante abrangente.
Luffy inclinou a cabeça, divertido.
— Você tá tentando descobrir se eu te acho especial?
Law ergueu os olhos.
— Estou tentando terminar o jantar.
— Claro, Torao.
A resposta veio acompanhada de um sorriso deliberadamente provocador. Law começou a suspeitar que o rapaz se divertia mais com aquelas conversas do que deixava transparecer. Ainda assim terminou o que estava fazendo em vez de expulsar o rapaz de sua casa às vassouradas.
No processo, Law começou a se questionar se aquele era um assunto que eles deveriam abordar em algum momento.
Afinal, Luffy só estava sendo ridiculamente sincero como sempre ou aquilo havia sido um flerte?
Mais tarde, terminaram no sofá assistindo a uma comédia romântica que Luffy escolhera porque a sinopse mencionava um restaurante. Na televisão, dois personagens fingiam namorar para comparecer a uma reunião de família.
— Isso nunca funciona — Law comentou.
— Por quê?
— Porque alguém sempre acaba se apaixonando.
Luffy considerou a observação.
— E isso é ruim?
— Se a outra pessoa não sentir a mesma coisa, pode ser.
— Pode — Luffy concordou. — Mas gostar de alguém não significa que você precisa exigir alguma coisa dessa pessoa.
Law virou o rosto. Luffy continuava olhando para a televisão.
— Você fala como se tivesse experiência.
— Já gostei de gente que não gostava de mim.
— E o que fez?
— Fiquei triste por um tempo. Depois passou. — Luffy deu de ombros. — Não dá pra obrigar ninguém a gostar de você.
Law permaneceu em silêncio. Não esperava uma resposta tão sensata, muito menos dita com aquela simplicidade.
— E você? — Luffy perguntou. — Já gostou de alguém?
— Já.
— E deu certo?
Law pensou por alguns segundos.
— Não particularmente.
Luffy o observou, mas não insistiu. Apenas se aproximou um pouco no sofá e voltou a assistir ao filme.
A ausência de perguntas foi tão inesperada quanto a conversa anterior.
Na manhã seguinte, Corazon telefonou às oito.
Law acordou com o celular vibrando sobre a mesa de centro. Havia adormecido no sofá, e Luffy dormia no outro extremo, enrolado numa manta.
— Cora-san?
— LAW! Desculpa, esqueci que você trabalhou ontem. Só queria confirmar se vocês chegam na sexta à noite ou no sábado de manhã.
Law ficou imóvel.
O casamento.
Havia esquecido o casamento.
Mais precisamente, havia esquecido que, algumas semanas antes, durante uma ligação, dissera ao irmão que estava saindo com alguém. A mentira surgira depois de uma tarde particularmente irritante de provocações de Shachi e Penguin, e Law esperara que o assunto morresse ali. Mas Corazon ficara tão feliz que começara a fazer perguntas, e Law, sem pensar, mencionara o primeiro nome que lhe veio à cabeça.
Luffy.
O vizinho estava batendo à sua porta naquele exato momento para pedir açúcar.
Agora havia um convite de casamento reservado para Trafalgar Law e Monkey D. Luffy.
— Reservei um quarto para vocês no hotel da cerimônia — Corazon continuou. — Vai ser bom finalmente conhecer o rapaz.
Law passou a mão pelo rosto.
— Cora-san, sobre isso...
— Você parece feliz quando fala dele — o irmão comentou, com uma sinceridade que tornou tudo pior. — Faz tempo que eu queria te ver assim.
Law olhou para Luffy, ainda adormecido no sofá. O rapaz havia se virado durante a ligação e agora tinha uma mão sobre o rosto, protegendo os olhos da claridade.
— Ele é uma pessoa especial — Law admitiu.
Corazon ficou satisfeito. Combinaram os horários, e a ligação terminou alguns minutos depois.
Law permaneceu olhando para o celular.
Deveria contar a verdade. Corazon entenderia, embora provavelmente passasse os próximos dez anos lembrando o episódio em reuniões de família. Sem falar em Shachi, Penguin e Bepo. Corazon tinha o péssimo hábito de manter contato com seus amigos, uma proximidade que Law considerava completamente desnecessária.
Então Luffy acordou.
— Bom dia, Torao. Quem era?
— Meu irmão.
— O que vai casar?
Law franziu a testa.
— Como você sabe?
— Você falou dele semana passada.
Naturalmente. Luffy lembrava de coisas que Law nem percebia ter contado.
O médico olhou para o celular, depois para o vizinho. Uma ideia terrível começou a se formar.
Terrível e bastante hipócrita, considerando o que Law dissera na noite anterior.
— Chapéu de Palha, preciso te pedir um favor.
Luffy se sentou, atento.
— Pode falar.
— Você estaria disposto a fingir que é meu namorado durante um fim de semana?
O rapaz ficou em silêncio por alguns segundos. Então começou a sorrir.
— Você disse pro seu irmão que tava namorando?
Law suspirou.
— Foi uma situação complicada.
— E falou que era comigo?
— Como você sabe?
— Porque você não conhece mais ninguém que toparia fazer isso.
Law abriu a boca para protestar, mas percebeu que não tinha um argumento convincente. Luffy também sabia demais sobre o seu seleto grupo de amigos.
Explicou a situação, prometeu pagar as despesas e deixou claro que Luffy não precisava aceitar.
— Por que você não conta a verdade? — perguntou ao final.
Law pensou na felicidade de Corazon, nos preparativos e na vergonha de admitir uma mentira tão infantil.
— Porque não quero transformar o casamento dele numa discussão sobre a minha vida.
Luffy assentiu.
— Entendi. Então eu vou.
— Assim, sem pensar?
— Já pensei.
— E por que está aceitando?
Luffy se inclinou um pouco para a frente.
— Porque você precisa de ajuda. E porque acho que vai ser divertido.
Law desconfiou imediatamente da segunda parte.
— Precisaremos estabelecer algumas regras.
— Imaginei.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Luffy se levantou para buscar o celular, mas parou antes de sair.
— Torao?
— O quê?
— Você vai querer que eu segure sua mão na frente das pessoas?
— Se for necessário.
— E te abrace?
— Dentro do razoável.
Luffy sorriu.
— E te beije?
— Não.
— Nem um?
— Luffy.
O rapaz ergueu as mãos, rendendo-se.
— Tá bom. Sem beijo.
Law assentiu, satisfeito. Luffy caminhou até a porta, mas olhou por cima do ombro antes de sair.
— Se você mudar de ideia, pode falar.
No apartamento 304, Luffy telefonou para Nami.
Ela atendeu na terceira chamada.
— O que você fez?
— Nada!
— Você sempre começa assim quando fez alguma coisa.
Luffy riu e se jogou na cama.
— Vou viajar com o Torao.
— O quê?
— Ele pediu pra eu fingir que sou namorado dele num casamento.
Houve um silêncio considerável.
— Luffy, você gosta dele.
— Eu sei.
— Não como amigo.
— Também sei.
Nami suspirou.
— E você acha uma boa ideia fingir um relacionamento com alguém por quem está apaixonado?
Luffy ficou olhando para o teto.
— Acho que pode ser.
— Por quê?
— Porque gosto de passar tempo com ele. E ele precisa de ajuda.
— E se ele continuar não correspondendo?
Luffy pensou por um instante.
— Vou ficar triste. Mas não vou morrer por causa disso.
Nami ficou em silêncio.
— Eu não vou fingir que não gosto dele só porque ele ainda não sabe o que quer — Luffy acrescentou. — E também não vou ficar esperando pra sempre. Se chegar uma hora em que isso não estiver me fazendo bem, eu falo.
Nami soltou um suspiro, dessa vez menos preocupado.
— Você acha que ele percebe?
Luffy riu.
— Acho que percebe um pouco. Só não sabe o que fazer com isso.
— E você?
— Eu sei.
Luffy olhou para a parede que separava os apartamentos.
Sorriu.
— Vou dar uma chance pra ele descobrir.

