O Castelo Real estava completamente silencioso naquela manhã cinzenta. Criados, guardas, cozinheiras... Todos andavam cabisbaixo e com um semblante triste estampado no rosto. Alguns até derramavam algumas lágrimas e outros tentavam controla-las, ora obtendo sucesso, ora fracasso. O Sol não brilhava tanto quanto costumava brilhar. Talvez, como todos, ele estivesse triste com a futura morte próxima da Rainha.
A Rainha Letícia era conhecida por ser uma pessoa de bom caráter e gentil. Ela sempre ia em defesa dos mais fracos e ajudava aqueles que necessitasse de sua ajuda. Realmente, o reino teve sorte de ter sido governada por uma Rainha assim. E, certamente, todos sentiriam falta dela quando ela partisse.
Letícia, como preferia ser chamada, se encontrava, naquele momento, deitada em sua cama. Seus cabelos loiros, sempre bem vivos e deslumbrantes, pareciam sem cor e sem vida. Seus olhos ainda continham um resquício do antigo brilho que costumava se encontrar ali, mas era fraco demais e eles pareciam apagados. Sua pele estava bem pálida e seu corpo magro e fraco, podendo-se ver as veias escuras pelos seus braços finos pulsando devagar. Contudo, mesmo com essa aparência doentia, ela ainda exibia seu costumeiro sorriso, que encantava as pessoas, para a sua família
— Me prometam que não vão deixar que a minha morte abale tanto as suas vidas assim – disse ela, a voz saindo fraca por entre os seus lábios. Ela parecia fazer um esforço tremendo para conseguir falar essa simples frase – Quero que vocês sigam em frente.
— Vai ser meio difícil, querida – disse o Rei, segurando a mão dela delicadamente e a olhando docemente. Rei Charles e a Rainha Letícia se amavam tanto que era capaz de perceber esse amor a quilômetros de distância. Eles, literalmente, completavam um ao outro e as pessoas sempre ficavam maravilhadas com a potência que esse sentimento se sobressaia deles – Mas prometemos tentar, certo crianças?
As crianças assentiram, cabisbaixas. Lukas, o mais velho, diria que não era uma criança, mas o momento não ajudava nesse quesito. Ele se encontrava sentado ao lado da cama de sua mãe, enquanto suas irmãs, Giulia e Anne, estavam abraçadas em pé ao lado de seu pai. Giulia estava com a cabeça apoiada no ombro da gêmea, chorando, e Anne tentava ao máximo esconder o choro enquanto acariciava os cabelos da irmã.
— Você vai nos abandonar, mamãe? – perguntou o irmão mais novo, Nicholas, com seus grandes olhos azuis encarando sua mãe em um misto de tristeza e curiosidade. Apesar dele ter seis anos apenas, ele entendia que sua mãe estava partindo para um lugar melhor.
— Eu nunca vou abandonar vocês – Letícia sorriu. Seus lábios estavam cortados e brancos como papel, mas ainda deixava o seu sorriso lindo – Vou estar sempre do lado de cada um de vocês, apoiando as suas escolhas e ajudando quando precisarem de minha ajuda.
Lukas segurou a sua mão livre e deu um leve beijo nas costas dela
— Obrigado por tudo, mãe – encarou ela, seus olhos verdes apagados pela tristeza – Descanse em paz, certo? – sorriu um pouco – Você merece
Letícia, com um pouco de dificuldade, apertou a sua mão. Esse gesto, apesar de simples, significou tudo para Lukas. Ela acenou com a cabeça para ele, como se agradecesse.
— Eu tenho orgulho de você, Luke – ela ainda mantinha o seu sorriso no rosto – e eu sei que você ainda vai me orgulhar. – respirou fundo e olhou para suas crianças – Nunca duvide do coração de vocês, meus amores. – tossiu um pouco e Lukas rapidamente pegou o copo de água que se encontrava atrás de si. Ele colocou levemente sobre os lábios rachados de sua mãe, que tomou um longo gole e agradeceu ao seu filho antes de continuar a sua fala interrompida — Ele sempre os guiará para o caminho certo. Guarde essas palavras para sempre
Eles assentiram, ainda tristes com a futura morte da mãe deles. Charles estava parado, ao lado de Letícia, tentando ao máximo conter as lágrimas.
— Anne – chamou Letícia e a pequena a encarou – Minha brava e forte Anne – tocou o rosto dela, o esforço evidentemente estampado em seu rosto – Eu sinto muito pelo destino que você carrega – ela lhe deu um sorriso triste – sinto muito ter dado algo assim para todos vocês – suspirou
— Eu não sinto – negou Anne, segurando a mão de sua mãe. Sua fala foi tão forte que Letícia não teve como não sentir orgulho – eu agradeço por poder ter a chance de fazer algo que, certamente, deixará você feliz – sorriu um pouco, apesar da tristeza
— Nós agradecemos – disse Lukas – Apesar de eu não poder ajudar tanto assim como eu queria – fez uma careta engraçada, o que deixou mais leve e menos mórbido
— Tome muito cuidado em suas jornadas, meus pequenos– advertiu ela, seu tom de voz um pouco sério – Ela não será fácil, infelizmente, afinal nada é fácil na vida – encarou todos e pousou os olhos no seu marido, que a olhava com amor e carinho – Vão precisar se manter unidos para concluir a missão e trazer paz para uma nação há muito nas trevas. – ela disse essa última frase tristemente, como se se sentisse culpada pelo o que havia acontecido com aquela nação
— Sabemos disso – fungou Giulia, chegando perto de sua mãe e passando a mão em seus cabelos. – Também sabemos que a culpa não foi sua – Letícia deu um pequeno sorriso. Estava feliz pelos seus filhos terem se tornado pessoas tão fortes – Vamos deixa-la orgulhosa
— Vocês já me deixaram orgulhosa – sua voz saia cada vez mais fraca e com mais dificuldade
Nicholas olhou para a sua mãe preocupado e confuso
— Eu não estou entendendo, mamãe – franziu a testa. Por ser ainda muito pequeno, ele não sabia tanto das coisas como os seus outros irmãos.
— Logo você entenderá, meu bebê – encarou ele. O brilho de seus olhos ficou mais forte rapidamente antes de ficar mais fraco de novo. – Fiquem juntos. Unidos. – olhou para todos – Obedeçam seu pai. Estou completamente certa de que, qualquer escolha que ele fizer, vai ser para o bem de vocês. – dirigiu o seu sorriso para Charles, que o devolveu. – Se vocês me derem licença, quero ficar um tempo com o pai de vocês
As crianças assentiram e cada uma deu um beijo demorado em sua mãe. Nele tentaram transmitir todo o carinho e o amor que sentiam por ela e a saudade que sentiriam quando ela partisse. Letícia devolveu na mesma moeda e deu um beijo em cada um de seus filhos
— Se cuidem – disse ela antes que eles deixassem o cômodo.
Assim que a porta bateu, Charles se deitou ao lado de sua amada. Ele ficou de lado, de modo que os dois conseguissem se ver.
Charles passou a mão livre, que não estava apoiando a sua cabeça, no rosto de Letícia. Ela fechou os olhos, sentindo o carinho que seu marido fazia nela. Sem notar, uma lágrima solitária e forasteira desceu pelo seu rosto, sendo rapidamente limpada por ele.
— Estou com medo, Charlie – admitiu ela, abrindo seus olhos e encarando seu marido – As crianças... Elas não merecem isso. São tão boas... Não merecem esse destino terrível
Charles ofereceu o seu melhor sorriso para a sua mulher
— Ninguém merece o destino que lhe é entregue – filosofou ele, passando os dedos delicadamente pelo rosto dela – Você é um ótimo exemplo disso – riu sem humor
— Mas eles são só crianças, Charlie – Letícia encarou ele com um pouco de medo – Crianças inocentes que não tem nada haver com o que está acontecendo.
— Eles tem mais haver do que você imagina – contrariou ele, suspirando. Ele pegou a sua mão e entrelaçou as duas. – Só eles podem fazer uma coisa dessas, principalmente Giulia e Anne, e você sabe disso.
Letícia ficou com os olhos cheios de lágrimas e apertou as suas mãos entrelaçadas.
— Eu sei – sussurrou ela, deixando uma lágrima cair – Eu deveria ajudá-las... Mas eu não vou conseguir – suspirou pesadamente. Sua respiração estava cada vez mais fraca – Você vai ajudá-las, não vai? – encarou ele
— Eu sempre vou ajuda-los – sorriu Charles – E você também. Da onde estiver, sabemos que estará sempre do nosso lado nos auxiliando
O peito de Letícia subiu lentamente e ela parecia fazer um esforço tremendo para isso.
— Isso é...bom – uma lágrima solitária desceu pelo seu rosto enquanto a pressão que a mão de Letícia fazia na de Charles foi cortada. Foi com um pesar tremendo em seu coração que ele viu a sua amada ser entregue nos braços da morte.
Charles deixou que algumas lágrimas escorressem pelos seus olhos
— Descanse em paz, Letty – sussurrou ele, dando um beijo casto em seus lábios entreabertos. – Eu prometo cuidar bem das nossas crianças. Você vai ver que nenhum mal vai acontecer com elas. Eu te prometo – repetiu ele, encarando os olhos azuis dela, agora sem brilho.
Com lágrimas nos olhos e o coração pesado, ele tocou as pálpebras de sua amada e fechou os seus olhos azuis que, para o seu pesar, nunca mais se abririam para serem admirados pelo mundo.

