Shima estava novamente entre aquelas paredes. "Droga. Fizeram-me desmaiar mais uma vez." Após o combate contra o dr. Gedoin, tornaram a trancafiar o detentor do Yamantaka para novamente fazer pesquisas em seu corpo. Olhando em volta, recordou que estava no quarto para experimentos. Uma tira plástica incomodava-o no pescoço. 0564 era o seu número, o número da morte. Então lembrou-se de Kamiki Izumo, e da coragem dela em se rebelar contra a Illuminati. "Foi uma adversária formidável. E aqueles idiotas a ajudaram prontamente... O Rin até tentou abrir meus olhos mais uma vez, mas pensei que seria diferente..."
Os devaneios foram então interrompidos bruscamente pelo som da porta se abrindo.
— Oh, a porca chegou — ele sorriu debilmente para a comandante.
— Pegou os modos do Gedoin, Renzou Shima? Levante-se, tem um experimento para sofrer agora.
Sim, sofrer, pensou. O levaram até uma das salas que não foram arruinadas pelo pessoal da Vera Cruz, uma em que nunca havia entrado. Branca do teto ao chão, com uma diversidade anormal de instrumentos cirúrgicos e para controle de demônios. Ouviu alguém falando seu nome.
— Finalmente retornou para nós, caro Shima — uma figura alta e esguia, de olhos encovados e cabelos brancos veio até a mesa onde Renzou estava sentado.
— Pois é, minha sede por masoquismo está cada vez maior — o sarcasmo que acabara de usar lhe custaria caro, mas era bom provocar Sugirou Summers, o chefe do laboratório Norte da Illuminati — O que vão querer de mim dessa vez? O Yamantaka já está incomodado com essas incursões em meu corpo. Logo ele desiste de se hospedar em mim e vai embora.
— Ora, não seja tão tolo, garoto. Sabe que com as pesquisas do Gedoin é fácil forçar o Yamantaka a permanecer em seu corpo. Kaito, Mikemaru, amarrem-no.
-Amarrar? Eu nunca fugi de vocês — Shima foi segurado pelos braços e jogado subitamente na cama cirúrgica com um baque surdo. Teve todo o corpo preso com amarras de couro e metal — Ei, parem, eu não sou como a Kamiki. O Yamantaka sempre se submeteu a tudo o que me pediram — mas os protestos de Shima foram claramente ignorados. As amarras estavam apertadas a ponto de mal conseguir respirar, especialmente a grossa tira de couro que lhe mordia o pescoço.
— Vamos usar as chamas de Yamantaka para curar o corpo de Lorde Lúcifer. Apesar de queimar tudo o que é de Gehenna, as substâncias incendiárias se mostraram extremamente curativas em corpos humanos. Agora invoque nosso querido demônio, precisaremos dele — Summers sorriu de canto, e Shima pôde ver um brilho sinistro nos olhos do doutor logo que invocou o demônio das chamas negras — agora faremos com que ele possua seu corpo com a máscara do salvador, e então iremos retirar a substância combustora de você. E sabe como faremos isso? — Summers não deu tempo a Shima para responder, apenas apontou para o rapaz um par de pinças ligadas a uma máquina — Com choques — Sugirou soltou uma gargalhada e prendeu as pinças às partes metálicas das amarras no peito do rapaz.
Renzou não poderia imaginar o que viria a seguir. Pensava que os choques elétricos seriam de baixa intensidade, e que tudo acabaria em pouco tempo, mas assim que Yamantaka foi forçado a possuí-lo, sua ruina começou. Durante a possessão, sentia o líquido quente e inflamável do demônio fluindo por seu corpo e queimar tudo por dentro. Tentou gritar, mas assim que abriu a boca vomitou, entre outras coisas, o líquido que serviria para o novo elixir. Então conseguiu sentir o demônio sendo eletrocutado em seu corpo. Ou seria ele mesmo? Não saberia dizer. A corrente elétrica era tão violenta que sentia os músculos se contraírem e distenderem, o coração parecia querer arrebentar no peito. O Yamantaka se contorcia de igual maneira dentro do corpo de Shima; urrava e gritava sem parar em sua mente, e o mesmo acontecia ao próprio Shima. Ouviu seu grito ecoar pela sala e tentou esmurrar a mesa, mas no fim, conseguiu apenas morder a língua. Sentiu a boca cheia de sangue, e desmaiou.
Acordou mergulhado em água quente. Um calor aconchegante evolvia-lhe o corpo fraco. Levantou um pouco a cabeça. "Sem roupa", notou. Tentou chamar por ajuda, mas a língua estava pesada e rígida. Acabou soltando um grunhido, o que foi suficiente para chamar a atenção de alguém.
— Ren, você acordou — sentiu uma mão em sua testa — está sem febre. Isso é ótimo... Pensei que não resistiria — era uma voz de mulher. Uma voz conhecida de mulher — Acompanhei o procedimento a pedido do doutor Summers — ouviu a voz se afastar, e levantou um braço debilmente para tentar segurar a garota.
— Izzy... — era um enorme esforço conseguir falar.
A garota o tirou da água e o colocou sobre uma cama macia. Parecia uma das camas onde dormira no templo da Myoda. Recordou de quando corria com Izzy Hojou pelas plantações do templo. A menina-cobra tinha os cabelos loiros compridos até os joelhos. Então voltou os pensamentos para o lugar em que estava e pelo que tinha passado.
— Tive de me conter para não chorar na frente do Doutor Summers. Eu sei que você quer me manter a salvo, mas isso foi o máximo que consegui aguentar — ela tinha a voz embargada. De repente, Renzou sentiu uma onda de frio; a pele se arrepiou, ainda nua como quando nascera.
— Izzy... Frio... — conseguiu balbuciar.
— Não posso fazer nada. A sala está climatizada e preciso fazer os relatórios sobre o pós experimento — ela escrevia coisas em uma prancheta, mas parou. Shima sentiu os dedos de Izzy pairando novamente por sua testa, descendo pelas bochechas e o pescoço. Se arrepiou mais uma vez quando ela passou por seu peito e abdômen, e sentiu o coração acelerar enquanto o toque leve dela passava pela coxa direita dele até a ponta de seus pés.
Seu corpo reagiu imediatamente ao toque da Hojou, mas não havia nada que pudesse ser feito. Fechou os olhos e tentou se conter, mas recordou-se do beijo que deu nela quando se despediu para partir com o pessoal da Illuminati.
"Não... Você não sabe o que vai haver lá! Renzou! RENZOU!!!"
Ele subira no helicóptero e deixara Izzy aos gritos em meio às lágrimas junto das ruínas no Monte Kongou. Sabia dos sentimentos dela. E um ano depois, ela estava trabalhando junto a Michael Gedoin nos experimentos avançados com Kamiki Tamamo. Fora um susto e tanto, e ela fazia de conta que não o via. Até agora.
— Desculpe pelo toque, imagino que você estar neste estado seja constrangedor — ela tinha uma estranha gelidez na voz. Renzou então se obrigou a sentar na cama, e mesmo o pouco esforço que fez o deixou tonto. Não havia nada com que pudesse se cobrir, e ainda estava daquele jeito. Olhou por entre as pernas e tentou esquecer daquilo.
— Eu vou embora. Não vou aguentar outra operação como essa.
Mas aguentou. Izzy viu mais seis operações do mesmo tipo em Renzou Shima. A cada uma delas, o rapaz retornava mais fraco e mais debilitado ao quarto de recuperação. Na última, quando encontrou o rosado sobre a mesa cirúrgica, soltou um arquejo abafado e vomitou. A sala passara de branca a escarlate. Havia sangue por todos os lados, e um terrível cheiro de carne queimada. Shima ainda estava preso às correias de couro e metal, e seu corpo tremia violentamente. Izzy limpou um fio de saliva dos lábios do rapaz e deixou que a convulsão parasse. Destravou as amarras e o carregou nas costas até o quarto de recuperação. O despiu já dentro da banheira com água benta em concentração AAA. Estava magro, e havia queimaduras de segundo e terceiro grau nos locais onde Sugirou Summers instalara as pinças para eletrocussão.
— Não pode mais continuar com isso... Você está morrendo. Eu não tenho como te curar de tudo isso... — Izzy Hojou desenhou um par de círculos mágicos nos papéis da prancheta — Imploro a vós que me conceda as tuas armas e um pedaço de teu manto. Dai-me a dádiva da vida, ainda que queira levá-la de mim - em suas mãos surgiram um pedaço de pano cinzento e puído e uma adaga de lâmina curva com o punho entalhado em forma de ossos humanos. Ela então deu início a mais um processo de cura. Fez a raspagem dos cortes, queimaduras e esfolados no corpo de Renzou, e esfregou neles o pano cinza. Em pouco mais de vinte minutos, todas as feridas estavam fechadas e cicatrizadas. Ao final, Izzy soluçava de tanto chorar. Acariciou os cabelos do rapaz e o retirou da água, que a essa altura já esfriava. Desta vez ele não despertou, e ela não o deixou com a pele nua; cobriu Renzou com uma manta quente e se pôs a fazer o relatório.
