Hello Heaven
Hello Heaven
Chapter 17 min read

Ato I - Nevada

Nunca esqueço do meu primeiro dia aqui no internato.

As pessoas olharam pra mim, acenaram pra mim, falaram de mim. Mas eu estava tão sozinha quanto estou hoje.

Este internato fica entre o nada e o lugar nenhum. Meu tio, Scottie ou Sr. Fitz, me dizia que daqui só se levam duas horas até Nevada, e bom, Nevada é algum lugar apesar de eu não saber o que é exatamente Nevada. Até hoje eu não sei se realmente se leva duas horas e acho que ele só disse isso para me consolar. Nevada, Nevada, Nevada. Esse lugar sempre teve um aspecto de uma espécie de paraíso. E eu só levaria duas horas pra supostamente chegar até lá.

Eu bebia muito. Minha cidade natal também é no meio do nada mas fica parcialmente congelada por uns 8 meses do ano. Quando dei um soco na cara do meu pai, que me puxava de um bar barato cheio de gente muito mal intencionada, eu passei o verão em um reformatório, alucinada pela falta de bebida Fui afastada dos meus irmãos. Depois ele me mandou para cá. Ele costuma dizer que foi um ato de caridade do meu tio Scottie ,que calha de ser o diretor deste pardieiro.Meu pai abandonou um emprego bom para investir no seu sonho de ser um empresário de sucesso no ramo digital e hoje ele é milionário. Mas ele continua repetindo em todo o Natal de como o meu tio foi generoso me dando uma bolsa de estudos integral naquele ano.

E aquele começo foi difícil. Para começar eu achava que estava sendo um estorvo naquela escola porque, como eu já disse, meu pai fazia parecer que aquilo foi muita sorte e piedade. No primeiro dia de aula, quando eu tinha 15 anos, eu morria de medo de toda aquela gente. Eles me faziam perguntas ,elogiavam o meu cabelo mas eu estava assustada.E então eles descobriram que eu estava fazendo da amada escola deles uma espécie de reabilitação e que o diretor era o meu tio. Ninguém mais falou comigo. E eu não senti a menor falta. Meu tio conseguiu que eu não tivesse que dividir um quarto, privilégio só dos mais privilegiados. Eu podia usar o minúsculo e privado cinema de sua biblioteca particular para assistir o que eu deseja-se.Li muito e de tudo, os livros me compreendiam, as suas palavras me afagavam, os seus autores pareciam conhecer cada centímetro meu.E então ficou tudo bem.

Mas eu fiquei entediada lá pelo meio do ano. Então comecei a observar os meus colegas, e até seguir alguns. Descobri que a rainha da classe do segundo ano tinha caso com pelo menos 7 professores do corpo docente. O menino de cadeira de rodas contrabandeava remédios faixa preta. A menina ruiva e inocente do primeiro ano roubava as maquiagens das meninas no banheiro dos dormitórios. O zelador vendia charutos cubanos a preços mais ou menos justos. Brandon chorava toda noite no quarto dele, irritado com sua vida vazia e seu pai sempre insatisfeito. Mia veio para o colégio porque os pais dela descobriram que ela teve um caso com um amigo da família e etc..

Olho pela janela do meu quarto. Agora é janeiro e a densa floresta de pinhais que circunda a escola está coberta de neve. O sol já estava se pondo. Ás vezes, este mundo me parece impossível, mas também lindíssimo visto dessa janela. Vejo o amplo jardim da entrada e reconheço o cabelo levemente ruivo e cacheado de Tom. Eles esta usando o mesmo casaco verde musgo comprido que ele usou na festa de natal que o clube literário deu para os seus membros na noite antes das férias de fim de ano. Eu reconheço o casaco porque ele foi parar no chão do meu quarto, junto com as nossas roupas.

Tom é excelente. Ótimo aluno, filho exemplar e dolorosamente educado. Ele é muito bonito, mas de um jeito interessante e inteligente, com o rosto de traços delicados e os olhos meio azuis,meio verdes. As mulheres da secretaria, as professoras, as meninas do primeiro ano ainda tão ingênuas tem ele como seu ídolo supremo. Todas as outras meninas do colégio ainda tem uma queda por ele, mas que se resignou. Nesses 3,5 anos ele sempre foi uma figura solitária apesar dos bilhetes apaixonados e as declarações públicas dramáticas que sempre terminavam com alguma garota de rímel borrado chorando compulsivamente cercada pelas amigas no chão da sala comum do dormitório feminino.

Tom frequenta as aulas de teatro e o clube de literatura, e o Tom também é estranhamente apaixonado por mim. Não me pergunte o porquê, eu não sei como já que eu nunca tinha trocado mais de 3 palavras com ele, mas o amor é tragicamente engraçado. Ele ama a ideia que ele tem de mim, e não a mim. No dia da festa eu não sei o que aconteceu. Estava todo mundo já bêbado, menos eu ( parei de beber desde que cheguei aqui). Tom, também um pouco bêbado, se sentou na poltrona vermelha e velha ao meu lado e começou a conversar comigo. Não respondi a princípio, mas ele estava bêbado e não ligou, continuou falando e então eu resolvi responder. Ficamos tendo uma conversa de louco e falamos sobre tudo. Uma hora, ele deu uma risadinha e soltou :

- Oh, você realmente é uma tão bonita – ele riu de suas palavras desconexas.

De repente ele começou a cantar:

Venha até a janela, minha querida

Eu gostaria de tentar ler a sua mão

Eu achava que eu era uma espécie de garoto sem rumo

Até você me dar a sua mão e me levar para casa.

Eu reconhecia a música. Disse pra ele que era uma das minhas preferidas.

- Eu acho que estou bêbado – ele me olhou com os seus olhos grandes ,gentis e meio enevoados por causa da bebida – Estou bêbado e apaixonado.

Ele não falou mais nada. Eu levantei e sentei no colo dele, de frente para ele e comecei a beija-lo loucamente. Ele retribuiu com vontade e surpresa e ficamos assim até o fim da festa. Levei Tom para o meu quarto, naquele momento eu não me importava mais. Eu empurrei ele na minha cama, joguei o seu belo casaco no chão e comecei a tirar a roupa dele.Ele ficou um pouco assustado.

Tiramos as nossas roupas e ele me beijou ternamente na boca. Me deitou na cama e beijou o resto do meu corpo, parte por parte.

Nós dormimos juntos naquela noite. Ele me amou como nenhum outro menino antes e eu tenho quase certeza de que fui a sua primeira. Ele não era experiente, mas era doce e suave e ao mesmo tempo intenso. Terminamos o que tínhamos que fazer. Tom estava me abraçando, nós dois nus no meu quarto pequeno, nosso corpos quentes e suados, mesmo com a neve caindo lá fora naquela noite eterna.

- Tom ?

- Uhum... o que foi? – ele estava quase adormecendo.

- Você sabe quantas horas se leva daqui até Nevada?

- Nevada? – ele piscou sonolento – O que é Nevada?

- Não sei – eu disse , pensativa — Meu tio fala desse lugar. Ás vezes acho que deve uma espécie de paraíso sabe? Como o céu. – olhei em direção a janela.

- O paraíso está aqui, comigo – ele sorriu e me puxou de volta pra cama, e dormimos abraçados.

Deixei Tom no meu quarto na manhã seguinte. Minhas malas já estavam prontas para o feriado, e eu iria partir logo. Ele acordou um pouco antes de eu sair. Olhei pra ele e disse :

- Me desculpe. Você estava bêbado e eu não sei o que eu estava fazendo – Evitava olhar em seus olhos – Isso não vai acontecer de novo.

Sai correndo, agora penso que fugi correndo. Fugi do calor abafado do meu quarto,do seu corpo perfumado e do seu amor por mim. E eu não sei porque.

E isso me leva até aqui, vendo Tom pela janela do quarto e me perguntando com vão ser as coisas agora.

Comments & Reactions

Share your thoughts, attach collectible stamps, and react with the author and community.

You have reached the latest chapterReturn to story overview
Story Index