Era uma manhã chuvosa.... Laura era conduzida à escola pelo pai, isso porque, por mta insistência dele, esta parara de ter aulas em casa e passara a frequentar a escola do vilarejo próximo a fazenda, naquele semestre.
Ao sair de casa, naquele dia de charrete com o pai, imaginou se a chuva que estava armando para cair, iria esperar que ela chegasse a escola.
Esse era seu segundo mês na escola. Ela estava muito contente, pois finalmente tinha amigas de sua idade, com quem brincar e conversar, e poderia se afastar um pouco do rigoroso controle de sua mãe. Esse presente maravilhoso fora ideia de seu amado pai! Ela bem sabe como foi difícil convencer a D. Constância, mas afinal esta não conseguiu rebater os argumentos do seu pai. Ela falava sobre isso com o pai, durante a pequena viagem até a escola, e no ar sentia o cheiro de chuva já bem próxima.
O Sr Assunção, deixou-a no jardim que circundava a escola, e disse-lhe que logo mais ao término da aula, viria buscá-la, e que ela deveria esperar por ele dentro dos limites da escola.
Sr Assunção: Nada de passeios viu mocinha, ou sua mãe é capaz de me esfolar vivo!
Laura: sim, meu pai.... (com olhar travesso) Não posso dar nem uma voltinha pelos arredores?
Sr Assunção: ( com cara de bravo) Por favor Laura! Nós já conversamos sobre isso! Vc é novinha, mas já entende algumas coisas, (disse isso, agachado e com os olhos a altura da menina) A qualquer deslize nosso, sua mãe me obriga a tirar vc da escola e voltar para as mãos da tutora. Então, vc tem que me ajudar a te ajudar.... entendeu?
Laura: Tá bom,.... ta bom..... Serei um modelo de menina e vou esperar pelo sr, sentada naquele banco, sem uma dobra no vestido, (argh....)
Sr Assunção: (já com um meio sorriso nos lábios) Exagerada como sempre, não é mocinha! Venha aqui me dá um beijo e vá para sua aula. A luta foi árdua, por isso aproveite.
Laura abraçou o pai e foi correndo com sua maletinha a balançar....
Bem no inicio da aula, já com todos acomodados em suas carteiras, a chuva despencou com toda a sua força e esplendor, parecia absurdo, mas a Laura adorava a chuva e todos os barulhos que ela fazia! Nunca ficava assustada.... para ela era um lindo espetáculo, digno de se parar para assistir com enlevo!
Mas sabia dos dissabores que a chuva podia causar e nesse dia por causa do grandioso espetáculo daquela chuvarada, a sua professora D. Mari, se atrasara e então a contadora de histórias viera para a sala ficar com a turma. Laura contava com 10 anos, nessa ocasião, já era alfabetizada e dominava o básico das 4 operações matemáticas elementares. Tudo isso graças à Srta Luiza, sua tutora, que lhe atendia em casa com a supervisão atenta de sua mãe.
Logo nos primeiros dias em que começara a frequentar a escola, fizera novos amigos e se sentia muito bem com eles, apesar de ter ouvido várias vezes a sua mãe afirmar que eles não eram companhia adequada para ela. Absurdo dos absurdos, a que ela já estava acostumada em se tratando da sua mãe. Eles eram amigos leais, muito engraçados, cheios de estórias interessantes para contar-lhe, das grandes aventuras que viviam por aqueles campos, a maioria de seus colegas, moravam nas fazendas dos arredores. Haviam alguns filhos de fazendeiros e também filhos dos empregados das fazendas. O seu pai, havia lhe explicado que um grupo de fazendeiros, reunira-se para montar e manter a escola, a fim de atender todas as crianças da redondeza que quisessem estudar. Sua mãe, para variar, foi contra, mas seu pai não aceitou discussão. Ele tinha muito orgulho dessa iniciativa e acompanhava de perto todo o trabalho, sempre que podia.
Seu irmão Albertinho, não tivera a chance de estudar, nessa escola, pois o pai iniciou essa empreitada recentemente, e seu irmão já estava na capital, afim de continuar os estudos. Ele não poderia desfrutar desse lindo projeto do pai, mas ela iria. E isso a deixava mto feliz, apesar de saber que era contra a vontade de sua mãe. Seu pai tivera que fazer uma lista interminável de promessas, para que ela pudesse frequentar a escola ao invés de continuar a ter aulas com uma professora particular. Mas conseguiram dobrar a D. Constância, e Laura estava adorando as aulas, a escola, a professora, seus colegas, tudo era maravilhoso e ampliou seu pequeno universo, de uma maneira que jamais ele voltaria a se enquadrar nas paredes da casa da fazenda. Gostasse ou não a sua mãe!
Fizera uma amiga, sua primeira amiga! E isso era um presente maravilhoso, que seu pequeno coração recebeu com mta alegria. Era a Tais, uma garota de sua idade e morava na fazenda que fazia limite com a de seus pais. Elas sempre voltavam juntas e seu pai deixava a Tais, na fazenda onde ela morava primeiro, e depois seguiam caminho. Era tão bom ter alguém com quem conversar! Ao contrário dela, a Tais era a mais velha, de três filhos, muito ativa e alegre, sempre tinha uma brincadeira legal para ensinar. Também compartilhavam o gosto pelos livros, e era comum passarem longas horas juntas, sempre que conseguiam uma folga. Laura nas intermináveis aulas de etiqueta, música, balé, ou qualquer outra disciplina que d. Constância acredite ser necessária a sua boa formação. E a Tais, os afazeres que realiza para ajudar a mãe na manutenção da pequena fazenda da família. Nesses momentos elas liam uma para a outra, inventavam estórias e trocavam impressões sobre seus preciosos livros. De alguma forma essa preferência comum, uniu-as de uma maneira , pelo valor que os livros e a leitura representava para as duas.
A Laura perdeu boa parte da estória que estava sendo contada, imersa nesses devaneios. Ela ainda não decidira se essa sua mania de pensar era um defeito ou uma qualidade. Até porque seus pais não chegavam num acordo quando a isso. Sem perceber deu um leve sorriso e olhou para a grande janela da lateral da sala.
E então viu um menino pela janela, provavelmente um aluno da sala das crianças grandes, todo molhado... Laura mostrou para a professora que acompanhava a turma, e ela rapidamente foi ao encontro do menino a fim de verificar o que havia acontecido...
Curiosa como sempre, Laura não conseguiu ficar esperando na sala e deu um jeito de escapulir a vigilância da monitora para ir ver o que estava acontecendo. Ao chegar na sala da diretora, pra onde a professora levara o menino, viu-o encolhido numa cadeira, enrolado num cobertor, para secar-se. Ganhou uma reprimenda por ter saído da sala, então a única coisa que conseguiu ver foram os cabelos loiros do menino e seu olhar para ela...
Não teve como entrar na sala da diretora. Mas aquele olhar ficou gravado em sua mente.
No primeiro intervalo do dia, estava sentada junto com a Tais, e contou-lhe o que aconteceu.
Tais: Mas Laura, o que ele “tava” fazendo lá fora?
Laura: Sei lá.... deve ter chegado atrasado e não quis entrar para a sala. A professora não me deixou ficar para saber, mas quando eu o encontrar vou perguntar.
Tais: Mas ora vejam só! Daqui a pouco vc vai querer namorar com ele e ficar toda derretida igual a minha prima Julia! ( disse com voz carregada de inocente ironia e caçoando da amiga)
Laura: Que besteira Tais! Não é nada disso! Só estou curiosa! Só isso! Vem. Vamos terminar o lanche e brincar.... daqui a pouco bate o sinal e estamos aqui a jogar conversa fora ainda!
As duas meninas saíram, assim que terminaram o lanche, cheias de entusiasmo para as brincadeiras. E logo, os assuntos do menino molhado, como passaram a chamá-lo, foi esquecido.
