Eis que estou aqui, mais uma vez, a derramar milhares de pensamentos diversos, convertidos em letras gravadas neste pedaço de papel, talvez reciclado ou não, o que me remeteria a pensar se estou contribuindo com a expurgação da vida de uma árvore em um lugar qualquer. Se é que isso é possível.
E do meu lado, o fiel e velho amigo amargo, o café. Será que um dia poderei deixar o leito e passar todo o tempo sem nem encontrá-lo aqui ou ali, nos passeios pela cozinha? Pergunta difícil. Mas a questão é: o que estou a fazer, tagarelando com um lápis e meia dúzia de folhas? Uma vã tentativa de buscar inspiração? Talvez.
Viro-me para observar o tempo lá fora. Está chovendo. Para muitos, este é como aqueles dias funestos, tristes, próprios para velórios. Eu não ligo, a precipitação é algo físico, necessário, preciso e interpolável. Só me interesso se, vejam o estado lamentável em que estou, ela me será por inspiração. Acreditem, não há nada pior para quem artisticamente impregna suas idéias em projeções físicas, papéis ou que for, do que perder a inspiração, o combustível que os move. E que resolveu esquecer a mim no momento.
Faço essa pausa não por vontade, mas por não ter mais o que fazer. Enquanto a desejada não se apresenta, aproveito para continuar minhas observações. Enquanto você, caro leitor, se perdia nas palavras acima, eu me deixei levar pela cena borrada do lado de fora. A chuva caía fininha e crianças brincavam entre as poças d'água. Se esquecem de doenças ou preferem não pensar nelas? Não, pra certas coisas elas, as crianças, são imunes enquanto inocentes. Inveja santa que tenho delas.
Vi também uma mulher, alta magra empapada de olhar vidrado e perdido e roupas encardidas. Andava triste a esmo pela rua enlameada. Se estivesse à penumbra juraria que era alma penada. Vai saber, não sei se elas gostam de se molhar.
Agora vejo que um cachorro malhado se juntou às crianças. Não sei se é malhado mesmo, está tão sujo lá fora que talvez seja um poodle branquinho apenas envolto por mesclas de terra.
Molho os lábios no café ainda quente. Tem gosto de infância, perdido entre os matos do sítio, primeira moradia, das tardes frias e molhadas, do pão de queijo e torrada com goiabada. E lembrar do passado é lembrar de coisas que as vezes nos entristecem. É engraçado como esquecemos de alguns momentos bons, mas lembramos perfeitamente de cada detalhe de cada momento ruim. O cérebro humano é cheio de surpresas. E desaforos. Sorte tem os cachorros, que até na maior dificuldade, abanam seus rabos em sinal de alegria.
E vejam só, a chuva aumentou. Pobres crianças. Perderam a felicidade quando o primeiro adulto apareceu para coibir a diversão. Agora será tarde demais. Não conto dois dias até que uma delas fique acamada. Sorte a minha que ninguém me ouve.
Esta pausa está demorando mais que o costume. E não entendo o por quê. Todas as circunstâncias necessárias para o retorno da inspiração estão presentes. Está chovendo, faz um frio agradável, o café está bom, estou sentando de forma confortável, o papel está liso e limpo esperando pelas palavras e o lápis apontado com perfeição. Ela está é me testando. Deve ser o café que esfriou, só pode.
Vou até a cozinha ver se tem mais café. Deparo-me um gato em cima de uma cadeira. Dormia tão profundamente que dava uma tonteira só de olhar. Bicho folgado. Nem pra dormir consegue sair da cozinha. Preciso comprar um cachorro.
Sento-me de novo na cadeira confortável, encarando as folhas soltas. Como será que é escrever sem inspiração? As palavras ficam sem sentido? As frases ficam vazias? O texto morre? O mundo acaba? Não. Na verdade, ninguém se importa com o que acontece ou deixa de acontecer com suas idéias. Elas estão lá fora, ocupadas demais com suas vidas agitadas tentando sobreviver num mundo que não as quer, mas, como um pescador abusivo, deixa iscas espalhadas para pegar quem estiver disponível. E depois disso, me sinto até melhor. Essa pausa, agora julgo que foi necessária. Não sei quanto tempo passou, talvez poucos minutos. Mas vejo que nas linhas das folhas brancas agora estão pontos precisos, ansiosos por conexões. É a inspiração voltando?
Fique você ai mesmo, leitor, e faça sua pausa. Veja como o mundo cresce ao seu redor, veja como cada um faz sua vida rotineira. Só não se esqueça de pegar o próximo bonde, para não ficar perdido pra sempre na história que não tem fim.

