- Você já ouviu a história da flor de amaranto?
- Nunca. Conte-me a história, nee.
Shou deu um suspiro leve e ajeitou os cabelos do outro, mexendo em seus fios também escuros. Sorriu leve, meio fraquejando no que fazia, desviando o olhar e se ajeitando melhor naquelas almofadas enormes que eram usadas como travesseiros pelo outro.
Tora deitou-se comodamente ao lado dele, olhando-o com a expectativa de que começasse logo a contar a história, além de achar que, dessa forma, poderia muito bem entender porque de Aoi ter tocado num assunto desses, tão... Aleatório.
- Amaranth, Amaranto ou Amarantine são todas a mesma flor. Diz uma lenda muito antiga, da Grécia, que ela é uma flor que nunca morre. Ou melhor, é a flor que nunca desvanece.
Kazamasa mexeu-se de forma a parecer meio incomodada sobre a cama, piscando lentamente e tomando um pouco de fôlego para continuar contando que Amaranth também é um vermelho escarlate, profundo... E a flor curiosamente é dessa cor, apesar de ter adquirido outras colorações no decorrer do tempo.
Em muitos dicionários, dizia ele, a palavra significa imortalidade. Nos dicionários de língua inglesa, existe a explicação sobre ela, que é uma planta estudada por muitos, apesar das lendas gregas passarem para o povo que sua existência era limitada ao Monte Olímpo.
Os olhos do mais alto dos dois se estreitaram e seu olhar fixou-se na face do outro, que continuava suas explicações com os olhos fechados, tentando conter-se ao máximo.
Agora, entendia o que tinha a ver a tal flor que nunca morre com o que estava acontecendo.
Seu coração deu uma leve apertada e abraçou o outro com força junto a seu peito. A cabeça do amado repousou, com a testa apoiada em seu tórax, enquanto as mãos espalmavam-se ao lado do rosto.
Era estranho aquilo que sentiam. De repente, o sonho abre as portas pra um e o outro precisa fazer suas próprias escolhas. Amano queria que o namorado fosse sim rever sua família, ainda mais agora que eles até estavam preparando tudo para a chegada dele. E sabia que assim seria alguns anos sem vê-lo de novo, porque a família de Kohara sentia tanto sua falta, que tinha até feito planos de longas viagens.
Ainda se perguntava porque a distância existia, ainda que no interior houvesse milhões de respostas. Sakamoto e Naoyuki já haviam lhe dito que ele ficaria bem, que voltariam a se ver. Ogata tinha dado todo seu apoio aos dois, oferecido até a própria casa para que Shinji esperasse lá pelo tempo que fosse... Hiroto sempre tão disposto a tudo pela felicidade do casal...
- Shou, tenshi...
- Eu... Preciso ir, Tora... – ele sussurrou, com as mãos trêmulas e a visão turva, dominado pela imensa vontade de chorar – Meus pais... Meus avós... Eu briguei com eles, demorei pra fazer as pazes com eles... Não posso arriscar de... Perdê-los... Por não aceitarem meu homossexualismo...
E novamente aquelas palavras do outro lhe faziam repensar em tudo. Desde o princípio. Entendia bem porque de tudo aquela confusão. Mas era muito egoísta ao ponto de não querer terminar o namoro. E deixar o outro pior.
- Shou... Me escuta, amor.
O rosto levantou-se e os olhos se encontraram. Trocaram um selo leve, onde Tora cessou e sorriu muito fragilmente, segurando as duas mãos juntas e repousando-as exatamente sobre seu coração.
- Ele bate. E bate assim porque é a única coisa que ele faz direito. – Shou sorriu leve, ouvindo-o com atenção – E eu te amo, mas se a sua decisão for a de agir assim, assim será.
Um suspiro foi tudo o que foi ouvido, então. Nem Shinji, nem Kohara ousaram quebrá-lo, talvez medo que interromper um momento tão especial que nada podia ser feito ou dito... Exceto ouvir o tempo e o som do ruir de algumas promessas, sendo trocadas ou transpostas por novas.
- Vou ligar pros meus pais e dizer que não vou...
- Mas não era— Shou o interrompeu.
- Se eu não puder levar meu melhor amigo comigo...
- Bobo, eu disse que te espero...
- Muita coisa acontece no tempo, e sempre tem promessas passíveis de serem quebradas. Acredito nesse amor que trocamos, que temos. Nunca duvidei nem nunca vou duvidar dos seus sentimentos... Mas eu percebi que tenho sido mesquinho, e não quero ser assim com você. – ele sorriu e sentou-se sobre as próprias pernas, ao lado do corpo deitado de Tora – O tempo vai passar e não quero que ele leve arrependimento com ele. Quero que ele leve com ele as maiores felicidades... Sei que você não queria ir... Mas se for comigo, poderemos continuar tudo... E não enfrentaremos a saudade...
O rosto do mais alto inclinou-se para o lado e puxou-o para si. Shou tinha sido forte para dizer aquilo e agora chorava feito uma criança quando é deixada na casa dos pais para estes irem à um evento qualquer.
- Certo. Nós iremos... Minha pequena flor de amaranth.
- Eu morro um dia...
- Mas jamais morreremos dentro de cada um de nós.
- E dentro do outro.