
"DETERMINAÇÃO..."
A tempestade de neve só piorava. Frisk parecia ser a única alma em sã consciência que se arriscou a tentar atravessá-la. O frio realmente estava terrível, mas ele já tinha feito a escolha de ir. O menino não se atrevia a abrir a boca, ou descruzar os braços, ou fazer qualquer movimento desnecessário, temendo ficar com ainda mais frio. Mas ele suspeitava que teria que voltar, pois se as coisas continuassem desse jeito, não demoraria muito para essa neve começar a causar dano. E ela estava POR TODA PARTE, não daria para se esquivar, como ele costumava fazer com as outras coisas brancas que causavam dano.
– Hey, amigo Frisk, parece que começou a nevar !!! Por que não entra na casa ?? Você pode ir outra hora !!
Frisk olhou para trás. A neve encobria tudo, mas dava para perceber alguns tons de vermelho que não estavam ali antes. Ele para um pouco para pensar. Parecia uma boa ideia.
– V-você poderia responder logo ?? É q-que está b-bem frio aqui.
O menino abriu a boca, com a intenção de aceitar, mas apenas sentiu um congelar que o impediu de fazer qualquer coisa. Sentindo-se incapaz de realizar qualquer ação verbal e com um gelo em cada parte interna de seu corpo, ele acenou que sim com a cabeça e foi correndo na direção de seu amigo... Mesmo sem conseguir enxergar muito bem onde ele estava.
O amigo não identificou muito bem o gesto que Frisk fez com a cabeça, mas sentiu sua perna direita sendo abraçada.
– Vou reconhecer isso como um "sim" !!
Então Papyrus saiu arrastando Frisk pela neve até a casa onde ele morava com seu irmão. Ela não estava a nem 10 metros dali, mas com a tempestade de neve, parecia impossível chegar lá. Finalmente, duas coisas brancas, uma grande e uma pequena, entraram na casa, deixando a entrada branca também. Depois de fechar a porta com muita dificuldade, ambos se chacoalharam, fazendo a neve cair sobre o piso da sala, deixando-o mais branco do que já tinha ficado.
Papyrus se preparava para alertar seu irmão sobre o visitante enquanto tentava limpar a roupa de Frisk. Ao mesmo tempo, também ia tendo planos. Poderia curtir alguns momentos com seu amigo humano, poderia fazer um spaghetti para levantar o ânimo. Mas e se a tempestade não passasse ?? Onde o Frisk poderia dormir ?? Estava tão distraído com esses pensamentos, e ao mesmo tempo, tão concentrado em tirar cada floquinho de neve da roupa de seu amigo (como alguém consegue ficar concentrado e distraído ao mesmo tempo ??) que se assustou com seu irmão. Sans costuma ser descontraído, despreocupado, mas ele estava bem sério daquela vez.
– Papyrus ?? Louco, o que te levou a sair em uma tempestade ??
– Ah, você não deixaria o Frisk sozinho em uma tempestade, deixaria ??
Sans sorri levemente, finalmente notando Frisk ao lado do irmão... E toda a neve ao redor deles. Quero só ver quem vai limpar...
– Heheh, não. Claro que não !! Foi mal, não tinha percebido que ele estava aí. Vocês dois estão bem, né ??
– Sim, irmão !!! E acho que vou cozinhar um spaghetti pra ele !!
– Huh, e tem outra coisa que você faz sem ser cozinhar spaghetti ???
– MUITAS coisas. Diferente de você.
Frisk e Sans riem baixinho da situação. Sans olha para o seu quarto discretamente, mas Frisk percebe.
– É... Eu não faço nada. Não trabalho nem um pouco.
E ele volta a olhar para seu irmão Papyrus, com seu sorriso aberto natural.
– Eu sou assim mesmo !!
Frisk continua olhando para o quarto. Parece que só ele percebia uma luz estranha vindo de lá, que iluminava o ambiente com azul. Ele ficou meio assustado, e resolveu se aproximar um pouco mais de Papyrus, só para ter certeza.
– Bah, eu sempre soube, Sans !! Mas, enfim, que tal se eu ENSINAR O FRISK A COZINHAR SPAGHETTI ??? Não quero deixar ele sozinho.
O sorriso de Sans se foi rapidamente, e Papyrus percebeu que havia algo errado. Ele olhava para Frisk, para Papyrus, para o quarto, para o outro quarto, para a cozinha, para algum lugar aleatório... E ficou alguns poucos segundos assim, desviando o olhar. Tanto Frisk quanto Papyrus queriam falar alguma coisa, queriam saber o que estava acontecendo, mas apenas observaram sua reação estranha.
– Hã... Sabe, Paps ?? Ele estava no frio, né ?? Ele deve estar com frio ainda !! Ele poderia, hum, ficar no seu quarto, sabe ?? Lá tem uma cama confortável com um edredom, lugar perfeito para esperar um spaghetti !!!
– Hã... Está tudo bem com você, irmão ?? E o que é essa luz vinda do seu quarto ??
– Oi ??!! Luz ???? Que luz ???
Sans bate a porta do quarto, meio desesperado com alguma coisa.
– Eu não estou vendo luz nenhuma... Mas o que vocês têm a me dizer sobre o Frisk ficar no quarto ??
Frisk, apesar de estar no ambiente confortável da casa, ainda estava com frio por causa da tempestade. Talvez um edredom e a cama confortável de Papyrus fosse uma boa opção, mesmo ele querer saber um pouco mais sobre o que estava acontecendo. Ele acenou que sim com a cabeça. Sans sorriu e apontou na direção do quarto. Papyrus se ofereceu para acompanhá-lo, mesmo sendo tão perto, mas Sans dizia que ele não poderia enrolar para fazer o spaghetti. Frisk resolveu entrar no quarto, mas se esforçou para tentar ouvir alguma coisa.
– Sans... Você não me parece bem. O que está acontecendo ?? O que era aquela luz no seu quarto ??
– Paps... Vai ficar tudo bem, eu só preciso que você não entre no meu quarto. Não por enquanto.
Papyrus não conseguia esconder a preocupação (e a curiosidade), mas aceitou e foi para a cozinha. Antes de entrar, a sala deu uma piscada em azul, e ouviu-se um som de porta batendo. Ele olhou para cima e viu que Sans entrou no quarto, assim como o garoto. Era ele e o spaghetti agora.
Mas a luz azul voltou.
– Heh, mano, e evite ficar sozinho com o Frisk. Por favor.
– Por que ??
Mas Sans entrou no quarto e bateu a porta antes mesmo de ouvir a resposta de Papyrus, que foi fazer o spaghetti para Frisk tentando entender alguma coisa.
– Cara, essa foi por pouco, ele chegou a notar minha presença !!
– Huh, relaxa, ninguém te viu não. Só notaram a luz.
– Espero. Enfim, já que um dos Frisks está aqui e vai ficar por um tempo, você vai ter que abrir os olhos.
– Mas eles já estão abertos.
Ambos dão uma risadinha breve. Sans ficou feliz por ter quebrado o clima tenso que havia antes do Papyrus voltar com o Frisk. O Sans da segunda dimensão resolveu procurar o da primeira, e estava dentro do quarto dele. Mas o Sans da primeira dimensão ainda queria entender melhor o que estava acontecendo antes de preocupar todo mundo com a chegada de um Frisk assassino de outra dimensão. a única diferença entre os 2 era que o da segunda dimensão usava um lenço idêntico ao de Papyrus. E justamente esse fez uma pergunta para o seu "outro eu", que disse "mas é claro" !! Rapidamente o "Sans 2" tirou o lenço que usava e abriu a porta do quarto, quase arrancando a mesma, descendo as escadas depois disso. Ele para na frente da cozinha, olha para Papyrus, e finalmente se aproxima.
– Hã... Mano ??
– Hah, Sans, que bom que saiu do quarto !! Agora pode me explicar o que está acontecendo ??
Sans 2 apenas abraçou Papyrus, chorando. Papyrus ficou meio surpreso, mas o abraçou também.
– Eu não sei o que está acontecendo irmão, mas eu posso ajudar ??
– Pode. Por favor, presta atenção no Frisk. Se ele estiver estranho, saia de perto. E evita ficar sozinho com ele.
– Essa parte você já falou...
– É que eu quis falar de novo, ela é importante, e você não pode esquecer.
Sans 2 solta Papyrus, sorri e sai de cena, subindo as escadas e entrando no seu quarto... Ou devo dizer "quarto do Sans 1" ?? Bah, esse negócio de dupla me confunde !! Enfim, Papyrus ficou sozinho novamente.
~ Toc Toc
Papyrus olhou para a porta da sala, que parecia isolada com tanta neve ao redor dela. A roupa dele ainda estava com a neve, mas ele teve certeza de limpar a do Frisk completamente. Ele era um bom amigo, não era ??
~ Toc Toc
Papyrus tentou imaginar quem poderia estar batendo na porta, mas não conseguiu pensar em ninguém.
– Quem é ???!!
~ Toc Toc Toc
– Por favor, m-me d-deixa entrar !! Está m-muito f-frio aqui fora...
Aquela voz era do Frisk. Papyrus pensou bem, mas não conseguiu imaginar uma criança sozinha em uma tempestade de neve. Ele abriu a porta e percebeu que não só tinha a voz do Frisk, como ERA o Frisk. O menino se assustou um pouco ao ver Papyrus (e vice-versa), mas entrou correndo na casa, completamente branco de tanta neve. Papyrus fechou a porta devagar enquanto olhava para o novo Frisk, ignorando a neve que entrava com o vento, aumentando ainda mais a mancha branca ao redor da porta. Frisk se sentou no sofá e ficou encarando o esqueleto. Ambos olhavam intensamente um para o outro, mas nenhum dos dois arriscou dizer uma palavra. O silêncio foi interrompido por um barulho repentino de porta abrindo. E com força. Era Sans.
– Aconteceu !!! De verdade !!! O outro Frisk está aqui !!!
O outro Sans saiu do quarto.
Papyrus ficou LOUCO ao ver 2 Sans.
– 2 FRISKS, 2 SANS... COMO ISSO É POSSÍVEL ??!!!?
Ao ouvir tanta gritaria, o Frisk que estava no quarto resolveu dar as caras. Todo mundo olhou pra ele. Um dos Sans, mas não sei mais qual porque nenhum deles estava com lenço, se atirou do segundo andar da sala e caiu no sofá, ao lado de Frisk. Depois se levantou e ficou perto de Papyrus.
– Não ousem encostar no Papyrus... E eu sei que um de vocês já fez isso uma vez !!! Eu já falhei uma vez, não vou falhar de novo !!!
Um dos olhos dele brilhava em azul e amarelo, dando um efeito de show de luzes na sala.
O Frisk que estava no sofá, meio assustado, se levantou e olhou para sua outra versão, que assistia a tudo do segundo andar, chocada.
– Calma irmão, está tudo bem...
O Sans que havia descido olhou para Papyrus e resolver desabafar, enquanto chorava. O Sans no segundo andar assistiu com um tom de tristeza.
– NÃO !!! NÃO ESTÁ TUDO BEM !!! UM DESSES FRISKS É UM ASSASSINO QUE VEIO DA SEGUNDA DIMENSÃO E ELE... E ele te matou nessa dimensão. Eu já te perdi uma vez, não quero perder de novo...
Papyrus ficou assustado com a afirmação, mas abraçou Sans, tanto para reconfortá-lo como para reconfortar a si mesmo. Seria difícil acreditar nisso se ele não estivesse vendo 2 Frisks.
– E, na verdade, seu irmão é aquele que está ali no andar de cima. Eu sou da segunda dimensão.
– Mas ainda é o Sans.
Frisk, mas não sei qual dos dois, acenou da porta, que ninguém percebeu que ele havia aberto. Ele segurava sua outra versão.
– Vocês são patéticos.
E ele bateu a porta. Então o Sans 1, no andar de cima da casa, resolveu fazer alguma coisa.
– Eu vou atrás deles !!
Mas o Sans 2 não deixou.
– NÃO !! Deixa eles comigo.
Então ele abriu a porta. A tempestade estava ainda pior do que estava antes. Papyrus e Sans 1 imaginaram Frisk nela e se sentiram mal.
– Por favor, eu quero ajudar !!
– E eu também !! O Frisk é nosso amigo, e não acho que ficar com essa outra versão dele vai ser bom pra ele.
– Não. Vocês estão bem assim. Não sei o que eu faria se algum de vocês acabasse mal. E, "eu", protege o Paps. Faça isso por você, por mim... E por ele.
– Pode deixar. Mas, ao menos... Acho que isso é seu.
Sans 1 entrega o lenço para o Sans 2, que o pega de volta, enrola no pescoço, agradece e sai na tempestade, a fim de encontrar os Frisks. Ele não queria que esse Frisk que estragou a vida na segunda dimensão causasse ainda mais problemas. Mas não precisou andar muito para ele ouvir uma voz. Uma voz familiar.
– Minha criança, por favor, está frio !!! Não continuem !!!
– Quem está aí ??!!
– Espera, tem mais um louco nessa tempestade ??!! Ei, reconheço sua voz !!
Sans consegue ver um tom de roxo na tempestade e se aproxima. Não dá pra identificar muito bem quem é.
– Você deveria estar nas Ruínas. Aqui é frio.
– É uma longa história, vamos andando.
– Sabe pra onde eles foram ??
– Essa direção.
Os dois vão TENTANDO se locomover naquela tempestade.
– Você quer o meu casaco ??
– Não precisa.
– A propósito, meu nome é Sans.
– Toriel.
– Poderia ter sido em uma melhor hora, mas foi um prazer finalmente te conhecer.
– Digo o mesmo.
Os dois continuam tentando andar um pouco mais. Devem ter andado uns 2 metros. Sans não aguenta o vento e cai, mas Toriel o ajuda a se levantar.
Tanto para os Frisks quanto para Sans e Toriel, estava difícil prosseguir. Nenhum Frisk falou nada (por enquanto), enquanto Sans e Toriel ficavam conversando o tempo inteiro. Toriel contou sobre o encontro das dimensões, e Sans disse que já sabia. Também disse ser da segunda. Toriel disse ser da primeira.
– Então você encontrou o Frisk "do mal" ??
– Yess... Eu ajudei ele também. Mas ele... Ele não negou lutar com meu irmão.
– Eu sinto muito...
~~ Mais Adiante ~~
– Então você mata todo mundo ??
– Sim.
– Por quê ?? O que aqueles que começaram a luta fizeram de mal pra você ??
– Começaram a luta.
– Mas... Você não consegue dar uma segunda chance ??
Eles param de andar. Onde estavam já não nevava tão forte, e dava para dar uma pausa se problemas.
– Isso é patético.
E eles prosseguiram, mas pararam de novo.
– E, além do mais, ouvi dizer que o lema daqui é "matar ou morrer".
Frisk reconhece essa frase de algum lugar...
