TIC Tac
TIC Tac
Chapter 14 min read

Único

T i c — T a c

—Por K.R.C.

Os relâmpagos se manifestam por trás de um conjunto de nuvens grávidas com tons que variam entre o preto e o branco. A chuva cai constante; pingando em gotas fortes, uma após a outra. O relógio-cuco clama por atenção em um furioso tic-tac que não passa despercebido momento algum por minha pessoa. O quarto é rústico e desapropriado para qualquer ser vivo —demasiadamente pequeno, com as paredes descascando em quase toda a sua extensão e um odor insuportável, que mais se parece com o cheiro de um morto que há muito entrou em decomposição.

Tento me concentrar no dedilhar de Edgar sob as teclas do piano, a única coisa que parece estar certa neste lugar. É impossível compreender a conexão misteriosa que o liga ao instrumento, como se ambos fossem um só. Certamente, devem ser. Não há outra maneira de explicar o fenômeno incomparável ao qual assisto com esmero, mesmo que seja uma espectadora momentânea.Muito momentânea.

Toco em seu ombro delicadamente e o vejo arfar por alguns instantes. Sei que ele ganhou alguns fios grisalhos, mas não pude evitar. Às vezes, tais deslizes são a diferença entre a vida e a morte de alguém. A pessoa respira com dificuldade, sentindo os pulmões inflarem ao infinito, como se fossem incapazes de absorver até mesmo a menor quantidade de oxigênio. Depois, coloca as mãos no peito e o pressiona, tentando reagir a tudo aquilo.

Não consegue, obviamente.

A vantagem que possuo nisso tudo é apenas uma: poder assistir pequenos fragmentos de suas vidas. Não há como escolhê-los; eles vêm aleatórios, desenfreados e, na maioria das vezes, não sou capaz de compreendê-los. Mesmo assim, abraço-os quando caminham em minha direção.

E é o que faço quando a memória daquele homem escapa de suas vistas direto para meu encalce.

Estou em uma casa que me é familiar. Devo tê-la visitado pelo menos alguma vez durante toda a minha existência porque, apesar da poeira, do mofo e da falta de iluminação terem acabado com o local, sinto que já passei por lá. Edgar está sentado em uma escrivaninha enquanto rabisca alguma coisa que acredito ser um poema. Não é nenhuma surpresa, visto que ele o fazia com frequência antes de se entregar à bebida. Antes da morte de Virgínia, sua amada esposa.

Virgínia. O nome ecoa por meus pensamentos, confirmando o que havia suposto. Já estive ali, sim. Foi para observá-la durante horas a fio enquanto ela se afogava em uma crise de coqueluche e cuspia uma quantidade assustadora de sangue. Não passava dos vinte e cinco anos, mas a tuberculose a levou cedo.

E levou a alma de Edgar também.

Concentro-me novamente na lembrança. Tenho a ligeira impressão de que é recente, talvez de dois, três meses atrás. Só não entendo o motivo de ele estar escrevendo. Estaria sóbrio o suficiente para estar ciente de suas ações? Ou havia sido seu passado amargo que lhe arrastara até as ruínas, levando nada além de papel, pena e tinteiro? Aproximo-me com a curiosidade em níveis alarmantes, tentando ler sob o seu ombro.

Para a Morte

Sei que vai me buscar em breve. Eu não a culpo, e sequer estou acordado o suficiente, depois de horas me entorpecendo com álcool. Acredito que estão faltando uns pontos e muita coerência nessa minha fala, mas venho te pedir um único favor: leve-me até a minha doce e singela Virgínia, seja lá onde ela estiver.

Poe

Ele dobra o papel em duas, três partes, e o coloca no bolso do paletó. A imagem fica turva e começa a desaparecer diante de meus olhos. Esse é o sinal de que a lembrança está no fim.

Quando volto ao quarto deteriorado, percebo que o cômodo havia silenciado; exceto pelo relógio espalhafatoso. Limpo a garganta, sentindo que a mesma estava guardando uma porção de palavras afetuosas que deveria ter dito, mas que me foram proibidas —assim como quaisquer formas de suicídio que eu pudesse tentar colocar em prática em mim mesma. Então escuto pela última vez o barulho que me faz voltar à realidade. Pego a sua alma no colo e o levo para o mais longe que posso.

Tic-tac.

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