Human nature
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Chapitre 312 min de lecture

Capítulo 3

Depois de ter sido pega ao voltar da Tardis, Donna achou melhor evitar ficar muito tempo fora nas manhãs que se seguiram. Numa cidade tão pequena as pessoas sempre falavam demais e a ruiva já tinha problemas suficientes tentando se adaptar a 1913. Só sua personalidade já tinha lhe rendido alguns bons escândalos desde que ela e o Doutor haviam chegado na escola, então Donna estava se esforçando para não virar assunto das fofocas, ou pior, levantar alguma suspeita dos moradores da região. Assim, a ruiva tinha que se contentar com um banho e um lanchinho rápido na Tardis antes de voltar à escola, o que era uma pena, porque Donna não tinha a mínima ideia do que fazer para se distrair de manhã.

Um dia, ao entrar no escritório do Doutor, Donna encontrou Jenny, que estava limpando a estante. Jenny era uma das faxineiras da escola. Ela tinha mais ou menos a altura da ruiva e cabelos castanhos enrolados. Estava sempre com um sorriso no rosto, sempre gentil.

— Srta. Noble, você já está de volta?

— Jenny, nós já conversamos sobre isso de Srta. Noble. Parece que eu estou gritando para o mundo todo que eu sou solteira. Me chama só de Donna, é bem melhor assim.

Jenny riu. Ela achava a Srta. Noble uma mulher estranha, mas divertida. Todos diziam que ela era uma daquelas sufragistas de Londres, como as que apareciam no jornal. Tinha umas ideias muito estranhas para uma mulher, era gentil com os empregados, e estava sempre na cozinha ouvindo as fofocas.

— Tudo bem… Senho... Donna. Desculpe, mas ainda é um pouco estranho te chamar só de Donna. Não é comum por aqui.

— Você se acostuma — Donna sorriu — E então, Jenny? Como está o trabalho hoje?

— Muita limpeza, como sempre.

— Aqueles moleques ainda estão te incomodando? — perguntou Donna, cruzando os braços.

— Só de vez em quando. Mas melhorou muito depois daquele dia… — a mulher riu.

Donna riu também, lembrando de quando conheceu Jenny. A moça estava limpando o chão perto das escadas, quando dois meninos a humilharam. Eles a chamaram de gorda e riram dela, com aquele ar de superioridade estúpido que os riquinhos costumam ter. Donna estava passando por lá naquele momento, quando ouviu a brincadeira dos rapazes e se segurou para não dizer o que estava pensando. Ainda assim, sendo ela quem era, não podia deixar os dois saírem impunes. Foi um pequeno acidente, quando um dos rapazes, o líder aparentemente, tropeçou no pé de Donna enquanto se virava para continuar o caminho. Foi uma completa coincidência Donna ter colocado o pé exatamente onde ele iria passar.

— Você está bem? Tome cuidado, quase perdeu sua educação lá atrás — ela disse, sarcasticamente.

O rapaz olhou para Donna com desprezo e pensou em respondê-la, mas não se atreveu a ofender a secretária do Sr. Smith, então apenas se levantou, saindo em seguida. Donna sorriu vitoriosa e piscou para Jenny enquanto passava, deixando claro que estava ao lado da faxineira. Desde então Jenny passou a admirar a ruiva, decidindo que também se tornaria uma sufragista como ela.

— Ótimo — disse Donna, ao saber que os alunos estavam se comportando melhor — Jenny, me diga se algum deles fizer algo contra você ou qualquer uma das meninas. Eu não vou deixar esses garotos tratarem os outros como bem entenderem.

— Obrigada, senhorita… Donna. Mas não precisa se preocupar.

Donna cruzou os braços, olhando os montes e o bosque se estenderem até a linha do horizonte. Ela suspirou, entediada. Por ter voltado mais cedo, teria que descobrir o que fazer antes que o Doutor voltasse da aula. Ela se aproximou da mesa dele, percebendo o Jornal de Coisas Impossíveis que o Doutor estava escrevendo com todos os seus sonhos. Donna sabia que não era certo olhar, mas ficou curiosa, aquela vontade de fazer algo proibido. Ela se convenceu de que não seria tão ruim espiar rapidinho. De qualquer forma, o Doutor já havia lhe mostrado o diário outras vezes, então provavelmente não faria mal ver de novo, certo? Ela estava curiosa sobre o que ele teria escrito sobre ela. Não era nem um pouco justo que ele não tivesse lhe contado sobre seus sonhos com ela com o mesmo detalhamento dos sonhos com outros companheiros.

Havia uma parte nova, que Donna ainda não havia visto. A ruiva correu os olhos, procurando seu nome, mas nas aventuras daquele trecho o Doutor estava sozinho no Titanic. Donna ficou surpresa. Então aquilo do Titanic no Palácio de Buckingham era verdade mesmo? Bem que seu avô tinha lhe avisado! Na época ela achou que aquilo era besteira e nem se importou em perguntar mais. Mas claro que o Doutor estava envolvido! Ele sempre se envolvia com os casos mais insanos. E havia uma garota também. Loira… Grande novidade!

Donna virou a página, curiosa para saber mais sobre a história, quando foi surpreendida por um desenho seu. Lá estava ela, com o cabelo meio-preso e o vestido de noiva, exatamente como no dia em que apareceu na Tardis. A figura sorria, como se a observasse. Apesar de Donna se reconhecer naquele pedaço de papel, não era exatamente ela alí. A Donna do desenho era linda, com um olhar determinado, mas um sorriso doce. Ela deixou escapar um suspiro, com inveja do desenho.

— Está tudo bem? — perguntou Jenny.

Donna finalmente se lembrou que ela não estava sozinha no quarto. Disfarçando seu pequeno pecado, Donna devolveu o caderno para seu lugar.

— Está... Sim — ela disse, com um sorriso.

Não passou despercebido para Jenny as bochechas coradas de Donna.

— Este caderno é do Sr. Smith, não é?

— Ah, sim. É… — disse Donna, tentando disfarçar. Ela se sentia culpada por estar bisbilhotando as coisas do Doutor com outra pessoa no quarto.

— Vocês são muito próximos, não é?

— Sim, nós somos grandes amigos — disse Donna, sorrindo. Os melhores amigos de todo o universo, ela e o Doutor.

— Você gosta dele? — perguntou Jenny, curiosa.

— As pessoas costumam gostar dos seus amigos, Jenny — disse Donna, rindo.

— Não, eu quero dizer gosta mesmo. De estar apaixonada.

— Ei! Cuidado, Jenny! — disse Donna, indignada com a suposição da moça.

— Desculpa, eu fui longe demais — disse Jenny, corando e abaixando a cabeça. Ela estava assustada e Donna percebeu. A pobre moça provavelmente estava com medo que Donna quisesse demiti-la por ter sido muito intrometida. Donna sabia exatamente qual era a sensação.

— Desculpe meu jeito brusco — disse Donna, sorrindo — É só um jeito de falar meu, a tonta. Eu falo assim com meus amigos e esqueço que aqui as coisas são diferentes.

Jenny sorriu.

— Eu e o Sr. Smith somos amigos. Só amigos. Quando eu o conheci ele gostava de uma moça. Eu acho que ele ainda gosta dela, na verdade, mesmo que ela esteja longe agora. E eu — Donna riu — Bom, eu estava prestes a casar.

— Você é casada? — perguntou Jenny, surpresa.

— Ah, não! Eu até queria na época, mas não deu certo. O maldito me trocou por outra — Donna se lembrou da Imperatriz Racnoss com um arrepio. De todos os seus relacionamentos fracassados, aquele tinha terminado da maneira mais esquisita. Pior que o cara da galinha que ela conheceu no Joe's.

— Ah, eu entendo… Eu também gostava de um rapaz quando era moça, mas ele acabou casando com a Mary, filha do Sr. Bernards, só porque ele era dono do armazém.

— Homens… — disse Donna, revirando os olhos, e Jenny riu.

— Eu tenho que ir agora, senhorita. Obrigada pela conversa, foi muito divertido.

Donna sorriu, assentindo. Ela percebeu que Jenny havia a chamado de senhorita de novo, mas não chamou sua atenção. Talvez ela se sentisse mais confortável assim, e Donna não iria pressioná-la. A ruiva finalmente ficou sozinha, mas ela não quis voltar a bisbilhotar nas coisas do Doutor. Na verdade ela se decidiu por adiantar seu trabalho da tarde, assim lhe sobraria tempo para tentar fazer a torta congelada que ela havia trazido da Tardis naquela manhã. A ruiva mal se sentou na cadeira do Doutor quando ele e a Sra. Redfern entraram na sala apressados.

— Donna! Que bom que está aqui — ele disse, sorrindo.

— O que aconteceu? — ela perguntou, percebendo que John sentou-se no sofá, enquanto a Sra. Redfern mexia em seu cabelo.

— John caiu da escada — disse a enfermeira.

Donna correu para vê-lo. A última coisa que Donna precisava era um Senhor do Tempo machucado. O Doutor iria matá-la quando descobrisse. Iria dizer que ela não cuidou direito do seu “lindo corpo”. Tão arrogante! Para um homem tão magro, Donna não sabia como ele conseguia ter um ego daquele tamanho. Ele deveria ser como a Tardis.

— Eu vou precisar das minhas coisas. Volto logo — disse a mulher.

— Não é nada, eu estou bem… — protestou John, apesar de estar gostando da atenção.

Donna abaixou-se e colocou sua mão sobre a dele.

— Como você está se sentindo? Consegue me ver? Quantos dedos eu tenho aqui? — ela perguntou mostrando três dedos com a mão.

— Três — ele disse, revirando os olhos — Donna está tudo bem comigo, eu te vejo perfeitamente.

— O que você entende sobre isso? Você nem é médico de verdade! Talvez seja bom fazer uma tomografia. Será que já inventaram isso por aqui? — ela disse, sem prestar muita atenção no que estava falando.

John Smith sorriu. Ele gostava que Donna estivesse preocupada com ele daquele jeito. Ela sempre era direta e até um pouco rude às vezes, mas naquele momento ela estava só carinho e atenção.

— Donna, se acalme… Eu estou bem — ele disse, se levantando, para provar seu ponto.

— É melhor você ficar quietinho aí ou vai ver o que eu faço com você — disse Donna, puxando-o de volta para o sofá. Era melhor que ele não fizesse mais nada de estúpido, ou a ruiva jurava que o mataria, só por deixá-la preocupada.

— Sim, senhora — ele bateu continência com um sorriso brincalhão.

A enfermeira voltou com uma maleta e pegou suas ferramentas de trabalho. Depois de colocar luvas, ela embebedou um algodão numa garrafa de unguento e passou sobre a cabeça do Doutor. Ele reclamou.

— Não é melhor levá-lo ao hospital? — perguntou Donna.

— Não é nada, só um galo. Não se preocupe, Srta. Noble, eu sei fazer o meu trabalho.

Donna se segurou para não falar o que aquela mulher merecia ouvir. Não ajudaria nada, de qualquer forma.

— Pronto. Não foi nada — disse a enfermeira, com um sorriso — Agora eu recomendo que descanse, John. Nada de trabalho por hoje.

A sobrancelha de Donna subiu uns bons centímetros. John? Desde quando a Enfermeira Redfern chamava o Doutor de John, só John? Nem ela mesma chamava o Doutor assim!

— Bom, devo voltar ao meu serviço. Com licença — disse a enfermeira e Donna ficou aliviada em ver que a mulher havia ido embora. Ela então se voltou ao Doutor e deu um belo tapa no seu braço.

— Ai! O que foi isso? — ele perguntou, surpreso.

— Nunca mais me assuste desse jeito, ouviu? Como você pode ter caído da escada, seu burro?

O Doutor estava sempre correndo de monstros e criaturas estranhas, todos aqueles aliens que planejavam o fim do universo, e sempre sobrevivendo sem o menor arranhão. Mas o atrapalhado John Smith tinha que cair da escada sem fazer absolutamente nada de perigoso. A última coisa que Donna precisava era um Senhor do Tempo humano morto por uma escadaria.

— O que você tinha na cabeça? — ela perguntou, indignada.

— Eu estava conversando com a enfermeira Redfern e caí. Mas está tudo bem agora.

Claro que ele estava conversando com a enfermeira… Donna deveria saber melhor. Se o Doutor fazia algo estúpido é porque havia uma mulher envolvida. E aparentemente o humano John Smith também era assim, porque ele já estava atraído pela loira. Pudera, ele era homem afinal, agora mais que antes, e Donna sabia por experiência própria que todos eles eram assim.

— Bom, você deve fazer o que ela recomendou e descansar. Deixe que eu trabalho hoje — ela disse, sentando-se na mesa do Doutor. A máquina de escrever já estava lá de qualquer jeito. Donna então reparou que John Smith se virou de frente para ela, observando-a fazer seu trabalho com um sorriso estúpido.

— O que você quer? — ela perguntou, sem paciência.

— Obrigado por se preocupar comigo… — ele disse, sorrindo.

— E quem disse que eu estou preocupada com você? Eu estou preocupada comigo! Se você morrer, onde eu vou trabalhar? — ela perguntou.

O problema era maior que o trabalho. Donna pensou que, se ele morresse, ela não saberia nem pilotar a TARDIS para voltar para casa. Ela também não conseguia mais pensar na existência de todo o universo sem o Doutor para protegê-lo. Além do mais, eles eram amigos, melhores amigos, e ela se preocupava com aquele alienígena estúpido e desastrado, mesmo que naquele momento ele fosse apenas humano. Talvez ela se preocupasse ainda mais por conta disso.

Mesmo depois de uma das respostas sarcásticas de Donna, John não deixou de sorrir. Ele continuou a observá-la com aquele sorriso bobo por algum tempo enquanto Donna trabalhava. John gostava de vê-la datilografar, seus dedos rápidos dançando pelas teclas. Ele admirava sua destreza. Na verdade, era muito mais que isso. John não conseguia pensar em uma única coisa que não gostasse em Donna Noble.