A primeira carta foi uma tentativa falha, quase um erro, dada as suas condições: Estava sentando no chão, na madeira fria, a folha estava gasta, de cor amarelada, a pena estava quase quebrada o vexilo estava caindo, e a tinta estava acabando. Levantando-a com cuidado, sujou o papel de preto pelo excesso de tinta na ponta. Amassou o papel com suas mãos e jogou fora, atirando contra a parede com raiva.
Ele inalou profundamente passando a mão pelos cabelos mal cortado e percebeu que fedia. Encostando de volta na parede do quarto, ele apoiou as duas mãos em seus joelhos encarando bem as suas calças. Hans não lembra a última vez que tomou um banho descente, de ter usado sabonete, ou perfume, de ter cortado a barba e o cabelo. O homem nunca mais tinha se olhado para o espelho desde que sua família julgou certo ele pagar por tentar ser rei, e se olhasse, com certeza não veria suas sardas.
O ruivo soltou uma risada sem graça. Sua família, se ele pudesse ao menos se referir a ela assim, eles mereciam as cartas. Seus dedos coçaram para escrever, precisava escrever. Mesmo que suas costas doerem, mesmo que os músculos formigarem, e suas pernas tremerem. Não importa, nada importava. Ele também precisava dormir, mas não tinha quem mandasse. Hans cairia de exaustão depois, enquanto limpava fezes de cavalo.
Pelo menos uma coisa na sua vida, ele tinha o controle. O controle falso, pois seu corpo conspirava contra ele.
Seu corpo estava tenso, o homem passou a mão pelo pescoço enquanto lutava para não fechar os olhos já pesados. — Passou dias? Meses? Anos? Desde que quase matou toda a família real de Arendelle. Elas também mereciam suas cartas. — Ele não se importaria menos, não foi culpa dele, se ele aproveitou a oportunidade. E com isso, tudo deu errado.
Se ele tivesse pensado melhor nas entrelinhas.
Hans pegou o papel que jogou no chão, e pôs em cima da mesa, arrastou o banco de madeira que não tinha apoio, que lhe causava dores de coluna, e pegou o próximo papel, a luz de velas, debaixo de suas unhas tinham terra, lembrando do trabalho árduo que teve que realizar. Mergulhando a pena na tinta, ele começou a escrever tudo o que estava ecoando na sua cabeça, discorrendo no papel, tal como água deslizando sobre a pedra. Era para sua vida ser fácil assim, como escrever informalmente em folhas, em cartas que ele nunca enviaria.
"Para todas as pessoas que tiveram a infelicidade de me conhecer, e que eu tive o azar de presentear com a minha presença.”

