Enfeite de festa deveria ser o sinônimo de algumas modelos.
Modelos eram convidadas para ir a festas o tempo todo, porém me senti deslocada no meio daquele salão. O ano era 1976. Estrelas do cinema, da música e da fotografia passavam ao meu lado, mas, pelo bem da minha dignidade, não fiz nenhum movimento histérico, nem pedi autógrafo.
O vestido preto e justo era incômodo; minha cabeça doía e eu não queria beber; mas mesmo assim beberiquei a taça de champanhe. Você deve parecer bonita, e apenas,lembrei das palavras da minha mãe. Meu salário sustentava a família inteira, e só por isso continuava naquele trabalho. Eu não era aquela criatura tão superficial. Eu realmente odiava as sessões de fotos. E nem possuía aquela arrogância toda. Mas quando se tem quatro bocas para alimentar, não se pode pensar nesse tipo de coisa.
Demorei um pouco para perceber que alguém me olhava. No meio das luzes e da fumaça, quase não consegui enxergar seu rosto felino. O cabelo era laranja, escovado para trás; o olhar expressivo e o sorriso irônico. Ele era magnífico, exalava sensualidade. Tão irresistível. E seu sorriso era bem sugestivo.
Em poucos passos, veio até mim.
— Olá. – seu sotaque inglês me deu arrepios.
— O-olá... – gaguejei, e o sorriso dele aumentou – Desculpe, eu não estou acostumada com isso – acrescentei depois de uns momentos ‑ Modelo iniciante. Meio nova no ramo das festas.
— Bem, percebi isso. Você me parece deslocada... E triste. Mas há algo de especial em você. A maioria das garotas que vêm a estas festas é superficial, burra, mas você não me parece fazer parte dessa maioria — ele apontou por sobre o ombro, em direção as mulheres maravilhosas ás suas costas.
Eu não sabia se aquilo era elogio ou gozação, então permaneci quieta. De perto, pude ver que seu olho esquerdo tinha a pupila dilatada. Com aquela luz, parecia verde; enquanto o direito brilhava azul para mim.
— Olha, sinceramente, não estou interessada.
— Não posso dizer que é prazeroso quando não me reconhecem. Meu nome é Jones. O seu é...? – ele tomou a minha mão enquanto ignorava minha frase, seu toque era frio.
‑ Lucinda. E eu sinceramente não estou interessada — Era mentira. Eu estava muito interessada, mas não fez diferença, pois isso não o afastou.
‑ Viu? Personalidade forte. Incisiva. Você é como um diamante no meio de bijuterias falsas. Algo me diz que não gosta dessa vida, tão... – ele deixou a frase suspensa, mas eu entendi.
Tão vazia.
Conversamos por muito, muito tempo, e eu nem sei como. Ele era tão inteligente; sua conversa era interessante, e eu simplesmente não resisti. A sensação de solidão aos poucos se dissipava. Era um pouco alheio, mas ainda perfeito. Ás vezes se distraía e então voltava a atenção á mim, com um sorriso estonteante. Eu sei o que estão pensando: BURRA, com certeza vai ser estuprada num beco escuro por ser tão IDIOTA.
Eu era uma garota do interior, sozinha na cidade grande, com sorte por já ter um bom agente e uma carreira encaminhada. Eu me sentia vitoriosa. E Jones simplesmente não aceitava recusas.
Fiz uma careta para a música alta que machucava meus ouvidos.
Ele pareceu entender o gesto. Estendeu uma mão para mim, como quem diz “Me segue?”. E eu o segui, não pensei duas vezes. Não há explicação para todas as coisas da vida. Eu seguiria o homem aonde quer que ele fosse.
Um homem alto e musculoso nos parou no meio do caminho.
‑ Senhor, a repórter está te esperando...
Famoso? A ponto de quererem entrevistá-lo? Eu não estava surpresa (todos naquela festa aspiravam ou possuíam fama), mas mesmo assim foi como um soco em minha face. E então, quando eu já havia soltado a mão dele, aceitando minha derrota silenciosamente; ele a pegou de novo e disse:
‑ Remarque para amanhã. Diga que estou ocupado.
O “Mas, senhor...” foi ignorado. Segui-o pelas escadas como quem flutua em direção ao paraíso.

