Na manhã seguinte, Draco encontrou sua xícara nas mãos de Harry Potter.
Parou à entrada da cozinha.
Harry estava encostado à bancada, descalço, de calça de moletom e uma camiseta cinzenta. Tinha o cabelo úmido e segurava, pela asa, a xícara que Draco trouxera de Mayfair porque não pretendia passar semanas tomando chá em canecas promocionais.
Havia seis delas no armário. Duas anunciavam competições de natação, uma tinha a alça lascada e outra era grande o suficiente para servir sopa.
— Bom dia — disse Harry.
Draco olhou para a xícara.
Harry acompanhou seu olhar.
— Fiz chá.
— Estou vendo.
— Tem mais no bule.
Draco se aproximou. O bule estava destampado.
Colocou a tampa.
Harry bebeu mais um gole.
— Comprei aquele de ontem.
Draco olhou para a caixa ao lado da chaleira.
Darjeeling.
— Comprou?
— Gostei.
Por um instante, a cozinha pareceu um lugar bastante aceitável.
— E esta é a minha xícara — disse Draco.
Harry baixou os olhos.
— Ah. Desculpe.
— Não estou exigindo que interrompa o uso.
— Está olhando como se estivesse.
Draco abriu o armário e examinou as opções.
— Não há xícaras?
Harry olhou para a que segurava.
— Além dessa — esclareceu Draco.
Harry tirou uma azul da prateleira de cima.
— Essa estava escondida.
— Atrás de um copo, Potter.
Draco recebeu a xícara, serviu-se e provou o chá.
— Quanto tempo deixou em infusão?
Harry pensou.
— O tempo de fazer torrada.
Draco pousou a xícara.
— É necessário que tenhamos uma conversa.
***
Ao fim de oito minutos, Harry já sabia que “até ficar escuro” não era um critério, que recolocar água nas mesmas folhas não resolveria necessariamente o problema e que Draco não estava zangado.
Esse último ponto fora esclarecido três vezes.
— Você sempre explica as coisas assim? — perguntou Harry.
— Assim como?
— Como se eu fosse ser examinado depois.
Draco abriu o pote de geleia.
— Você perguntou.
— Perguntei se estava ruim.
— E eu expliquei por quê.
Harry olhou para o bule.
— Vou tentar de novo amanhã.
Draco encontrou uma faca limpa.
— Não precisa.
— Quero.
Ele espalhou geleia na torrada com mais atenção do que a tarefa exigia.
Harry olhava para ele por cima da xícara roubada.
— Você já foi nadar? — perguntou Draco.
— Já.
Draco consultou o relógio da cozinha.
— A que horas?
Harry respondeu.
Draco parou com a faca sobre a torrada.
— Voluntariamente?
— É meu trabalho.
— Ainda assim.
Harry riu.
Havia uma bolsa aberta junto à porta, com um par de óculos de natação aparecendo no bolso lateral. Draco olhou para o cabelo úmido, depois para a bolsa.
— E vai voltar?
— Mais tarde.
Era preciso reconhecer certa coerência entre aquela rotina e o homem que Draco vira nas competições. Isso o tranquilizou por alguns segundos.
Harry recolheu da bancada uma torrada muito escura, raspou-a com uma faca e comeu.
A tranquilidade passou.
— Vai estar em casa hoje à noite? — perguntou.
— Provavelmente.
— Podemos jantar juntos.
Draco ergueu os olhos.
— Aqui?
— É onde fica a cozinha.
— Sei onde fica a cozinha, Potter.
— Então está combinado.
Harry deixou a xícara na pia.
— Vou fazer alguma coisa.
— Isso é bastante abrangente.
— Jantar — esclareceu Harry. — Alguma coisa para jantar.
Antes que Draco pudesse perguntar o quê, ele já estava no corredor.
Draco olhou para a pia.
A xícara estava lá dentro, com uma colher.
Retirou a colher.
***
Às onze e vinte, o empreiteiro ligou.
Draco recebeu a notícia em pé, junto à janela da sala.
— O que significa “não é exatamente o mesmo”?
Ouviu a explicação.
— Eu sei que pedras naturais variam. Foi por isso que escolhi aquela.
Outra explicação.
— Então estamos concordando que a que chegou não é a que escolhi.
Harry tinha uma pequena mesa junto ao sofá. Sobre ela havia duas revistas, um controle remoto, uma conta dobrada e uma medalha com a fita enrolada.
Draco afastou a conta de cima da medalha.
— Não, não pode instalar para eu ver como fica.
Sentou-se.
— Porque depois estará instalado.
Quando desligou, escrevera três mensagens, marcara uma visita à obra e decidira que jantaria fora.
Às seis e quarenta, porém, ouviu Harry chegar à cozinha com sacolas.
Draco estava no andar de cima. Desceu apenas para perguntar se ele precisava de alguma coisa.
Harry tinha arregaçado as mangas de uma camisa azul e espalhado as compras sobre a bancada.
— Comprei limão — anunciou.
Draco olhou para ele.
— Parabéns.
— E outras coisas.
Havia peixe, batatas, uma embalagem de vagens e uma sobremesa dentro de uma caixa de confeitaria.
Draco pousou a mão no encosto de uma cadeira.
— Você cozinha?
— Duas ou três coisas.
— Quais?
— Hoje, esta.
Harry tirou as batatas da sacola.
Draco ficou.
***
O primeiro problema foi a faca.
— Não há outra? — perguntou Draco.
Harry ergueu a que segurava.
— O que tem essa?
— Está cega.
— Cortou a batata.
— Com esforço.
Harry olhou para a batata cortada, depois para ele.
— Ela não reclamou.
Draco abriu uma gaveta.
O segundo problema foi o tamanho dos pedaços.
— Esses vão cozinhar antes daqueles.
— Então tiro antes.
— Poderia cortar do mesmo tamanho.
Harry lhe entregou a faca.
— Pode fazer essa parte?
Draco olhou para o cabo.
— Posso.
Dez minutos depois, tinha produzido seis pedaços de batata e uma quantidade considerável de observações sobre os utensílios.
Harry recolheu um pedaço da tábua.
— Este é maior.
— Não significativamente.
Colocou-o ao lado de outro.
Draco pegou a faca de volta.
— Estou terminando.
Harry foi cuidar do peixe.
Por algum tempo, trabalharam em silêncio. Harry abriu a embalagem de vagens, ligou o forno e tirou uma assadeira do armário. Draco se afastou para deixá-lo passar; Harry pousou a mão brevemente em suas costas.
— Obrigado.
Draco cortou a última batata em três pedaços.
Examinou os resultados.
Reuniu-os na assadeira.
— Seu empreiteiro ligou? — perguntou Harry.
— Ligou.
— Más notícias?
— Notícias absurdas.
Harry sorriu.
— Qual foi a de hoje?
Draco começou pela pedra errada e terminou numa avaliação da palavra “equivalente”, que lhe parecia ter adquirido um significado inteiramente novo desde o início da obra.
Harry ouviu enquanto espremia um limão.
— E o homem queria instalar mesmo assim? — perguntou.
— Para eu ver como ficava.
— Mas aí já estaria instalado.
Draco se virou para ele.
— Exatamente.
Harry assentiu com muita seriedade.
Draco desconfiou.
— Você está rindo de mim?
— Ainda não.
Harry pegou uma vagem.
— Esta precisa ser cortada?
***
O jantar ficou pronto vinte minutos depois do horário previsto por Harry, mas ninguém morrera e o peixe parecia perfeitamente comestível.
Draco pusera a mesa.
Encontrara pratos sem inscrições, dois guardanapos de tecido e taças.
Harry entrou com a assadeira e parou.
— Ficou bonito.
— Você tinha as coisas.
— Eu sei. Só não costumo…
Fez um movimento vago em direção à mesa.
Draco ajustou um talher.
— Não foi uma grande intervenção.
— Gostei.
Harry colocou a assadeira no centro e puxou uma cadeira para Draco.
Draco sentou-se.
O peixe estava bom. As batatas também.
Ele comeu mais um pouco antes de dizer:
— Você poderia ter colocado menos limão.
Harry provou novamente.
— Gosto assim.
Draco olhou para o prato dele.
— Percebi.
— Mas ficou bom?
— Ficou.
Harry sorriu com uma satisfação que Draco achou desproporcional ao comentário.
Serviu-lhe mais batatas.
— Você vai trabalhar amanhã? — perguntou.
— Vou à obra.
— E depois?
Draco ergueu a sobrancelha.
— Tem outra refeição planejada?
Harry riu.
— Estou tentando descobrir o que você faz quando não está aqui.
— Há uma quantidade bastante grande de coisas para fazer fora da sua casa.
— Você trabalha com seu pai?
Draco pousou o garfo.
— Às vezes.
Harry esperou.
— Há reuniões às quais compareço — acrescentou Draco. — Documentos que preciso ler. Pessoas que insistem em explicar esses documentos depois que já os li.
— Você gosta?
— Dos documentos?
— Do trabalho.
Draco pensou por um instante.
— De algumas partes.
— Quais?
Era uma pergunta simples. Ainda assim, ele não se lembrava da última pessoa que a fizera.
Falou de uma negociação recente, de algo que conseguira corrigir antes de chegar ao pai e de um diretor que tinha o hábito de repetir informações que ninguém contestara.
Harry ouviu.
Quando Draco percebeu que vinha falando havia algum tempo, pegou a taça.
— Mas certamente não é o assunto que você imaginava para o jantar.
— Você fica muito satisfeito quando conta a parte em que o diretor precisou admitir que estava errado.
— Porque ele estava errado.
— Sim. Essa parte ficou clara.
Draco tentou não sorrir. Não conseguiu inteiramente.
Harry reparou.
— Você devia fazer isso mais.
— O quê?
— Sorrir.
Draco bebeu água.
— Precisaria ter mais motivos.
Harry se inclinou um pouco para a frente.
— Estou tentando.
Por um segundo, Draco não encontrou nada apropriado para dizer.
Então olhou para o peixe.
— O jantar foi uma iniciativa razoável.
Harry baixou a cabeça, rindo.
Draco procurou outro assunto.
— Quando é sua próxima competição?
Harry lhe disse e perguntou:
— Você acompanha?
— Ocasionalmente.
— Pela televisão?
— É onde costumam transmitir.
Harry sorriu.
— Podia ir a uma.
— Já fui.
Harry pousou o garfo.
— Foi?
Draco pegou uma vagem.
— Hélène tinha ingressos.
— Qual?
Ele respondeu.
Harry ficou olhando para ele.
— Essa foi no ano passado.
— Sim.
— Antes de a gente se conhecer.
— Eu não precisava conhecê-lo para assistir.
— Não. Só não sabia que você tinha ido.
Draco comeu a vagem.
— Você ganhou.
— Ganhei.
— Embora a entrevista depois tenha sido terrível.
Harry soltou uma risada.
— Eu estava cansado.
— Você respondeu “sim” a uma pergunta que começava com “como”.
— Lembra disso?
Draco se serviu de água.
— Foi uma resposta muito inadequada.
Harry ainda sorria.
— Na próxima, vou tentar fazer melhor.
***
A sobremesa era uma torta de maçã.
— Não fui eu que fiz — disse Harry.
— Eu vi a caixa.
— Só para não criar expectativas para a próxima.
Draco, que estava recolhendo os pratos, parou.
— Próxima?
Harry abriu um armário à procura de pratos menores.
— Podemos jantar juntos de novo.
— Se eu estiver aqui.
Harry olhou para ele.
— Ainda quer ir para um hotel?
Draco colocou os pratos na pia.
— Não tomei nenhuma decisão.
— Certo.
Harry encontrou os pratos, mas não se afastou.
— Eu gosto de ter você aqui.
Draco virou-se.
Harry tinha dito aquilo com a mesma naturalidade com que anunciara a sobremesa.
Ele esperou por alguma coisa que completasse a frase.
Não veio.
— A casa tem uma boa disposição — respondeu Draco. — O quarto é confortável.
Harry olhou para os pratos em suas mãos.
Depois para ele.
— Fico contente.
— E a distância de Mayfair é administrável.
— Bom saber que estou numa localização aceitável.
Draco percebeu o sorriso.
— Não foi isso que eu…
Seu telefone começou a vibrar na sala.
Ele deu um passo naquela direção.
Parou.
— Deve ser o empreiteiro.
— Pode atender.
O telefone continuou vibrando.
Draco olhou para o relógio do forno.
O homem tinha prometido ligar duas horas antes.
— Pode esperar.
Harry cortou a torta.
***
Uma hora depois, o chá estava pronto.
Harry colocara a tampa no bule.
Também devolvera a xícara de Draco, limpa, ao seu lugar.
Draco notou as duas coisas e não comentou nenhuma. Harry, entretanto, acompanhou seu olhar.
— Acho que passei.
— Ainda não provei.
Harry sentou-se à sua frente.
Draco levou a xícara à boca.
O chá estava melhor.
— Aceitável — disse.
Harry sorriu.
O telefone de Draco anunciou uma mensagem.
Hélène.
Encontrou outro lugar?
Draco olhou para a tela.
Do outro lado da mesa, Harry procurava a colher que acabara de pousar ao lado do próprio prato.
Draco indicou-a.
— Ah. Obrigado.
Ele digitou:
Ainda estou considerando.
A resposta veio quase imediatamente.
O hotel ou a casa de chá?
Draco bloqueou o telefone.
— Tudo bem? — perguntou Harry.
— Hélène está sendo inconveniente.
— Ela faz isso.
— Com uma regularidade impressionante.
Harry riu.
Draco serviu mais chá.



