Tea
Tea
Chapter 210 min read

II

Na manhã seguinte, Draco encontrou sua xícara nas mãos de Harry Potter.

Parou à entrada da cozinha.

Harry estava encostado à bancada, descalço, de calça de moletom e uma camiseta cinzenta. Tinha o cabelo úmido e segurava, pela asa, a xícara que Draco trouxera de Mayfair porque não pretendia passar semanas tomando chá em canecas promocionais.

Havia seis delas no armário. Duas anunciavam competições de natação, uma tinha a alça lascada e outra era grande o suficiente para servir sopa.

— Bom dia — disse Harry.

Draco olhou para a xícara.

Harry acompanhou seu olhar.

— Fiz chá.

— Estou vendo.

— Tem mais no bule.

Draco se aproximou. O bule estava destampado.

Colocou a tampa.

Harry bebeu mais um gole.

— Comprei aquele de ontem.

Draco olhou para a caixa ao lado da chaleira.

Darjeeling.

— Comprou?

— Gostei.

Por um instante, a cozinha pareceu um lugar bastante aceitável.

— E esta é a minha xícara — disse Draco.

Harry baixou os olhos.

— Ah. Desculpe.

— Não estou exigindo que interrompa o uso.

— Está olhando como se estivesse.

Draco abriu o armário e examinou as opções.

— Não há xícaras?

Harry olhou para a que segurava.

— Além dessa — esclareceu Draco.

Harry tirou uma azul da prateleira de cima.

— Essa estava escondida.

— Atrás de um copo, Potter.

Draco recebeu a xícara, serviu-se e provou o chá.

— Quanto tempo deixou em infusão?

Harry pensou.

— O tempo de fazer torrada.

Draco pousou a xícara.

— É necessário que tenhamos uma conversa.


***

Ao fim de oito minutos, Harry já sabia que “até ficar escuro” não era um critério, que recolocar água nas mesmas folhas não resolveria necessariamente o problema e que Draco não estava zangado.

Esse último ponto fora esclarecido três vezes.

— Você sempre explica as coisas assim? — perguntou Harry.

— Assim como?

— Como se eu fosse ser examinado depois.

Draco abriu o pote de geleia.

— Você perguntou.

— Perguntei se estava ruim.

— E eu expliquei por quê.

Harry olhou para o bule.

— Vou tentar de novo amanhã.

Draco encontrou uma faca limpa.

— Não precisa.

— Quero.

Ele espalhou geleia na torrada com mais atenção do que a tarefa exigia.

Harry olhava para ele por cima da xícara roubada.

— Você já foi nadar? — perguntou Draco.

— Já.

Draco consultou o relógio da cozinha.

— A que horas?

Harry respondeu.

Draco parou com a faca sobre a torrada.

— Voluntariamente?

— É meu trabalho.

— Ainda assim.

Harry riu.

Havia uma bolsa aberta junto à porta, com um par de óculos de natação aparecendo no bolso lateral. Draco olhou para o cabelo úmido, depois para a bolsa.

— E vai voltar?

— Mais tarde.

Era preciso reconhecer certa coerência entre aquela rotina e o homem que Draco vira nas competições. Isso o tranquilizou por alguns segundos.

Harry recolheu da bancada uma torrada muito escura, raspou-a com uma faca e comeu.

A tranquilidade passou.

— Vai estar em casa hoje à noite? — perguntou.

— Provavelmente.

— Podemos jantar juntos.

Draco ergueu os olhos.

— Aqui?

— É onde fica a cozinha.

— Sei onde fica a cozinha, Potter.

— Então está combinado.

Harry deixou a xícara na pia.

— Vou fazer alguma coisa.

— Isso é bastante abrangente.

— Jantar — esclareceu Harry. — Alguma coisa para jantar.

Antes que Draco pudesse perguntar o quê, ele já estava no corredor.

Draco olhou para a pia.

A xícara estava lá dentro, com uma colher.

Retirou a colher.

***


Às onze e vinte, o empreiteiro ligou.

Draco recebeu a notícia em pé, junto à janela da sala.

— O que significa “não é exatamente o mesmo”?

Ouviu a explicação.

— Eu sei que pedras naturais variam. Foi por isso que escolhi aquela.

Outra explicação.

— Então estamos concordando que a que chegou não é a que escolhi.

Harry tinha uma pequena mesa junto ao sofá. Sobre ela havia duas revistas, um controle remoto, uma conta dobrada e uma medalha com a fita enrolada.

Draco afastou a conta de cima da medalha.

— Não, não pode instalar para eu ver como fica.

Sentou-se.

— Porque depois estará instalado.

Quando desligou, escrevera três mensagens, marcara uma visita à obra e decidira que jantaria fora.

Às seis e quarenta, porém, ouviu Harry chegar à cozinha com sacolas.

Draco estava no andar de cima. Desceu apenas para perguntar se ele precisava de alguma coisa.

Harry tinha arregaçado as mangas de uma camisa azul e espalhado as compras sobre a bancada.

— Comprei limão — anunciou.

Draco olhou para ele.

— Parabéns.

— E outras coisas.

Havia peixe, batatas, uma embalagem de vagens e uma sobremesa dentro de uma caixa de confeitaria.

Draco pousou a mão no encosto de uma cadeira.

— Você cozinha?

— Duas ou três coisas.

— Quais?

— Hoje, esta.

Harry tirou as batatas da sacola.

Draco ficou.


***

O primeiro problema foi a faca.

— Não há outra? — perguntou Draco.

Harry ergueu a que segurava.

— O que tem essa?

— Está cega.

— Cortou a batata.

— Com esforço.

Harry olhou para a batata cortada, depois para ele.

— Ela não reclamou.

Draco abriu uma gaveta.

O segundo problema foi o tamanho dos pedaços.

— Esses vão cozinhar antes daqueles.

— Então tiro antes.

— Poderia cortar do mesmo tamanho.

Harry lhe entregou a faca.

— Pode fazer essa parte?

Draco olhou para o cabo.

— Posso.

Dez minutos depois, tinha produzido seis pedaços de batata e uma quantidade considerável de observações sobre os utensílios.

Harry recolheu um pedaço da tábua.

— Este é maior.

— Não significativamente.

Colocou-o ao lado de outro.

Draco pegou a faca de volta.

— Estou terminando.

Harry foi cuidar do peixe.

Por algum tempo, trabalharam em silêncio. Harry abriu a embalagem de vagens, ligou o forno e tirou uma assadeira do armário. Draco se afastou para deixá-lo passar; Harry pousou a mão brevemente em suas costas.

— Obrigado.

Draco cortou a última batata em três pedaços.

Examinou os resultados.

Reuniu-os na assadeira.

— Seu empreiteiro ligou? — perguntou Harry.

— Ligou.

— Más notícias?

— Notícias absurdas.

Harry sorriu.

— Qual foi a de hoje?

Draco começou pela pedra errada e terminou numa avaliação da palavra “equivalente”, que lhe parecia ter adquirido um significado inteiramente novo desde o início da obra.

Harry ouviu enquanto espremia um limão.

— E o homem queria instalar mesmo assim? — perguntou.

— Para eu ver como ficava.

— Mas aí já estaria instalado.

Draco se virou para ele.

— Exatamente.

Harry assentiu com muita seriedade.

Draco desconfiou.

— Você está rindo de mim?

— Ainda não.

Harry pegou uma vagem.

— Esta precisa ser cortada?

***


O jantar ficou pronto vinte minutos depois do horário previsto por Harry, mas ninguém morrera e o peixe parecia perfeitamente comestível.

Draco pusera a mesa.

Encontrara pratos sem inscrições, dois guardanapos de tecido e taças.

Harry entrou com a assadeira e parou.

— Ficou bonito.

— Você tinha as coisas.

— Eu sei. Só não costumo…

Fez um movimento vago em direção à mesa.

Draco ajustou um talher.

— Não foi uma grande intervenção.

— Gostei.

Harry colocou a assadeira no centro e puxou uma cadeira para Draco.

Draco sentou-se.

O peixe estava bom. As batatas também.

Ele comeu mais um pouco antes de dizer:

— Você poderia ter colocado menos limão.

Harry provou novamente.

— Gosto assim.

Draco olhou para o prato dele.

— Percebi.

— Mas ficou bom?

— Ficou.

Harry sorriu com uma satisfação que Draco achou desproporcional ao comentário.

Serviu-lhe mais batatas.

— Você vai trabalhar amanhã? — perguntou.

— Vou à obra.

— E depois?

Draco ergueu a sobrancelha.

— Tem outra refeição planejada?

Harry riu.

— Estou tentando descobrir o que você faz quando não está aqui.

— Há uma quantidade bastante grande de coisas para fazer fora da sua casa.

— Você trabalha com seu pai?

Draco pousou o garfo.

— Às vezes.

Harry esperou.

— Há reuniões às quais compareço — acrescentou Draco. — Documentos que preciso ler. Pessoas que insistem em explicar esses documentos depois que já os li.

— Você gosta?

— Dos documentos?

— Do trabalho.

Draco pensou por um instante.

— De algumas partes.

— Quais?

Era uma pergunta simples. Ainda assim, ele não se lembrava da última pessoa que a fizera.

Falou de uma negociação recente, de algo que conseguira corrigir antes de chegar ao pai e de um diretor que tinha o hábito de repetir informações que ninguém contestara.

Harry ouviu.

Quando Draco percebeu que vinha falando havia algum tempo, pegou a taça.

— Mas certamente não é o assunto que você imaginava para o jantar.

— Você fica muito satisfeito quando conta a parte em que o diretor precisou admitir que estava errado.

— Porque ele estava errado.

— Sim. Essa parte ficou clara.

Draco tentou não sorrir. Não conseguiu inteiramente.

Harry reparou.

— Você devia fazer isso mais.

— O quê?

— Sorrir.

Draco bebeu água.

— Precisaria ter mais motivos.

Harry se inclinou um pouco para a frente.

— Estou tentando.

Por um segundo, Draco não encontrou nada apropriado para dizer.

Então olhou para o peixe.

— O jantar foi uma iniciativa razoável.

Harry baixou a cabeça, rindo.

Draco procurou outro assunto.

— Quando é sua próxima competição?

Harry lhe disse e perguntou:

— Você acompanha?

— Ocasionalmente.

— Pela televisão?

— É onde costumam transmitir.

Harry sorriu.

— Podia ir a uma.

— Já fui.

Harry pousou o garfo.

— Foi?

Draco pegou uma vagem.

— Hélène tinha ingressos.

— Qual?

Ele respondeu.

Harry ficou olhando para ele.

— Essa foi no ano passado.

— Sim.

— Antes de a gente se conhecer.

— Eu não precisava conhecê-lo para assistir.

— Não. Só não sabia que você tinha ido.

Draco comeu a vagem.

— Você ganhou.

— Ganhei.

— Embora a entrevista depois tenha sido terrível.

Harry soltou uma risada.

— Eu estava cansado.

— Você respondeu “sim” a uma pergunta que começava com “como”.

— Lembra disso?

Draco se serviu de água.

— Foi uma resposta muito inadequada.

Harry ainda sorria.

— Na próxima, vou tentar fazer melhor.

***


A sobremesa era uma torta de maçã.

— Não fui eu que fiz — disse Harry.

— Eu vi a caixa.

— Só para não criar expectativas para a próxima.

Draco, que estava recolhendo os pratos, parou.

— Próxima?

Harry abriu um armário à procura de pratos menores.

— Podemos jantar juntos de novo.

— Se eu estiver aqui.

Harry olhou para ele.

— Ainda quer ir para um hotel?

Draco colocou os pratos na pia.

— Não tomei nenhuma decisão.

— Certo.

Harry encontrou os pratos, mas não se afastou.

— Eu gosto de ter você aqui.

Draco virou-se.

Harry tinha dito aquilo com a mesma naturalidade com que anunciara a sobremesa.

Ele esperou por alguma coisa que completasse a frase.

Não veio.

— A casa tem uma boa disposição — respondeu Draco. — O quarto é confortável.

Harry olhou para os pratos em suas mãos.

Depois para ele.

— Fico contente.

— E a distância de Mayfair é administrável.

— Bom saber que estou numa localização aceitável.

Draco percebeu o sorriso.

— Não foi isso que eu…

Seu telefone começou a vibrar na sala.

Ele deu um passo naquela direção.

Parou.

— Deve ser o empreiteiro.

— Pode atender.

O telefone continuou vibrando.

Draco olhou para o relógio do forno.

O homem tinha prometido ligar duas horas antes.

— Pode esperar.

Harry cortou a torta.

***


Uma hora depois, o chá estava pronto.

Harry colocara a tampa no bule.

Também devolvera a xícara de Draco, limpa, ao seu lugar.

Draco notou as duas coisas e não comentou nenhuma. Harry, entretanto, acompanhou seu olhar.

— Acho que passei.

— Ainda não provei.

Harry sentou-se à sua frente.

Draco levou a xícara à boca.

O chá estava melhor.

— Aceitável — disse.

Harry sorriu.

O telefone de Draco anunciou uma mensagem.

Hélène.

Encontrou outro lugar?

Draco olhou para a tela.

Do outro lado da mesa, Harry procurava a colher que acabara de pousar ao lado do próprio prato.

Draco indicou-a.

— Ah. Obrigado.

Ele digitou:

Ainda estou considerando.

A resposta veio quase imediatamente.

O hotel ou a casa de chá?

Draco bloqueou o telefone.

— Tudo bem? — perguntou Harry.

— Hélène está sendo inconveniente.

— Ela faz isso.

— Com uma regularidade impressionante.

Harry riu.

Draco serviu mais chá.