Camilla
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Por: Miiou
Não sei o que me levou aqui, acredito que foram as rodas de minha bicicleta, pois minha cabeça não parecia que foi ligada hoje, parecia que ainda estava sonhando.
Quando tomei consciência de onde me encontrava, parei a bicicleta com uma freada. Um súbito frio me subiu pela espinha ao reconhecer que havia me levado para o lugar onde eu evitei ir todo esse tempo. Franzi a sobrancelha ao perceber que eu mesmo me levei para a minha perdição, quão conveniente.
Vendo-me sem escolhas, decidi aproveitar do meu estado de torpor. Coloquei o descanso na bicicleta e desci, resignado a ir para o lugar onde tudo aconteceu.
Lá estava o banco de madeira, aquele banco velho e desgastado, onde sentei na sua companhia, e lá estava aquela árvore comum, com suas folhas verdes e comuns, enjoativas.
E lá, estava a nossa promessa, apagada pelo tempo, na madeira, em sua cor desbotada. Os nossos nomes, o nosso juramento eterno.
Sentei-me no banco, soltando um gemido de esforço para encostar-me à madeira dura. Ainda podia sentir seu toque quando uma brisa suave batia em meu rosto, cada toque doía na minha alma.
Infelizmente, a lembrança da dor é mais forte do que a lembrança do amor.
Fechei meus olhos, evitando pensar que a qualquer momento podia te encontrar caminhando alheia, sem esperar ver nada de lhe pudesse doer a alma.
Por algum motivo, me sentia triste em pensar que você podia sentir dor de qualquer maneira, mesmo que fosse me vendo.
Meus olhos estavam quase se desligando junto com minha mente, quando ouvi um doce canto de pássaros despertarem minha audição. O canto se dirigia a mim.
— James?
Oh! Doce carícia essa que me permite um deslumbre de um prazer infinito, essa sua voz. Só essa voz para fazer-me abrir os olhos com outra razão, se não simplesmente acordar.
E lá estava, meu passado encarnado em um belo vestido branco de renda. Sua pele branca com um bronzeado discreto já se misturava harmoniosamente com suas vestes.
Seus cabelos soltos em cascatas, emoldurando seu rosto divinamente, caindo-lhe sobre os seios delicadamente esbeltos. Seus olhos negros, misteriosos, como uma gatinha prestes a atacar sua presa.
E seu sorriso. Parecia que tudo iria desmoronar com o sorriso daquela moça que um dia conheci tão bem. Daria tudo para acordar todo dia vendo aquele sorriso.
Ficamos ambos nos analisando, olhando as diferenças que anos podem nos trazer.
— Olá – falei desconcertado, com a voz rouca de paixão reprimida.
Ela pareceu hesitar como se quisesse falar algo e não soubesse bem como dizer. Ela não mudara nada, apesar disso, tudo mudou.
— Hã, posso sentar? – falou, apontando para o outro espaço do banco, o que estava vazio.
— Claro... Sente-se! – espanei o banco, como se estivesse limpando-o.
Ela soltou um risinho envergonhado, suas maçãs ligeiramente rosadas. Sentou-se ao meu lado, e assim que o fez tudo pareceu me esclarecer, pois o cenário antes nostálgico, agora estava lindo e colorido, como se tudo que estava lá estivesse destinado a estar.
Percebi então, que não tinha como me enganar mais, percebi que aquilo que eu sentia não podia ser ignorado e percebi que finalmente minha felicidade estava completa. Ao seu lado, vi que o tempo que passamos longe de nada pareceu existir, ou ao menos fazer sentido.
Percebi que minhas procuras estavam completas, que tudo estava em seus olhos, que tudo que você falava era a doce presença viva e forte do sentimento.
Percebi que de nada valia a pena acordar se não ouvisse sua voz, que de nada valia respirar se não sentisse seu cheiro.
Naquela tarde, posso dizer que depois de muitos anos, meu coração voltou a bater.
Simplesmente, um dia meu inconsciente processou o que meu consciente não conseguia: Que eu só precisava de um olhar para encontrar o meu destino.