Ayreon: The Final Experiment
Ayreon: The Final Experiment
Chapitre 23 min de lecture

Ayreon

*Julho de 535 d.C. — Grã-Bretanha* --- 1513 anos antes

"Vês que não consegues mantê-la içada por muito tempo?". "Faz-te de mera mortal, mas é de meu conhecimento que és uma bruxa". "Vossa sapiência guia a todos, mestre".

Falas, falas e mais falas. Em um período onde tudo o que existe se resume em arte, ouro e guerrilhas, palavras ainda são a maior e melhor forma de expressão. Na realidade, a idade média também é marcada por suas coloridas donzelas e imponentes armaduras, além dos enormes e vistosos castelos reais, mas para Ayreon, o mundo se resume em sons.

Cego de nascença e largado à vida sobre os cascalhos da movimentada cidade de York, Ayreon ganha a vida como menestrel, cantando seus poemas em forma de cantiga e emocionando a cada um que passa. Com seus 20 anos de idade, já demonstrara diversas vezes aos cidadãos e migrantes daquela terra sua descomunal sensibilidade e, mesmo que nem todos apreciassem seu trabalho, era do conhecimento de todos que naquele vilarejo havia um jovem que via algo a mais, mesmo que não fosse com seus próprios olhos.

A Ayreon, por outro lado, esta sensibilidade o incomodava. Ideias não paravam de tintilar em sua mente e, além disso, o menestrel era capaz de sentir a força do vento cortando sua pele, o vulto das pessoas passando por sua sombra e, acima de tudo, a voz de cada uma daqueles milhares que por ali passavam, trazendo cada vez mais ideias, porém junto vinha cada vez mais confusão. Tudo o que Ayreon queria era paz, e isso era tudo o que ele nunca teve, e nos últimos tempos tinha menos ainda.

Sua sensibilidade estava mais aflorada do que nunca naquela tarde de sexta-feira em plenos idos de julho. Ele não aguentava tamanha enxurrada de informação, estava ficando mentalmente debilitado e precisava de um refúgio. Deixou então para trás suas poucas aquisições diárias e partiu, cambaleando por entre a população, a caminho de um lugar em que sabia que podia ficar a sós.

— Este não é o bardo que falavas tanto? Não me parece bem. — alertou uma moça de meia idade à sua companheira a observar Ayreon prestes a despencar ao chão.

— Sim, é ele! Que fazes tão débil em tarde tão bela? — disse a parceira dirigindo-se a Ayreon, porém não obteve a resposta tão aguardada.

Ayreon por algum motivo não conseguia prestar atenção em qualquer detalhe, portanto não havia sequer escutados os diálogos sobre sua pessoa. A dor atravessava seu cérebro como uma navalha presa em seu pescoço.

Depois de muito esforço, Ayreon finalmente chegou a um lugar seguro, uma espécie de taverna abandonada, longe do centro da cidade. Não haviam luzes ou sons, apenas madeiras velhas, úmidas e empoeiradas, mas para um homem cego e confuso era o suficiente, ele finalmente encontrara paz. Foi então entre o chacoalhar das árvores e o piar dos pássaros, que Ayreon sentou-se naquele chão ressecado e, com suas pernas cruzadas sob seu corpo, manteve-se naquela posição apreciando uma nova arte, a arte do silêncio. Horas se passaram até que, ainda imóvel, deitou-se, baixando sua guarda e dormindo, aguardando a vinda do primeiro dia de sua calmaria.