Minhas mãos estavam frias. Meu corpo estava frio. Meu coração estava frio. Sentia todo o calor se esvaindo de mim, sendo carregado pelo vento agonizante de uma noite de inverno em Londres. Uma cidade tão bela, onde imaginei compartilhar momentos da mais pura felicidade ao lado de quem amava, ou melhor, amo. Um Natal sem igual, onde apenas existiria eu e ele. Seu nome pouco importa, meu nome pouco importa. O que realmente vale é a dor que me corroe. Sinto-me sangrar, mas não enxergo o sangue.
Ele me deixou aqui, a caminhar, sem destino. Tudo que imaginei ter construído, desmoronou em um leve piscar de olhos, todos os momentos que foram cravados em minhas memórias, banalizados. Tudo uma farsa, uma aposta que nada mais valia do que uma noite de prazer com uma depravada qualquer pela qual ele estava realmente apaixonado. Acabar com a minha felicidade, enganar-me, eram apenas essas suas intenções. Ria daqueles que me diziam sofrer por amor. Mas hoje entendo a dor que sentiam, e posso afirmar que essa que me rasga por dentro, que retira o calor de meu corpo, é muito maior do que qualquer outra que imaginei um dia sofrer.
O vento que passeia por essa rua deserta, encharcada pela neve, estapeia-me a face. Dor insignificante perante aquela que não posso curar com remédios ou noites bem dormidas. Tudo parece insignificante, eu pareço insignificante. Mas ainda sim tenho a vontade de abraçá-lo, de beijá-lo, trazer o calor de volta ao meu corpo, mesmo depois de tudo que me fez. Isso é o amor? Sentir-se tão insignificante, tão imprestável perante aquele que amamos? Se é, quero arrancar isso de meu peito, tirar tudo de mim, sentir-me vazia. Seria muito melhor do que essa dor. Esse sangue que sinto escorrer, mas não enxergo.
Pergunto-me onde ele estará agora. Recebendo seu pagamento talvez, um belo presente de natal, imagino. Rindo do meu amor incondicional. Rindo dos diversos “te amo” que disse sem pudor algum. Rindo de mim. E eu, apenas aqui, sozinha, afundando meus pés na neve e sentindo as gotas de tristeza que escorrem por minha face congelarem junto com meu coração, que nem mesmo sei se está batendo em meu peito. Uma ou outra pessoa passa a meu lado nessa noite fria. Olham-me como se fosse uma louca, como se chorasse por que gosto. Talvez seja mesmo uma louca. Louca de amor! Louca que foi traída e abandona por aquele que pensou também amá-la.
Não sei se poderei aguentar isso. Não consigo retornar o calor ao meu corpo, jamais conseguirei apagar os dias que vivi ao lado dele. E tendo isso em mente, não sei se poderei viver algum outro além dos que foram vividos. Sei que estarei sendo uma fraca, que não consegue se refazer, nem dar a volta por cima. Mas não poderei sorrir novamente, e sem isso, jamais poderia continuar.
Quero agora sentir-me longe de tudo isso. Acabar com esse sofrimento como se ele nunca tivesse existido, e eu fosse apenas uma universitária inteligente que sonhava um dia ser feliz. Apenas sonhava, pois quando finalmente achou ter encontrado, aquilo que tanto almejava fora retirado de suas mãos com quatro simples palavras, que ao se juntarem retiraram as forças que já pouco tinha, “Sinto nojo de você”. Palavras tão curtas e tão simples, que agora me tomam à vida. Deito-me em um parque, no chão mesmo, em meio a neve. Encolho-me e fecho meus olhos. A única coisa que quero é sentir-me aquecida novamente. Sentir-me amada. Mas invés disso a única coisa que me consome é frio, cada vez mais frio, até que mais nada sinto e minha mente finalmente se escurece. Amor?
FIM

