Your Smle
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Chapter 17 min read

Dor e amargura.

Nathaniel lembrava-se nitidamente daquele dia, do pior dia de sua vida. Lembrava-se muito bem de quando viu algo que o machucou muito mais do que qualquer surra de seu pai, do que qualquer palavra bruta proferida por seu progenitor.

Ele lembrava muito bem de quando seu coração foi partido pela primeira vez.

Mas ‘partido’ parecia um eufemismo para como se sentiu naquele momento, parecia um eufemismo muito grande e ridículo. Seu coração não tinha sido partido; ele foi partido, quebrado, pisoteado e esmagado da pior forma possível. Na verdade, nem todas aquelas descrições chegavam perto de como se sentiu devastado naquele dia.

Há um tempo Nathaniel percebeu que havia algo errado consigo. Ele percebeu isso quando seu coração bateu mais rápido no momento em que avistou aquele sorriso.

De alguma forma, ele aprendeu a amar aquele sorriso. Aquele sorriso de canto, tão típico dele... Ele começou a se perder nos orbes cinzas, e a gostar da forma que o cabelo ruivo caia no rosto do outro, a franja grande ao ponto de bater em seus olhos.

Um sorriso que antes odiava, e que agora fazia parte de seus sonhos.

Foi naquele momento que percebeu o que estava acontecendo consigo: ele estava apaixonado.

Apaixonado pelo seu arqui-inimigo, apaixonado pela pessoa que, em tese, deveria odiar. Mas com Castiel não era assim, não havia ‘teses’, e sim fatos. Ele era apaixonado pela pessoa que o odiava, que o desprezava.

O que faria, ele, então, se soubesse dos sentimentos que Nathaniel nutria por ele?

Aquele pensamento sempre fazia surgir um sorriso cínico em seus lábios, aquele pensamento era a pura prova do quão ridículo ele era, do quão ridículos eram seus sentimentos. Quando ele pararia de se humilhar? Quando pararia de descer tanto o seu nível?

O que seu pai faria se soubesse que o filho – vulgo saco de pancadas – era gay? O que faria... o quanto bateria nele se soubesse que, além de homossexual, estava apaixonado pela pessoa que o desprezava?

Dessa vez não era um sorriso que brotava em seus lábios, mas sim uma risada amarga que subia por sua garganta. Ele até podia sentir o gosto da amargura e da humilhação em sua língua.

Suspirou enquanto outra memória melancólica tomava espaço em sua mente. Lembrou-se de quando estava saindo da sala de aula, irritado, estressado e totalmente esgotado. Mas, para seu azar, ainda havia várias coisas para resolver no grêmio estudantil. Ás vezes só tinha vontade de mandar todo mundo se foder e, pelo menos uma vez, fazer o que queria. Mas é claro que aquilo era só outro sonho distante.

Sentiu algo duro se chocar contra ele, e seus livros caírem no chão.

— Que droga! – Sibilou, enquanto se agachava para apanhar seu material, mas uma voz o interrompeu.

— Muito distraído, né, senhor representante? – Castiel disse, olhando-o de cima, com aquele sorrisinho cínico em seus lábios.

— Diferente de você, eu sou uma pessoa ocupada. – Retrucou, enquanto quebrava o contato visual e continuava pegando os papéis espalhados pelo chão. Ele não conseguia sustentar aquele olhar por muito tempo, porque sentia como se aqueles olhos cinzas pudessem dissecar sua alma, e saber de todos seus segredos.

Se surpreendeu quando viu uma mão que não era a sua pegando seu livro de história, e entregando para ele. Por alguns instantes ficou completamente desnorteado, mas pegou o livro rapidamente, enquanto sentia suas bochechas esquentarem. Arriscou um olhar para cima, para o ruivo à sua frente, e então viu o sorriso, aquele sorriso que aprendeu a amar.

Era um sorriso de canto, mas não tinha nenhum traço de sarcasmo ou deboche ali, era um sorriso verdadeiro. Um sorriso que não via no rosto de Castiel desde quando ainda eram amigos, antes de toda aquela confusão com a Debrah. Em sua mente, aquele era o sorriso mais bonito do mundo.

— Você devia parar de se preocupar tanto, Nathaniel, eu li por aí que não é saudável. – Castiel disse, se levantando e esperando o loiro fazer o mesmo.

— E desde quando você sabe ler? – Murmurou, debochado, enquanto andava em direção ao seu armário. “E desde quando você se importa?” É o que realmente queria dizer, gritar. Queria gritar com aquele ruivo idiota e dizer para não sorrir mais daquele jeito, para parar de fingir que se importava, para parar de fazer o coração de Nathaniel bater tão rápido quando seus olhos se encontravam.

Mas sabia que a culpa daquilo tudo, de todos aqueles sentimentos não era de Castiel, mas sua. Castiel não se importava. Castiel o odiava.

E ele estava começando a se odiar também.

xxx

Já era tarde, o sinal tinha tocado há algum tempo e a maioria dos alunos já tinham ido para casa. Nathaniel guardou a pasta no armário, se preparando para ir embora.

Saiu da sala do grêmio estudantil e trancou a porta com as mãos suando. Naqueles longos minutos dentro daquela sala vazia, tinha decidido que contaria a Castiel o que sentia, mesmo que fosse rejeitado, mesmo que fosse desprezado, ele só queria contar.

E isso porque não aguentava mais aquele sentimento em seu peito, sufocando-o. Não aguentava mais não conseguir olhá-lo nos olhos sem enrubescer, não aguentava aquele nó na garganta sempre que falava com ele. Estava difícil demais segurar tudo aquilo só para si, reprimir aquele sentimento tão forte e tão doloroso. Tinha medo da rejeição, mas uma pequena parte de si acreditava que Castiel ao menos entenderia, porque mesmo que fossem rivais agora, um dia foram melhores amigos.

Não tinha mais nada a perder, de qualquer forma.

Saiu em direção ao pátio procurando pelo ruivo, sabia que ele ainda estava na escola, porque o tinha visto passar pelo corredor principal enquanto estava na sala do grêmio.

Procurou pelo ginásio, mas ele não estava lá, então resolveu ir para o clube de jardinagem.

E quando chegou lá, em meio ao verde das plantas e o colorido das flores, viu algo que fez seu coração parar.

Ficou paralisado, estático, quando viu a linda cena a sua frente.

Castiel e Lynn se beijavam, os dedos dela se enroscando no cabelo ruivo dele, e a mão dele em sua cintura.

Agora, diante daquilo parecia patético o quanto ele se imaginou lá, no lugar de Lynn, o quanto ele queria estar no lugar dela, o quanto ele queria enroscar os dedos no cabelo de Castiel e sentir os lábios finos e macios contra os seus.

Uma utopia ridícula, agora totalmente acabada.

Naquele momento, era como se algo dentro do loiro tivesse quebrado em mil pedaços, era como se ele tivesse ficado sem chão.

Lá estava a verdade, nua e cura na sua frente. Ele até sentia a realidade lhe dando tapas na cara, e a vida rindo dele.

Ele também riria, se aquilo não doesse tanto.

Mas não importava o quanto tentasse segurar as lágrimas, o quando tentasse mandar a dor ir embora, não conseguia. Não conseguia ignorar aquela dor avassaladora que tomava lugar de seu peito, não conseguia desfazer o nó sufocante em sua garganta.

Ele não conseguia mentir para si mesmo e dizer que estava tudo bem, porque não estava.

Ele saiu com passos rápidos e silenciosos do clube, com as lágrimas caindo pelo seu rosto e o coração espalhado em mil pedaços pelo chão.

Aquilo doía muito mais que qualquer surra que seu pai jamais lhe deu, doía mais que ser desprezado por Castiel, doía mais que qualquer coisa.

Ele saiu correndo da escola para lugar nenhum, como se assim também pudesse fugir da dor que o perseguia. Mas não podia, não podia mentir para si mesmo, não podia ignorar. Não conseguia.

Amor e ódio são dois lados da mesma moeda, e Nathaniel tinha aprendido isso da pior forma possível.

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