“Não foi gol?”

“Não.”

“Mas gol não é quando a bola entra naquela coisa retangular?”

“Teoricamente.”

“Como assim teoricamente?”

“Precisa entrar na coisa retangular em condições legais.”

“Então não foi gol porque não estava em condições legais?”

“Sim.”

“Mas por que os jogadores comemoraram o gol?”

“Porque eles não sabiam que o jogador estava em impedimento.”

“Não sabiam? Mas o juiz marcou gol.”

“Não, ele recebeu o sinal de checagem pelo VAR. E o VAR disse que o jogador estava impedido.”

“Por que?”

“Porque ele estava à frente do último marcador quando a bola foi lançada.”

“Como eles conseguem enxergar isso?”

“As vezes os juízes auxiliares conseguem marcar. As vezes só como VAR.”

“Oh. Isso é confuso.”

Santana revirou os olhos e continuou prestando atenção no jogo da fase de classificação, que para os Estados Unidos era tudo ou nada. Copa do mundo em novembro? Grande piada. Pior ainda é estarem em Nova York em uma época com o inverno batendo à porta. Se fosse no verão, como de costume, Santana poderia se reunir com os pais e os amigos da comunidade latina para celebrar as partidas e depois comemorar com churrasco e cerveja. Mas não. Ela estava presa em Nova York com uma diva enquanto o tempo estava congelante lá fora. Chegava a ser ofensivo.

“Gol!” Santana gritou.

“Agora foi gol de verdade?”

“Sim, Rachel, agora foi gol de verdade.”

“Não teve impedimento?”

“Não.”

“Não precisou desse tal de VAR?”

“Não. Foi gol, olha!”

“Oh. Go USA.”

Rachel virou de lado e checou o celular, enquanto Santana ainda fazia a comemoração solitária.

“Kurt disse que vai passar aqui em casa.”

“Ótimo...” Santana revirou os olhos.

“Ele disse que vai trazer o meu presente antecipado de aniversário.”

“Que bom.”

“Ele vem com Elliott.”

“Okay.”

“Acho que os dois estão se acertando depois daquela crise que eles tiveram.”

“Que bom.”

“Não acha ótimo que todos nossos amigos estão se acertando? Kurt, Elliott, até mesmo a Dani parece que vai tomar jeito...”

“É lindo. Oh... quase...” Santana lamentou o lance do jogo.

“Quase o quê?”

“O goleiro defendeu o chute.”

“Ele não deveria fazer isso?”

“De preferência.”

“Mas foi o adversário que chutou?”

“Foi.”

“E você queria que o goleiro não pegasse?”

“Rachel, que bom que o goleiro pegou. Eu só reagi ao jogo.”

“Oh.”

“Eu deveria ter aceitado o convide de Dani para assistir ao jogo com ela e os amigos...”

“Eu não sou boa companhia?”

“Não neste momento.”

“Por que?”

“Porque é um jogo decisivo de copa do mundo, que acontece de quatro em quatro ano, porque é o único evento esportivo capaz de parar um planeta.”

“Os Estados Unidos já ganharam a copa do mundo?”

“Não.”

“Tem alguma chance?”

“Remota.”

“Então porque perder o tempo com isso?”

Santana suspirou.

“Porque é emocionante.”

“Mas você nunca assiste jogo de futebol.”

“Mas é copa do mundo agora.”

“Porque é copa do mundo você é obrigada a ver?”

“Não é isso...” Santana estava ficando desolada. “Assistir a copa do mundo é uma tradição da minha família. Meu pai é torcedor fanático do Real Madrid, e ele já me levou para assistir a uma partida de futebol quando estivemos na Espanha. É emocionante.”

“Você torce pro Real Madrid?”

“De certa forma.”

“Como é que eu nunca te vi com uma camiseta dessas de futebol, muito menos desse time?”

“Esse não é o ponto.”

“Não é?”

“Porque é uma coisa que eu tenho com meu pai. É um laço de conexão. Torcer pelo Real Madrid, mesmo que eu não veja jogos de futebol... assistir à copa do mundo... isso faz parte da tradição. Eu faço isso mesmo não estando com o meu pai.”

“Entendi. É como a tradição que eu tinha de cantar com os meus pais depois do jantar.”

“Isso é muito irritante, mas é um exemplo. E que você faz questão de manter quando sai cantando showtunes pela casa.”

“Você não gosta?”

“Eu tolero.”

“Você acha que a minha tradição é menos do que a sua?”

“Não foi isso que eu disse.”

“Showtunes também coloca dinheiro dentro dessa casa!”

“Não foi isso que eu disse!”

“Copa do mundo não muda a nossa vida. A música muda. Você, senhora vocalista de banda de pop-rock deveria saber disso muito bem.”

“Não é isso... ahhhh, será que eu posso voltar a assistir ao jogo?”

“Por que?”

“Porque os Estados Unidos estão jogando, e ganhando.”

“E daí?”

“É o seu país também, Rachel.”

“Mas eu não ligo para futebol.”

“Alguém me mate...”

Rachel encarou Santana, e decidiu ficar em silêncio por um minuto. Então ela começou a tentar prestar atenção no movimento da tela da TV.

“O objetivo não é marcar o gol?”

“Sim.”

“Então porque os jogadores não chutam?”

“Porque é difícil, porque a defesa do adversário é sólida, porque é preciso trabalhar a posse de bola para armar as jogadas táticas. É perigoso perder a bola de graça, ou o adversário pode contra-atacar.”

“Desse jeito?” Rachel observou o adversário correr em contra-ataque e marcar o gol.

“Ai... desse jeito.” Santana lamentou.

“E se terminar assim empatado?”

“A gente está eliminado e o adversário avança.”

“Como pode alguém prosseguir com um empate?”

“Porque existe um sistema de pontuação para isso.”

“Eu odeio empates!”

“Nos esportes?”

“Em qualquer coisa.”

“Empates às vezes podem ser uma solução necessária.”

“Nos esportes?”

“Na vida.”

“Desde quando você pensa assim?”

“Desde sempre.”

“Então por que você sempre quis me vencer a qualquer custo?”

“Porque você é uma pessoa extremamente irritante. Você nunca soube ganhar, e eu achava que era saudável que você perdesse de vez em quando.”

“É mesmo?”

Rachel sorriu maquiavelicamente e sentou-se no colo de Santana, posicionando a namorada entre as pernas dela. Então inclinou-se para beijá-la de uma maneira toda erótica.

“Eu ainda sou irritante?”

“Muito.”

“Mentirosa.”

“Não sou, mas eu gostei do que você fez.”

Rachel inclinou-se mais uma vez para beijar novamente a namorada.

“Que tal uma rapidinha?” Rachel propôs.

“Kurt e Elliott não estão chegando?”

“É por isso que tem que ser uma rapidinha.”

Santana olhou a televisão e depois olhou para a namorada.

“Okay!” Santana abriu um sorriso.

“E o jogo?”

“Nem copa do mundo é páreo para Rachel Berry!”

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