What's His Name?
What's His Name?
Chapitre 19 min de lecture

Oneshot.

Eram oito horas quando saí de casa, naquela noite. O vento frio castigava minha pele, mas eu pouco me importava. A raiva se apoderava de mim em tempo recorde, eu sequer pensava no horário e no perigo que a rua me oferecia, muito menos lembrava de que não tinha dinheiro pra o ônibus ou roupas, celular, nada. Apenas as chaves de casa balançavam no meu bolso, acompanhando os barulhos quietos do meu choro contido.

Mais uma briga. Mais uma noite tentando agüentar as palavras que o meu “pai” dizia, a garganta doendo, os punhos fechados, tão forte que as unhas rasgaram escuras marcas de meia-lua nas palmas das minhas mãos. Até que não pude mais segurar.

Logo vieram os gritos. As ameaças. A explosão seguiu imediata, logo eu tremia de ódio e virava de costas, deixando que ele falasse sozinho. Agarrei as minhas chaves e dei o fora daquele lugar. Chega. Cansei.

Cansei daquilo tudo. Não havia dúvidas, eu não podia mais passar um dia que fosse sob o mesmo teto que aquele homem. Naquele momento, nós dois nos odiávamos. Eu não queria mais ver a cara dele, nunca mais.

As lágrimas quentes ainda corriam meu rosto, e deixei o grito escapar, o grito que eu estava contendo há anos, vinte anos, escapou com todo o rancor que encerrava. Sentei na calçada e abracei as minhas pernas, deixando que os soluços incontroláveis tomassem conta do meu corpo, deixei as lágrimas caírem livremente, como se pudessem me lavar de toda a maldição que era aquela vida.

Mas claro que nunca dava certo.

Eu ainda estava com as chaves, certo? Em um momento de histeria, ri entre o choro, ri daquela situação patética. Eu sempre voltava. Não tinha pra onde ir e tinha medo de me aventurar sozinha.

Era uma covarde.

Peguei as chaves e brinquei com elas em minhas mãos, ignorando as lágrimas que secavam no meu rosto. Mordi o lábio e, com uma delas que tinha a ponta mais afiada, ameacei rasgar meu próprio pulso, só para sentir a dor que traria. Porém, antes que pudesse me cortar, ouvi um barulho e levantei o rosto com pressa, procurando pela fonte da perturbação.

Logo na minha frente havia um rapaz, de estatura baixa, com o rosto escondido pelas sombras. Ele estava encostado no muro de uma casa, do outro lado da rua onde eu estava sentada.

Notei a fonte do barulho. Ele havia chutado uma lata de refrigerante e agora me encarava, com os braços cruzados. Olhei de volta, sem saber ao certo o que fazer. Estava surpresa de não ter percebido a sua presença.

Alguns minutos de passaram, até que finalmente ele desencostou da parede e, com as mãos enfiadas nos bolsos, começou a andar na minha direção. Eu guardei as chaves e olhei de volta, limpando rapidamente o meu rosto para que ele não visse as lágrimas.

Ao vê-lo sob a luz fraca do poste, pude notar suas feições. Cabelos espetados, bem curtos. Olhos delineados de preto. Um sorriso de canto que não chegava ao olhar. Ele usava um jeans surrado, uma camisa desbotada de alguma banda e tênis tão sujos que mal dava pra saber a cor original deles. Mas, não podia negar, ele era bonito. Muito bonito.

“Que foi?”, eu deixei escapar, na defensiva. Não pude ignorar que ele estava me encarando, já havia um bom tempo. Ele riu baixo, controlado. Parecia que estava me analisando.

“O que você está fazendo aqui, garota?”

A voz dele me pegou de surpresa. Senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro ao ouvi-lo; aquela voz grave era deliciosa. Na mesma hora me repreendi, mordendo o lábio. Ele parece perigoso. Que diabos eu estou pensando, sentindo essas coisas?

Até parece que a gente pensa antes de sentir.

Ri, tentando não transparecer o meu nervosismo. Levantei e limpei minha calça, notando com certa vergonha que eu estava vestindo pijamas.

“Que, não posso andar por aqui? Você é o dono da rua, por acaso?”

Ele riu e senti o coração dar um salto. O som daquela risada era perfeito. Segurei a vontade de rir junto. Ainda não sabia o quanto era seguro avançar.

“Você tem coragem...”

“Porque, por falar assim com você? Você deve ser bem assustador, nossa, eu nem...”

Ele me interrompeu, com aquele sorriso infame nos lábios. “Eu quis dizer que tem coragem pra andar por essas ruas depois das dez, vestida desse jeito”.

Senti meu rosto queimar. Abaixei o olhar e ri baixo, coçando a nuca. Imaginei com amargura a cena da briga que tive mais cedo, pensando que ninguém poderia me levar a sério enquanto eu vestia aquelas peças da Tokidoki. De repente, toda a minha rebeldia havia se esvaído perto dele.

“Err... Hm.. Melhor eu ir embora.”

Ele puxou um maço de cigarros do bolso e sorriu, oferecendo. Eu balancei a cabeça, negando. Nunca havia fumado nem bebido um gole sequer de álcool em toda a minha vida.

Ele deu de ombros e gesticulou com a cabeça para o lado de onde eu tinha vindo.

“Você mora pra lá, certo? Vou te levar em casa”.

Eu estava surpresa novamente. Como ele sabia onde eu morava? Mas logo me toquei. Claro, ele me viu vindo de lá.

“Hm... Não precisa”.

“Anda logo” Ele disse, impaciente, segurando minha mão e me arrastando com ele.

Senti minhas bochechas corarem com o contato, mas afastei os pensamentos e olhei em outra direção. Não queria que ele me achasse uma retardada. E, Deus, porque eu estava sentindo aquelas coisas?!

“Você parecia triste. Aconteceu alguma coisa?” Ele perguntou, antes de tragar novamente. Eu suspirei.

“Nada que valha a pena ser dito”.

Ele riu, abaixando a cabeça. Eu estava muito atenta de que nossas mãos ainda estavam coladas.

“Você parece jovem demais pra estar falando coisas de velho”.

Eu ri daquilo, olhando-o novamente. Pude perceber que seus olhos eram claros. Ou seriam lentes? Não pude dizer na penumbra da rua.

“Como assim, coisas de velho? Eu só... Sei lá, não quero te encher com meus problemas”.

Ele riu de canto novamente, inclinando o rosto e me olhando nos olhos.

“Eu perguntei, não?”

“Ah... Sim, é verdade” Senti o rosto queimar novamente e me repreendi mentalmente pela milésima vez. “Eu... Eu tive uma briga com o meu pai”

Ele assentiu com a cabeça, tragando novamente. Permanecemos em silêncio o resto da caminhada, até que chegamos na frente da minha casa.

“Bem... Eu fico por aqui” Eu disse a ele, suspirando. Não queria voltar até ali, mas eu realmente não tinha outra opção no momento. Gostaria de poder ficar conversando mais com ele e não ter que lidar com o meu pai.

Ele sorriu, jogando no chão o resto do segundo cigarro que eu o vira acender naquela noite.

“Não sei que merda o seu pai fez pra te deixar assim, mas se quer um conselho, tente resolver as coisas com ele. Você pode sentir falta dele, se já tiveram bons momentos” Ele disse, enfiando as mãos novamente nos bolsos.

Não soube o que dizer. Queria dizer a ele que ele estava errado, mas não pude negar que suas palavras me fizeram pensar. Logo notei que ele se afastava lentamente, ainda virado para mim, me olhando e sorrindo aquele mesmo sorriso torto.

“Porque você fuma tanto?” Deixei escapar enquanto o olhava.

Ele piscou, parecendo surpreso com a pergunta, mas sorrindo e respondendo.

“Meu pai costumava fumar”.

“Costumava? Mas então porque...”

Antes que eu pudesse terminar a pergunta, me toquei. Envergonhada, mordi o lábio e me apressei a pedir desculpas.

“Ah... Eu sinto muito, eu não quis...”

Mas ele apenas sorriu, acendendo outro cigarro.

“Não esquenta. Você não sabia”.

“Você... Não devia fumar tanto... Não faz bem” Eu disse, sem conseguir me conter. Ele riu, divertido.

“Ora, ora... Você nem me conhece e já está preocupada comigo?” Ele debochou. Cruzei os braços, na defensiva novamente.

“Olha só quem fala... Foi você quem fez questão de me acompanhar até em casa, ou estou enganada?”

Ele sorriu novamente o seu sorriso marca registrada e se balançou nos pés, com as mãos nos bolsos, balançando o cigarro entre os lábios.

“É verdade, estamos quites.”

Ele acenou com a mão e deu as costas, andando na direção contrária. Fiquei observando-o, boba, até que me lembrei.

“Hey!! Você não me disse...”

Gritei, mas ele havia acabado de dobrar a esquina e sumiu da minha vista.

“... o seu nome.”

Qual será o seu nome?

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