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Vozes ao Vento

dwejjitokkl

Vozes ao Vento
Chapter 16 min read

único; vozes ao vento

O vento soprava em todas as direcções e acabei por me sentar à beira de um penhasco. Precisava de pensar. Precisava de ganhar uma razão nova para viver.

Perdera tudo. As memórias, os desejos, o que acontecera no meu passado eram agora infames miragens que vagueavam no vazio das minhas memórias. Nada era claro. Apenas pequenas manchas dispersas num rio de pensamentos sem ligação uns com os outros. Como se tudo tivesse sido apagado da minha existência, do meu ser, da minha vida.

Fora salvo por uma luz à última hora, como se dependesse disso para aprender uma lição. No meu corpo ainda pairavam manchas de maldade. Marcas de ingenuidade minha e de todos os que se tinham juntado à escuridão. Todos aqueles que tinham sido enganados, todos perderam aquela que era a sua razão de viver. Neflite, Jedite e Zoicite assim se mantinham também, meio que no incerto, como se já nada pudesse solucionar todo o mal que tínhamos feito. Era a única coisa que lembrávamos de meses envoltos no negro do desespero.

Dos quatro eu era o que permanecia mais ciente do que acontecera. O que fora mais forte e que não sucumbira ao medo ou às tentações do mundo negro como breu da Rainha Beryl como os outros três tinham sucumbido. A minha mente tinha ainda presente a imagem majestosa do Princípe Endymion. Aquele que jurara proteger toda a minha vida, não importava o custo. Contudo, tudo se desmoronou com aquela paixão obcessiva da Beryl. Aqueles sonhos que o príncipe me confessava em noites de lua cheia, da sua paixão pela princesa da lua, Serenidade, a vontade que ele manifestava de se casar com ela, todas as vezes que o ajudara a fugir para se encontrar com ela debaixo do luar intenso, tudo fora com o vento, numa brisa que depressa se transformou numa tempestade negra que tudo levou. Levou tudo o que me era tão querido e precioso. Levou aquilo que prometia ser um sonho cor-de-rosa e acabou por tornar tudo num sonho negro, um pesadelo sem fim.

Mas as reencarnações de Serenidade e Endymion tinham ultrapassado tudo aquilo.

Agora viviam livremente no mundo dos humanos, num mundo completamente diferente daquele que conhecera em tempos no Milénio Prateado e que agora se estava a tornar naquilo a que os que viviam entre o céu e a terra chamavam de Cristal Tóquio. Eu achava que não podia haver melhor nome para aquele que permanecia na minha mente como sendo o reino onde crescera em tempos. Mas agora não passava de uma reencarnação do meu ser, apenas um pequeno vislumbre daquilo que fora. Todo o resto tinha sido engolido pela escuridão em mim. Eu já não era mais que uma sombra perdida no incerto.

Acabei por me levantar. O vento sacudiu os cabelos cor de prata longos e lisos pelo ar, fazendo-os ondular ao sabor do vento. Senti-lo assim fez-me sentir vivo pela primeira vez em tempos. Faz-me sentir que as coisas por vezes valem a pena. Coisas simples como um olhar doce e cálido, uma brisa quente e que acaricia todos os sentidos, o brilho do luar, que contrastava com a ondulação do mar, tudo numa frágil e suave monotonia. O meu rosto cálido e linear esboçou um pequeno sorriso. Sentia-me criança de novo.

Isso fez-me relembrar quão frágil a vida humana era. Nascemos, vivemos, crescemos com os nossos erros e com os nossos sucessos, envelhecemos lentamente, enquanto um relógio de corda conta as horas e os minutos para a nossa morte, mais que certa e quando chega o dia, partimos. Digna ou indignamente, as nossas almas deixam o nosso corpo terreno frágil e efémero e viajam para uma dimensão totalmente diferente. Ganham asas, por assim dizer e voam para bem longe da existência terrena, receando ser arrastados de novo para uma vida recheada de problemas. Queria ser assim, livre para poder ser feliz.

Infelizmente, a minha alma é uma alma penada. Condenada ao sofrimento. Também não é para menos. Se toda ou quase toda a minha vida a minha alma foi consumida pelo mal, porque razão ela sairia do castigo a que fora submetida? Talvez aqui esteja por alguma razão, seja ela certa ou não. O pós-vida é tão cheio de surpresas, umas mais agradáveis que outras. Mas da maneira que morri nada mais me podia esperar que não aquilo – ficar parado num lugar a tentar perceber porque motivo estava ali. As respostas pareciam tão distantes como os pedregulhos que salpicavam o mar e que faziam uma espécie de semi-círculo que ligava – ou pelo menos assim o parecia – uma ponta do conjunto de falésias ao outro, num ponto distante da orla costeira. “Algo digno de um quadro...”, pensei, enquanto via as ondas baterem nos penhascos e rochas salientes que estavam quase como que embutidas naquele azul que era o oceano.

Fechei os olhos. Fiquei a ouvir o vento passar por mim enquanto anoitecia. O brilho do pôr-do-sol feria-me a vista mas o som do vento é que me prendia àquele lugar, como se ele me prendesse a algo do meu passado longínquo. Era um som que só conhecia dos meus sonhos, um ruído claro e nítido, que me deixava sempre a pensar ainda mais nas coisas. Queria poder chegar ao passado do qual não me lembro mas ele não chega a mim. É como se ele nem quisesse sair do meu subconsciente. A esconder-se como uma raposa se esconde do seu caçador, ou como um fugitivo escapa da prisão.

Se algum dia encontrar de novo a minha razão de viver, será o dia em que morrerei de novo, porque assim que a achar, só quero partir para não ter de a perder de novo.

Virei costas à falésia e comecei a andar, querendo sair dali e voltar ao que estava a fazer antes de ir para ali. Contudo algo me fez parar. Uma voz, algo fugaz, mas que me prendeu por momentos ao chão, fez-me voltar-me para o mar de novo. Mas nada vi, apenas o mar, agora calmo. O vento parara, e tudo ficara sereno como se nada se tivesse passado. O silêncio agora reinava, e eu ri para comigo mesmo. “Devo estar a imaginar coisas”, pensei. Mas isso não mudava o facto de que em algum momento, o vento chamou o meu nome bem alto. Depois disso deixou de soprar e manteve-se assim, noite fora.


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