Time
Time
Chapitre 15 min de lecture

Capítulo Único

Tempo

Margareth Williams mais uma vez estava sentada no banco da praça. Pessoas fazendo sua rotina de exercícios sozinhos ou acompanhados, e ela tinha como companhia os pombos. Jogava migalhas de pão para eles, observando-os comerem de um jeito apressado. Há anos que se sentava naquela praça, atrás de si, o chafariz jorrava água das mãos de um anjo.

Aquela cidade mudara tantas vezes, contudo, as lembranças que construíra com Albert J. Williams ainda residiam iguais, mesmo que os lugares tivessem se modificado. Ela era uma mulher romântica, que conheceu o amor quarenta anos atrás.

Recordava-se do café que Caroline, sua melhor amiga, gerenciava. Ao final da tarde sempre comparecia, sentava-se à mesa ao canto perto da janela e observava as pessoas com interesse, imaginando suas histórias. Porém, isso um dia mudou.

Era novembro de 1973, a neve caía na cidade mais movimentada do mundo: Nova York. Soldados refaziam o trajeto de guerra para visitar os familiares, e Albert J. Williams adentrou no estabelecimento, neve grudada nos cabelos e na farda. Os olhos azuis e traços fortes demarcando o que já vivera e vira muito mais do que se era permitido. Mesmo assim meneou-lhe a cabeça em um gesto cavalheiro, e Margareth sorriu por sobre a xícara de café. Em todos os seus vinte e três anos não vira um homem tão bonito como aquele e soubera, no instante em que seu coração acelerou, que havia se apaixonado.

A rotina se repetiu por dias, até que foram apresentados. O namorado de Caroline o conhecia e o convidou a sentar-se junto. Albert se acomodou perto de Margareth, trocaram palavras simples e cordiais, as mãos dela tremendo por baixo da barra da toalha de mesa. Compartilharam uma torta de baunilha e café e, quando se aproximara das oito, Albert ofereceu-se para levá-la para casa.

— É o meu dever cívico. — Ele dissera quando lhe interrogou, as sobrancelhas grossas se erguendo em um trejeito divertido.

Naquele dia, Margareth desejou que tivesse mais horas, que sua casa fosse mais longe. Logo teriam que se despedir, e a companhia dele era deveras desejada. Teve vontade de mentir apenas para ficar com ele um pouco mais.

O prédio onde morava era elegante e luzes refletiam na janela, indicando que as pessoas ainda estavam acordadas. Subiu os três degraus, voltando-se para ele e foi nesse exato momento em que aconteceu o primeiro beijo. Os lábios de Albert buscaram os seus, com simplicidade e calma, aproveitando o máximo do contato repentino. E quando olhou para ele tivera a certeza de que se casariam.

E se casaram quatro anos depois. Compraram juntos uma casa de jardim de grama verde e flores nos canteiros. Não tiveram filhos, apenas os dois vivendo a felicidade de recém-casados. O momento durou três anos, até Albert ser convocado. Com lágrimas nos olhos, Margareth se despediu do marido, pedindo a Deus que o devolvesse para ela sã e salvo.

Mas isso não aconteceu. Em uma bela manhã de agosto, o sol batendo no gramado molhado pelo sereno, ela atendeu a porta deparando-se com dois oficiais de alta patente. Antes mesmo que eles falassem qualquer palavra, Margareth chorou. Albert morrera, rompera com sua promessa de estar sempre ao seu lado e ela culpou a guerra. Os pertences de Albert lhe foram entregues assim como uma carta, que ela leu mais vezes do que gostaria.

Querida Margareth, me desculpe por não estar com você agora. Queria muito vê-la acordar todos os dias, ouvir sua voz e sentir seus lábios, mas sei que aonde quer que eu esteja poderei sempre senti-la. Olho para sua foto e imagino o que está fazendo, se sente a minha falta tanto quanto eu sinto a sua. Você é e sempre será o amor da minha vida. Imagino que um dia estaremos bem velhinhos, sentados no balanço na varanda e relembrando o tempo que passamos juntos. Guarde essas lembranças, Margareth, em um canto acessível de seu coração e mente.

Albert J. Williams.

Margareth chorou por dias, alimentando a saudade e memórias até que o sentimento se assentasse dentro dela, conformado com o vazio da cama, com a falta de resposta ao bom dia e boa noite, aos almoços e jantares solitários. As feições se tornaram indiferentes e ela apenas sorria nos sonhos. Sabia que não deveria se transformar na mulher amarga e viúva, contudo ninguém poderia impedi-la de demonstrar a sua dor.

E, voltando à realidade, Margareth percebeu que mais pombos se ajuntaram a seus pés, ansiosos por mais migalhas. Contava com sessenta e três anos, os cabelos brancos e mãos nodosas trêmulas ao repartir o pão. Entretanto, embora o tempo avançasse e às vezes pouco se recordasse de sua juventude, ela jamais se esqueceu do que Albert lhe pedira. Ela o amava e amaria até o dia em que Albert a convidasse a entrar em seu mundo.

Por enquanto apenas existia.

Commentaires & Réactions

Partagez vos impressions, collez des timbres à collectionner et échangez avec l'auteur et la communauté.

Vous avez atteint le dernier chapitre disponibleRetour à l'histoire
Index de l'Histoire