The contract
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Chapter 18 min read

Prólogo

*Prólogo*

“Se já soubéssemos do fim de tudo antes de viver, não viveríamos”

JÁ ERA A QUINTA vez que ela tamborilava a caneta sobre aquele papel branco timbrado pelas laterais com o símbolo do governo de Jotunheim ao meio. O homem careca de um metro e meio ainda a encarava, esperando que a mesma assinasse o papel.

– Alguma dúvida, Srta. Lindgren?

– Não! – a jovem pigarreou – Não, é que apenas estou relendo de novo! Mas está tudo certinho...

Sentia-se incerta de tomar aquela decisão, porém, para Sigyn Lindgren não se restavam muitas escolhas. Há três meses que procurava emprego, mas em Asgard, até mesmo um simples trabalhador tinha uma excelente formação, e por mais que tivesse feito tantos cursos quando vivia em Midgard – até ser deportada – de nada surtiam algum interesse para algum empregador. Mas então uma oportunidade para trabalhar em outro lugar, outro país surge em meio ao acaso.

Seria ótimo, se o lugar em questão não fosse a distante e isolada Jotunheim.

Mas Sigyn precisava de dinheiro. Suas economias estavam na míngua.

E se, em Jotunheim ela poderia juntar algum dinheiro. Então ela iria até o dinheiro, quero dizer, Jotunheim.

Só espero que saiba o que está fazendo, Sigyn. Lembre-se, é pelo dinheiro. Pelo dinheiro. Junte uma boa grana e volte para Midgard e abra sua própria casa de massagem. Só espero que até lá não descubram nada sobre o meu currículo falso... Ai... será? Ah! Quer saber, vai assim mesmo!

E então rapidamente a jovem assinou seu nome e entregou o papel. Um riso de satisfação surgiu nos lábios do velho Trymm, que então cumprimentou a jovem.

– Meus parabéns! Amanhã mesmo embarcaremos para Jotunheim no navio pela manhã.

– Navio? – a jovem perguntou um pouco incomodada.

– É – Trymm coçou a careca – nosso pais não recebe aviões comerciais.

– Parece um pouco arcai... quero dizer diferente! – a jovem riu forçadamente.

– Mas não se preocupe, será uma viajem tranquila lhe garanto.

– Ah, claro.

Sigyn sabia que não tinha muita escolha. Afinal, ela precisava de dinheiro, não é?

*Midgard*

Há alguns anos atrás....

Normalmente, Sigyn Lindgren nunca tinha noção do que fazia. Ela sempre foi a assim, desde que percebera que estava sozinha no mundo. A única coisa que lembrava sobre sua mãe era que a mesma era uma prostituta de luxo, daquelas que andavam ao lado de altos nomes do escalão político asgardiano.

A mãe de Sigyn era uma mulher linda e infeliz, que em uma noite qualquer acabou a “concebendo” acidentalmente. Não foi lá uma notícia muito boa para ela, pois aquilo prejudicaria em seu “trabalho”. Tentou abortar o feto, da primeira vez frustrada, e, na segunda foi impedida pelo pouco de senso humano que lhe restava. Como não queria que suas colegas e concorrentes soubessem de sua gravidez, Sigrid ou também conhecida pelo nome de Valquíria Platinada – ela nem era loira de verdade – resolveu ir para a parte mais barata de Asgard. E lá ficou até ter a menina.

Porém a vida costuma ser irônica com as pessoas. E Sigrid não teve coragem de se desfazer da pequena criatura de três quilos. Alugou um pequeno quarto no Condado, um bairro suburbano da capital de Asgard, Valhala. Durante o dia cuidava da pequena Sigyn e a noite fazia alguns programas. O problema é que ser uma prostituta de subúrbio não era o mesmo que ser uma prostituta de luxo. Sigrid teve que se submeter à algumas coisas que ela não queria, e então após levar uma surra do cafetão, juntou suas coisas e foi embora com sua filha para um pais conhecido pelas boas oportunidades. Um pais alegre e acolhedor: Midgard.

Era famoso por sua riqueza étnica e cultural, talvez a mais heterogênea do mundo. Tinha pessoas de vários lugares. A migração bem sucedida se deu graças a alguns documentos falsos, tudo graças a uma transa com o falsificador, porque dinheiro ela não tinha muito.

Na época Sigyn tinha 4 anos.

Sigyn era esperta desde muito cedo. Embora inocente para saber o que sua mãe fazia no quarto dela com os homens que sempre apareciam ali. A pequena garota apenas brincava com Snorri, seu coelho de pelúcia e inseparável amigo imaginário. Ela ficava em seu quarto escondida ouvindo os barulhos estranhos e o ranger da cama do quarto de sua mãe. Elas moravam num pequeno apartamento em um bairro boêmio de MidCity, a capital daquele pais tão diversificado.

As vezes quando não eram aqueles barulhos, a pequena Sigyn ouvia o choro de sua mãe. A garota sempre ia lá para confortá-la. Sua mãe sempre dizia para ela Mamãe não teve muitas escolhas boas querida, mas com você as coisas serão diferentes” e em seguida afagava seus cabelos castanhos.

E embora amasse sua pequena, ainda assim Sigrid se sentia frustrada e deprimida, e quando Sigyn tinha completado 5 anos, Sigrid havia conhecido a sua fatídica desgraça: o pó branco. Por sorte elas tinham uma vizinha generosa que indicou à Sigrid uma creche onde ela poderia colocar sua pequena. A experiência não foi tão confortável para Sigyn, que se sentia retraída em relação as crianças que achavam seu sotaque asgardiano engraçado. Sigyn logo demonstrou ter um certo senso de liderança que a fez aflorar entre as crianças, e outra coisa que a deixou feliz naquele lugar foram os contos e os livrinhos de história que tinham na sala. Sigrid sempre ia busca-la no fim da tarde com sorriso cansado no rosto. A filha falava de seus feitos e a jovem porem acabada mulher a ouvia. Sigyn achava que ela parecia mais cansada e pálida a cada dia.

Até que.

Uma certa noite, Sigrid saiu de casa para um “programa” deixando a pequena Sigyn sozinha. A menina observava na janela a silhueta da mãe andando com seus saltos na rua escura e úmida, iluminada pelos postes. Usando um de seus melhores casacos de pele.

Sigyn nunca se esqueceu daquela cena. Foi a última vez que viu sua mãe viva.

Naquela noite, o tal pó branco levou a infeliz Sigrid a uma viajem sem volta.

Sigyn tinha seis anos quando soube que sua mãe havia morrido, como não tinha familiares foi para a adoção. O fato de ser filha de uma prostituta não ajudou muito, ela viu várias crianças entrando e saindo do orfanato. Durante aquele período estudou em uma escola, e arrumou um pequeno serviço em um mercado, de um senhor bom e simpático.

Sigyn ficou no orfanato até completar dezesseis anos. E depois teve que sair para o mundo. Se virar como dizem os midgardianos. Ela morou um tempo nos fundos do mercado daquele senhor simpático.

A vida de Sigyn pareceria triste, dramática. Mas, não para ela. Sigyn tinha sonhos e intentos. E a única coisa que ela tinha em mente era conseguir dinheiro, dinheiro para não depender de ninguém. E por muito tempo, ela não dependeu de ninguém, apenas tinha a falta do dinheiro. Quando conseguiu dinheiro suficiente para alugar um pequeno quarto no centro, Sigyn deixou seu emprego no pequeno mercado. Trabalhou como garçonete, faxineira, cuidadora de cachorros e até mesmo como recepcionista de uma clínica dentária. Nesse meio tempo fez alguns cursos. Aos vinte anos a jovem sabia falar parcialmente 4 idiomas, treinando sozinha com os Cd’s de aula que comprava na revistaria. Além do asgardiano, ela falava o midgardianês, o vanisês e recentemente estava tentando terminar o jotnar o dialeto de Jotunheim.

Embora tivesse conseguido uma quantia de dinheiro satisfatória, ainda faltava muito para Sigyn realizar seus intentos.

E então, quando havia completado 23 anos, outro acontecimento fatídico. O então dia em que teve que deixar Midgard. Sua situação era completamente irregular – graças aos documentos falsos que sua mãe tinha feito na época – e só depois de tantos anos que o departamento de imigração teve conhecimento.

Foi um tanto frustrante abandonar Midgard. Mas a garota de cabelos castanhos e olhos cinzentos não se deixou abalar.

Afinal amanhã era outro dia. E em Asgard, ela poderia encontrar alguma oportunidade. Bem, foi o que ela pensou.

Sigyn nunca havia imaginado que fosse tão difícil arrumar trabalho em Asgard. Parecia que nada nela ajudava, muito pelo contrário, só parecia piorar. O sotaque de Midgard que ela havia adquirido pelos anos, a escolaridade incompatível com os padrões asgardianos. Por mais proativa e inteligente que ela parecesse nas entrevistas, de nada parecia adiantar.

– Só há um lugar para meninas assim como você – a mulher entregou um cartão a garota – vai achar alguma coisa por lá – terminou a frase com uma certa pena no olhar.

– Vou dar uma olhada – Sigyn cumprimentou a mulher.

Já fazia dois meses que a garota procurava por trabalho, procurou pelo endereço sugerido pela mulher. E ao chegar lá ela o encontrou. O tal lugar.

Um lugar para garotas como ela.

Um prostíbulo.

Sigyn ficou encarando o lugar por alguns segundos e fitou o cartão que tinha nas mãos.

Lugar para garotas como eu... Ah tá! O que ela acha que tá pensando?

Sigyn picou o cartão e saiu andando de forma brusca e mal andara e já trombava com o corpo de um careca mais baixo que ela.

*

Sigyn olhava inquieta para a janela do convés do navio. Estava devidamente confortável em sua cama na ala dos dormitórios, abraçada a seu inseparável e já remendado e envelhecido Snorri. Chovia do lado de fora, uma tempestade forte. O pensamento de morrer passava a cada segundo por sua cabeça. Cada solavanco do navio era um susto para ela. Tinha medo de morrer afogada. A única certeza que queria ter era de que em algumas horas estaria pisando nas terras geladas de Jotunheim.

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