Os passageiros que nunca desceram
A primeira vez que Marta Amaral viu uma criança envelhecer dentro de um ônibus, atribuiu o acontecimento à iluminação. Era pouco depois da meia-noite, chovia sobre Santa Amélia, e o menino, que embarcara com aproximadamente sete anos, desceu aparentando quarenta, trazendo no rosto a indisposição de quem descobrira recentemente a existência das prestações e do imposto de renda. Antes de sair, agradeceu pela viagem, examinou com algum constrangimento a própria calvície e perguntou se Marta conhecia uma barbearia aberta àquela hora. Ela indicou o estabelecimento de seu Osvaldo, perto da praça do Cemitério Novo, embora não tivesse certeza de que ainda funcionava. Durante o restante do percurso, pensou se aquilo exigia alguma providência. Concluiu que não. O passageiro havia pago, não causara transtornos e, sobretudo, tivera a delicadeza de não envelhecer sobre o banco.
Isso acontecera dezessete anos antes, quando assumira o último horário da linha 86. Desde então, Marta aprendera que as noites tinham uma população própria, consideravelmente menos interessada em ser compreendida do que em chegar a determinados lugares antes do amanhecer. Conhecia passageiros que levavam flores para pessoas mortas, pessoas mortas que levavam flores para outras ainda vivas e uma senhora que transportava um vaso de violetas cuja terra jamais secava, mesmo quando permanecia semanas sem receber água. Também conhecia Nina, uma menina de uniforme escolar que embarcava desde a primeira noite de Marta na linha sem demonstrar qualquer progresso visível em sua educação ou desenvolvimento físico. Marta nunca perguntara sua idade. Considerava uma indelicadeza exigir de alguém informações que a própria aparência parecia empenhada em esconder.
O itinerário oficial atravessava Santa Amélia de oeste a leste, acompanhando a região industrial até alcançar a praça do Cemitério Novo. O percurso extraoficial começava sob o viaduto da Pedreira, entre duas colunas de concreto que a prefeitura pintara de amarelo numa campanha de revitalização, iniciativa cujo principal resultado fora permitir que os moradores observassem com maior clareza a deterioração da estrutura. Depois das colunas, a chuva costumava parar, as avenidas cediam lugar a casas baixas e árvores antigas, e a estrada prosseguia por uma extensão que ninguém conseguira incluir satisfatoriamente nos mapas.
Os moradores chamavam aquele lugar de Entremeio.
Não era deserto nem particularmente solene. Tinha uma padaria cujo forno fora soterrado na enchente de 1978 e continuava produzindo pão quente, uma barbearia frequentada por homens que haviam esperado tanto tempo que perderam os cabelos e uma praça onde os moradores discutiam futebol, preços de alimentos e a qualidade cada vez mais insatisfatória dos jovens. Havia casamentos, pequenas infidelidades, famílias desagradáveis e crianças que brincavam de esconde-esconde com uma competência inquietante. Uma delas, segundo Marta ouvira, permanecera escondida por vinte e três anos e retornara para casa bastante contrariada ao descobrir que seus irmãos haviam crescido sem procurá-la.
Na primeira viagem, o motorista anterior lhe entregou as chaves, olhou para ela um pouco mais do que o gesto exigia e explicou que deveria seguir até a casa dos sinos, fazer o retorno e nunca permitir o desembarque de um passageiro do Entremeio no lado comum do viaduto. Agenor era um homem magro, fumava cigarros sem filtro e tinha uma cicatriz comprida na garganta, além de metade da língua, que perdera numa ocasião sobre a qual ninguém desejava conversar. Marta perguntara o motivo da proibição. Ele apagou o cigarro, examinou a ponta queimada e respondeu que as pessoas costumavam querer voltar para casa, mesmo quando já não possuíam uma, e que certas formas de hospitalidade acabavam obrigando os vizinhos a se mudar.
A resposta lhe pareceu obscura, característica que Marta associava aos homens mais velhos quando desejavam esconder alguma informação ou simplesmente não sabiam do que estavam falando. Apesar disso, obedecera. Havia algo naquele itinerário que recomendava prudência, e Marta possuía uma relação bastante prática com o desconhecido: desde que não interferisse na direção, no pagamento ou na integridade das portas, estava disposta a tolerar quase tudo.
Na última quinta-feira de outubro, a empresa anunciou o encerramento da linha.
O supervisor, um rapaz cuja barba perfeitamente aparada parecia consumir uma parcela desproporcional de sua capacidade de concentração, explicou que a demanda não justificava a manutenção do horário. Marta perguntou o que aconteceria com os passageiros que moravam depois da Pedreira. O rapaz abriu um mapa, apontou para uma região desocupada e assegurou que ninguém morava ali. Marta examinou o papel. Era um documento bem impresso, colorido, de aparência bastante convincente, e tinha a vantagem de não precisar lidar pessoalmente com as pessoas que havia decidido excluir.
— Então é por isso que ninguém reclama — respondeu ela.
O rapaz pareceu satisfeito. Marta terminou o café antes que ele pudesse explicar novamente a situação, pois já tinha cinquenta e cinco anos e começara a considerar a própria paciência um recurso natural ameaçado de extinção.
Morava num apartamento pequeno, no terceiro andar de um prédio cuja principal qualidade era permanecer de pé apesar das reformas realizadas pelos moradores. A pia da cozinha pingava havia três semanas, a geladeira fazia um ruído semelhante ao de uma pessoa resmungando durante o sono, e a filha, Lia, telefonava quase diariamente para saber se a mãe havia comido alguma coisa além de café e biscoitos de polvilho. Lia tinha vinte e sete anos, trabalhava numa clínica odontológica e identificava pelo tom de voz, com desagradável precisão, quando Marta mentia sobre ter almoçado. Naquela tarde, enviara uma mensagem convidando-a para domingo. Pretendia fazer lasanha, receita que executara duas vezes com resultados suficientemente duvidosos para transformar a terceira tentativa num acontecimento acompanhado de certa apreensão familiar.
Marta aceitou, recomendou que utilizasse menos sal e recebeu como resposta a informação de que mulheres incapazes de refogar alho sem queimá-lo deveriam se abster de aconselhamento culinário. Guardou o telefone sorrindo, embora considerasse a observação injusta. Havia queimado alho em algumas ocasiões, naturalmente, mas sempre por motivos que julgava perfeitamente compreensíveis.
Durante muitos anos, haviam vivido apenas as duas. Neusa, mãe de Marta, morrera vinte e três anos antes, depois de uma internação durante a qual passara os últimos dias perguntando se alguém estava cuidando de suas violetas. Lia era pequena naquela época e guardava lembranças esparsas da avó, quase todas relacionadas à cozinha, a uma caixa de costura e a uma crença profundamente arraigada de que cebolas cortadas em pedaços grandes denunciavam alguma deficiência de caráter. Marta conservara a caixa de costura, algumas fotografias e um vestido estampado que nunca tivera coragem de doar. Às vezes pensava que se esqueceria da voz da mãe. Outras vezes a escutava com tamanha nitidez que quase se virava para responder.
Naquela noite, entrou no ônibus às vinte e três horas e quarenta. Chovia desde o início da tarde, e a água escorria pelas janelas, distorcendo os letreiros dos estabelecimentos e os rostos dos passageiros. O veículo era um Mercedes amarelo, antigo, com bancos de plástico azul e uma inclinação permanente para a esquerda. Sobre o para-brisa havia um crucifixo, embora Marta fosse de opinião que Jesus Cristo enfrentara dificuldades suficientes em vida para ainda precisar acompanhar o transporte coletivo de Santa Amélia. Ao lado do painel, guardava balas de hortelã, uma chave de fenda e uma fotografia de Lia aos oito anos, fantasiada de bruxa, sorrindo com a satisfação de quem descobrira que adultos distribuíam doces quando devidamente ameaçados.
Os primeiros passageiros embarcaram perto do centro. Uma auxiliar de enfermagem adormeceu antes da segunda esquina; dois homens discutiam futebol sem informações suficientes para sustentar qualquer opinião; uma mulher carregava um bolo de aniversário, protegendo-o dos movimentos do veículo com uma dedicação que Marta desejaria encontrar entre os responsáveis pela pavimentação da cidade. Depois da praça do Cemitério Novo, restaram os viajantes habituais.
Seu Américo ocupava o segundo banco, com o chapéu apoiado sobre os joelhos. Dona Zuleide mantinha no colo uma gaiola coberta por um pano de veludo escuro, de onde vinha ocasionalmente um ruído semelhante a unhas raspando madeira. Nina desenhava círculos na janela embaçada. Um casal discutia a venda de uma residência cujos proprietários haviam morrido em décadas diferentes, mas continuavam convivendo na mesma sala. Marta conhecia quase todos. Eram, em sua maioria, pessoas educadas, sobretudo quando comparadas aos passageiros que retornavam dos bares nas primeiras horas da manhã.
Ao atravessarem o viaduto, a chuva cessou.
A estrada surgiu entre duas fileiras de árvores. Havia luzes nas casas, cheiro de lenha queimando e uma névoa baixa atravessando os quintais. Marta reduziu a velocidade diante da padaria. O padeiro conversava com uma mulher que segurava um bebê, e ambos ergueram a mão quando o ônibus passou. Na barbearia, dois velhos disputavam uma partida de dominó enquanto um terceiro dormia debaixo da cadeira, enrolado num cobertor. A rua prosseguia até uma pequena praça onde as crianças ainda brincavam, embora o relógio da igreja marcasse permanentemente oito e vinte.
Foi Nina quem perguntou sobre o encerramento da linha.
A menina se aproximou da cabine com a mochila vermelha apertada contra o peito. Tinha cabelos castanhos na altura dos ombros, sardas discretas e joelhos compridos demais para o uniforme escolar. Marta a conhecia havia tempo suficiente para distinguir suas expressões, e naquela noite encontrou em seu rosto uma preocupação que nunca observara antes.
— Dona Marta, amanhã acaba mesmo?
— Acaba o horário. Eu continuo trabalhando, só vou para outra linha.
Nina olhou para os passageiros, depois para a estrada, onde as casas começavam a ficar mais distantes.
— E a gente?
Marta não soube responder. Sempre imaginara que aquelas pessoas tinham outras maneiras de chegar em casa. Algumas trabalhavam, visitavam parentes, levavam presentes de aniversário ou saíam para comprar remédios. Nunca considerara que o ônibus pudesse ser tão importante para a existência daquele lugar quanto para a vida dos que o habitavam.
Seu Américo levantou os olhos.
— Depois conversamos sobre isso, Nina. A dona Marta ainda precisa dirigir.
A menina continuou junto à cabine.
— Eu queria ver o mar outra vez.
Marta observou-a pelo espelho.
— Você já viu?
— Quando era pequena. Lembro da areia entrando no sapato. Minha mãe ficou brava porque eu levei metade da praia para casa.
— E faz quanto tempo?
Nina hesitou. Pareceu contar alguma coisa mentalmente, mas desistiu antes de terminar.
— Muito.
Voltou ao banco e retirou um caderno da mochila. Marta acompanhou seu movimento por alguns segundos, incomodada com uma sensação inexplicável de familiaridade. Havia algo naquele rosto, talvez na maneira de franzir a testa ou de segurar a mochila, que parecia pertencer a uma lembrança antiga, embora ela não conseguisse decidir a qual.
Foi depois da curva das Amoreiras que viu a mulher de vestido azul.
Estava sozinha, junto a um poste inclinado, segurando uma sacola de supermercado. Tinha os cabelos escuros grudados ao rosto, apesar de não chover naquele trecho, e uma expressão que Marta reconheceu imediatamente: a das pessoas que passaram tempo demais esperando por alguém e começaram a suspeitar que o mundo havia esquecido seu compromisso. Quando o ônibus apareceu, levantou a mão e avançou para o meio da estrada.
Seu Américo se levantou antes que Marta alcançasse o freio.
— Não pare.
A motorista examinou-o pelo espelho.
— Ela está fazendo sinal.
— Eu vi. Continue.
Mas a mulher já estava diante do veículo. Marta freou, abriu a porta e observou-a subir quase tropeçando nos degraus. Tinha os olhos vermelhos, arranhões recentes nos braços e um cheiro de flores apodrecidas que se espalhou pelo corredor. Procurou uma moeda dentro da sacola, deixou cair alguma coisa no chão e murmurou um pedido de desculpas.
Chamava-se Raquel. Durante alguns meses, embarcara com um menino pequeno que carregava uma coleção de carrinhos de plástico. Depois desaparecera, e Marta supusera que havia se mudado, explicação geralmente satisfatória para a ausência de quase todas as pessoas.
— Cadê o Tomás?
Raquel parou de procurar as moedas. Olhou para a motorista com uma expressão de espanto, como se a pergunta tivesse sido formulada numa língua que conhecera durante a infância e passara décadas tentando esquecer.
— É por causa dele que estou aqui. Preciso voltar para casa.
Seu Américo aproximou-se da cabine.
— Raquel, você sabe que não pode descer do outro lado.
A mulher encarou-o com um ressentimento tão intenso que Marta sentiu vontade de interromper a discussão antes mesmo de compreender sua natureza.
— Meu filho tem seis anos, Américo. Seis. Há quarenta e dois anos. Os dentes caem e voltam a nascer, as roupas apodrecem antes de ficarem pequenas, ele aprende a escrever o próprio nome e depois esquece para que servem as letras. Você acha que eu não tentei viver com isso?
— Tomás está sendo cuidado.
— Está sendo mantido onde nenhuma criança deveria permanecer. — Raquel apertou a sacola contra o peito, e uma pequena embalagem de biscoitos se rompeu lá dentro. — Ontem ele me disse que tinha encontrado uma casa. Disse que havia um quarto para ele e que poderia crescer se eu fosse buscá-lo. Hoje acordei e não consegui encontrá-lo. Procurei na escola, na praça, nas casas onde costuma brincar. Uma senhora disse que o viu perto da estrada, esperando alguém que ainda não tinha chegado.
Dona Zuleide apertou o pano sobre a gaiola. Do interior veio uma pancada seca, tão forte que Marta a escutou acima do motor.
— Quem mostrou a casa ao menino? — perguntou Américo.
Raquel desviou os olhos.
— Não sei.
O velho permaneceu diante dela. Seu rosto, habitualmente sereno, tinha agora a expressão que Marta vira nos médicos quando perguntara se Neusa sairia do hospital: não exatamente medo, mas a percepção de que alguma coisa já havia acontecido e de que nenhuma explicação conseguiria torná-la menos grave.
— Sente-se, Raquel. Vamos conversar com Eulália.
A mulher começou a chorar. As lágrimas escorriam silenciosamente enquanto procurava um banco, e Marta percebeu que seu vestido estava molhado até os joelhos. Parecia ter caminhado durante horas.
A viagem continuou até a casa dos sinos. Marta realizou o retorno e começou a atravessar novamente as ruas do Entremeio. Raquel permaneceu perto da porta, com a sacola apoiada sobre o colo, observando o caminho por uma abertura entre os passageiros. Seu Américo tentou conversar com ela, mas a mulher respondia apenas quando lhe perguntava alguma coisa diretamente. Ao se aproximarem do viaduto, levantou-se.
— É na primeira rua depois da passagem — informou. — Perto da igreja.
— Você não pode descer — repetiu o velho.
— Meu filho está lá.
— Você não sabe quem está esperando.
Raquel voltou-se para ele.
— É muito fácil dizer isso quando não é seu filho.
Marta olhou pelo espelho. Não gostava do tom da discussão, principalmente porque todos pareciam conhecer informações que consideravam impróprio compartilhar com a única pessoa responsável por conduzir o veículo. Quando atravessaram as colunas do viaduto, a chuva voltou a cair sobre Santa Amélia. Reconheceu o depósito de ferro-velho, a farmácia e o muro comprido da antiga fábrica de tintas.
Havia um menino na calçada.
Usava pijama verde, estava descalço e protegia a cabeça da chuva com as duas mãos. Quando viu o ônibus, levantou o rosto e sorriu. Marta conhecia a cicatriz sobre o queixo.
— Tomás! — gritou Raquel.
O menino correu até o portão de uma casa azul que Marta nunca vira antes. A casa tinha dois andares, varanda de ferro e cortinas amarelas. No muro, uma placa informava a data de construção: 1983. Era uma casa velha, com a pintura descascada perto das janelas, embora Marta se lembrasse perfeitamente do terreno vazio que ocupava aquele lugar na viagem anterior.
Seu Américo segurou-lhe o braço.
— Não abra.
Marta olhou para o menino, que continuava acenando sob a chuva, depois para Raquel, cuja expressão adquirira uma esperança tão desesperada que a motorista sentiu vergonha de hesitar.
— Se tem uma criança lá fora, eu vou abrir.
— Dona Marta, escute...
— Então me explique!
O velho aproximou o rosto do dela. Havia algo úmido em seus olhos, uma inquietação que parecia ultrapassar o destino daquela única passageira.
— Quando um de nós sai daqui para ficar no mundo de vocês, precisa encontrar onde caber. Às vezes o lugar está vazio. Quase nunca está.
Marta olhou novamente para a casa. O menino havia parado de acenar. Permanecia diante do portão, sorrindo com uma paciência que começava a parecer desagradável.
— Então alguém vai ter de se apertar — respondeu ela, procurando a alavanca.
O velho segurou seu pulso.
— Não estou falando do ônibus.
Marta abriu a porta.
Raquel desceu correndo. Atravessou a calçada, ajoelhou-se diante de Tomás e começou a beijar-lhe os cabelos. O menino abraçou-a com uma alegria que Marta conhecia, pois Lia também costumava fazê-lo quando era pequena e passava tempo demais esperando que a mãe retornasse do trabalho. Por alguns instantes, a cena lhe pareceu tão comum que a preocupação de Américo soou ridícula.
Então a farmácia desapareceu.
Marta piscou. Onde havia uma loja iluminada, surgiu uma igreja de torre estreita, com os vitrais acesos e um jardim cercado por grades. O muro da fábrica terminava agora duas quadras antes do que ela recordava. Havia pessoas nas janelas da casa azul, fotografias penduradas na varanda e um homem atravessando o portão com um guarda-chuva, aparentemente interessado em saber por que sua vizinha estava ajoelhada na chuva.
Américo soltou lentamente o pulso da motorista.
— Agora já foi.
Marta não respondeu. Fechou a porta, prosseguiu até o terminal e guardou o ônibus pouco depois da uma da manhã. Antes de descer, encontrou sobre o primeiro degrau uma pequena poça de água escura, misturada a fragmentos de alguma coisa branca. Poderiam ser pétalas, se as pétalas tivessem articulações.
Limpou o chão com um pano.
Quando chegou ao apartamento, a mãe estava descascando uma laranja.
Neusa Amaral permanecia sentada à mesa da cozinha, usando um vestido estampado e chinelos de borracha. Tinha os cabelos presos num coque baixo, uma pequena mancha junto ao nariz e a expressão de quem aguardava alguém havia tempo suficiente para começar a preparar uma repreensão. Retirava a casca da fruta numa tira contínua, sem interromper o movimento da faca. O cheiro de laranja fresca ocupava a cozinha inteira.
— Você chegou tarde — disse, antes que Marta conseguisse abrir a boca. — O arroz está no fogão, mas não vou esquentar. Tenho mais o que fazer do que ficar esperando mulher velha chegar em casa.
Marta permaneceu junto à porta.
Conhecia aquele vestido. Havia escolhido a roupa para o enterro porque Neusa gostava dele e não tinha nenhum outro em boas condições. Reconheceu também a faca pequena, a maneira como a mãe apoiava o cotovelo sobre a mesa e o gesto impaciente com que retirava os fios brancos presos ao coque.
— Mãe?
Neusa ergueu uma sobrancelha.
— Quem mais seria, Marta? A rainha da Inglaterra?
As chaves caíram da mão da motorista.
Neusa continuou descascando a laranja, agora com uma expressão preocupada. Perguntou se Marta estava passando mal, se alguém batera no ônibus e se precisava chamar algum vizinho. A filha sentiu uma vontade quase infantil de correr até ela, de se ajoelhar junto à cadeira e esconder o rosto em seu colo. Durante vinte e três anos, imaginara como seria ouvi-la novamente reclamar de alguma coisa sem importância. A possibilidade estava diante dela, tão concreta que chegava a ser ofensiva.
— Cadê a Lia? — perguntou.
A faca parou.
Neusa examinou o rosto da filha.
— Quem?
— Minha filha. A Lia.
A velha colocou a laranja sobre a mesa.
— Marta, você não tem filha.
A motorista tirou o telefone do bolso. Procurou o contato de Lia e encontrou apenas uma sequência de números sem nome. As mensagens trocadas naquela tarde permaneciam na conversa, mas agora somente suas respostas eram visíveis, separadas por espaços vazios. A fotografia da jovem desaparecera do painel do aparelho. No lugar onde deveria estar o rosto de Lia, havia apenas um círculo cinza.
Ligou.
Uma voz automática informou que o número não existia.
Neusa levantou-se, ainda segurando a faca.
— Minha filha, senta um pouco. Você está branca.
Marta recuou.
Não por medo da lâmina, mas porque aquele gesto era a preocupação da mãe, a mesma que ela passara tantos anos querendo de volta. Neusa continuava com os dedos molhados de sumo de laranja, olhando para ela à espera de que finalmente explicasse por que entrara em casa como se tivesse encontrado um cadáver.
Marta começou a chorar.
A mãe colocou a faca sobre a pia, limpou as mãos num pano e a abraçou. Tinha o mesmo cheiro de sabonete de erva-doce, o mesmo calor nas mãos e uma pequena dificuldade para respirar quando se emocionava. Tudo estava ali. Os últimos vinte e três anos haviam sido substituídos por uma mulher viva, com dores nas costas, cabelos brancos e uma lista de compras presa à geladeira.
Marta deixou-se abraçar durante alguns segundos.
Depois se afastou.
— Eu tenho uma filha, mãe. Ela tem vinte e sete anos. Chama Lia.
Neusa examinou-a com uma tristeza que Marta conhecia desde a infância, quando a mãe desejava ajudá-la e não sabia por onde começar.
— Minha filha, você nunca teve filhos.
Naquela madrugada, Marta percorreu o apartamento procurando qualquer vestígio da filha. Encontrou roupas que não reconhecia, fotografias de viagens que nunca fizera e um quarto transformado em depósito, onde deveriam estar os livros de Lia, um armário cheio de roupas e uma coleção de pequenas quinquilharias que a filha considerava indispensáveis. O próprio corpo conservava lembranças incompatíveis: havia uma cicatriz sobre o abdômen, consequência da cesariana, mas Neusa afirmava que se tratava de uma cirurgia realizada muitos anos antes.
As duas permaneceram acordadas até quase o amanhecer. A mãe preparou café, ofereceu biscoitos, perguntou se Marta estava tomando corretamente os remédios para pressão e contou acontecimentos dos quais a filha não se lembrava. Havia uma viagem ao litoral, uma festa de aniversário e um homem chamado Osvaldo que, aparentemente, fora namorado de Marta durante seis anos. Neusa não gostava dele. Descreveu suas deficiências com uma precisão tão ofensiva que Marta quase sorriu, embora não se lembrasse dele, exceto talvez de um sujeito parecido que lhe vendera uma geladeira.
Às seis da manhã, saiu de casa.
A rua das Aroeiras estava exatamente como a encontrara na noite anterior. A igreja permanecia ao lado da farmácia, a casa azul ocupava o terreno vazio e uma mulher varria a calçada, interrompendo o serviço de vez em quando para reclamar das folhas que caíam da árvore do vizinho.
Raquel abriu a porta com roupas secas, uma caneca de café na mão. Ao ver Marta, afastou-se para deixá-la entrar.
— A senhora veio.
— Onde está minha filha?
A mulher baixou os olhos.
— Eu não sei.
Marta avançou um passo. O corredor era estreito, decorado com fotografias. Raquel aparecia em algumas delas ao lado de Tomás, agora cercado por colegas de escola, vizinhos e parentes que Marta jamais vira. Havia retratos de aniversários, uma viagem ao litoral e uma fotografia antiga da casa, tirada quando as árvores da rua eram menores. Havia desgaste nos retratos mais antigos e poeira atrás das molduras.
— Você sabia que alguém ia desaparecer.
Raquel apoiou a caneca sobre uma mesinha.
— Eu sabia que podia acontecer.
— Minha filha tem vinte e sete anos.
— O meu tem seis. Há quarenta e dois.
Marta olhou para o corredor. Tomás apareceu perto da escada, segurando um carrinho vermelho. Estava vestido para ir à escola, com os cabelos penteados e uma alegria que a motorista nunca observara nele durante as viagens. Cumprimentou-a timidamente e perguntou à mãe se podia levar o brinquedo.
Raquel ajeitou-lhe a gola da camisa.
— Pode, mas não perca outra vez.
O menino assentiu e correu para buscar a mochila. A mulher esperou que desaparecesse antes de continuar.
— Ontem ele dormiu oito horas. Oito. No Entremeio, às vezes ficava acordado durante semanas e depois dormia tanto que eu começava a achar que nunca mais ia despertar. Hoje acordou lembrando o nome dos colegas, o que comeu no jantar e uma história que a professora contou. A senhora sabe o que é passar décadas ensinando uma criança a amarrar os sapatos e descobrir, na manhã seguinte, que ela esqueceu para que servem os cadarços?
Marta observou-a em silêncio. Havia desejado odiar Raquel desde que encontrara Neusa na cozinha, mas a mulher diante dela parecia tão cansada quanto qualquer mãe que passara anos cuidando de uma criança doente. Marta não conseguiu olhar por muito tempo para a alegria que a outra tentava esconder.
— Quero minha filha de volta.
— Eu sei.
— Então vai entrar naquele ônibus hoje à noite.
Raquel apertou os braços contra o corpo.
— Não posso.
A raiva veio tão depressa que Marta precisou recuar para não agarrá-la pelos ombros.
— Você não pode ou não quer?
A mulher começou a responder, mas parou quando Tomás apareceu com um caderno nas mãos. Abriu-o sobre a mesa para mostrar um desenho que fizera durante a madrugada. Havia uma casa azul, uma mulher de vestido claro e um menino segurando um carrinho vermelho. Atrás deles, Tomás desenhara uma figura comprida, de braços abertos, que tomava quase todo o espaço restante da folha. Não tinha cabeça. O vestido branco descia até a margem inferior, onde continuava através de um risco que a criança fizera sobre a própria mesa.
— Quem é essa pessoa? — perguntou Marta.
Tomás examinou o desenho.
— A mulher que fica no meu quarto.
Raquel perdeu a cor.
— Que mulher, querido?
— A que me ensinou a encontrar a casa. Ela disse que amanhã eu vou acordar maior.
O menino virou a página. Havia outra figura, semelhante à primeira, mas agora com uma quantidade extraordinária de dentes espalhados pelo vestido. Tomás os havia colorido de vermelho e amarelo, como se fossem pequenas flores.
— Ela falou que eu podia crescer depressa, se desse minha boca emprestada.
Raquel fechou o caderno.
O menino protestou, indignado com a falta de reconhecimento de seu talento artístico, e saiu correndo para buscar o carrinho. Quando desapareceu pela escada, a mãe permaneceu algum tempo olhando para a capa.
— Ontem ele me perguntou por que a mão esquerda estava mexendo sozinha — contou. — Achei que estivesse brincando. Depois, durante a noite, ouvi alguém falando no quarto. Era a voz dele, mas vinha de dentro da parede.
Marta examinou a escada.
Havia uma marca úmida no papel que revestia o corredor. A princípio era uma infiltração comum, dessas que crescem enquanto a família discute de quem é a obrigação de chamar o pedreiro. No centro, entretanto, havia cinco pequenas depressões, dispostas numa forma que lembrava os dedos de uma mão.
Uma delas se moveu.
Marta não esperou para descobrir o que aconteceria em seguida.
Saiu da casa e atravessou a rua quase correndo. Atrás dela, Raquel chamou seu nome, mas a motorista continuou até a esquina, onde precisou apoiar-se num poste para recuperar o fôlego.
Encontrou seu Américo na garagem, sentado dentro do ônibus 86, embora o veículo estivesse trancado e as chaves permanecessem com o encarregado do turno. O velho ocupava o banco habitual, de chapéu e casaco, observando através da janela os mecânicos que trabalhavam sob os coletivos. Marta subiu pela porta dianteira, que se abriu antes que ela a tocasse, e sentou-se ao lado dele sem perguntar como havia entrado. Já aprendera a não perguntar por certas facilidades do Entremeio, principalmente quando se davam em benefício dela.
— Quero encontrar minha filha.
Américo examinou seu rosto sem surpresa. Tinha a bengala apoiada contra o banco.
— Imaginei que alguém próximo acabaria saindo do lugar.
Marta respirou fundo. Estava cansada, não dormia havia quase dois dias e havia chegado à conclusão de que a paciência necessária para conversar com aquele homem deveria ser vendida em farmácias, preferencialmente sem receita.
— Onde está a Lia?
— Se a mudança foi como parece, deve estar no Entremeio. Não sei exatamente em qual parte. A estrada recebe muita gente que perde o lugar de repente, e nem todos conseguem encontrar o caminho de volta. Alguns acordam numa casa parecida com a sua, outros numa rua onde ninguém reconhece seus nomes. Há pessoas que passam anos procurando uma porta que se recusam a admitir que fechou.
— E por que minha mãe apareceu?
O velho hesitou.
— Quando Raquel desceu, o mundo começou a encontrar uma história em que ela e o menino sempre tivessem morado naquela casa. Isso não exige apenas paredes. Precisa de vizinhos que se lembrem deles, de pessoas que conheçam o nome da criança, de uma escola onde haja uma cadeira para Tomás. Todas essas coisas já estavam ocupadas por outras histórias. Algumas foram afastadas. Outras acabaram voltando.
Marta pensou nas fotografias de Neusa, nas viagens que jamais fizera e na cicatriz da cesariana, agora atribuída a uma cirurgia da qual não se lembrava.
— Então minha filha foi trocada pela minha mãe?
— Eu não sei se houve uma troca tão simples. — Américo tirou o chapéu. — O Entremeio não costuma escolher uma coisa e retirar outra de maneira educada. Às vezes um acontecimento depende de muitos outros, e quando alguém consegue um lugar que não lhe cabia, as consequências se espalham. Seu casamento pode deixar de ter acontecido, um vizinho pode morrer antes de nascer, uma criança pode descobrir que nunca teve irmãos. Depois as pessoas continuam vivendo, convencidas de que tudo sempre foi assim. Quem se lembra das duas histórias costuma sofrer bastante. Não conheço ninguém que tenha considerado a experiência uma vantagem.
Marta permaneceu em silêncio. O velho observava os bancos vazios, como se procurasse entre eles algum passageiro que ainda não chegara.
— O ônibus atravessa sem exigir que ninguém fique de um lado ou do outro — continuou. — Enquanto estamos nele, podemos visitar, transportar coisas, encontrar pessoas. Descer para morar é diferente. O mundo de vocês tem um jeito muito desagradável de encontrar espaço para aquilo que não esperava receber.
— E o que está dentro do Tomás?
Américo voltou os olhos para ela.
Marta contou-lhe sobre o desenho, a mão na parede e a promessa feita ao menino. O velho ouviu até o fim, sem interromper. Quando terminou, permaneceu alguns instantes examinando os próprios dedos.
— Existem coisas que vivem mais fundo no Entremeio. Não costumamos encontrá-las nas ruas onde moramos. Às vezes aparecem numa casa que ficou vazia tempo demais, ou numa estrada abandonada. Elas não precisam das mesmas coisas que nós. Algumas parecem interessadas em aprender. Outras se aproximam quando alguém deseja recuperar uma pessoa ou uma vida que perdeu. É difícil saber o que pretendem, porque geralmente começamos a compreender alguma coisa quando já estão usando nossas lembranças para conversar conosco.
— Essa explicação é horrorosa, Américo.
— Eu sei. Passei muito tempo tentando encontrar outra.
Ele lhe contou que, anos antes, uma senhora havia atravessado para visitar o marido morto. Encontrara o homem na cozinha, lendo um jornal que deixara inacabado no dia do funeral. Passara três noites com ele, cozinhara suas refeições favoritas e dormira ao seu lado. Na quarta, percebeu que o marido continuava lendo a mesma página, embora ela tivesse mudado o jornal duas vezes. Quando perguntou por que não terminava a leitura, ele respondeu que estava esperando descobrir o que deveria acontecer depois.
A mulher retornara à estrada antes do amanhecer. Encontraram-na meses mais tarde, dormindo num banco da praça, com os cabelos completamente brancos. Nunca souberam o que acontecera ao homem. Naquela época, Américo ainda acreditava que algumas respostas poderiam tornar as pessoas menos infelizes.
— E hoje?
O velho recolocou o chapéu.
— Hoje acredito que algumas perguntas são suficientemente bem formuladas para nos deixar infelizes sem precisar de resposta nenhuma.
Marta olhou para o relógio do painel. O veículo permanecia desligado, mas os ponteiros avançavam lentamente em sentido contrário.
— Se Raquel voltar, Lia volta também?
— A história pode recuperar o lugar que perdeu. Mas uma pessoa não é um móvel que reaparece no quarto assim que alguém devolve a chave. Sua filha precisará atravessar de volta. E Raquel terá de levar o menino antes que aquilo encontre outro caminho.
— Então vou buscá-los.
Américo assentiu. Não pareceu satisfeito nem especialmente contrariado.
— Fale primeiro com sua mãe.
Marta virou-se.
— Por quê?
O velho observou-a durante algum tempo. Havia coisas que desejava dizer, mas parecia procurar uma maneira de não fazê-las soar como uma sentença.
— Porque, quando sua filha voltar, a senhora talvez não encontre mais Neusa em casa.
Marta desceu do ônibus sem se despedir.
Naquela tarde, procurou Raquel novamente. Encontrou a mulher sentada na varanda, com o caderno de desenhos aberto sobre os joelhos. Tomás dormia no quarto, e ela mantinha a porta entreaberta para observar qualquer movimento. A casa parecia ter envelhecido desde a manhã. Havia manchas novas sobre as paredes, um cheiro de umidade no corredor e pequenas rachaduras surgindo junto às janelas.
Raquel não perguntou por que Marta voltara.
— Ele acordou falando com a voz do meu pai — contou, mostrando-lhe o caderno. — Meu pai morreu antes de Tomás nascer. Hoje o menino me perguntou se eu lembrava de quando ele me levava ao rio para pescar. Era uma lembrança que só eu conhecia. Depois perguntou se podia ficar um pouco dentro da minha boca porque estava cansado de usar a dele.
Marta examinou o corredor. A mancha de umidade havia crescido. Agora ocupava parte da escada, e os cinco dedos estavam mais definidos, como se alguém pressionasse o papel pelo lado de dentro.
— Precisamos tirar o menino daqui.
Raquel fechou o caderno.
— O que acontece se voltarmos?
— Não sei. Américo diz que vamos precisar procurar uma maneira de ajudá-lo. Mas não posso continuar deixando minha filha naquele lugar enquanto seu menino aprende a falar com a voz dos mortos.
A mulher começou a chorar. Marta sentou-se ao lado dela, desconfortável com a vontade de oferecer alguma espécie de consolo. Não encontrou o que dizer e desconfiou do que lhe veio à cabeça. Durante muito tempo, ouviram o movimento da rua, o barulho de uma motocicleta e a televisão de um vizinho.
— Eu achei que ia conseguir — disse Raquel. — Quando vi a casa, pensei que finalmente tinha encontrado um lugar onde ele poderia viver. Havia um quarto, brinquedos, uma escola. Eu tinha lembranças de aniversários que nunca aconteceram, e todas eram tão bonitas que comecei a querer acreditar nelas. Ontem encontrei uma fotografia do Tomás aos três anos. Ele estava sentado no colo de um homem que eu não conhecia, numa praia onde nunca fomos. Passei uma hora olhando para aquele retrato, tentando descobrir se conseguia lembrar do dia. Quando percebi, estava chorando por uma viagem que jamais fiz.
Marta observou a rua. Uma menina atravessou a calçada carregando um pão quase do tamanho do próprio braço. Devia ter uns oito anos. A cada mordida, virava o pão para impedir que o recheio lhe caísse nos pés.
— Eu encontrei minha mãe ontem à noite — contou. — Morreu há vinte e três anos. Estava fazendo arroz quando cheguei em casa.
Raquel olhou para ela.
— Eu sinto muito.
— Não sei se você deveria.
A mulher acompanhou seu olhar até a rua. Durante algum tempo, pareceu procurar uma resposta que não aumentasse o peso da conversa.
— Você queria que ela voltasse?
Marta pensou na mãe descascando a laranja, no cheiro de erva-doce e no gesto com que lhe ajeitara os cabelos. Queria responder que sim. Queria responder que não. Nenhuma das possibilidades lhe pareceu suficientemente verdadeira.
— Queria poder escolher sem que minha filha precisasse pagar por isso.
Raquel baixou os olhos.
— Eu também.
Foi o máximo de reconciliação que conseguiram.
Marta deixou a mulher na varanda e voltou para casa. Encontrou Neusa preparando feijão, com uma panela de arroz sobre o fogão e uma rádio antiga tocando uma música que a filha lembrava de ouvir durante a infância. A mãe estava contrariada porque o vizinho do apartamento de cima começara uma reforma sem avisar, e Marta precisou escutar durante quase dez minutos uma exposição detalhada sobre os prejuízos provocados por pessoas que confundiam o direito à propriedade com autorização para destruir a paciência dos outros.
Era uma reclamação tão familiar que Marta sentiu vontade de chorar novamente.
— Mãe, você se lembra de quando eu fiquei muito doente? Eu era pequena. Acho que tinha sete anos.
Neusa continuou mexendo o feijão.
— Você ficou doente muitas vezes. Era uma criança que vivia correndo descalça e tinha um talento especial para colocar coisas sujas na boca.
— Teve uma vez que você me levou de ônibus para algum lugar. Não lembro direito.
A colher parou.
Neusa não tirou os olhos da panela; apertou o cabo da colher até os dedos embranquecerem.
— Foi há muito tempo.
— Você lembra?
— Lembro que você estava com febre. Muita febre. Teve uma noite em que achei que ia perder você. — A velha desligou o fogo e apoiou a colher sobre a pia. — Lembro de uma estrada. Havia uma menina conosco, e um homem que fumava o tempo inteiro. Depois... não sei. Tem uma parte que nunca consegui lembrar direito.
Marta sentiu a garganta contrair-se.
— Que menina?
Neusa olhou para ela, sobressaltada com a nitidez daquela lembrança.
— Eu não sei. Às vezes sonho com ela. Sonho que está esperando numa parada de ônibus, com uma mochila vermelha. Quando chego perto, ela pergunta se você já está bem. Eu digo que sim, e a menina começa a chorar. Acordo sempre antes de conseguir perguntar o nome.
Marta permaneceu imóvel.
— Por que nunca me contou isso?
A mãe pareceu ofendida.
— Porque era um sonho, Marta. Se eu fosse contar tudo que sonho, você precisaria tirar férias para me ouvir.
Houve uma pausa. Neusa examinou a cozinha, os armários, a lista de compras e as duas cadeiras junto à mesa.
— Mas desde ontem estou sonhando acordada.
Marta se aproximou.
— Como assim?
A velha passou a mão sobre o vestido. Por alguns segundos, perdeu o fio do que pretendia dizer.
— Hoje eu estava lavando uma xícara e me lembrei de você segurando um bebê. Lembrei tão claramente que quase perguntei onde estava a menina. Depois olhei para a sala e vi uma fotografia sua com uma criança no colo. Quando fui buscá-la, a fotografia tinha desaparecido. — Neusa respirou com dificuldade. — Eu não sei o que está acontecendo, minha filha. Mas acho que você não está inventando aquela menina que disse ser sua filha.
Marta começou a chorar.
A mãe segurou-lhe o rosto entre as mãos. Marta lembrava daquele gesto desde a infância, quando chegava em casa com uma dor e não sabia dizer onde.
— Você vai atrás dela?
A filha assentiu.
Neusa voltou para o fogão.
— Então coma primeiro.
Marta observou-a retirar dois pratos do armário, servir arroz e feijão, acrescentar pedaços de abóbora e colocar uma pequena travessa de couve sobre a mesa. A mãe comentou que havia comprado carne, mas desistira de prepará-la porque estava muito cara, e perguntou se Marta pretendia continuar trabalhando naquela linha depois de tudo o que acontecera.
— Não sei.
— Pois devia procurar outra coisa. Você está ficando velha demais para dirigir de madrugada.
— Eu tenho cinquenta e cinco anos, mãe.
— Exatamente. Na sua idade, eu já estava cansada de quase todo mundo.
Marta sentou-se.
Comeram durante algum tempo sem conversar. Neusa reclamou da quantidade de sal que a filha acrescentou ao feijão, perguntou se estava tomando os remédios para pressão e contou que uma vizinha havia encontrado uma cobra dentro da máquina de lavar. Marta escutou tudo com uma atenção que provavelmente teria deixado a mãe desconfiada em circunstâncias normais.
Quando terminaram, Neusa descascou uma laranja. Retirou a casca numa única tira, dividiu a fruta e ofereceu metade à filha.
— Você vai voltar? — perguntou.
Marta olhou para ela.
— Vou tentar.
A mãe pareceu considerar a resposta. Depois assentiu, como se fosse suficientemente boa.
— Se encontrar aquela menina da estrada, diga que sinto muito.
Marta parou de mastigar.
Neusa continuou olhando para a laranja.
— Não sei exatamente por quê. Mas diga assim mesmo.
A filha permaneceu à mesa até o começo da noite. Quando finalmente se levantou, a mãe acompanhou-a até a porta, ajeitou-lhe uma mecha de cabelo atrás da orelha e perguntou se estava levando um casaco. Marta quase respondeu que não precisava, mas voltou ao quarto para buscá-lo.
Antes de sair, abraçou Neusa outra vez.
A velha reclamou que Marta estava se tornando sentimental demais e mandou que tomasse cuidado com os ônibus, principalmente nas curvas. A filha prometeu, embora começasse a desconfiar de que a mãe conhecia perigos muito maiores do que aqueles representados por uma estrada mal conservada.
Não perguntou se voltariam a se encontrar.
Neusa também não.
Naquela noite, Raquel chegou à garagem com Tomás nos braços e uma sacola malfechada, de onde saía a manga de um casaco infantil. Dentro estavam também um par de sapatos pequenos e o caderno de desenhos que o menino mostrara a Marta naquela manhã. Raquel caminhava com dificuldade. Tomás não era pesado, mas seu corpo adquirira uma rigidez estranha, e às vezes se contorcia repentinamente, obrigando a mãe a segurá-lo pelas pernas. Mantinha os olhos semicerrados e a mão esquerda escondida no bolso do casaco. Quando Marta se aproximou, levantou o rosto e sorriu com uma satisfação que a motorista não soube interpretar.
— A senhora encontrou meu quarto?
Raquel apertou-o contra o peito antes que Marta respondesse. Havia olheiras fundas sob seus olhos, e a maneira como observava o filho lembrava menos a vigilância de uma mãe preocupada do que o esforço de alguém tentando reconhecer um rosto num retrato que estivesse sendo alterado diante dela.
— Estamos indo para casa, querido. A dona Marta vai levar a gente.
Tomás examinou a garagem, as lâmpadas suspensas, os veículos estacionados e as manchas de óleo sobre o chão. Procurou algo entre as estruturas de concreto e, quando voltou a olhar para Marta, já não sorria.
— Ela disse que a senhora também tem alguém esperando.
A motorista sentiu o estômago se contrair. Pensou em Neusa, no feijão que haviam comido juntas e na pequena laranja que a mãe descascara antes de sua despedida. Não respondeu. Ajudou Raquel a subir, acomodou a sacola entre os bancos e pediu que permanecessem perto da cabine, onde poderia observá-los pelo espelho.
Seu Américo já ocupava o segundo banco. Vestia o mesmo casaco escuro de todas as noites, embora a gola estivesse molhada e suas mãos tremessem ligeiramente quando retirou o chapéu. Dona Zuleide permanecia perto da janela, com a gaiola coberta por um pano de veludo que se movia devagar, sem que houvesse vento dentro do veículo. Nina embarcou por último. Trazia a mochila vermelha, um casaco grande demais para seu corpo e uma pequena presilha branca presa à altura da orelha. Cumprimentou Marta com um movimento tímido, mas antes de sentar-se perguntou se a motorista realmente pretendia atravessar o viaduto depois do encerramento da linha.
— Já estou aqui, não estou? — Marta indicou a porta aberta, o painel iluminado e as chaves que retirara sem autorização. — Espero apenas que ninguém resolva contar isso ao encarregado antes de eu voltar. Aquele homem leva qualquer coisa para o lado pessoal.
Nina sorriu, sem parecer inteiramente convencida. Sentou-se junto à janela e abriu o caderno de matemática, embora não chegasse a escrever coisa alguma. Durante alguns minutos, fingiu estudar uma conta que não chegava a resolver, passando o lápis sobre a mesma linha até rasgar levemente o papel.
O velho estava de pé junto à cabine.
— A senhora sabe que pode ser diferente desta vez.
— Diferente como?
Américo examinou Tomás. O menino encostara a cabeça no ombro da mãe, mas seus lábios continuavam a formar palavras inaudíveis.
— Na primeira viagem, Raquel encontrou um caminho que não estava disponível para ela. Agora estamos tentando voltar por esse mesmo caminho, só que há alguma coisa interessada em atravessar conosco. A estrada pode começar a mostrar lugares que reconhecemos. Não confie em todos.
— Eu não confio nem nos que reconheço — respondeu Marta, engatando a primeira marcha. — E, a esta altura, considero isso uma qualidade.
O ônibus deixou a garagem às vinte e três horas e quarenta e sete. Santa Amélia estava quase deserta, exceto pelas luzes dos postos de gasolina, os últimos fregueses dos bares e as pessoas que continuavam trabalhando porque alguém, em algum lugar, havia decidido que a noite deveria ser tão produtiva quanto o dia. A chuva escorria pelo para-brisa. Marta reconheceu o trajeto, as curvas, os pequenos defeitos do asfalto e os pontos onde os passageiros costumavam esperar; tudo conservava uma familiaridade tão persistente que por alguns minutos conseguiu se convencer de que transportava apenas um grupo de conhecidos para um bairro afastado.
A ilusão terminou quando passaram pela rua das Aroeiras.
A casa azul estava iluminada. Havia flores na varanda, uma bicicleta encostada no muro e um homem recolhendo roupas do varal. Marta reduziu a velocidade involuntariamente. Conhecera aquele terreno vazio durante quase vinte anos, vira uma residência surgir ali na noite anterior e agora encontrava um homem que se comportava como se houvesse passado uma vida inteira reclamando da dificuldade de secar roupas em outubro. Raquel apertou Tomás contra o corpo e evitou olhar.
O menino, porém, ergueu a cabeça.
— Mãe, ela está na janela.
No andar superior, uma mulher muito alta permanecia atrás da cortina. Não era possível distinguir seu rosto. As dobras do tecido acompanhavam seu corpo até uma altura na qual a parede deveria ter encontrado o teto, mas a figura continuava subindo, como se alguém houvesse colocado uma pessoa inteira dentro de uma casa inadequadamente pequena. A mulher levantou a mão. Tomás respondeu ao cumprimento antes que Raquel conseguisse impedir.
— Não olhe, querido.
— Ela está triste — murmurou o menino. — Eu prometi que ela podia morar com a gente.
O ônibus passou pela casa. Marta tentou encontrar a janela pelo retrovisor, mas viu apenas uma parede lisa, sem cortina nem iluminação. Por um instante, acreditou ter confundido as fachadas. Então percebeu que o homem do varal havia interrompido o trabalho e permanecia olhando para a janela, com uma das roupas molhadas suspensa entre as mãos.
Seu Américo acompanhou a cena sem dizer nada. Quando alcançaram o viaduto, aproximou-se de Raquel e se sentou ao lado dela.
— Tomás, você se lembra de quando encontrou a casa?
O menino parecia sonolento. Demorou a compreender a pergunta, mas acabou assentindo.
— Ela me mostrou.
— Você já estava do outro lado quando sua mãe foi buscar você?
— Não sei.
Américo esperou. Havia uma paciência antiga em sua maneira de conversar. Marta já o vira discutir com passageiros embriagados, crianças assustadas e pessoas convencidas de que haviam perdido a própria idade. Raramente elevava a voz.
— Pense no que aconteceu antes de encontrar a casa, Tomás. Você estava na escola? Estava brincando na rua?
O menino levou a mão direita até o bolso esquerdo. Segurou os dedos da mão esquerda com a direita e fez força para mantê-los juntos.
— Eu estava dormindo. Sonhei com uma rua onde tinha uma casa azul. A mulher disse que era minha, mas precisava da mamãe para abrir a porta. Quando acordei, já estava esperando na calçada.
Raquel levou a mão à boca.
Marta encontrou os olhos de Américo pelo espelho. O velho não demonstrou surpresa, embora sua expressão tivesse se tornado consideravelmente mais grave.
A casa aparecera antes de Raquel atravessar.
Marta recordou a criança parada sob a chuva, sorrindo diante de uma residência que nunca existira. Não estivera perdido. Esperava precisamente onde a mãe deveria encontrá-lo, como se alguém houvesse preparado uma cena e aguardasse apenas a entrada da personagem principal.
Tomás continuou olhando para o próprio bolso.
— A mulher falou que uma mãe sempre sabe onde procurar seu filho. Era só eu ficar quietinho.
A gaiola de dona Zuleide produziu três pancadas secas. A velha descansou a mão sobre o tecido, que se ergueu e afundou entre as grades.
Marta não perguntou o que havia ali. A gaiola ficou quieta sob a mão da velha.
O viaduto surgiu adiante, com suas colunas amarelas e as lâmpadas que nunca funcionavam todas ao mesmo tempo. Marta reduziu a velocidade ao sentir o ônibus estremecer sobre uma junta de concreto. O ruído dos pneus mudou, a chuva desapareceu do para-brisa e uma claridade pálida começou a ocupar a estrada.
Do outro lado, não havia árvores.
As casas permaneciam próximas umas das outras, comprimidas entre muros que Marta não reconhecia. Algumas fachadas abriam janelas para interiores maiores do que as próprias casas. Numa residência pequena, via-se uma escadaria que descia até desaparecer numa espécie de estação ferroviária; noutra, uma mulher estendia roupas diante de um campo nevado, recolhendo do varal lençóis que não terminavam de sair de suas mãos. Havia pessoas sentadas às portas, crianças brincando e um homem consertando uma bicicleta enquanto uma segunda rua atravessava sua sala sem interromper o conserto.
Marta dirigiu devagar. Não reconhecia o caminho, mas encontrou marcas familiares de uma cidade habitada: o cheiro de pão vindo de uma janela aberta, discussões domésticas atravessando paredes finas, um cachorro latindo para alguma coisa que os humanos haviam aprendido a deixar em paz. A normalidade daquele lugar era mais inquietante do que suas deformações. Parecia ter amadurecido ao redor delas.
Seu Américo indicou uma travessa que conduzia à padaria antiga. O estabelecimento permanecia aberto. O padeiro, um homem corpulento chamado Orlando, estava discutindo com uma senhora que desejava trocar três pães por uma pequena caixa de fósforos. Quando viu o ônibus, interrompeu a conversa e aproximou-se da janela da motorista.
— Achei que tinham encerrado a linha.
— Encerraram — respondeu Marta. — Ainda estamos descobrindo se o aviso chegou a todos os interessados.
Orlando não achou graça. Olhou para Raquel, reconheceu o menino adormecido e pareceu envelhecer alguns anos durante o espaço de uma respiração.
— Ela voltou.
Américo assentiu.
O padeiro recuou um passo. Atrás dele, uma moça apareceu à porta com uma bandeja de pães recém-saídos do forno. Ao reconhecer Raquel, cobriu a boca com a mão.
— Minha irmã ficou três dias sem lembrar quem era depois que aquela casa apareceu — disse Orlando. — Hoje me chamou pelo nome pela primeira vez. Se vocês passarem por aqui trazendo outra dessas coisas, quero saber antes de decidir se abro a porta.
Raquel não respondeu. Marta observou o homem e sentiu uma irritação que não conseguia distribuir de maneira justa. Orlando tinha motivos para estar furioso. Raquel também tinha seus motivos.
Américo explicou que levavam Tomás até Eulália, na casa dos sinos, e que a passagem comum precisava ser restabelecida antes do amanhecer. Orlando permaneceu olhando para o menino, depois para a gaiola de dona Zuleide. Perguntou o que havia entrado com ele. A velha respondeu que ainda não sabia, mas que preferia descobrir longe dos estabelecimentos onde se preparavam alimentos. O padeiro concordou com uma rapidez admirável e voltou para dentro.
Antes de partir, Marta viu a irmã de Orlando colocar um pequeno pacote sobre o primeiro degrau do ônibus. Eram pães quentes, embrulhados num pano.
— Para quem estiver com fome — disse a moça, sem levantar os olhos.
O veículo prosseguiu. Marta deixou o pacote sobre o painel e acompanhou a rua, onde algumas casas pareciam se afastar à medida que o ônibus se aproximava. O cheiro de pão fresco espalhou-se pela cabine, e Nina pediu licença para pegar um pedaço. Comeu em silêncio, oferecendo metade a Tomás, que recusou sem abrir os olhos. Pouco depois, o menino começou a cantar.
Era uma cantiga conhecida. Marta lembrava-se de tê-la ouvido durante a infância, embora não soubesse dizer quem lhe ensinara a melodia. Tomás cantou os primeiros versos normalmente, depois acrescentou nomes de ruas, pessoas e acontecimentos que não pertenciam à música. Raquel tentou fazê-lo parar, mas o som continuou saindo de seu peito mesmo depois que seus lábios deixaram de se mover.
Dona Zuleide descobriu a gaiola.
Não havia pássaro algum entre as grades. O espaço interno parecia ocupado por uma profundidade escura, incompatível com o tamanho do objeto. Por um instante, Marta enxergou uma passagem estreita, iluminada ao fundo por alguma coisa que poderia ser uma janela. Depois o tecido foi recolocado, e a impressão desapareceu.
Tomás abriu os olhos.
Havia duas pupilas em cada um.
— Ela sabe que estamos indo embora — disse, numa voz tão rouca que Marta quase não o reconheceu.
Raquel o abraçou. O menino começou a chorar, mas a mão esquerda permaneceu imóvel sobre o colo, com os dedos abertos numa posição desconfortável.
— Quem sabe, querido?
Tomás tentou responder. Seus lábios se moveram, mas nenhuma palavra saiu. A mão esquerda, porém, começou a fechar-se devagar, como se alguém estivesse aprendendo a utilizá-la do lado de dentro. Primeiro o indicador, depois o médio, o anelar e finalmente o polegar. O movimento terminou com uma pequena pancada sobre o joelho.
A criança olhou para a própria mão e soltou um grito.
Dona Zuleide inclinou-se sobre ele. Examinou seus olhos, tocou-lhe a testa e pediu que mostrasse a língua. Tomás obedeceu, tremendo. A velha pareceu reconhecer alguma coisa, embora não explicasse o quê.
— Ele ainda consegue ouvir vocês — disse a Raquel. — Procure não esquecer disso.
O ônibus prosseguiu, e durante algum tempo o menino permaneceu agarrado ao corpo da mãe, tentando esconder a mão dentro do casaco. Marta percebeu que Nina o observava pelo espelho. Havia na expressão da menina uma combinação de pena e curiosidade que a motorista conhecia de outras circunstâncias, quando crianças encontravam alguém cuja diferença lhes oferecia, pela primeira vez, uma imagem desagradável de suas próprias possibilidades.
A casa dos sinos surgiu depois de uma curva que Marta não lembrava de ter atravessado.
Estava iluminada, mas as janelas permaneciam cobertas por panos escuros. No jardim, algumas pessoas carregavam móveis e caixas para fora de uma construção anexa. Havia uma cama desmontada junto ao muro, roupas empilhadas sobre uma cadeira e um homem discutindo com outro sobre o destino de uma coleção de fotografias. A movimentação lembrava uma mudança realizada às pressas, com a diferença de que ninguém parecia saber exatamente para onde levar os objetos.
Eulália aguardava na varanda.
Usava um avental escuro, tinha os cabelos presos de qualquer jeito e segurava um molho de chaves cuja utilidade Marta começou a questionar assim que percebeu que metade das portas da casa estava aberta para corredores que não permaneciam no mesmo lugar. A velha examinou o ônibus e reconheceu Raquel antes que a mulher descesse.
— Tomás precisa entrar — anunciou Américo.
— Ele pode entrar — respondeu Eulália, olhando para a criança. — O resto do que veio junto terá de esperar do lado de fora.
Raquel apertou o filho contra o peito. Marta percebeu que a velha não estava tentando assustá-la. Sua atenção permanecia concentrada na mão esquerda do menino, que agora se movia lentamente sob o tecido do casaco.
— O que aconteceu com a casa? — perguntou Américo.
Eulália olhou para os móveis espalhados pelo jardim.
— Perdemos o corredor dos fundos. Ontem levava aos quartos. Hoje abriu para uma rua onde estão enterrando pessoas que ainda não morreram. Uma das moradoras reconheceu o próprio marido no enterro e foi perguntar se ele pretendia chegar tarde para jantar. Desde então, não encontramos mais a porta da cozinha.
A informação foi apresentada com o cansaço de quem passara a manhã inteira resolvendo problemas que nenhuma pessoa sensata deveria enfrentar antes do café. Marta examinou as janelas cobertas, as cadeiras empilhadas e os rostos dos moradores. A casa dos sinos parecia menos um refúgio sobrenatural do que uma residência coletiva tentando sobreviver a uma reforma iniciada pelo proprietário errado.
— Minha filha está aqui? — perguntou.
Eulália olhou para ela.
— Lia Amaral?
Marta assentiu.
— Está. Ou estava há pouco. Foi procurar Bento no corredor que desapareceu. Ele entrou atrás de uma senhora que dizia conhecer sua mãe, e Lia resolveu que seria uma excelente oportunidade para demonstrar a pouca consideração que possui pela própria segurança.
A motorista sentiu o chão perder alguma firmeza.
— Onde fica esse corredor?
Eulália examinou-a, depois voltou-se para Américo.
— Ela é tão teimosa quanto a filha?
— Não conheço a filha — respondeu o velho. — Mas posso assegurar que estamos diante de uma comparação promissora.
A velha soltou um resmungo, entregou as chaves a um homem que passava e pediu que ninguém deixasse o menino sozinho. Depois conduziu Marta e Américo para dentro da casa, avisando que não deveriam responder caso escutassem seus nomes vindo dos quartos vazios. Era uma precaução antiga, explicou, e costumava funcionar quando as pessoas possuíam a educação necessária para desconfiar de convites feitos por desconhecidos.
O corredor principal estava revestido por um papel de parede antigo, estampado com pequenas flores azuis. Havia fotografias, desenhos infantis e marcas de altura feitas a lápis junto às portas. Marta reconheceu um pequeno casaco pendurado num cabide, um par de sapatos abandonado no chão e uma panela que alguém deixara sobre uma cadeira. A casa possuía o cheiro de sopa, roupas secando e madeira velha, mas havia também um odor de flores úmidas que aumentava quando se aproximavam do fundo.
Eulália parou diante de uma porta estreita.
— Bento entrou por aqui. Lia foi atrás dele. O problema é que, depois que ambos passaram, a porta começou a abrir para lugares que nunca estiveram dentro desta casa. Encontrei uma estação de trem, a cozinha de uma senhora morta há cinquenta anos e um quarto onde havia três versões do mesmo homem discutindo quem deveria pagar o aluguel. Nenhum demonstrou interesse em sair. Fechei antes que começassem a discutir comigo.
Marta examinou a maçaneta.
— E como vou encontrar minha filha?
A velha retirou do bolso um pequeno objeto embrulhado num pano. Era um sapato infantil, gasto na ponta, com o cadarço amarrado num nó desajeitado.
— Bento costuma esconder sapatos quando tem medo de que alguém vá embora. Lia descobriu isso durante as primeiras semanas e começou a devolver os pares antes que os moradores precisassem sair descalços. Se encontrarem a criança, mostrem isto. Ele vai reconhecer.
Marta pegou o sapato.
Havia imaginado o reencontro com Lia durante toda a viagem. Pensara em abraçá-la, perguntar se estava ferida e levá-la imediatamente para casa. Não esperava precisar procurá-la dentro de uma construção cuja arquitetura demonstrava uma antipatia tão profunda pela permanência dos cômodos.
Eulália abriu a porta.
Do outro lado havia uma cozinha pequena, iluminada por uma lâmpada amarela. Sobre a mesa, alguém deixara duas xícaras de café e um prato com restos de bolo. Marta reconheceu o ambiente antes de compreender por quê. Era a cozinha de sua infância, com o mesmo armário verde, a mesma janela sobre a pia e a cortina que Neusa costurara durante uma tarde de domingo.
A mãe estava sentada à mesa.
Levantou os olhos e sorriu.
— Marta, minha filha, você chegou cedo.
A motorista ficou imóvel. Eulália segurou-lhe o braço antes que pudesse entrar.
— Não é por aí.
Neusa continuou sorrindo. Havia uma pequena mancha de café sobre o vestido, e sua mão direita descansava sobre uma laranja que ainda não começara a descascar. Marta reconheceu a faca, o pano de prato e até a pequena rachadura no azulejo atrás do fogão. Tudo possuía uma precisão tão cruel que sentiu vontade de se sentar, aceitar o café e perguntar por que a mãe estava naquele lugar.
A figura inclinou a cabeça.
— Está esperando o quê? O bolo vai ficar seco.
Eulália fechou a porta.
Marta soltou o ar com dificuldade. Permaneceu alguns segundos apoiada contra a parede, ouvindo o pequeno ruído da madeira se acomodando no batente. Do outro lado, a voz de Neusa continuou conversando, agora com alguém que a motorista não reconhecia.
— Ela não gosta de bolo seco — comentou a mulher. — Sempre foi cheia de exigências.
Eulália observou Marta sem oferecer consolo. Depois apontou para a marca feita a lápis junto à porta.
— Bento passou por aqui há pouco. Está procurando alguma coisa que perdeu. Se a voz tiver aprendido quem é sua mãe, vai começar a procurar você também.
A motorista olhou novamente para o sapato infantil. Não sabia se o objeto seria suficiente para encontrar Lia, mas era a primeira coisa concreta que possuía desde que entrara naquela casa.
Abriu a porta seguinte.
Dessa vez, encontrou um corredor escuro, com as paredes cobertas por fotografias que não reconhecia. Em algumas, havia pessoas sorrindo diante de casas demolidas; noutras, crianças apareciam ao lado de adultos cujos rostos haviam sido cuidadosamente retirados do papel. Marta avançou, procurando marcas de sapatos no chão. Américo a acompanhava, embora sua respiração tivesse começado a ficar pesada.
Ao fundo, escutaram uma discussão.
— Bento, se você guardar outro par de sapatos dentro desse armário, vou começar a usar os seus.
Era Lia.
Marta reconheceu imediatamente a impaciência da filha, a maneira como alongava certas palavras quando desejava fazer uma criança compreender que sua paciência estava próxima do fim. Avançou pelo corredor, quase tropeçando numa cadeira que não estava ali um instante antes, e encontrou uma porta entreaberta.
Lia estava ajoelhada diante de um menino de cabelos claros.
Bento tinha aproximadamente nove anos, uma expressão desconfiada e um par de sapatos femininos sobre os joelhos. Segurava um caderno pequeno, cheio de nomes escritos em letras diferentes. Quando viu Marta, afastou-se para trás da filha, examinando a visitante com a atenção de quem já aprendera que adultos desconhecidos frequentemente apareciam para decidir onde as crianças deveriam morar.
Lia levantou os olhos.
Durante alguns segundos, permaneceu imóvel. Depois deixou cair o caderno e atravessou o quarto, agarrando-se à mãe com tanta força que ambas quase perderam o equilíbrio. Marta reconheceu o cheiro de seu cabelo, o calor de suas mãos e a maneira como ela escondia o rosto junto ao pescoço quando chorava. Havia passado apenas dois dias sem a filha, mas Lia parecia ter vivido alguma coisa muito mais longa. Seu rosto estava magro, os cabelos presos de qualquer jeito, e havia pequenas cicatrizes recentes sobre os dedos.
— Mãe, eu achei que você não fosse vir.
Marta não conseguiu responder imediatamente. Abraçou-a, beijou-lhe os cabelos e permaneceu algum tempo ouvindo sua respiração. Quando finalmente conseguiu falar, perguntou se estava machucada, se havia comido e por que entrara naquele corredor.
Lia soltou uma risada entre lágrimas.
— Você está aqui há dois minutos e já começou a reclamar.
A observação foi tão familiar que Marta sentiu a vontade absurda de repreendê-la por falta de respeito. Em vez disso, voltou a abraçá-la.
Bento aproximou-se lentamente. Examinou Marta dos pés à cabeça e pareceu chegar a uma conclusão desagradável.
— Essa é sua mãe?
Lia assentiu.
— É.
O menino observou a motorista durante alguns segundos.
— Ela parece brava.
— Você devia ter conhecido minha avó — respondeu Lia, enxugando os olhos com a manga.
Marta tirou do bolso o sapato que Eulália lhe dera. Bento o tomou sem agradecer, escondeu-o atrás do corpo e olhou para Lia, para saber se ela ia contar.
Marta olhou para o caderno caído. Havia nomes escritos em páginas diferentes, alguns riscados, outros repetidos com pequenas alterações. Bento explicou que guardava ali aquilo que conseguia lembrar das pessoas que haviam cuidado dele. Não possuía certeza de quantas eram, e às vezes os nomes mudavam durante a noite. Lia começara a ajudá-lo a conservar as lembranças. Quando uma pessoa desaparecia do caderno, tentavam reconstruí-la a partir de alguma coisa que ambos recordassem: o cheiro de um sabonete, uma canção, o jeito de amarrar os sapatos.
— Hoje acordei lembrando que minha mãe cantava enquanto lavava roupa — contou Bento, olhando para Marta. — Mas não consigo lembrar a música. A Lia disse que não tem problema.
— Eu disse que podemos procurar — corrigiu a jovem. — Não prometi que vamos encontrar.
Bento assentiu, dobrou a capa do caderno e o apertou contra o peito.
Eulália apareceu à porta. Trazia uma pequena bolsa de pano e uma expressão de crescente irritação.
— Vocês resolveram transformar meu corredor num encontro de família? Estamos com uma casa inteira tentando entrar por aquela parede, e eu gostaria de conservar pelo menos metade dos quartos até o jantar.
Lia recolheu o caderno de Bento. O menino segurou sua mão.
— Você vai embora?
A jovem assentiu.
— Vou. Minha mãe veio me buscar.
— E eu?
A pergunta saiu tão baixa que Marta quase não ouviu. Lia se ajoelhou diante dele e tentou responder, mas Eulália se aproximou antes.
— Você fica comigo, Bento. Já tínhamos combinado.
O menino baixou os olhos.
— Mas a senhora disse que talvez tivesse que fechar os quartos dos fundos.
Eulália examinou a parede. Havia pequenas fissuras no papel, e um ruído semelhante ao de alguém respirando através de um pano começou a surgir por baixo da porta.
— Vou fechar. O que não significa que vamos abandonar ninguém lá dentro. Temos a cozinha, a sala, o quarto da frente e uma varanda que continua perfeitamente disposta a permanecer onde está. A maior parte das famílias já viveu em condições piores. Algumas ainda consideram isso um motivo de orgulho.
Bento não sorriu. Continuava segurando a mão de Lia, olhando para a bolsa que ela carregava.
— E minhas coisas?
Eulália permaneceu em silêncio durante alguns segundos. Depois se abaixou, colocando-se à altura do menino.
— O corredor está ficando perigoso. Não podemos conservar tudo. Você escolhe o que precisa levar agora. O resto talvez não consiga voltar.
A criança examinou o quarto. Havia uma caixa de madeira debaixo da cama, alguns brinquedos sobre uma prateleira e um par de sapatos antigos junto à porta. Dentro da caixa guardava pequenos objetos que encontrara desde sua chegada: um botão, duas moedas, uma fotografia sem rostos, um pedaço de tecido azul e uma carta que ninguém conseguira ler.
Bento aproximou-se da caixa. Abriu-a, retirou alguns objetos e tentou colocá-los dentro da mochila de Lia. Não cabiam. Durante alguns instantes, pareceu disposto a insistir, mas o corredor começou a estalar, e uma das paredes se afastou lentamente, revelando atrás do papel uma extensão escura onde Marta não conseguiu distinguir o chão.
Lia se aproximou.
— Podemos levar o caderno.
Bento olhou para os objetos. Havia lágrimas em seus olhos, mas não chorava.
— E se eu esquecer o resto?
A jovem ajoelhou-se ao lado dele.
— Eu também vou lembrar de algumas coisas. E você pode me contar de novo quando eu voltar.
O menino permaneceu olhando para a caixa. Depois escolheu o caderno, um botão branco e o pedaço de tecido azul. Guardou-os na mochila e deixou os outros objetos onde estavam. Quando se levantou, passou a mão sobre a tampa, como se pedisse desculpas a alguma coisa que não conseguia nomear.
Eulália segurou-lhe o ombro.
— Vamos, querido. Antes que este quarto decida morar em outro lugar.
Saíram pelo corredor enquanto as paredes começavam a se aproximar. Marta percebeu que a porta por onde haviam entrado agora dava para uma sala diferente, onde pessoas desconhecidas conversavam diante de uma mesa comprida. Eulália não demonstrou surpresa. Seguiu por uma passagem lateral, abriu uma pequena porta de madeira e conduziu todos até a varanda. Quando o último atravessou, fechou-a e retirou uma peça de ferro da dobradiça.
O corredor desapareceu.
Não houve explosão, desabamento nem qualquer espetáculo digno de ser recordado. A parede permaneceu onde estava, lisa, pintada de amarelo-claro. Apenas uma pequena marca sobre o rodapé indicava que ali existira uma porta.
Bento aproximou-se. Tocou a parede com a ponta dos dedos e ficou algum tempo procurando a maçaneta.
Eulália colocou a mão sobre sua cabeça.
— Agora precisamos achar outro lugar para guardar suas coisas.
O menino assentiu. Lia o abraçou, prometendo que tentaria voltar, embora não soubesse quando. Bento perguntou se ela lembraria o nome dele. A jovem respondeu que sim, com uma firmeza que Marta reconheceu imediatamente, pois era a mesma voz que a filha utilizava quando precisava convencer alguém de que ainda possuía controle sobre uma situação.
Marta não interrompeu.
Os sinos começaram a tocar antes que conseguissem alcançar o ônibus.
A primeira badalada fez os vidros da varanda vibrarem. Na segunda, o papel que revestia a parede começou a se desprender, revelando por baixo uma superfície escura, úmida, atravessada por pequenas marcas que pareciam ter sido feitas com unhas. Na terceira, Tomás gritou.
Raquel estava sentada junto à escada, segurando o filho contra o corpo. O menino havia aberto os olhos e tentava afastar a própria mão esquerda, que agora se agarrava ao pescoço da mãe com uma força desproporcional ao tamanho de seus dedos. Marta correu até eles, mas dona Zuleide já se encontrava ao lado da criança, segurando o pulso que se movia sozinho.
Tomás chorava. Tentava dizer alguma coisa, mas as palavras saíam misturadas a uma voz mais grave, que parecia pronunciar cada sílaba com uma lentidão experimental.
— Ela quer... ela quer que a gente...
A mão esquerda apertou novamente o pescoço de Raquel.
Eulália segurou o braço do menino. A pele estava fria, embora seu rosto permanecesse quente e coberto de lágrimas. A velha examinou-o por alguns segundos, depois pediu que Marta trouxesse uma cadeira e que Raquel se sentasse.
— Tomás, você consegue me ouvir?
O menino assentiu.
— A mulher disse que eu podia crescer — murmurou. — Disse que só precisava deixar ela ficar comigo um pouquinho. Agora ela não quer sair.
Raquel começou a chorar.
— Meu amor, você não fez nada errado.
Tomás olhou para a mãe, assustado.
— Eu deixei. Ela falou que ia ficar sozinha se eu mandasse embora.
Eulália soltou lentamente o pulso da criança. A mão esquerda continuou erguida, os dedos curvados numa posição que lembrava uma pequena garra.
— Escute, Tomás. Tem coisas aqui que sabem imitar pessoas muito bem. Aprendem a usar as vozes, as lembranças, até os gestos. Mas precisam que alguém continue abrindo espaço para elas. Foi assim que essa mulher encontrou a casa. E foi assim que encontrou você.
O menino observou-a em silêncio. A pele empalidecera tanto que uma rede fina de veias se tornara visível perto da orelha.
— Se eu mandar ela embora, vou ficar pequeno outra vez?
Eulália olhou para Raquel. A mãe apertou o filho contra o peito, mas não conseguiu responder. Durante quarenta e dois anos, desejara vê-lo crescer. Havia passado noites acordada, imaginando uma vida que avançasse, uma escola diferente, roupas que deixassem de servir e um rosto que mudasse com os aniversários. Agora a possibilidade estava diante dela, embora tivesse adquirido uma forma que nenhum amor materno poderia tornar aceitável.
Tomás começou a chorar mais alto.
— Eu não quero ficar pequeno.
Raquel passou a mão pelos cabelos do filho. Tremia, mas conservou a voz baixa.
— Eu sei, meu amor. Eu também queria que você crescesse.
— Ela disse que ia me ensinar.
— Eu sei.
— E se nunca mais acontecer?
Raquel fechou os olhos. Por alguns segundos, Marta acreditou que não conseguiria responder.
A mãe beijou a testa do menino.
— Então vamos continuar procurando. Eu não sei quanto tempo vai demorar, Tomás. Não sei nem se vamos conseguir. Mas eu não quero que você precise entregar sua boca, suas mãos ou suas lembranças para alguém que promete devolver uma coisa que já devia ser sua.
O menino permaneceu olhando para ela. Sua mão esquerda se contorceu, e uma voz muito baixa surgiu entre seus dentes.
— Ela vai me abandonar.
Raquel segurou o rosto do filho entre as mãos.
— Eu estou aqui.
— Ela vai ficar sozinha.
— Eu sei que é isso que ela disse. — A mulher respirou com dificuldade. — Mas você não precisa deixar ninguém morar dentro de você para impedir que fique sozinho.
Tomás começou a soluçar. A mão esquerda apertou o braço da cadeira, deixando pequenas marcas na madeira. Durante alguns segundos, pareceu lutar contra o próprio corpo. Marta viu os dedos se moverem numa sequência que não correspondia a qualquer gesto humano, abrindo-se e fechando-se enquanto o menino tentava mantê-los imóveis.
Dona Zuleide colocou a gaiola sobre o chão, perto da cadeira. O tecido se moveu lentamente, e de dentro veio um som que Marta reconheceu sem jamais tê-lo ouvido: o ruído de uma pessoa chamando por alguém numa casa onde não restava mais ninguém.
Tomás olhou para o objeto.
— Ela está com medo.
— Está — respondeu Zuleide.
— E se eu deixar ela ir embora?
A velha examinou a gaiola.
— Algumas coisas só sabem ficar onde são chamadas. Outras continuam procurando mesmo depois que fechamos a porta. Não posso prometer o que vai acontecer com ela. Mas posso dizer que já conheci coisas muito solitárias que aprenderam a fazer da solidão dos outros uma casa.
O menino ficou em silêncio. Olhou para Raquel, depois para Eulália, finalmente para a mão esquerda que continuava se movendo sozinha.
— Eu não quero que ela fique — disse.
A voz grave voltou imediatamente, agora mais próxima da garganta da criança.
— Mas você prometeu.
Tomás apertou os olhos. Raquel segurou-o com força, impedindo que escorregasse da cadeira.
— Eu não sabia quem você era — respondeu o menino, chorando. — Pensei que você fosse minha amiga.
O braço esquerdo se ergueu bruscamente. A mão abriu os dedos diante do rosto de Tomás, e por um instante Marta teve a impressão de enxergar uma boca pequena no centro da palma, cercada por marcas que lembravam dentes. O menino gritou. Eulália segurou-lhe o pulso, mas o movimento continuou, arrastando a cadeira alguns centímetros pelo chão.
Raquel não o soltou.
— Tomás, escute minha voz. Fique comigo.
O menino abriu os olhos.
— Eu quero minha mão.
Houve um silêncio.
A mão esquerda se fechou lentamente. Depois começou a tremer, os dedos se contraindo numa sequência desordenada, até cair sobre o colo da criança. Tomás permaneceu imóvel durante alguns segundos, como se aguardasse que alguma coisa voltasse a movê-la. Quando tentou abrir os dedos, não conseguiu.
Raquel levantou a mão do filho. Estava fria, rígida, mas já não se movia sozinha.
A voz grave desaparecera.
Dona Zuleide recolheu a gaiola. O pano continuava se movimentando, embora nada tentasse atravessar as grades. Eulália examinou a criança, apertou-lhe delicadamente os dedos e constatou que não reagia ao toque.
Tomás olhou para a mãe.
— Ela foi embora?
Raquel segurou sua mão imóvel.
— Acho que sim, querido.
O menino começou a chorar novamente. Dessa vez não havia outra voz misturada à sua.
— Minha mão não mexe.
A mãe o abraçou. Prometeu procurar ajuda, encontrar alguém que compreendesse o que acontecera e passar quantas noites fossem necessárias tentando fazê-lo recuperar os movimentos. Não prometeu que tudo ficaria bem. Pela primeira vez em muito tempo, parecia compreender que algumas formas de esperança precisavam ser construídas sem garantias.
Marta observou os dois, sentindo uma tristeza que não conseguia atribuir exclusivamente a nenhum deles. Tomás continuaria pequeno. Raquel continuaria procurando uma maneira de ajudá-lo. E agora havia uma mão que talvez nunca mais obedecesse ao menino. Não era uma solução satisfatória. Era apenas aquilo que restara depois que ele conseguira recuperar o próprio corpo.
Do outro lado da varanda, a parede começou a estalar novamente.
Eulália levantou-se.
— Agora podemos descobrir se a senhora que estava com ele aceita ficar do lado de fora.
O som veio acompanhado por uma alteração na luz. As sombras se alongaram pelo chão, subindo pelas paredes de maneira incompatível com a posição das lâmpadas. Marta ouviu uma voz familiar chamando seu nome, desta vez de um lugar muito próximo.
Neusa.
A motorista virou-se.
A mãe estava sentada à mesa da cozinha, do outro lado da porta que Eulália havia fechado minutos antes. Usava o vestido estampado, segurava uma laranja descascada e observava Marta com uma expressão profundamente ofendida.
— Você vai sair sem comer outra vez?
Marta sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Lia segurou seu braço.
— Mãe, não responde.
Mas a figura continuou falando, agora com uma delicadeza que Neusa raramente utilizava quando estava contrariada.
— Eu fiz arroz. Fiz feijão. Você pode ficar um pouquinho. Ninguém vai perceber se chegar mais tarde.
A motorista reconheceu cada inflexão. Havia passado vinte e três anos tentando lembrar aquela voz, e agora a escutava com uma clareza insuportável. A cozinha parecia perfeitamente real, com sua janela pequena, o armário verde e a rachadura no azulejo junto ao fogão. Havia até uma panela de arroz sobre a mesa, ainda soltando vapor.
Marta pensou no último almoço que dividira com a mãe. Pensou na maneira como Neusa lhe ajeitara o cabelo antes de sair e na súplica que não conseguira formular: permanecer um pouco mais, prolongar aquela tarde até que o tempo desistisse de avançar.
A figura ergueu a mão.
— Vem cá, minha filha.
Marta deu um passo.
Lia apertou-lhe o braço.
— Mãe.
A motorista voltou o rosto. A filha estava assustada, exausta e visivelmente irritada com a possibilidade de precisar explicar alguma coisa que considerava óbvia.
— Eu passei dois meses naquele lugar procurando você. Se essa coisa quer alguém para jantar, pode aprender a cozinhar para si mesma.
Neusa teria respondido com alguma grosseria admiravelmente precisa. A figura, entretanto, continuou sorrindo, como se não compreendesse a ofensa.
A criatura inclinou a cabeça.
O movimento prolongou-se além do que um pescoço humano permitiria. O rosto continuava perfeitamente reconhecível, mas a distância entre seus olhos começou a aumentar, e o vestido se estendeu sobre o chão, acompanhando um corpo cuja altura parecia depender da quantidade de espaço disponível. Por trás dela, a cozinha se alongou. Surgiram outras portas, outros cômodos, e em cada um deles havia uma voz chamando alguém que Marta talvez conhecesse.
— Você vai deixar sua mãe sozinha outra vez? — perguntou a figura.
A pergunta atingiu uma culpa antiga, anterior à morte de Neusa, talvez anterior à própria memória. Marta lembrou-se da última internação, das noites em que não permaneceu no hospital e dos médicos que disseram não haver mais nada a fazer. Recordou os anos em que desejara ouvir outra vez a voz da mãe, mesmo que fosse apenas para reclamar da comida ou perguntar por que a filha continuava trabalhando tanto.
Agora aquela lembrança adquirira um corpo.
A figura esperava.
Marta olhou para Lia. Depois para Raquel, que permanecia sentada com Tomás no colo, segurando a mão imóvel do filho. Viu Américo próximo à porta, Eulália diante da parede que começava a se abrir e Nina junto ao ônibus, observando tudo com o rosto pálido.
Havia muitas pessoas esperando que ela decidisse alguma coisa.
A criatura continuava estendendo a mão.
— Eu vou sentir sua falta — disse Marta.
Os cantos da boca de Neusa se ergueram.
— Então fica.
A motorista olhou para a laranja descascada sobre a mesa.
— Minha mãe teria me mandado levar um casaco.
A figura permaneceu imóvel.
Marta voltou-se para Lia.
— Vamos embora.
A porta da cozinha bateu atrás delas.
Não desapareceu imediatamente. Durante alguns segundos, Marta ouviu a voz de Neusa chamando novamente, agora com uma irritação crescente, como se a coisa tivesse descoberto que a afetuosidade não produziria o resultado desejado e começasse a experimentar outras formas de persuasão. Depois a voz se tornou grave demais, adquiriu um timbre que Marta nunca ouvira e terminou num ruído comprido, semelhante ao de uma cadeira sendo arrastada sobre um chão que não acabava.
Eulália apoiou a mão sobre a parede.
— Agora ela vai procurar outra porta.
Marta sentiu vontade de perguntar se a criatura continuaria perseguindo Tomás, se voltaria à casa azul ou se encontraria outra família disposta a acolhê-la. Mas a velha já se afastava, conduzindo Bento para dentro, e atravessava a varanda sem se voltar para responder.
Antes de entrar, Eulália voltou-se para Lia.
— Você vai lembrar do menino?
A jovem assentiu.
— Vou.
— Então faça alguma coisa útil com isso. Volte quando puder. Ele ainda precisa aprender a devolver os sapatos.
Bento apareceu ao lado dela, segurando o caderno contra o peito. Lia aproximou-se, beijou-lhe a testa e prometeu tentar voltar. O menino perguntou se, quando chegasse, poderia conhecer a cidade onde ela morava. Marta sentiu um desconforto que não conseguiu esconder. Lia olhou para a mãe, depois para Bento.
— Primeiro vamos descobrir como fazer a viagem sem machucar ninguém.
O menino pareceu considerar a resposta. Não era especialmente satisfatória, mas ele já aprendera a desconfiar de promessas bonitas demais.
— Então vou guardar seus sapatos — decidiu.
Lia começou a rir.
Eulália segurou-o pelo ombro, impedindo que entrasse novamente no corredor.
— Você vai guardar os próprios sapatos, meu filho. Já temos problemas suficientes nesta casa sem precisar cultivar mais um ladrão de calçados.
A velha conduziu Bento para dentro.
Marta acompanhou Lia até o ônibus. Raquel embarcou com Tomás, acomodando-o junto à janela. Dona Zuleide retornou ao banco habitual, com a gaiola coberta pelo pano escuro. Seu Américo permaneceu alguns segundos na varanda, observando a casa e os moradores que ainda tentavam recolher móveis espalhados pelo jardim. Quando finalmente entrou, trazia consigo uma pequena sacola com comida que Eulália preparara para a viagem.
O ônibus partiu.
A casa dos sinos desapareceu atrás das árvores, acompanhada pelas badaladas que continuavam ecoando sobre a estrada. Marta dirigiu devagar, tentando reconhecer as curvas, enquanto Lia se acomodava perto da cabine. A filha, exausta, manteve os olhos abertos, acompanhando os pontos da estrada que reconhecia.
Durante alguns minutos, conversaram sobre assuntos pequenos. Lia contou que Eulália preparava uma sopa horrível, embora todos fingissem gostar, e que Bento escondia os objetos de que as pessoas mais precisavam. Marta respondeu que conhecia pessoas com talentos semelhantes, especialmente no trabalho, e ambas começaram a discutir sobre o almoço de domingo, que Lia insistia em preparar apesar de ter passado semanas cozinhando para moradores de uma casa que mudava de tamanho.
A conversa parecia inteiramente inadequada às circunstâncias.
Foi por isso que Marta a conservou enquanto pôde.
Quando a estrada começou a se estreitar, seu Américo aproximou-se da cabine. Havia aprendido a reconhecer determinadas alterações no caminho, explicou, e aquela passagem estava se fechando mais depressa do que deveria. As casas permaneciam iluminadas, mas algumas janelas mostravam interiores vazios, como se seus moradores tivessem abandonado os cômodos poucos instantes antes da chegada do ônibus.
Perto da antiga padaria, encontraram Orlando diante da porta, segurando uma lanterna.
O homem ergueu a mão quando viu o veículo. Não parecia especialmente satisfeito em reencontrá-los, mas atravessou a calçada e aproximou-se da janela.
— A senhora vai conseguir voltar?
Marta examinou a estrada.
— Pretendo.
Orlando apontou para a curva seguinte.
— A passagem está fechando. Minha irmã ficou esperando aqui porque achou que vocês talvez precisassem de luz. Eu disse que era uma ideia idiota, mas ela continuou esperando. Agora foi dormir, naturalmente, e me deixou com o trabalho.
Entregou a lanterna a Américo.
O velho agradeceu.
Marta observou o padeiro voltar para o estabelecimento, onde uma mulher aparecera à janela superior. Havia uma vida inteira naquela casa, com suas discussões, suas pequenas obrigações e a insistência de pessoas que continuavam cuidando umas das outras apesar dos acontecimentos extraordinários ao redor. A motorista sentiu uma tristeza inesperada ao pensar que talvez nunca mais atravessasse aquela rua.
O ônibus prosseguiu.
Pouco antes do viaduto, uma figura apareceu entre as árvores.
Vestia branco e caminhava sem tocar o chão. Marta avistou o corpo comprido, os braços estendidos e a ausência de uma cabeça que pudesse ser localizada. A criatura não parecia acompanhar o ônibus. Permanecia imóvel enquanto a estrada se movia ao redor dela, e por vezes a distância entre seus contornos mudava de maneira tão absurda que Marta sentia os olhos doerem ao tentar compreendê-la.
A figura ergueu uma das mãos.
Tomás começou a chorar.
Raquel apertou-o contra o peito, cobrindo-lhe os olhos. O menino perguntou se a mulher estava indo embora. A mãe respondeu que não sabia, mas que eles continuariam juntos.
A criatura permaneceu diante das árvores.
Não tentou atravessar a estrada. Não chamou ninguém, não utilizou outra voz e não ofereceu qualquer promessa. Marta teve a impressão de que estava observando alguma coisa muito antiga, uma presença cuja existência não dependia de pessoas, casas ou lembranças. Talvez a mulher de vestido branco fosse apenas a maneira pela qual os olhos humanos conseguiam suportar aquilo que se encontrava do outro lado.
Desviou o olhar.
Quando voltou a procurar a figura, ela desaparecera.
Seu Américo permaneceu junto à cabine, segurando a lanterna que Orlando lhes entregara. A luz iluminava a estrada apenas alguns metros adiante. Mais longe, as colunas do viaduto começavam a surgir entre as árvores.
Nina estava sentada perto da porta.
Mantinha a mochila vermelha sobre os joelhos e examinava a pequena presilha branca que retirara dos cabelos. Nina estava exausta; os dedos hesitavam até para prender a alça da mochila. Havia passado quase toda a viagem em silêncio, observando os acontecimentos com uma atenção que não combinava inteiramente com sua aparência juvenil.
— Você está bem, minha filha?
Nina levantou os olhos.
— Estou.
A resposta veio depressa demais.
Marta conhecia aquela maneira de falar. Lia utilizava a mesma palavra quando desejava evitar perguntas, e a motorista aprendera, depois de muitos anos, que insistir imediatamente costumava produzir resultados tão satisfatórios quanto tentar abrir uma lata com a ponta de uma colher.
Esperou.
Nina olhou para o viaduto.
— Eu queria perguntar uma coisa.
— Pergunte.
A menina permaneceu alguns segundos examinando a presilha. Depois falou tão baixo que Marta precisou inclinar a cabeça para ouvi-la.
— A senhora se lembra de mim antes do ônibus?
Marta sentiu um desconforto estranho.
— Antes de começar a dirigir esta linha?
Nina assentiu.
A motorista procurou na memória. Lembrava-se da primeira viagem, de Agenor entregando as chaves e da menina sentada junto à janela, com o uniforme escolar e a mochila vermelha. Não conseguia encontrar nenhuma lembrança anterior.
— Não. Por quê?
Nina guardou a presilha no bolso.
— Nada.
Voltou ao banco.
Marta permaneceu olhando para ela pelo espelho, incomodada com a sensação de que a pergunta pertencia a uma conversa iniciada muitos anos antes e interrompida por algum motivo que nenhuma das duas conseguia recordar.
O viaduto estava próximo.
A iluminação do outro lado alternava entre a claridade branca dos postes de Santa Amélia e a luz pálida do Entremeio. Havia uma rua comum além das colunas, com carros estacionados, uma padaria iluminada e pessoas caminhando sob a chuva. Marta reduziu a velocidade até quase parar.
Seu Américo aproximou-se.
— A senhora precisa entregar a direção antes de descer.
Marta olhou para ele.
— Você sabe dirigir?
O velho pareceu ofendido.
— Trabalhei com caminhões durante vinte e dois anos, dona Marta. Não aprendi apenas a usar chapéu.
A motorista examinou-o durante alguns segundos, tentando decidir se confiaria o veículo a alguém que já não parecia pertencer inteiramente ao mesmo mundo que ela. Depois lembrou-se das dezenas de viagens que fizera com Américo, de sua prudência, de suas advertências e da maneira como ajudara os passageiros durante os últimos acontecimentos.
Parou junto à primeira coluna.
O velho assumiu o volante. Ajustou o banco, examinou os pedais e procurou a alavanca de câmbio sem precisar procurar nenhum comando duas vezes. Marta permaneceu ao lado dele, explicando o defeito da terceira marcha e recomendando que não tentasse fechar a porta traseira com demasiada força, caso desejasse continuar possuindo uma.
Américo assentiu.
— Vou cuidar.
Marta recolheu suas coisas. Antes de se afastar, colocou sobre o painel a pequena fotografia de Lia fantasiada de bruxa. Não sabia por que fizera aquilo, mas o gesto lhe pareceu adequado, como se precisasse deixar alguma coisa de sua vida comum naquele veículo que a transportara durante tantos anos.
Quando se voltou, Nina estava de pé junto à porta.
A menina segurava a alavanca com uma das mãos. Seus olhos permaneciam fixos na rua do outro lado, onde duas crianças discutiam diante de uma banca de jornais. A mão tremia sobre a alavanca.
— Nina?
A menina não respondeu imediatamente.
Observava a chuva, os carros, as pessoas caminhando apressadas. Havia algo de cruel naquela normalidade, na maneira como o mundo comum oferecia coisas tão pequenas para quem passara décadas privado delas. Nina poderia crescer, estudar, abandonar o uniforme, descobrir que certos cortes de cabelo eram um erro e que algumas amizades terminavam por motivos tão ridículos que ninguém conseguia explicá-los depois. Poderia tornar-se uma mulher que Marta talvez não reconhecesse.
Tudo aquilo parecia estar do outro lado de uma porta.
— Quando alguém volta, fica um lugar aberto por um instante — murmurou Nina. — Eu já vi acontecer.
Lia se aproximou.
A filha de Marta compreendeu antes que a mãe conseguisse formular qualquer pergunta.
— Você está pensando em atravessar antes de mim.
Nina assentiu.
— Estou.
Marta sentiu o coração acelerar. Queria impedir a menina, explicar que Lia precisava voltar, que não poderia perder a filha novamente e que ninguém tinha o direito de exigir outra perda daquela família. Mas Nina já sabia. Era precisamente por isso que sua mão tremia sobre a alavanca.
— Eu queria que você fosse uma pessoa horrível — disse a menina, olhando para Lia. — Seria muito mais fácil.
A jovem soltou uma pequena risada.
— Posso tentar. Minha mãe diz que tenho talento.
Nina quase sorriu, mas a expressão desapareceu quando voltou a olhar para a rua.
— Eu estou cansada de esperar. Tenho treze anos há tanto tempo que já não lembro direito como era ser mais nova. Às vezes vejo crianças que cresceram, casaram, tiveram filhos. Algumas ficaram velhas enquanto eu continuava indo para a escola. Eu queria descobrir como é sentir saudade de uma idade que passou. Queria reclamar de uma dor nas costas, comprar roupas que não servem mais, achar ridículo o cabelo que usei quando era adolescente. Eu queria ter uma vida que pudesse acabar.
Lia permaneceu diante dela.
Não encontrou resposta. Havia passado quase dois meses no Entremeio, convivido com pessoas que perderam famílias inteiras e começara a compreender que certas injustiças não ofereciam a satisfação de encontrar um culpado adequado. O que Nina desejava era tão simples que Lia não soube como argumentar sem tornar a própria presença naquela porta uma acusação.
A menina continuou segurando a alavanca.
Do outro lado, a rua permanecia iluminada.
Marta aproximou-se, mas não tocou nela.
— Você me perguntou se eu me lembrava de você antes de começar a dirigir.
Nina baixou os olhos.
— Perguntei.
— Por quê?
A menina apertou a presilha dentro do bolso. Durante alguns segundos, pareceu prestes a responder, mas acabou olhando novamente para Lia.
— Porque acho que a senhora já me conheceu quando era pequena.
Marta sentiu um frio desagradável.
— Onde?
Nina demorou a falar.
— Não lembro direito. Às vezes sonho com uma menina que ficou doente. Tinha uma mulher segurando a mão dela, e um homem que fumava. Eu não sei se era um sonho meu ou de outra pessoa. — Levantou os olhos para Marta. — Mas lembro de estar com medo de que alguém fosse embora sem mim.
— Minha mãe mandou dizer que sente muito. Não soube explicar por quê.
Nina não respondeu. Apertou no bolso a presilha. Marta recordou a febre de uma infância distante, o cheiro de um ônibus e a mão de Neusa fechada em torno da sua. Por muitos anos, acreditara ter perdido uma boneca naquela viagem.
A menina soltou a alavanca.
Afastou-se da porta e voltou ao banco, com a mochila apertada contra o peito. Afastou-se sem olhar para as janelas; os dedos mal conseguiam fechar o zíper da mochila.
— Vai logo — disse a Lia, sem olhar para ela. — Antes que eu mude de ideia.
Lia permaneceu alguns segundos diante dela. Depois se aproximou e a abraçou. Nina tentou resistir, mas acabou segurando a jovem pelas costas, chorando silenciosamente.
Marta observou as duas.
Queria agradecer, prometer que encontraria uma solução, dizer que voltaria na semana seguinte e que nenhuma criança deveria esperar décadas pela oportunidade de completar quatorze anos. Mas havia feito promessas demais durante a vida, e começava a compreender que algumas pessoas não precisavam ouvir mais uma.
Lia se afastou.
A porta se abriu.
A chuva tocou seu rosto.
Marta observou a filha dar dois passos sobre a calçada, olhar para as próprias mãos e começar a rir. Não houve qualquer luz especial, nenhuma alteração visível nas ruas, nenhum sinal de que o mundo houvesse recuperado alguma coisa. Apenas uma mulher de vinte e sete anos molhando os cabelos numa noite comum, enquanto um ônibus antigo permanecia parado sob o viaduto.
A motorista desceu atrás dela.
Abraçou a filha com tanta força que Lia reclamou, rindo, e perguntou se a mãe pretendia quebrar suas costelas.
Marta respondeu que ainda estava considerando a possibilidade.
Quando voltou a olhar para o ônibus, seu Américo permanecia ao volante. Dona Zuleide ocupava o primeiro banco, com a gaiola no colo. Raquel segurava Tomás, que dormia com a mão esquerda apoiada sobre a outra, imóvel. Nina estava junto à janela. A menina ergueu a mão num cumprimento.
Marta respondeu.
Américo engatou a primeira marcha.
O ônibus começou a atravessar o viaduto. Por alguns segundos, Marta acompanhou seu movimento entre as colunas. Depois a iluminação mudou, e o veículo desapareceu, como se a estrada houvesse se fechado atrás dele. Restaram apenas o asfalto molhado, o ruído distante de um caminhão e a chuva caindo sobre Santa Amélia.
Lia permaneceu ao lado da mãe.
— Você vai voltar lá, não vai?
Marta olhou para o lugar onde o ônibus desaparecera.
— Vou tentar.
A filha assentiu.
— Eu também quero.
Marta examinou-a. Havia alguma coisa nova naquela mulher, uma determinação que não dependia mais de seus conselhos ou da proteção que desejava oferecer. Lia guardava lembranças que a mãe jamais conheceria por completo, pessoas de quem sentia falta e compromissos que pretendia cumprir.
Marta não gostou inteiramente da descoberta.
Também sentiu orgulho.
Voltaram para casa pouco antes do amanhecer.
O apartamento estava vazio. Neusa desaparecera. Não havia vestido sobre a cadeira, nenhuma laranja descascada na cozinha e as fotografias da estante haviam recuperado os rostos que Marta conhecia. O quarto de Lia estava novamente ocupado por roupas, livros e uma quantidade de objetos que a mãe considerava inúteis, mas cuja retirada produziria conflitos suficientes para ameaçar a estabilidade da família.
A torneira continuava pingando.
Lia deixou a mochila sobre o sofá, procurou alguma coisa para comer e encontrou uma panela vazia no fogão. Reclamou da falta de comida, perguntou se a mãe havia passado os últimos dias vivendo de café e abriu a geladeira com uma indignação que Marta reconheceu imediatamente.
— Você precisa aprender a comprar comida de verdade, mãe. Tem três potes de margarina aqui, e nenhum tem margarina.
Marta sentou-se à mesa.
Observou a filha retirar ovos, procurar uma frigideira e começar a preparar alguma coisa. Havia passado apenas dois dias sem ela, mas Lia vivera semanas num lugar onde o tempo não se comportava como deveria. Marta não sabia quanto daquela experiência continuaria acompanhando a filha, nem quantas noites ainda acordaria pensando em Bento, Eulália e Nina.
— Lia?
A filha olhou por cima do ombro.
— O quê?
— Você lembra da sua avó?
Lia desligou o fogo. Permaneceu algum tempo observando a frigideira, depois voltou-se para a mãe.
— Lembro do que você me contou. E lembro de uma mulher que falava com a voz dela naquela casa. Não sei se é a mesma coisa.
Marta assentiu.
Não tentou explicar.
Comeram ovos mexidos, pão amanhecido e um pedaço de queijo que Lia encontrou no fundo da geladeira. Conversaram sobre assuntos pequenos, quase todos relacionados à comida, ao trabalho e ao domingo. A filha insistia na lasanha, mesmo depois de aprender receitas com uma senhora que desprezava as medidas dos livros.
Quando Lia foi dormir, Marta permaneceu algum tempo sentada à mesa.
Pensou em Neusa, na última laranja que dividiram e no gesto com que a mãe ajeitara seus cabelos antes de permitir que saísse. Não sabia se voltaria a vê-la. Talvez aquela mulher tivesse existido apenas durante a alteração provocada por Raquel; talvez fosse uma versão da mãe que continuara vivendo em algum lugar do Entremeio. A diferença lhe parecia importante, mas naquela manhã não possuía disposição para descobrir qual hipótese era verdadeira.
Levantou-se e foi procurar a caixa de costura de Neusa.
Encontrou-a no alto do armário, entre lençóis antigos e uma sacola de roupas que pretendia doar havia anos. A caixa estava coberta de poeira. Dentro havia botões, linhas de diferentes cores, agulhas enferrujadas e pequenos pedaços de tecido que a mãe guardara por motivos que Marta nunca compreendera.
No fundo, sob uma divisória de madeira, encontrou uma fotografia.
Era antiga, em preto e branco, com as bordas amareladas e uma pequena marca de dobra atravessando o canto inferior. Mostrava um ônibus estacionado diante de uma estrada de terra. Marta reconheceu o modelo, a pintura e a pequena construção que aparecia ao fundo, com três sinos suspensos sobre a entrada.
Ao lado do veículo estava Agenor, muito mais jovem, segurando um cigarro entre os dedos. Neusa aparecia perto dele, usando um vestido claro e sorrindo para a câmera. Tinha os cabelos escuros, o rosto ainda sem rugas e uma expressão de alegria que Marta não conseguia lembrar de ter visto naquela época.
Havia duas meninas diante de Neusa. A primeira era Marta, com aproximadamente sete anos, usando um vestido listrado e uma presilha branca nos cabelos. Conhecia aquela roupa: durante toda a infância, acreditara que a fotografia fora tirada na visita à casa de uma tia, pouco antes da febre que quase a levara ao hospital. A outra menina, um pouco mais velha, tinha cabelos castanhos até os ombros e uma mochila vermelha. Permanecia ligeiramente afastada, com uma expressão desconfiada, embora estivesse de mãos dadas com Marta. Ela aproximou o papel da janela. Era Nina.
No verso, Neusa escrevera, na caligrafia que a filha conhecia tão bem: “Eu, Marta e Nina. Antes de voltarmos para casa.” A data vinha logo abaixo: agosto de 1978. Marta lembrou-se da febre, do vestido listrado e da mão da mãe conduzindo-a por uma rua desconhecida. Lembrou-se também de haver chorado durante dias por um objeto perdido naquela viagem, uma boneca, talvez. Não se lembrava de Nina.
Voltou a examinar as duas meninas. Usavam presilhas brancas idênticas, presas do mesmo lado da cabeça. Neusa guardara uma delas na caixa de costura, embrulhada num lenço, e durante quarenta e oito anos Marta acreditara que a outra se perdera. A mão direita de Neusa descansava sobre o ombro de Marta. A esquerda permanecia estendida atrás de Nina, sem alcançá-la.

