Após o parabéns, os gêmeos correram para a sala em busca da caixa de presentes. Era o 16° aniversário deles e, como de costume, mal comiam o bolo, ansiosos para saberem o que ganharam.
Tom adiantou-se retirando um embrulho grande de dentro da caixa e, ajoelhando-se no chão, abriu-o.
- Esse, com certeza, é meu. – disse todo feliz. No fundo, o mais velho sabia que o presente seria dos dois, mas insistia em irritar o irmão a qualquer modo.
- E por acaso está escrito seu nome nele? – retrucou o moreno enquanto tirava uma caixa menor para si.
- Não, — Tom respondeu rápido, quase terminando de desembrulhar o presente. – mas notasse pelo tamanho.
- Então ele é meu, afinal, eu sou o maior. – e sorriu, ajoelhando-se em frente ao irmão e puxando, digo, tentando puxar o presente.
- Mas eu sou o mais velho. – o louro insistia em ressaltar aquele mínimo detalhe.
- Continuo sendo o mais alto. – e puxou novamente, quase conseguindo arrancá-lo das mãos do gêmeo.
- Alguns centímetros.
- Tom, — Bill disse mais autoritário. – Vai procurar um presente 10 minutos mais velho pra você, vai.
Por fim, os dois abriram a caixa que continha dois aviões de brinquedo dentro. Sim, eles poderiam ser velhos para aviões de brinquedo, mas nem ligavam, provavelmente fariam a maior bagunça com eles, competindo para ver quem voava mais alto, e de uma maneira inexplicável Tom ganharia e deixaria Bill furioso com seu jeito implicante de mostrar a todos que ele era melhor em tudo.
- Ah, que lindo. – e os olhinhos do mais novo brilharam ao ver os brinquedos. – O amarelo é meu. – e segurou-o antes que o louro dissesse que queria ele também.
- ‘Ta. Eu queria o azul de qualquer forma. – deu de ombros, indo novamente até a caixa e tirando outro embrulho.
[...]
Tom e Bill escovavam os dentes no banheiro para logo dormirem. O mais velho sentia sua cabeça latejar com tanto que o irmão falava.
-... Ah, e eu vou dormir com o Jumbie e... – Bill pausou ao ver o gêmeo cuspir a espuma assustado.
- Quem é Jumbie? – perguntou Tom, olhando o mais novo com os olhos arregalados.
- Meu avião. – o outro respondeu ingênuo, arqueando a sobrancelha esquerda um tanto confuso.
- Ufa! – o mais velho pôs a mão sobre o peito, suspirando dramaticamente. – Que idiota dar um nome para o avião.
- Nem é. Você só está com inveja porque eu tive a ideia primeiro. – Bill disse emburrado, enfiando a escova na boca. Finalmente!
- Eu? Com inveja? De você? – e o de dreads forçou uma risada alta e irritante. – Sinto dó do avião, você se mexe tanto durante a noite que ele vai amanhecer todo despedaçado.
- Insuportável. – grunhiu Bill, revirando os olhos brevemente. – Sabe Tom, — falou após cuspir a espuma da boca. – não vi nenhum presente da vovó.
- Verdade. – concordou repetindo o ato do gêmeo. – Nenhum presente chato demais. Nem cuecas, nem blusas de lã...
Simone bateu na porta apressando os filhos que terminaram logo com a escovação. Saíram do banheiro indo direto para o quarto. Abriram a porta, deparando-se com um móvel diferente no canto do cômodo. Era uma escrivaninha de madeira escura, com algumas gavetas de cada lado e uma maior no centro.
- Gostaram do presente da avó de vocês? – Estava demorando. Simone escorou-se na porta, vendo os gêmeos olharem-na instantaneamente. – Agora vocês terão mais um lugar para guardar suas bagunças.
- Ela parece velha, mãe. – Tom comentou desgostoso.
- E não combina nada com os outros móveis do quarto. – o mais novo completou com a mesma expressão do outro.
- Eu sei, mas será útil. – a senhora Kaulitz disse autoritária, num tom repreensível. – Não se esqueçam de agradecer. – e dando um beijo nos dois, retirou-se.
Ambos olharam mais uma vez para a escrivaninha. Talvez sua mãe tivesse razão, provavelmente tinha. A escrivaninha seria útil; Bill teria um lugar para por os papéis com letras de músicas e Tom... Poderia... Ter uma gaveta só para camisinhas? Enfim, decidiriam isso depois, no dia seguinte, à tarde, depois de chegar da escola.
**
Bill estava jogado sobre a cama, esperando o gêmeo terminar o banho para poder começar o seu em seguida. Haviam chegado a pouco do colégio e como Tom costumava demorar no banho, o moreno resolveu adiantar as lições de casa.
Arrastou a mochila até a escrivaninha e sentou-se na cadeira em frente ao móvel. Pegou um caderno e o livro de Biologia. Começaria a ocupar uma das gavetas da escrivaninha com seu material escolar. Puxou a primeira do lado esquerdo, notando um objeto chacoalhar dentro da gaveta. Olhou-o notando que se tratava de um diário. Escorando-se na cadeira, o pegou, abrindo na primeira página onde estava escrito numa caligrafia legível: “Hoje meu melhor amigo se machucou na aula de Educação Física.” Arqueou a sobrancelha como tanto fazia, e ao notar que Tom acabara de sair do banheiro, colocou o diário novamente na gaveta, indo ao seu tão almejado banho.
**
Saindo da aula de Alemão, já no corredor, Bill viu o gêmeo sair da enfermaria com o uniforme do time de basquete do colégio. Ele estava bem, mas parecia preocupado. Ao notá-lo no corredor, Tom caminhou em direção ao mais novo, parando a sua frente.
- O que aconteceu? – Bill perguntou curioso e preocupado.
- Andreas se machucou na aula. – começou o louro. – Não entendi como foi que aconteceu, quando menos esperei, ele já estava caído no chão... – e Tom parou a narração ao perceber o gêmeo totalmente pálido, com uma feição assustada. – Bill? Você está bem? – nenhuma resposta veio do outro, o que preocupou o mais velho. – Bill? – insistiu um pouco mais alto, segurando o braço do irmão, chacoalhando-o.
- O que? – piscou várias vezes, respondendo desatento.
- Ora ‘o que?’, você está pálido – disse, ainda com uma expressão preocupada. Segurou a mão do gêmeo sentindo-a gélida. – e frio também. Você está bem?
- S-sim. Estou. – Bill puxou a mão, ainda pensativo, deixando Tom desconfiado.
- Tem certeza?
- Tenho Tom. – e finalmente, o mais novo fingiu melhor. – Não se preocupe.
- Está bem, mas se sentir alguma coisa, por favor, pede ajuda. – pediu Tom, dando um meio sorriso e saindo em seguida.
O moreno havia se lembrado do que estava escrito no diário. Não dava para considerar aquilo como uma mera coincidência, de jeito nenhum. Mas o que havia de errado com aquele diário?
Meneou a cabeça espantando, temporariamente, aqueles pensamentos confusos, e dirigiu-se até a enfermaria para ver como Andreas estava. Tão assustado ficara que até esqueceu-se de perguntar a Tom.
Mais tarde, já em casa e fora da visão do gêmeo, Bill pegou o diário novamente, abrindo na segunda página, e lendo a única frase escrita com a mesma caligrafia na folha: “Hoje teve prova surpresa de Matemática.” Ainda incerto, mas decidido a se precaver, tratou de estudar aquela matéria tão chata e que o causava fortes dores de cabeça.
Passava das 20 horas quando o louro entrou no quarto encontrando o mais novo estudando. Estranhou a ação do gêmeo que nunca foi fã de estudar.
- Por que você está estudando tanto? Amanhã tem prova? – perguntou Tom, sentando-se ao lado do irmão.
- Ér... – Bill pensou se deveria contar ao gêmeo. Eles nunca escondiam nada um do outro, mas preferia ter mais certeza do incerto antes de dividir aquela loucura. – Não, quero dizer, não sei. Vai que tem. Aquele professor gosta de dar prova surpresa. – respondeu rápido, sem olhá-lo.
- É, nisso você tem razão. – concordou o mais velho. – Ah, então vou dar um estudada também, por precaução. – e pegou seu caderno dentro da mochila, dando início ao estudo.
- Isso, faça isso. – novamente respondeu rápido, olhando de soslaio o irmão, e voltando a matéria.
**
- Bom dia. – disse o professor de Matemática ao entrar na sala. – Guardem os cadernos, tem prova hoje.
Em meio às reclamações dos outros alunos, Bill sentiu um leve toque em seu ombro direito. Virou-se ao encontro do irmão que sorria divertidamente.
- Como você sabia que tinha prova? – o gêmeo questionou num sussurro.
- Não sabia – respondeu rapidamente — só me precavi. — e voltou à postura normal ao notar o professor pedir silêncio.
Ao acabar a aula, Bill saiu apressadamente da sala. Caminhou pelo corredor até chegar a seu armário. Guardou os livros que não precisaria mais e, ao fechá-lo, deparou-se com o gêmeo parado, olhando-o, ainda com aquele sorriso animado.
- Você não sabia mesmo da prova? – ele perguntou cerrando os olhos.
- Como eu ia saber Tom? – Bill estava ficando cada vez melhor em mentir, estava conseguindo enrolar o próprio irmão.
- Ah, sei lá. – Tom deu de ombros. – De qualquer modo, obrigado pelo toque, eu ia me dar muito mal na prova se não tivesse estudado. — preparou-se para sair, mas sem antes pedir algo a Bill. – Só não se esqueça de me avisar da próxima vez que você ‘sentir’ que pode ter prova. – e, por fim, retirou-se.
**
“Hoje os meninos da escola bateram no meu irmão.”
O mais novo leu a frase na terceira página, sentindo um forte pesar na cabeça, assim como vários arrepios. Guardou o diário descendo até a cozinha onde estavam sua mãe e Tom, o gêmeo. Ele estava sentado, jantando, enquanto Simone colocava o prato do filho mais novo sobre a mesa.
- Come tudo Bill. – disse a loura, retirando-se para a sala.
O moreno mal conseguia comer pensando no que tinha lido. Se o diário estava certo, Tom não teria um bom dia no dia seguinte e Bill se sentiria mal em não ter evitado aquilo. Mas como? Estava claro, era só contar para o mais velho o que estava acontecendo e, assim, o que estava prestes a acontecer com ele. Porém não era tão simples, dificilmente Tom acreditaria, ia pensar que Bill havia sonhado ou batido com a cabeça. Sim, é preciso ser um pouquinho louco para acreditar.
- Bill? — a voz do louro entrou pelos ouvidos do rapaz, espantando brevemente aqueles pensamentos. Ele piscou algumas vezes dando atenção ao gêmeo. – Você está estranho.
- Estranho como? – questionou o mais novo.
- Sei lá, quieto demais. Geralmente você não para de falar. – explicou Tom, arqueando uma das sobrancelhas num gesto desconfiado.
- Impressão sua. – e Bill deu de ombros, baixando o olhar para o prato cheio, quase intocável.
- Claro que não. – retrucou o de dreads com a voz mais forte. – Você está me escondendo alguma coisa?
- N-não. – ‘Não gagueja Bill!’, o moreno repreendeu-se mentalmente.
- Está sim. – Tom afirmou convicto, levantando-se e levando o prato até a pia. Saiu sem deixar o gêmeo se explicar.
**
Bill olhava o relógio sobre o quadro negro, sentia o suor escorrer pelas laterais do rosto; o nervosismo tomá-lo. Esfregava as mãos uma na outra tentando prestar atenção no que o professor falava, mas não fazia à menor ideia nem da matéria que estava tendo. Era quase o fim da aula e Tom ainda estava bem, bravo com o gêmeo, mas bem.
Bill pegou o celular e começou a digitar uma mensagem, enviou e guardou-o. Logo acabaria a aula e eles teriam que voltar para casa.
No corredor, o moreno andava de um lado para outro, atento, procurando o de dreads. Avistou Tom vir até ele pelo corredor, ainda emburrado, sem pressa. Parou a sua frente e suspirando brevemente, olhou-o.
- Recebi sua mensagem. – ele disse para o mais novo. – O que foi?
- Nada. Vamos? – o maior mordeu o lábio, começando a caminhar lentamente.
Tom acompanhava-o, tendo que parar de vez em quando para que o outro o alcançasse. Ao chegar ao portão principal, viram o automóvel parado em frente ao colégio. Simone estava ali, esperando os filhos. Os dois entraram no carro e logo se deu partida. Bill havia chamado a mãe, pedido para que viesse buscá-los. Talvez tivesse conseguido evitar aquilo que estava escrito no diário. Ou talvez não.
**
Bill desceu os degraus vendo Simone sentada no sofá assistindo TV. Olhou em volta duas vezes vendo o cômodo vazio.
- Mãe, — disse o mais novo tendo a atenção da loura para si. – Cadê o Tom?
- Ah, ele foi buscar um caderno na casa de um amig... – e foi interrompida pelo toque do telefone.
Levantando-se, Simone foi atendê-lo. Bill olhava cada ação dela, reparando nas expressões que a loura fazia enquanto escutava a outra pessoa na linha.
- Me espere querido, já vou. – ela disse num tom preocupado, desligando o aparelho e apressando-se até a porta. Pegou as chaves e estava de saída.
- Mãe, o que houve?
- O Tom. – respondeu rápido, virando-se para o outro filho. — Já volto. – e deixou-o para trás.
Alguns minutos depois o moreno viu pela janela da sala o carro vermelho estacionando na garagem. Simone se apressou ao outro lado, mas antes que abrisse a porta, o louro saiu sozinho. Estava com a camiseta branca suja em alguns pontos, um dos braços sobre a barriga e um pouco inclinado. Bill viu Tom mancar ao aproximar-se. Simone abriu a porta dando passagem para o filho que nem olhou para o moreno ali, simplesmente subiu as escadas o mais rápido possível e se trancou no quarto.
Mais tarde, depois que Bill deduziu que o gêmeo estaria mais calmo, resolveu subir até o quarto para saber como ele estava. Ao aproximar-se da porta, notou que ela não estava mais trancada, e sim apenas encostada. Estendendo a mão sobre ela, empurrou-a para dentro cautelosamente para que se abrisse. Entrou no quarto chamando pelo irmão que estava sobre sua cama, encolhido, com a cabeça entre os joelhos e os braços envolvendo as pernas. Bill sentiu um aperto no peito ao vê-lo daquele jeito. Tom sempre pulava de um lado para o outro, fazendo piadinhas com todos, principalmente com o mais novo, e mesmo sendo um tanto irritante, Bill sentia falta disso.
Aproximando-se do irmão, Bill se sentou ao lado dele que, esfregando as mãos perto dos olhos, encarou o mais novo. Eles se olharam alguns instantes, enquanto Bill organizava as melhores palavras na mente.
- Tom... – e pausou brevemente, mordendo o lábio. – Você está melhor?
E num gesto rápido, Tom deixou-se cair sobre as pernas do gêmeo, deitando a cabeça sobre elas que estavam esticadas na cama. Encolhendo-se um pouco, Tom tornou a soluçar de novo, molhando a calça de Bill com as lágrimas que escorriam de seus olhos. Ele não costumava ficar tão abalado com essas coisas, certo que eram ruins, mas Tom sempre enfrentava e passava depois. As ceninhas de choro sempre eram do mais novo.
Bill acariciava os dreads bagunçados do outro que continuava na mesma posição. O moreno chorou silenciosamente junto ao irmão, como se pior que fazer aquilo com ele, fosse fazer com alguém que ele amava tanto, logo esse que era o que ele mais amava.
- Bill, eu ‘to cansado disso. – Tom disse com a voz chorosa e baixa.
- Eu também. – o outro sussurrou respondendo, cerrando os olhos enquanto mais lágrimas deslizavam pelas bochechas rosadas. Como queria acabar com aquilo, como desejava que tudo fosse um mero sonho, e que despertasse agora e encontrasse o gêmeo dormindo angelicalmente debaixo das cobertas. Não basta doer, a realidade tem que te despedaçar em dolorosos milhões de pedaços.
**
O moreno caminhava para a escola, era de manhã e a rua estava quase que deserta. Ele chutava algumas pedrinhas que estavam no caminho, de cabeça baixa, pensativo. Fora dormir tarde tentando convencer à senhora Kaulitz a deixá-lo ficar em casa com o gêmeo, mas Simone disse que seria melhor que Bill fosse à escola, assim poderia emprestar os cadernos para Tom. Sem opções, o mais novo levantou cedo.
Parou perto da entrada, vendo os outros alunos entrando pelo portão principal. Não teria Tom e nem Andreas para lhe fazer companhia e, com certeza, seria um longo dia.
Deu o primeiro passo para o portão, mas foi impedido de dar o segundo por uma mão que o puxou para trás. Bill virou-se assustado, deparando-se com uma senhora vestida num longo vestido preto de um tecido que se movimentava facilmente. Ela olhou-o como se soubesse perfeitamente quem ele era, ao contrário de Bill que não fazia à menor ideia de quem era a mulher.
- Posso ajudar? – perguntou.
- Eu sei do diário, — ela disse vendo o sorriso simpático de Bill murchar-se. – e sei das coisas que estão acontecendo.
- Q-que diário? – o moreno fingiu-se de desentendido.
- Você sabe perfeitamente de qual diário estou falando. O da escrivaninha. – respondeu séria, dando continuidade em seguida. – Você está triste com as coisas que estão acontecendo e quer muito acabar com isso. – disse convicta, assustando o outro que estava completamente pálido. – Estou aqui para dizer-te que existe um único jeito e que só você pode fazer.
- Eu tenho que entrar. – Bill virou-se tentando alcançar o portão o mais rápido. Deu alguns passos, mas a senhora o acompanhou. Segurou firme a mochila do rapaz, fazendo-o virar-se novamente.
- Leia a última página do diário e tudo isso acabará. – ela olhava-o no fundo dos olhos medonhos. – Mas leia sozinho, de jeito nenhum faça isso com alguém por perto.
Puxando a mochila de um jeito bruto para que a mulher soltasse-o, Bill praticamente correu para a escola, entrando no local sem olhar para trás.
[...]
Já era noite, passava das 22 horas, e Bill ainda pensava no que a senhora desconhecida falara mais cedo para ele. Será que ela estava certa? Que sabia perfeitamente do que estava acontecendo e que a solução seria tão simples assim? Apenas ler a última página daquele maldito diário? Bem, Bill havia prometido a si mesmo que nem tocaria mais nele, mas para tentar consertar tudo quebraria sua promessa e se arriscaria a ler mais uma página, a última.
Caminhou para perto da escrivaninha e ajoelhou-se em frente a ela. Abriu a gaveta onde o diário estava — a primeira do lado esquerdo — e tirou o objeto de dentro dela. Ainda encarou por alguns instantes a capa do diário. Estava seguro, sabia que ninguém entraria já que porta estava trancada. Sua mãe assistia a TV na sala e Tom estava no telefone com Andreas.
O moreno suspirou fundo e numa ação rápida, abriu o diário na última página, lendo a frase escrita numa caligrafia tremula: “Hoje eu morri.” Bill jogou o objeto para longe e se sentiu sufocado dentro do quarto abafado. Tentou gritar de tanto pavor, mas nenhum som saía-lhe da garganta. Esperneando-se levantou rapidamente jogando os lençóis no chão. Espera? Lençóis? Ufa, fora tudo um sonho.
Bill suspirou aliviado ao notar que estava sentado na cama macia, no escuro do quarto e que ainda era a madrugada do segundo dia de Setembro. Passou uma das mãos sobre a testa molhada e já conseguindo enxergar no escuro, avistou a escrivaninha no canto, com uma gaveta aberta e logo a sua frente um vulto ajoelhado. Vulto? Cerrou os olhos, inclinando-se para frente a fim de identificar quem era, reconhecendo os dreads caídos sobre a camiseta do outro que segurava algo como um caderno pequeno nas mãos. Parecido a um diário. Ah não! Bill pulou da cama, lançando-se sobre o gêmeo que caiu no chão deixando o diário fechado se arrastar para baixo da outra cama.
- Bill, o que está fazendo? – grunhiu o mais velho irritado, por baixo do moreno.
- Tom, você não leu o diário, leu? – o outro perguntou assustado, sentindo o coração pulsar descontroladamente dentro do peito.
- Não. Mas, por quê? – Tom questionou confuso, olhando o irmão.
- Promete que você não vai ler. – pediu o mais novo num sussurro, tentando controlar-se.
- Por quê? O diário é seu? – o louro perguntou interessado, afinal, se fosse, ele poderia ler e saber dos segredos que Bill talvez não tivesse contado.
- Não. Não é meu. – respondeu saindo de cima do outro. – Você não pode ler. Ninguém pode.
- Mas, por quê? – agora Tom agiu confuso.
- Volta para a cama e amanhã eu te conto. – ordenou Bill, vendo que o gêmeo não moveu um músculo. – Vai, Tom.
- Eu vou morrer de curiosidade até amanhã. – falou manhoso, implorando que o moreno contasse o porquê de não poder ler o diário.
- Não Tom, já disse que amanhã eu conto. – afirmou autoritário, agachando-se e pegando o diário embaixo da cama. – Boa noite. – e antes de deitar, guardou o diário embaixo do travesseiro, só para ter certeza de que Tom não levantaria depois e por pura curiosidade leria o diário.
- Chato. – o outro grunhiu irritado, deitando em sua cama. – Amanhã você me conta.
- ‘Ta.
- Boa noite. – desejou o louro.
Bill fechou os olhos adormecendo rapidamente, não queria nem imaginar o que aconteceria se Tom lesse o diário. Maldito diário.
