O ano é 1975. Num canto da Inglaterra, distante da movimentação das cidades grandes, como Londres e Liverpool, um grupo de quatro garotos, que, a pouco tempo, começaram a fazer sucesso como uma banda, têm uma discussão.
—Ok, amados. Nós temos a minha música, que, obviamente, vamos lançar como um single. Mas agora precisamos de uma outra música para ser o lado-b. Sugestões?— Perguntou o mais velho dos quatro, Freddie Mercury, o único do grupo que não era natural da Inglaterra. De certo modo, extravagante quando queria, tinha as unhas de uma mão pintadas de preto na época, e longo cabelo negro. Sua característica mais marcante? Sem dúvida, os dentes, pois nascera com quatro incisivos a mais.
—Eu tenho uma. — disse Roger Meddows Taylor, confiante. O baterista ( e também parte dos vocais) parecia animado em relação ao assunto. — Que tal I'm in love with my car?
O cômodo se encheu de risadas, vindas dos outros dois membros da banda, John Deacon e Brian May. Os olhos azuis de Roger se viraram para seus amigos, com raiva.
—Ah, vocês estão rindo? Tenho certeza que é porque acham que suas músicas deveriam estar no lado-b.
—Oh, Roger, por favor. Eu te conheço faz anos e essa é uma das coisas mais ridículas que você já disse. Colocar uma música sobre carros como contraparte da coisa do Freddie? — nesse momento, Mercury abre um sorriso, ao ver Brian chamar sua canção por aquele nome.
—E o que você quer no lado-b? A sua música de oito minutos, que ninguém vai querer ouvir? Já não basta a maldita ópera do Freddie-
Roger foi interrompido por Freddie, que apenas olhou para seu companheiro, e disse:
—A "maldita ópera"? Você cantou pelo menos cinquenta por cento daquilo, e ainda quer reclamar, querido?
—O Roger quase ficou rouco depois daquilo, Fred. — disse John, enquanto tomava um gole de chá, seguindo os costumes ingleses.
—Eu realmente gostei da parte dos Galileo, mas não precisava forçar tanto.
—Ah, disse o astrofísico. "Olha gente, eu fiz faculdade de astrofísica, olha como eu sou um gênio. Ainda não entenderam? Então observem essa canção que eu fiz sobre 1939! É, o ano que começou a segunda guerra! Eu sei, sou um gênio. As outras pessoas deveriam ter inveja de mim." — disse o baterista, numa falha tentativa de imitar a voz do guitarrista, fazendo com que sua própria voz ficasse rouca e mais aguda que o normal.
—Roger querido, não fique irritado porque nós não queremos sua música de carros acompanhando Bohemian. Você já deveria estar feliz só por ela estar no álbum.
—Vocês não compreendem a grandiosidade de I'm in love with my car!
—Ah, Roger. Eu ainda me pergunto, o que exatamente você está fazendo com esse carro? — disse John, com um tom sarcástico. Seus cabelos castanhos desciam pelas costas enquanto ria do amigo.
Com raiva, o loiro se virou, e abriu o armário da cozinha, que se encontrava vazio. Com pouquíssimo cuidado, entrou lá dentro, e se trancou.
—Eu só vou sair daqui quando vocês colocarem minha música no lado-b! — disse, ainda mais irritado.
—Roger! — Mercury se levantou, andou até o armário, e o chutou. — Deixe de ser dramático! Eu não irei deixar sua maldita música sobre um tarado por carros fazer contrapartida com a minha música, minha obra-prima! É uma mistura de todos os gostos possíveis! Balada, ópera, rock! Ninguém tinha feito isso antes!
—Coloque a música, ou eu não saio! — declarou, com raiva.
John ria descontroladamente, enquanto Brian sacudia a cabeça, fazendo seus longos cabelos cacheados irem de um lado pro outro, desapontado.
Freddie se virou, com passos fortes, e voltou para a mesa. Brian andou até o armário, para conversar com seu amigo.
—Deaky, querido. — chamou Mercury, chamando a atenção do baixista. — Você, por acaso, conhece algum outro baterista? De preferência um que também pareça um apito para cachorros.
—Freddie! Nós não vamos substituir o Roger só por causa dessa idiotice dele! — disse Brian, enquanto batia no armário.
—Não é uma idiotice!
...
A situação durou por mais duas horas. Até, que, por fim, Freddie cedeu.
—Ok, Roger. A sua música pode estar no lado-b. Mas isso é só porque você é meu apito para cachorros favorito, seu idiota. — falou, se arrependendo na mesma hora.
A porta do armário se abriu, revelando um sorridente Roger Taylor. Seus olhos (descritos por várias pessoas como angelicais) brilhavam de alegria.
—Obrigado! Oh, Freddie, obrigado! — disse, enquanto pulava em cima do vocalista, fazendo-o cair no chão.
—Uau. Essa deve ser a coisa mais gay que vocês já fizeram durante toda a nossa trajetória.
Ao se virar, Meddows percebeu Deacon observando os dois, com sua inseparável xícara de chá, e uma torrada com queijo na outra mão. As risadas de Brian atravessaram os cômodos, imaginando a cena.
—Vai se ferrar, Deaky!
