+Fiction

Rëlief

Gabriel Girão

Rëlief
Chapter 14 min read

Prólogo - Cemitério de Highgate

O sol já estava se pondo. Do alto da guarita, James e seu colega de trabalho, Julio assistiam a grande final de Rúgbi. Era um péssimo dia para se trabalhar, já que era domingo e estava começando a esfriar.

O cemitério de Highgate estava completamente calmo. Embora, durante a semana, atraia alguns turistas, devido a arquitetura dos imponentes mausoléus e alguns amantes do socialismo, que prestavam homenagens ao túmulo de Karl Marx.

Júlio havia abandonado a comodidade da Espanha para estudar em Londres. Mas o emprego de meio período de vigia não era o que ele esperava (embora o salário fosse relativamente bom). Tudo que ele queria era sair daquele emprego e começar o seu curso de engenharia na Universidade de Londres.

Já James, um inglês de trinta anos parecia estar satisfeito com o seu trabalho. Bom, cada um tem um sonho de vida diferente.

Júlio patrulhava com seu binóculo, enquanto James não tirava os olhos da tv. Não há nada para se preocupar.

Foi então que ele percebeu uma movimentação estranha a noroeste. Um adolescente que parecia ter mais ou menos uns 18 anos, perambulava perto de uma das sepulturas.

Com certeza mais um que vem ao cemitério para se drogar, pensou Júlio.

Ele pegou sua lanterna, sua arma e seu walk-talk. Ele avisou a James:

− Parece que há um adolescente aos arredores do lado C. Irei conferir.

James pouco lhe deu atenção.

Ele desceu a guarita e caminhou lentamente, ligando sua lanterna. Os fachos de luz solar já desapareciam ao oeste, grande parte do cemitério já estava às escuras. Nem todas as histórias sobre fantasmas ou assombrações assustavam Júlio.

Isso não existe.

Foi então que se deparou com o tal adolescente, ajoelhado diante de uma das sepulturas, parecendo estar de luto. Ele estava em silêncio, o que fazia da situação ainda mais misteriosa.

O vigilante consultou seu relógio. Faltavam cinco minutos para que o cemitério fechasse.

− Senhor... – começou. – Preciso que me acompanhe até a saída, o cemitério já vai fechar.

O jovem permaneceu imóvel, ajoelhado.

− Senhor...

− Só mais cinco minutos, por favor – pediu.

É só um adolescente que deve ter perdido o pai, ou a mãe e ainda está lidando com a dor. Julio permaneceu parado, por mais alguns minutos.

Ele novamente consultou o relógio. Normas são normas.

­− Senhor, preciso que me acompanhe até a saída...

− Só mais um pouco...

− Senhor, me desculpe, mas não posso quebrar as regras do local. O cemitério abre as 8 da manhã, pode voltar quando quiser.

− Só mais...

− Eu novamente tenho que pedir que o senhor me acompanhe...

Foi então que o jovem se virou para Julio. Aquilo o assustou.

Em nenhum lugar, Julio tinha visto algo como aquilo. Sua pele era pálida, completamente destruída por uma mucosa na pele ou algo do tipo e seus olhos eram vermelhos, como de um rato infectado.

− Eu disse só mais alguns minutos...

O vigilante não teve tempo que sacar sua arma, o jovem voou em seu pescoço, derrubando-o no chão. Ele cravou os dentes em sua jugular.

Julio gritou de dor.

O jovem saiu correndo pela noite. O vigilante perdia muito sangue, tirando seu walk-talk do bolso ele gritou:

− JAMES! JAMES! ME AJUDE! JAMES, RESPONDA...

James parecia ligado demais naquele jogo de rúgbi.

− JAMES, ME AJUDE! ­– começou a berrar em espanhol. Mas já era tarde demais, ele estava perdendo suas forças.

Júlio viu seu mundo escurecer enquanto o jovem corria para a saída do cemitério.

Comments & Reactions

Share your thoughts, attach collectible stamps, and react with the author and community.

You have reached the latest chapterReturn to story overview
Story Index