Pain Took Up Residence in My House
Pain Took Up Residence in My House
Chapitre 113 min de lecture

A DESTRUIÇÃO DE UMA VIDA

Cinco homens caminham curvados e em silêncio em direção a uma casa simples à beira de uma colina. Ao redor dela, há uma pequena horta e algumas cabeças de gado. O sol já desce atrás do morro, e a luz alaranjada alonga as sombras dos homens sobre o capim. Nenhum deles fala. Só se ouvem o barulho das botas abaixando o mato e a respiração pesada de quem andou muito para chegar até ali. Um deles lidera o grupo. É alto e usa um chapéu preto que dificulta a visão de seu rosto. Ao ver um homem um homem fora da casa, ergue a mão. Os outros param imediatamente. Esperam por alguns instantes. Quando o homem entra para dentro da casa e o caminho parece livre, ele faz um sinal, e os cinco voltam a avançar em direção à casa. Dentro da casa, sente-se o cheiro de comida que acabou de sair do fogo. Helena mexe a panela de feijão com a colher de pau enquanto empurra com o quadril a porta do forno a lenha, que insiste em ficar entreaberta. Tem os cabelos pretos presos de qualquer jeito, as pontas batendo no ombro, e o longo vestido de algodão já manchado de farinha na altura do avental. Ela não se importa. O dia foi comprido, e a noite ainda promete ser calma. No chão de terra batida, perto da porta dos fundos, os gêmeos brincam. Clara desenhou uma casa com um pedaço de carvão na tábua velha que o pai deixou para ela. Fez a casa, a chaminé, quatro bonecos de palito e uma vaca maior que todos eles. Pedro, que não tem paciência para desenho, finge que um graveto é uma espingarda e aponta para todos os cantos do cômodo. — Pá! Peguei o porco-do-mato! — O porco-do-mato já tá na panela, bobo — responde a irmã, sem tirar os olhos do desenho. — E quem pegou foi o papai. — Eu pego o próximo. — Você nem alcança a arma. — Vou alcançar quando eu crescer. — Aí o porco já vai tá morto de velhice. Helena ri sem se virar. As risadas dos pequenos se espalham pela casa, e por um instante ela se esquece da visita do outro dia. Mas só por um instante. Então ela volta a pensar no cavalo que parou na frente da casa anteontem. O cavaleiro era um homem de camisa limpa demais para aquelas bandas, que não desceu da sela nem aceitou o café que ela ofereceu por educação. Falou apenas com Carlos, e falou baixo, com um sorriso que não chegava aos olhos. Disse que o patrão estava cansado de esperar. Que a proposta pela terra era boa, mais do que justa, e que só estaria de pé até o fim do mês. Carlos ouviu até o final com o chapéu de palha nas mãos. Depois respondeu, com a voz calma: — Meus pais estão enterrados naquela colina. Eu não posso vender. O homem de camisa limpa ficou olhando para ele por um tempo. Depois olhou para a casa, para a horta, para as crianças que espiavam da janela. Ajeitou as rédeas e foi embora sem dizer mais nada. — Mamãe, tá queimando — avisa Clara. Helena pula para a panela e salva o arroz no último segundo. — Obrigada, meu bem. Vai chamar seu pai. Diz que a comida tá quase pronta. — Eu vou! — grita Pedro, já saindo, com o graveto debaixo do braço. — Você fica. Quem vai é a Clara. Vai lavar essa mão suja. Parece que mexeu com carvão a tarde inteira. — Foi a Clara que mexeu. — Pedro. O menino suspira como um velho e vai até a bacia. Do lado de fora, Carlos fecha a porteira do curral e confere pela terceira vez se o trinco está firme. Não é preciso. Ele sabe que está. Mas é o tipo de coisa que as mãos fazem sozinhas quando a cabeça está longe. É um homem simples, de pele marcada pelo sol, bigode e cabelo enrolado. Está cansado, mas é um cansaço de um jeito bom, aquele que vem de ter trabalhado o dia inteiro em algo que é seu. Cada parte daquela terra tem uma história: a cerca que ele levantou no primeiro ano de casado, a horta que Helena plantou grávida dos gêmeos, o pé de goiaba que o pai dele trouxe de outro lugar e que, contra todas as previsões, pegou. Ele fica um tempo parado, apoiado na cerca, olhando para as vacas. Elas estão inquietas. Andam de um lado para o outro, mudam de lugar sem motivo, e duas delas olham fixo para a mata, do outro lado da colina, de orelhas em pé. Carlos acompanha o olhar das vacas. A mata está parada. Nem um sopro de vento. Nem um piar de passarinho. É isso que o incomoda. Não é o barulho. É a falta dele. Um bando de urubus sobe de repente de trás do morro, bem longe, e desaparece no céu cor de brasa. Ele os observa até que sumam. — Bobagem — murmura. Pensa no cavaleiro do outro dia. Pensa no sorriso dele. Pensa no que Helena falou depois que o homem foi embora, com a voz baixa para as crianças não ouvirem: "Carlos, a gente podia pensar, eles não vão desistir fácil". E em como ele respondeu que não havia o que pensar. E em como ela ficou calada, olhando para o fogo. Ele não está sendo teimoso. Nem orgulhoso. É só que, se vender aquela terra, para onde vai? O que dirá aos pais, que descansam na colina, ou aos filhos, que nasceram ali? Há coisas que o dinheiro não compra de volta. — Pai! — grita Clara da porta da casa, com as mãos em concha na boca. — A mamãe disse que a comida tá pronta! — Já tô indo, filha! Ele sorri sem perceber. Tira o chapéu, passa a mão pela testa suada e dá uma última olhada na mata. Nada se move. Carlos caminha de volta para casa, e atrás dele o curral fica inquieto. Ele abre a porta da frente e entra. Carlos passa os olhos por todo o cômodo e vê sua mulher acabando de arrumar a mesa enquanto seus dois filhos brincam um com o outro. As risadas dos pequenos se misturam ao estalar da lenha no fogão. Quando o vê, ela sorri. Ele retribui o sorriso e olha para a família. É tudo que ele quer. — Que cheiro bom. O que tem de comida hoje? — É aquele porco-do-mato que você trouxe mais cedo, arroz e feijão com abóbora — responde a mulher. Ele se aproxima dela, dá-lhe um beijo na bochecha e bagunça os cabelos de uma das crianças antes de se sentar. Pedro reclama que o pai fez o cabelo dele ficar em pé. Clara responde que o cabelo dele já é assim. Helena pede paz com um olhar que os dois conhecem bem. Os pratos vão sendo servidos, a panela passa de mão em mão, e a mesa se enche de vapor, de colheres e de pequenas confusões. Há muito tempo a casa não parece tão cheia. Carlos repara nisso e guarda a sensação em algum canto do peito, sem saber por quê. O pai começa uma oração, agradecendo pelo alimento e pela presença de todos ali. A família responde com um "amém" uníssono, e todos começam a comer. Por um tempo, só se ouvem os talheres e a mastigação. É o melhor som que Carlos conhece. — Pai, quando você vai me ensinar a caçar? — pergunta o filho. O homem continua comendo enquanto responde: — Você ainda é muito novo para mexer com arma. Aquilo não é brinquedo. — Mas eu já tenho oito anos! — E vai ter nove, depois dez. E com dez a gente conversa. — Você falou isso ano passado. — Falei e vou falar de novo. Clara ri com a boca cheia. Pedro cruza os braços e faz bico, mas não aguenta muito tempo e acaba rindo também. Helena balança a cabeça, e Carlos, por baixo do bigode, esconde um sorriso. Alguém bate à porta, e o pai começa a se levantar para atender. Mas a esposa o interrompe: — Pode terminar de comer, que eu atendo. Acho que é o seu Zé que veio buscar o leite. O marido dá um sorriso para a esposa, volta a se sentar e responde: — Tá bom, meu amor. Ele pega a colher de novo e leva à boca. Ninguém repara que é a primeira vez em muito tempo que seu Zé bate à porta em vez de gritar da cerca. Ela vai em direção à porta. No caminho, batem novamente, e ela responde: — Já vai! Do lado de fora, os cinco homens estão encostados na parede, grudados à madeira, sem fazer nenhum ruído. Dois cercam a janela da cozinha. Outro está nos fundos, e o quarto, de costas para o mato, vigiam os arredores. O quinto, o mais baixo, mantém o rifle apoiado no ombro, com o dedo fora do gatilho, esperando o sinal. O alto, de chapéu preto, é quem bate. Ouve os passos leves se aproximarem do outro lado. Ouve o trinco sendo levantado. Levanta o rifle. Ela abre a porta e o que vê é o homem parado, apontando um rifle em sua direção. Helena não tem tempo de dizer nada. Não tem tempo nem de sentir medo. Tem apenas a percepção estranha, clara e absurda, de que o homem está de pé na frente da casa dela, no escuro, com a aba do chapéu cobrindo os olhos, e de que ele segura a arma com uma calma de quem já fez aquilo outras vezes. Sem dar tempo de reação, o homem dispara. O som é seco, enorme, e enche a casa inteira. Naquele momento, tudo parece passar em câmera lenta para o esposo. Ele olha e vê a esposa caindo lentamente. O avental claro, o vestido longo se abrindo como um leque, o braço que se estica para lugar nenhum. Ele ouve a cadeira dele arrastar. Ouve Clara gritar. Ouve alguém dizer "mãe" com uma voz que ele não reconhece como sendo do próprio filho. E então os vidros das janelas explodem. Ele não sabe se ela ainda está viva. Por um momento, fica sem saber o que fazer: ir em direção à esposa ou proteger os filhos. Dois segundos. Talvez três. O pior intervalo da vida dele. O instinto decide antes dele. Há dois pares de mãozinhas que ainda podem ser salvas. Em seguida, puxa os dois filhos pelos braços. As crianças perguntam: — Pai, a mamãe! Não deixa ela sozinha! — Eu vou buscar ela. Agora vem! Eles correm agachados para sair da mira dos tiros. As balas atravessam as paredes de madeira como se fossem papel. Um prato explode sobre o aparador. A panela de feijão vira com o estrondo, e o feijão se espalha pelo chão. Ao se dirigir à porta dos fundos, Carlos percebe, olhando pelas janelas, que a casa está cercada. Os homens de fora também começam a atirar. Há sombras em todas as janelas, vultos de chapéu e canos de rifle apontados para dentro. Não é um assalto. Não é um susto. É uma execução. Então decide levar os filhos para o quarto. É o cômodo mais afastado da porta da frente e o único que tem uma cama grande o bastante para escondê-los. Ao atravessar a porta do quarto, leva um tiro, mas continua. O impacto o atinge no ombro, como um coice de mula, e quase o derruba. Uma dor quente se espalha pelo peito. Ele aperta os dentes e não solta os braços das crianças. Entra com os dois, bate a porta com o pé e, por um segundo, tudo parece mais silencioso. Só parece. Carlos se ajoelha na frente dos filhos. Tem sangue na camisa, mas finge não ter. Pedro está pálido, tremendo, de olhos arregalados. Clara chora sem emitir som, com as duas mãos na boca, como se soubesse que o choro podia matá-los. Ele manda os filhos entrarem debaixo da cama e diz: — Fiquem quietinhos aqui. Eu vou buscar a mamãe. — Pai, não vai... — sussurra Pedro. — Eu volto. Prometo. Não saiam daí, aconteça o que acontecer. Entenderam? Os dois balançam a cabeça. Ele os beija na testa, um por vez, rápido, e se obriga a desviar o olhar antes de mudar de ideia. Com o pânico no rosto, os filhos não conseguem reagir. Eles apenas se arrastam para o escuro, encolhem-se contra a parede, de mãos dadas, e ficam olhando as botas do pai se afastarem. Ele abre o guarda-roupa. Atrás de dois casacos e de uma caixa de roupas de bebê que ele e Helena nunca tiveram coragem de doar, está o rifle. Está limpo, carregado, no lugar onde ele sempre o guardou. Sempre torceu para nunca precisar dele. Ele pega o rifle e vai em direção à porta do quarto, determinado a chegar até o homem que atirou em sua esposa. Debaixo da cama, Pedro conta. Ele conta as batidas do coração, que é a única coisa que consegue controlar. Conta os tiros, que vêm de todos os lados. Conta os segundos desde que o pai saiu pela porta, e não passam de poucos, mas parecem horas. Clara aperta a mão dele com tanta força que as unhas dela abrem pequenas marcas na pele. Ele não diz nada. Aprendeu naquela noite que há momentos em que é melhor ser apertado. — Ele vai trazer a mamãe — sussurra Clara. — Vai — responde Pedro. Os dois olham para a fresta da porta, por onde entra uma luz tremida. As sombras passam de um lado para o outro. Alguém grita uma ordem que não conseguem entender. Uma bota estala numa tábua solta da sala. Pedro lembra do pai dizendo que arma não é brinquedo. Pensa que, se ele tivesse crescido mais depressa, estaria lá agora com ele, e se arrepende de ter feito bico no jantar. Carlos sai do quarto com o rifle em punho, mirando na direção dos capangas. Nesse breve instante, consegue ver o rosto do homem que atirou em sua esposa: alto, de chapéu preto que cobre boa parte do rosto e, na bochecha, uma cicatriz. É uma cicatriz antiga, longa, branca, que desce da têmpora até quase o canto da boca. Pega a luz do fogão e brilha como se alguém tivesse desenhado a faca naquele exato instante. Carlos nunca viu aquele rosto. Mas, a partir daquele momento, nunca mais vai esquecê-lo. Ali, na sala destruída, entre os cacos de prato, o feijão derramado e as cadeiras tombadas, ele vê, do outro lado, o corpo de Helena caído perto da porta aberta. O vestido longo ainda se espalha ao redor dela. Os cabelos pretos, soltos, cobrem metade do rosto. Ele não consegue ver se ela respira. Algo dentro dele se quebra. Nesse momento, ele está com o homem na mira, mas o outro é mais rápido. O dedo de Carlos já está no gatilho. A respiração está presa. A mira está firme. Falta só um movimento. Mas o homem de chapéu preto já está com o rifle apontado na direção da porta do quarto. Esperava que Carlos saísse. Talvez soubesse que sairia. O estampido enche o cômodo. Carlos leva outro tiro. Sem forças para continuar, cambaleia por alguns segundos e cai desacordado no chão.

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