O que o mapa não mostra
O que o mapa não mostra
Chapitre 112 min de lecture

Do outro lado

Do outro lado

O aluno escreveu “estou morrendo de saudade” e, antes que Clara pudesse comentar, acrescentou:

— Mas eu não estou morrendo.

— Eu sei.

— É uma expressão?

— É.

Ele olhou outra vez para a frase.

— Tem que ser de uma pessoa?

— Não. Pode ser de um lugar também.

Ele olhou para a linha seguinte.

— E de uma comida?

Clara apoiou a caneta no caderno.

— De uma comida também.

— Então deixo a do pão?

— Deixa a do pão.

Quando a aula terminou, ela tinha anotado quatro expressões para retomar no encontro seguinte, prometido explicar melhor a diferença entre saudade e nostalgia e procurar um texto que não fosse sobre carnaval, futebol ou a dificuldade dos brasileiros com horários. O aluno já morava no país havia oito meses. Chegara pontualmente a todas as aulas.

Joana mandara três mensagens.

Já tô aqui.

Pedi pra você.

Se esfriar a culpa é sua.

Clara guardou o caderno na bolsa, conferiu a sala e puxou a porta. Tornou a abri-la para pegar o celular em cima da mesa.

No corredor, uma mulher tentava convencer um vaso a sair da frente do elevador.

— Ele fica melhor perto da janela — Clara disse.

— Eu sei. Ele também.

O vaso arrastou-se mais alguns centímetros.

Clara passou de lado.

O café ficava numa comercial da Asa Norte, entre uma papelaria e uma loja de conserto de celulares. Joana escolhera a mesa perto da tomada, embora não tivesse trazido o computador. Havia espalhado sobre ela um caderno, um estojo aberto e dois cardápios.

— A tomada é pra minha bolsa — explicou, tirando-a da cadeira.

Clara se sentou.

— Faz sentido.

O café estava morno. Ela bebeu mesmo assim.

Joana virou o celular para mostrar uma mensagem.

— Lembra da mulher que queria aula pro marido?

— A que queria assistir também?

— Essa. Ela perguntou se eu faço desconto porque ele fala italiano.

— E você disse o quê?

— Ainda nada. Tô tentando pensar numa resposta que não seja “meus parabéns”.

Clara riu com a xícara perto da boca e precisou buscar um guardanapo.

Fazia quase três semanas que elas tentavam marcar aquele café. Tinham trocado o dia duas vezes, o horário três, e por pouco não acabavam conversando por áudio enquanto cada uma lavava a própria louça. Joana trouxera um livro para emprestar. Clara trouxera o mesmo pote que precisava devolver desde agosto.

— Tá limpo — avisou, colocando-o na mesa.

— Eu espero que sim.

— Falei porque tá aqui dentro faz uma semana.

Joana abriu a tampa. Havia duas canetas lá dentro.

— Posso ficar com essas?

Clara pegou as canetas.

Conversaram sobre um arquivo de atividades que as duas tinham comprado. Nenhuma examinara o material inteiro. Joana mostrara um exercício a um aluno antes de perceber que o gabarito estava errado. Clara havia feito a correção a lápis na cópia que imprimira.

— Você podia ter me avisado.

— Eu te avisei.

— Quando?

— Mandei foto.

Joana procurou no celular. Encontrou a foto entre a indicação de um filme e uma mensagem de onze minutos que ainda não ouvira.

— Ah.

— Pois é.

A garçonete trouxe um pão de queijo e perguntou se queriam mais alguma coisa. Joana pediu água. Clara consultou as horas.

— Tem aula?

— Só às seis.

— Lá naquela escola?

Clara levantou os olhos.

— Que escola?

— Onde você dá aula. Passei lá ontem.

Ela ainda segurava o celular. A tela apagou antes que encontrasse alguma coisa para fazer com ele.

— Onde?

Joana apontou com o queixo na direção da rua.

— Aqui perto. Indo pro outro lado.

— Eu dou aula em vários lugares.

— Sim, Clara. Por isso eu tô especificando.

Ela partiu o pão de queijo e ofereceu metade. Clara recusou.

— A entrada do lado de uma loja de molduras. Tem uma placa verde, meio pra dentro. Não lembro o nome.

Na mesa ao lado, um homem afastou a cadeira para deixar um carrinho de bebê passar. A roda bateu no pé de Clara.

Ela recolheu a perna.

— Eu acho que você confundiu.

— Tem seu nome na recepção.

Clara pousou o celular ao lado da xícara.

Joana continuou comendo. Havia um farelo grudado no batom, perto do canto da boca.

— Como assim, na recepção?

— Num quadro. Os professores, as salas. Você tava na quatro.

Era a sala onde ela acabara de dar aula.

— Você entrou?

Joana parou de mastigar.

— Entrei.

Clara percebeu a própria mão fechada sobre a borda da mesa e soltou-a.

— Por quê?

— Porque eu achei que você trabalhava lá.

A resposta veio sem irritação. Isso piorou um pouco as coisas.

— Eu trabalho. Às vezes. Só que...

— Foi ruim eu ter ido?

— Não.

— Porque eu não cheguei interrompendo aula, não. Perguntei se você tava e o rapaz disse que só ia hoje.

Clara tomou o resto do café. Estava frio.

— Que rapaz?

— O da recepção.

— Como ele era?

Joana inclinou a cabeça.

— Você tá bem?

— Tô. Só quero saber quem te atendeu.

— Magro. Cabelo comprido, preso. Uns quarenta anos? Tava com uma camisa azul.

Davi.

Clara olhou pela vidraça do café. Na papelaria ao lado, uma mulher segurava a porta com o pé enquanto o filho tentava passar com um rolo de cartolina. Ele o prendeu debaixo do braço e conseguiu sair.

— O que ele falou?

— Que você ia hoje. E que eu podia esperar, se quisesse conhecer o espaço. Mas eu tava com pressa.

— Só isso?

Joana largou o pedaço de pão de queijo no prato.

— Clara, se tem algum problema, fala.

Clara pensou em mandar uma mensagem a Davi, perguntar como tinha sido a visita. Mas Joana estava sentada na frente dela, esperando uma resposta.

Ela baixou os olhos para o telefone sem pegá-lo.

— Desculpa. Você me pegou de surpresa.

— Percebi.

— Não tem problema você ter ido.

Joana relaxou um pouco na cadeira.

— O lugar é bonito. Estranho, mas bonito. Eu não sabia que tinha alguma coisa ali atrás.

Clara procurou uma explicação que não obrigasse a inventar outra depois.

— É antigo.

— Quanto?

— Não sei dizer.

— Parecia uma vila.

— Com casas, mesmo — Joana continuou. — Eu achei que só tinha comércio naquele pedaço.

A garçonete se aproximou da mesa e recolheu as xícaras. Joana guardou o caderno e o estojo na bolsa. Clara se levantou com ela, ainda sem saber o que responder.

Clara guardou o pote de volta na bolsa enquanto Joana procurava o cartão. Só percebeu o que fizera quando já estava na fila do caixa.

Pagaram no balcão. Clara incluiu o pão de queijo na própria conta. Joana tentou lhe devolver metade por Pix; ela recusou. Ficaram discutindo até a garçonete chamar o próximo cliente.

Na calçada, Joana abriu a bolsa à procura dos óculos.

— Você vai pra onde?

Clara tinha uma hora e vinte minutos até a próxima aula.

— Me mostra?

A mão de Joana parou dentro da bolsa.

— A escola?

— É.

— Você não sabe onde trabalha?

— Quero ver por onde você foi.

Joana encontrou os óculos e os colocou.

— Tá.

Andaram em silêncio até a esquina.

Clara conhecia aquele caminho. Passava por ali pelo menos três vezes por semana, às vezes com uma sacola de mercado, às vezes conferindo mensagens dos alunos. Já fizera o percurso chorando, com fome, atrasada. Uma vez voltara quase uma quadra porque esquecera se tinha trancado a sala.

Quando criança, precisava andar ao lado de alguém. A mãe corrigia seu trajeto com uma mão nas costas, um toque no ombro. Ela nunca soubera explicar exatamente quando deixara de precisar daquilo.

Agora observava os pés de Joana.

A amiga parou antes da faixa para deixar um carro passar. Atravessou. Desviou de um pedaço de calçada solto.

Clara quase perguntou onde ela estava olhando.

— Foi aqui — Joana disse.

A loja de molduras tinha fechado mais cedo. Atrás da grade, dois quadros apoiados no chão exibiam fotografias da mesma ponte, um de dia, outro à noite.

Entre a loja e o prédio seguinte havia uma passagem de serviço. Um ar-condicionado pingava perto do ralo. Mais adiante, à esquerda, ficavam os fundos de um restaurante.

Joana entrou.

Clara a acompanhou, sentindo a alça da bolsa escorregar pelo ombro.

No fim da passagem, era possível seguir à direita e sair no estacionamento. À esquerda, havia uma parede com manchas de infiltração, um extintor e uma caixa de gordura rente ao chão.

Joana parou diante da parede.

Durante um segundo, Clara sentiu um alívio tão grande que precisou conter a vontade de rir.

Então Joana deu mais um passo.

A alça da bolsa bateu numa grade que, vista do começo da passagem, não estava ali.

— Cuidado — Clara disse.

Joana se virou.

— Com o quê?

Ela havia tocado a grade com a mão para firmar o corpo. Conservava a palma apoiada no ferro.

Clara passou por ela e segurou a outra folha do portão.

Do lado de dentro, uma mulher vinha descendo a rua com dois meninos uniformizados. Um deles segurava um saco de papel contra o peito. Havia cheiro de cebola frita e asfalto molhado, embora não chovesse desde a manhã.

— Era aqui mesmo — Joana disse, aliviada. — Achei que a gente tivesse passado.

Clara examinou a passagem atrás delas. O estacionamento continuava visível. Um entregador desmontava da bicicleta perto do restaurante.

— Você veio sozinha ontem?

— Vim.

— Ninguém te mostrou?

— Não.

A mulher e os meninos se aproximaram do portão. Clara reconheceu a mãe de uma antiga aluna e abaixou a cabeça para procurar alguma coisa na bolsa.

— Boa tarde, professora.

— Boa tarde.

Joana se afastou para dar passagem aos três.

O menino com o saco de papel espiou lá dentro.

— Ela tá comendo.

— Fecha direito — disse a mãe.

Clara manteve o corpo entre ele e Joana até a família sair. O saco se mexeu duas vezes.

Quando se virou, a amiga já estava alguns passos adiante.

A rua era curta. Uma caminhonete ocupava metade da calçada em frente a uma assistência técnica, e alguém havia posto uma cadeira plástica na vaga seguinte para impedir que estacionassem. Um homem discutia com o motorista, apontando para a cadeira.

As casas mais antigas tinham telhados baixos. Nos fundos de uma delas, subia um prédio de três andares com roupas penduradas nas janelas. Sobre o muro, um letreiro anunciava conserto de objetos encantados.

Clara segurou o braço de Joana antes que ela olhasse para cima.

— Espera.

A amiga parou imediatamente.

Clara soltou-a.

— Desculpa.

O motorista entrou na caminhonete e bateu a porta. A cadeira permaneceu na rua.

— Eu preciso te explicar uma coisa.

Joana olhou ao redor. A poucos metros, duas mulheres examinavam uma panela exposta na porta de uma loja. Uma criança passou correndo por elas com uma mochila aberta.

— O quê?

Clara puxou a bolsa de volta para o ombro. Do outro lado da rua, uma mulher batia um tapete na janela. Perto delas, o homem da assistência técnica ainda gesticulava para o motorista.

Ela se aproximou um pouco da amiga.

— Ontem, quando você entrou... Você achou alguma coisa diferente?

Joana tirou os óculos.

— Achei uma rua no meio de uma parede, Clara.

O homem da assistência técnica interrompeu a discussão com o motorista e olhou para elas.

Clara baixou a voz.

— Eu sei.

— Você perguntou.

— Eu sei. Desculpa.

Joana limpou uma das lentes com a barra da blusa. Tornou a colocar os óculos, demorando para encaixar a haste atrás da orelha.

— Eu tinha entendido que era uma passagem. Dessas que a gente não percebe da rua. Só fui pensar nisso depois.

— Quando?

— Em casa.

Clara esperou.

— Tentei explicar pra minha irmã onde era. Ela conhece a loja de molduras. Disse que não tinha nada do lado. Eu fui procurar no mapa e também não achei.

O homem ainda olhava. Clara puxou Joana para perto de uma vitrine.

— O mapa não mostra.

Joana ficou muito quieta.

Na vitrine, entre caixas de tamanhos diferentes, uma etiqueta escrita à mão informava que não se aceitavam devoluções de objetos que já tivessem aprendido o nome do comprador.

Clara se deslocou para encobri-la.

Joana acompanhou o movimento.

— Por que você tá fazendo isso?

— Isso o quê?

— Ficando na frente das coisas.

Clara deu um passo para o lado.

A amiga leu a etiqueta. Franziu a testa e olhou para o restante da vitrine.

— É brincadeira?

Uma das caixas bateu a tampa.

Joana recuou. A bolsa esbarrou no vidro.

Clara estendeu a mão, mas ela se afastou antes que pudesse tocá-la.

— O que é isso?

Um vendedor apareceu na porta, enxugando os dedos num pano.

— Posso ajudar?

— A gente só tá olhando — Clara respondeu.

Ele olhou para Joana. Depois para o portão, ao fundo.

Clara conhecia aquela expressão. Já a vira em professores, em funcionários de estação, uma vez num primo quando a chaleira flutuara até a mesa na frente de uma visita.

— A gente já vai — disse.

O homem não insistiu. Continuou na porta.

Clara esperou Joana se aproximar por vontade própria.

— Vamos conversar em outro lugar.

— Que lugar?

— Onde você quiser.

— Aqui você não pode?

Ela olhou para o vendedor.

Joana também.

— Certo — disse a amiga.

Voltaram pelo mesmo caminho. Clara diminuiu o passo perto da assistência técnica e deixou Joana caminhar ao seu lado. A amiga mantinha os braços junto ao corpo, a bolsa apertada sob o cotovelo.

No portão, parou e olhou para trás.

Dali era possível ver a placa verde da escola, sobre uma porta aberta. No andar de cima, alguém recolhia um lençol do varal.

— Essa rua sempre esteve aqui?

Clara assentiu.

— E você sempre soube?

— Soube.

Joana respirou fundo.

— Eu já te deixei naquela esquina. Várias vezes.

— Eu lembro.

A amiga olhou para a passagem por onde tinham chegado.

— Por que eu nunca vi?

Clara soltou o portão. A dobradiça rangeu.

Pela primeira vez desde o café, não tentou preparar uma resposta antes de abrir a boca.

— Eu não sei por que você conseguiu ver ontem.

Joana virou-se devagar.

— Não foi isso que eu perguntei.