O aluno escreveu “estou morrendo de saudade” e, antes que Clara pudesse comentar, acrescentou:
— Mas eu não estou morrendo.
— Eu sei.
— É uma expressão?
— É.
Ele olhou outra vez para a frase.
— Tem que ser de uma pessoa?
— Não. Pode ser de um lugar também.
Ele olhou para a linha seguinte.
— E de uma comida?
Clara apoiou a caneta no caderno.
— De uma comida também.
— Então deixo a do pão?
— Deixa a do pão.
Quando a aula terminou, ela tinha anotado quatro expressões para retomar no encontro seguinte, prometido explicar melhor a diferença entre saudade e nostalgia e procurar um texto que não fosse sobre carnaval, futebol ou a dificuldade dos brasileiros com horários. O aluno já morava no país havia oito meses. Chegara pontualmente a todas as aulas.
Joana mandara três mensagens.
Já tô aqui.
Pedi pra você.
Se esfriar a culpa é sua.
Clara guardou o caderno na bolsa, conferiu a sala e puxou a porta. Tornou a abri-la para pegar o celular em cima da mesa.
No corredor, uma mulher tentava convencer um vaso a sair da frente do elevador.
— Ele fica melhor perto da janela — Clara disse.
— Eu sei. Ele também.
O vaso arrastou-se mais alguns centímetros.
Clara passou de lado.
O café ficava numa comercial da Asa Norte, entre uma papelaria e uma loja de conserto de celulares. Joana escolhera a mesa perto da tomada, embora não tivesse trazido o computador. Havia espalhado sobre ela um caderno, um estojo aberto e dois cardápios.
— A tomada é pra minha bolsa — explicou, tirando-a da cadeira.
Clara se sentou.
— Faz sentido.
O café estava morno. Ela bebeu mesmo assim.
Joana virou o celular para mostrar uma mensagem.
— Lembra da mulher que queria aula pro marido?
— A que queria assistir também?
— Essa. Ela perguntou se eu faço desconto porque ele fala italiano.
— E você disse o quê?
— Ainda nada. Tô tentando pensar numa resposta que não seja “meus parabéns”.
Clara riu com a xícara perto da boca e precisou buscar um guardanapo.
Fazia quase três semanas que elas tentavam marcar aquele café. Tinham trocado o dia duas vezes, o horário três, e por pouco não acabavam conversando por áudio enquanto cada uma lavava a própria louça. Joana trouxera um livro para emprestar. Clara trouxera o mesmo pote que precisava devolver desde agosto.
— Tá limpo — avisou, colocando-o na mesa.
— Eu espero que sim.
— Falei porque tá aqui dentro faz uma semana.
Joana abriu a tampa. Havia duas canetas lá dentro.
— Posso ficar com essas?
Clara pegou as canetas.
Conversaram sobre um arquivo de atividades que as duas tinham comprado. Nenhuma examinara o material inteiro. Joana mostrara um exercício a um aluno antes de perceber que o gabarito estava errado. Clara havia feito a correção a lápis na cópia que imprimira.
— Você podia ter me avisado.
— Eu te avisei.
— Quando?
— Mandei foto.
Joana procurou no celular. Encontrou a foto entre a indicação de um filme e uma mensagem de onze minutos que ainda não ouvira.
— Ah.
— Pois é.
A garçonete trouxe um pão de queijo e perguntou se queriam mais alguma coisa. Joana pediu água. Clara consultou as horas.
— Tem aula?
— Só às seis.
— Lá naquela escola?
Clara levantou os olhos.
— Que escola?
— Onde você dá aula. Passei lá ontem.
Ela ainda segurava o celular. A tela apagou antes que encontrasse alguma coisa para fazer com ele.
— Onde?
Joana apontou com o queixo na direção da rua.
— Aqui perto. Indo pro outro lado.
— Eu dou aula em vários lugares.
— Sim, Clara. Por isso eu tô especificando.
Ela partiu o pão de queijo e ofereceu metade. Clara recusou.
— A entrada do lado de uma loja de molduras. Tem uma placa verde, meio pra dentro. Não lembro o nome.
Na mesa ao lado, um homem afastou a cadeira para deixar um carrinho de bebê passar. A roda bateu no pé de Clara.
Ela recolheu a perna.
— Eu acho que você confundiu.
— Tem seu nome na recepção.
Clara pousou o celular ao lado da xícara.
Joana continuou comendo. Havia um farelo grudado no batom, perto do canto da boca.
— Como assim, na recepção?
— Num quadro. Os professores, as salas. Você tava na quatro.
Era a sala onde ela acabara de dar aula.
— Você entrou?
Joana parou de mastigar.
— Entrei.
Clara percebeu a própria mão fechada sobre a borda da mesa e soltou-a.
— Por quê?
— Porque eu achei que você trabalhava lá.
A resposta veio sem irritação. Isso piorou um pouco as coisas.
— Eu trabalho. Às vezes. Só que...
— Foi ruim eu ter ido?
— Não.
— Porque eu não cheguei interrompendo aula, não. Perguntei se você tava e o rapaz disse que só ia hoje.
Clara tomou o resto do café. Estava frio.
— Que rapaz?
— O da recepção.
— Como ele era?
Joana inclinou a cabeça.
— Você tá bem?
— Tô. Só quero saber quem te atendeu.
— Magro. Cabelo comprido, preso. Uns quarenta anos? Tava com uma camisa azul.
Davi.
Clara olhou pela vidraça do café. Na papelaria ao lado, uma mulher segurava a porta com o pé enquanto o filho tentava passar com um rolo de cartolina. Ele o prendeu debaixo do braço e conseguiu sair.
— O que ele falou?
— Que você ia hoje. E que eu podia esperar, se quisesse conhecer o espaço. Mas eu tava com pressa.
— Só isso?
Joana largou o pedaço de pão de queijo no prato.
— Clara, se tem algum problema, fala.
Clara pensou em mandar uma mensagem a Davi, perguntar como tinha sido a visita. Mas Joana estava sentada na frente dela, esperando uma resposta.
Ela baixou os olhos para o telefone sem pegá-lo.
— Desculpa. Você me pegou de surpresa.
— Percebi.
— Não tem problema você ter ido.
Joana relaxou um pouco na cadeira.
— O lugar é bonito. Estranho, mas bonito. Eu não sabia que tinha alguma coisa ali atrás.
Clara procurou uma explicação que não obrigasse a inventar outra depois.
— É antigo.
— Quanto?
— Não sei dizer.
— Parecia uma vila.
— Com casas, mesmo — Joana continuou. — Eu achei que só tinha comércio naquele pedaço.
A garçonete se aproximou da mesa e recolheu as xícaras. Joana guardou o caderno e o estojo na bolsa. Clara se levantou com ela, ainda sem saber o que responder.
Clara guardou o pote de volta na bolsa enquanto Joana procurava o cartão. Só percebeu o que fizera quando já estava na fila do caixa.
Pagaram no balcão. Clara incluiu o pão de queijo na própria conta. Joana tentou lhe devolver metade por Pix; ela recusou. Ficaram discutindo até a garçonete chamar o próximo cliente.
Na calçada, Joana abriu a bolsa à procura dos óculos.
— Você vai pra onde?
Clara tinha uma hora e vinte minutos até a próxima aula.
— Me mostra?
A mão de Joana parou dentro da bolsa.
— A escola?
— É.
— Você não sabe onde trabalha?
— Quero ver por onde você foi.
Joana encontrou os óculos e os colocou.
— Tá.
Andaram em silêncio até a esquina.
Clara conhecia aquele caminho. Passava por ali pelo menos três vezes por semana, às vezes com uma sacola de mercado, às vezes conferindo mensagens dos alunos. Já fizera o percurso chorando, com fome, atrasada. Uma vez voltara quase uma quadra porque esquecera se tinha trancado a sala.
Quando criança, precisava andar ao lado de alguém. A mãe corrigia seu trajeto com uma mão nas costas, um toque no ombro. Ela nunca soubera explicar exatamente quando deixara de precisar daquilo.
Agora observava os pés de Joana.
A amiga parou antes da faixa para deixar um carro passar. Atravessou. Desviou de um pedaço de calçada solto.
Clara quase perguntou onde ela estava olhando.
— Foi aqui — Joana disse.
A loja de molduras tinha fechado mais cedo. Atrás da grade, dois quadros apoiados no chão exibiam fotografias da mesma ponte, um de dia, outro à noite.
Entre a loja e o prédio seguinte havia uma passagem de serviço. Um ar-condicionado pingava perto do ralo. Mais adiante, à esquerda, ficavam os fundos de um restaurante.
Joana entrou.
Clara a acompanhou, sentindo a alça da bolsa escorregar pelo ombro.
No fim da passagem, era possível seguir à direita e sair no estacionamento. À esquerda, havia uma parede com manchas de infiltração, um extintor e uma caixa de gordura rente ao chão.
Joana parou diante da parede.
Durante um segundo, Clara sentiu um alívio tão grande que precisou conter a vontade de rir.
Então Joana deu mais um passo.
A alça da bolsa bateu numa grade que, vista do começo da passagem, não estava ali.
— Cuidado — Clara disse.
Joana se virou.
— Com o quê?
Ela havia tocado a grade com a mão para firmar o corpo. Conservava a palma apoiada no ferro.
Clara passou por ela e segurou a outra folha do portão.
Do lado de dentro, uma mulher vinha descendo a rua com dois meninos uniformizados. Um deles segurava um saco de papel contra o peito. Havia cheiro de cebola frita e asfalto molhado, embora não chovesse desde a manhã.
— Era aqui mesmo — Joana disse, aliviada. — Achei que a gente tivesse passado.
Clara examinou a passagem atrás delas. O estacionamento continuava visível. Um entregador desmontava da bicicleta perto do restaurante.
— Você veio sozinha ontem?
— Vim.
— Ninguém te mostrou?
— Não.
A mulher e os meninos se aproximaram do portão. Clara reconheceu a mãe de uma antiga aluna e abaixou a cabeça para procurar alguma coisa na bolsa.
— Boa tarde, professora.
— Boa tarde.
Joana se afastou para dar passagem aos três.
O menino com o saco de papel espiou lá dentro.
— Ela tá comendo.
— Fecha direito — disse a mãe.
Clara manteve o corpo entre ele e Joana até a família sair. O saco se mexeu duas vezes.
Quando se virou, a amiga já estava alguns passos adiante.
A rua era curta. Uma caminhonete ocupava metade da calçada em frente a uma assistência técnica, e alguém havia posto uma cadeira plástica na vaga seguinte para impedir que estacionassem. Um homem discutia com o motorista, apontando para a cadeira.
As casas mais antigas tinham telhados baixos. Nos fundos de uma delas, subia um prédio de três andares com roupas penduradas nas janelas. Sobre o muro, um letreiro anunciava conserto de objetos encantados.
Clara segurou o braço de Joana antes que ela olhasse para cima.
— Espera.
A amiga parou imediatamente.
Clara soltou-a.
— Desculpa.
O motorista entrou na caminhonete e bateu a porta. A cadeira permaneceu na rua.
— Eu preciso te explicar uma coisa.
Joana olhou ao redor. A poucos metros, duas mulheres examinavam uma panela exposta na porta de uma loja. Uma criança passou correndo por elas com uma mochila aberta.
— O quê?
Clara puxou a bolsa de volta para o ombro. Do outro lado da rua, uma mulher batia um tapete na janela. Perto delas, o homem da assistência técnica ainda gesticulava para o motorista.
Ela se aproximou um pouco da amiga.
— Ontem, quando você entrou... Você achou alguma coisa diferente?
Joana tirou os óculos.
— Achei uma rua no meio de uma parede, Clara.
O homem da assistência técnica interrompeu a discussão com o motorista e olhou para elas.
Clara baixou a voz.
— Eu sei.
— Você perguntou.
— Eu sei. Desculpa.
Joana limpou uma das lentes com a barra da blusa. Tornou a colocar os óculos, demorando para encaixar a haste atrás da orelha.
— Eu tinha entendido que era uma passagem. Dessas que a gente não percebe da rua. Só fui pensar nisso depois.
— Quando?
— Em casa.
Clara esperou.
— Tentei explicar pra minha irmã onde era. Ela conhece a loja de molduras. Disse que não tinha nada do lado. Eu fui procurar no mapa e também não achei.
O homem ainda olhava. Clara puxou Joana para perto de uma vitrine.
— O mapa não mostra.
Joana ficou muito quieta.
Na vitrine, entre caixas de tamanhos diferentes, uma etiqueta escrita à mão informava que não se aceitavam devoluções de objetos que já tivessem aprendido o nome do comprador.
Clara se deslocou para encobri-la.
Joana acompanhou o movimento.
— Por que você tá fazendo isso?
— Isso o quê?
— Ficando na frente das coisas.
Clara deu um passo para o lado.
A amiga leu a etiqueta. Franziu a testa e olhou para o restante da vitrine.
— É brincadeira?
Uma das caixas bateu a tampa.
Joana recuou. A bolsa esbarrou no vidro.
Clara estendeu a mão, mas ela se afastou antes que pudesse tocá-la.
— O que é isso?
Um vendedor apareceu na porta, enxugando os dedos num pano.
— Posso ajudar?
— A gente só tá olhando — Clara respondeu.
Ele olhou para Joana. Depois para o portão, ao fundo.
Clara conhecia aquela expressão. Já a vira em professores, em funcionários de estação, uma vez num primo quando a chaleira flutuara até a mesa na frente de uma visita.
— A gente já vai — disse.
O homem não insistiu. Continuou na porta.
Clara esperou Joana se aproximar por vontade própria.
— Vamos conversar em outro lugar.
— Que lugar?
— Onde você quiser.
— Aqui você não pode?
Ela olhou para o vendedor.
Joana também.
— Certo — disse a amiga.
Voltaram pelo mesmo caminho. Clara diminuiu o passo perto da assistência técnica e deixou Joana caminhar ao seu lado. A amiga mantinha os braços junto ao corpo, a bolsa apertada sob o cotovelo.
No portão, parou e olhou para trás.
Dali era possível ver a placa verde da escola, sobre uma porta aberta. No andar de cima, alguém recolhia um lençol do varal.
— Essa rua sempre esteve aqui?
Clara assentiu.
— E você sempre soube?
— Soube.
Joana respirou fundo.
— Eu já te deixei naquela esquina. Várias vezes.
— Eu lembro.
A amiga olhou para a passagem por onde tinham chegado.
— Por que eu nunca vi?
Clara soltou o portão. A dobradiça rangeu.
Pela primeira vez desde o café, não tentou preparar uma resposta antes de abrir a boca.
— Eu não sei por que você conseguiu ver ontem.
Joana virou-se devagar.
— Não foi isso que eu perguntei.



